quarta-feira, dezembro 28, 2011

custos-benefícios em trás-os-montes

Parece que o custo-benefício do helicóptero do INEM que opera em Trás-os-Montes não justifica a sua utilização. Parece também que os aparelhos plantados nos heliportos em Lisboa e Porto darão para cobrir as parcas urgências da região transmontana. Parece que o helicóptero de Macedo de Cavaleiros passa 90% das noites sem utilização. Tristemente, parece que os seres humanos que representam os restantes 10% são uma espécie de vítimas destes hodiernos cavaleiros do apocalipse. Enquanto isso, parece que os autarcas da região, que tanto espernearam para a construção desse tão glorioso desígnio regional que é a poética autoestrada da justiça, andam mudos e quedos perante este ostracismo que o centralismo de Lisboa, mais uma vez, desenhou, esquecendo-se, definitivamente, que são eleitos com o mui nobre intuito de representar os cidadãos.
Não vale tudo, em nome de uns trocados.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

o caminho mais fácil

Dirão os crentes que é o mercado a funcionar. Na verdade, o mercado funciona. O Estado português controlava vinte e tal por cento de uma das maiores empresas nacionais, a qual tem uma importância fundamental para a vida das pessoas e empresas nacionais. Para além disso, a EDP tem vindo, ano após ano, fruto de uma vigência de quase monopólio, a acumular extraordinários lucros. Em nome do curto prazo (tal como se passou com o fundo de pensões da banca), o Estado resolveu desobrigar-se dessa importante quota-parte da empresa. Por conseguinte, essa fração que o Estado português controlava transfere-se para o Estado chinês (a empresa é de capitais públicos chineses). Deste modo, os lucros que antigamente caíam nos cofres da parte estatal portuguesa da empresa, deslocam-se, agora, para a parte estatal chinesa. Ou isto revela uma assunção da nossa incapacidade de gerir a nossa própria riqueza, ou então somos uns verdadeiros totós.

terça-feira, dezembro 20, 2011

a emigração

Não creio que haja, na história recente das nações, governantes que incitaram os seus cidadãos a emigrar. Como disse Manuel Alegre, nem Salazar, no seu quintalejo governativo, se lembrou de tal. Nem precisava, aliás. O povo, principalmente o povo rural, debandou para além fronteiras. Passos Coelho terá, porventura razão antes do tempo: os quadros deste país - este país é para velhos!... - iniciaram já uma amargurada caminhada profissional. Voltarão, muitos deles, envelhecidos, para gozar as tardes soalheiras deste Portugal à beira mar plantado.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

alegria no parlamento

Por causa de um vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Socialista, de seu nome Pedro Nuno Santos, que num jantar convívio, em Castelo de Paiva, se entusiasmou e desatou a marimbar-se para os alemães e para a dívida, hoje o Parlamento viveu uma esplendorosa tarde. Saliento somente a gracinha que um deputado da maioria - Nuno Encarnação é o seu nome - entendeu cabal e legitimamente edificar tendo como referente Basílio Horta: "O deputado Basílio Horta do CDS-PP, perdão, do Partido Socialista..." A gargalhada, ímpia, foi geral nas duas bancadas que suportam a coligação governativa. Basílio horta não esteve com meias medidas e chamou-lhe ordinário, epíteto que, aliás, pela amostragem do indivíduo, lhe assentou muito bem.

plafonamento para as pensões mais altas

O tempo da reforma não é, seguramente, um tempo para enriquecer, tendo em conta, obviamente, a exclusividade de uma remuneração mensal. Daí que não compreenda a obscenidade de muitas reformas públicas. O ministro da solidariedade, Pedro Mota Soares, fez hoje jus ao cargo que ocupa ao defender que o limite de três salários mínimos para as pensões mais altas é um valor demasiado baixo. Terá, decerto, construído o seu raciocínio baseado nalguma premissa. No entanto, não posso deixar de anotar que nunca o vi tão empenhado em demarcar-se de plafonamentos reduzidos. E que "las hay, las hay".

terça-feira, dezembro 13, 2011

cinismo político

Não sei se é baixa política ou política, simplesmente. O que me parece é que existe, na estratégia comunicacional do ministério da educação, uma dose determinada de cinismo político. Para além disso, esta gente, finória, sabe muito bem com quem se mete. A estatégia foi clara desde o início. O inculcar em mentes desprevenidas, a par com uma sistemática peleja sindical proporcionalmente inábil no que aos mais fracos diz respeito, de vaporizações tonitruantes de que ninguém estaria a salvo nos cortes da educação, fossem professores do quadro ou professores contratados os visados, resultou, agora, num suspirar aliviado por parte dos primeiros. A resposta lacónica do secretário de estado da educação a uma pergunta da jornalista, a qual remetia o governante para a situação dos milhares de professores contratados, foi elucidativa: posso assegurar que os professores do quadro não serão afetados. E pronto! Numa assentada, o ministério calou toda a gente. Os sindicatos, que tradicional e primeiramente defendem os seus correligionários vinculados, os professores, já sem voz para o que que quer que seja e a opinião pública (publicada ou não), que simplesmete acha muito bem. Mais uma reforma educativa.

terça-feira, dezembro 06, 2011

portugal desigual

Ouço na televisão sobre os resultados de mais um estudo da OCDE, o qual aponta Portugal como o país mais desigual da União Europeia, onde o rendimento dos mais ricos é seis vezes superior ao rendimento dos mais pobres. Perante isto, aconselha a continuação das medidas sociais na saúde e na educação. Não me parece que nenhum país conseguirá progredir civilizacionalmente com o desenho social e humano que Portugal apresenta. Este é, de facto, a origem das nossas incapacidades para resolver os nossos ingénitos atrasos. E este também é, infelizmente, o que nos diferencia dos outros. O pior é que estas alvitantes assimetrias não são resolvidas por qualquer troika.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

a entrevista de coelho

José Gomes Ferreira lastimou a falta de tempo, esse inimigo das televisões, que depressa voou, não lhe permitindo a apresentação de mais questões ao primeiro-ministro. Por mim, a entrevista, cheia de plumbosos recortes técnicos, seria suficientemente elucidativa se tivesse havido resposta a uma simples e lapidar pergunta: o que fazer com os milhares de Anas Isabéis que verão as suas vidas irremediavelmente perdidas?

terça-feira, novembro 29, 2011

os feriados e a sua abolição

Mário Soares já veio dizer que o 5 de outubro é tão sagrado como o 25 de abril. Pelo contrário, o desaparecimento do primeiro dia de dezembro já não merece o compungimento do antigo presidente da república. Eu concordo e não concordo com ele.
A história, do ponto de vista diacrónico, faz-se de acontecimentos que marcaram a vida dos povos. Neste sentido, o dia que assinala a restauração da nossa independência detém uma forte marca identitária enquanto nação. Aboli-lo é, no fundo, demarcarmo-nos de um passado monárquico que também nos orgulhou. Devemos notar que 90% deste quase milénio de história portuguesa foi sob égide real. E, convenhamos, não é todos os dias que os povos negam forças tão poderosas como a grande Espanha de seiscentos. Os nuestros hermanos galegos e catalães, por exemplo, que o digam. Quanto ao 5 de outubro, parece-me no mínimo irrisório que um regime republicano "delete" a memória vivida da revolta republicana, na qual assenta o presente das nossas vidas. Do ponto de vista histórico, o 5 de outubro é um precussor do 25 de abril. Até pelos desencontros que se lhes seguiram. E ninguém ousou propor o aniquilamento deste último.

adenda: não gostei da posição da igreja católica quando afirmou, a respeito deste tema, que aboliria dois feriados se a república abolisse outros dois.

adenda 2: obviamente que este tipo de decisões valem absolutamente nada do ponto de vista de aumento de produtividade de um país. Vale tanto como as "desgravatas" de Assunção Cristas. É que nem todos podem apanhar um avião para um fim de semana na neve ou na praia. Agora até os feriados nos tiram. Somo uns mandriões.

os telefonemas de seguro

António José Seguro não podia deixar de falar dos comoventes telefonemas que recebeu de pensionistas que, graças aos seus quase colossais esforços, passaram a ser alvo de uma positiva discriminação no que aos descontos para os próximos anos diz respeito. Do mesmo modo, fez questão de alertar que não se deixou reger pelas vozes esquerdizantes do seu partido ou, no seu ponto de vista conspirativo, pelos sempre aliciantes corredores da política socialista, os quais defendiam um objetivo chumbo a este orçamento de estado. Tudo porque ele está na política para que os portugueses façam menos sacrifícios. Aliás, Seguro faz questão de salientar que "eu lutei durante um mês" pela anulação de um subsídio. Tudo em nome, é claro, dos portugueses agora (des)sacrificados. A política é também um jogo de autoafirmação. Não deveria sê-lo, mas, infelizmente, é.
Tudo isto abrange também um delicioso pormenor: as alterações foram feitas porque Passos Coelho também pensa na política nos mesmos moldes de Seguro. Ou então não teria aceitado as alterações ao seu esforçado orçamento de estado.

segunda-feira, novembro 28, 2011

o fado de santana lopes

Estamos decerto todos muito felizes com a candidatura ganhadora do fado a património imaterial da humanidade. Tenho ouvido nas rádios muito fado e muita Amália. Ainda bem. Amália foi uma vedeta internacional. Talvez a única que o nosso espaço musical fabricou. Por conseguinte, este galardão deve muito à fadista.
Todavia, em Portugal a pequenhez é, desde há muito, idiossincrática, quase dramaticamente patológica. Daí que ela ande por aí à procura de heróis vivos. Outros, porém, abrem as portas do seu espaço blogueiro e escrevem estas autênticas pérolas:

"Carlos do Carmo afirmou à Lusa que a candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade é «bastante relevante» para o futuro deste género musical.
O fadista foi escolhido pelo ex-presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, para ser o embaixador da candidatura, ao lado de Mariza. Os dois intérpretes atuaram juntos em várias ocasiões, nomeadamente em Madrid e Paris, e integraram o elenco do filme «Fados», de Carlos Saura.
Questionado pela Lusa se quando começou a cantar, há 48 anos, alguma vez pensou que o Fado pudesse chegar a este reconhecimento internacional, respondeu: «Não, nunca pensei. É um sonho lindo".

Perceberam? Carlos do Carmo? Mariza?... Fado?!... Ah!, pois... o blogue intitula-se Pedro Santana Lopes e o autor é... Pedro Santana Lopes.

terça-feira, novembro 22, 2011

um exemplo de jornalismo

Serviço público ou não, o jornalismo de reportagem direta em telejornais reduzem-se a um lastimável voyeurismo. Há pouco vi um direto no qual a jornalista da RTP disse mais ou menos isto, que eu, abusivamente, coloco entre aspas: "Vítor Raposo continua a ser ouvido pelo juiz. À sua espera encontra-se somente o irmão".
E o irmão, de facto, lá estava, puxando uma passa no seu impaciente cigarro. Como eu sei isso? Porque o operador de câmara fez-me o favor de o filmar.

segunda-feira, novembro 21, 2011

o facebook de passos coelho

Desde agosto que o primeiro-ministro não dava sinais no seu portal do faceboook. No entanto, considera ser "verdadeiramente importante conhecer as histórias e preocupações dos Portugueses reais, de modo a nunca [se] esquecer que as decisões difíceis que tom[a] medem-se não só em números e percentagens, mas em vidas e sacrifícios". Deste modo, sublinha que têm sido muitas "as de frustração ou desespero". Chega ao ponto de individualizar o post de Ana Isabel Albergaria, que escreveu a pedir ajuda, visto estar somente a tomar um banho por semana e a ser iluminada, nas suas noites, por apenas uma lâmpada.
Passos Coelho salienta ainda um outro testemunho - o de Richard Warrell, "filho de mãe portuguesa" - como exemplo dos "portugueses que acreditam", dos "homens e mulheres inspiradores que não baixam os braços". A mensagem deste último é um autêntico e insonso panegírico da ação governativa.
Não sei o que Passos Coelho pretende ao dar conhecimento público destes dois antagónicos depoimentos. Todavia, não deixa de direcionar um extraordinário cumprimento de esperança aos dois em particular, olhando também o país: "À Ana Isabel, ao Richard e a todos os que aqui escrevem diariamente peço que não deixem de acreditar".
Mas acreditar em quê? sr. primeiro-ministro? Será que leu bem os testemunhos no seu facebook?

quarta-feira, novembro 16, 2011

suspensão da democracia

Manuela Ferreira Leite deslumbrou, há meses, o espaço político nacional com a sua proposta de suspensão da democracia. Não entendi muito bem, nesse tempo, a fundamentação da proposta. Agora, com a democracia suspensa em alguns países, com a escolha, via diretório franco-alemão, de governos não eleitos, assentados em tecnocratas competentes, começo a assimilar o pensamento da ex-deputada.

segunda-feira, novembro 14, 2011

anedotário

Os ministros da economia costumam ser clientes assíduos do anedotário político nacional. Tivemos Manuel Pinho que um belo dia de debate parlamentar se lembrou, do alto da sua tribuna ministerial, de apontar uns cornos para o deputado Bernardino Soares e, antes dele, aquele que olhava para além Tejo e só conseguia vislumbrar um deserto. O Álvaro Santos Pereira ainda não havia, digamos, tido a honra de assinar tão relevante apologia. É certo que se pressentia: o homem não consegue definitivamente acertar com o fuso horário que norteia o país.
Hoje, em plena Comissão de Finanças e Trabalho, na audição parlamentar sobre Orçamento de Estado, afirmou, categoricamente (sem mesmo prescindir do assertivo advérbio "certamente") que "2012 será um ano determinante para Portugal e para a economia portuguesa [porque] certamente irá marcar o fim da crise e será o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014". Entusiasmado, adiantou: "que não exista qualquer dúvida: este caminho será mais rápido e mais frutuoso se formos capazes de reformar as áreas que representam hoje os verdadeiros obstáculos à modernização e que nos separam da performance económica dos nossos parceiros, nomeadamente europeus. Reformar é a palavra-chave para um caminho sustentado a longo prazo."
Não sei o que o ministro entende por fim da crise, mas declarar/decretar o fim da crise para 2012 é mais do que uma anedota, é quase um sacrilégio. É que todas as estimativas apontam para um crescimento colossal do desemprego. E só isso deveria ser suficiente para que nenhum responsável político da esfera do governo afirmasse tais disparates.

adenda: depois, como é hábito nos incautos, o ministro Álvaro reeditou a premissa, ao afiançar, à Santana Lopes, que, afinal, 2102 será o início do fim da crise. A tontaria continua.

domingo, novembro 13, 2011

os governos dos contabilistas

Chamam-lhes tecnocratas, mas mais parecem contabilistas. Temos em Portugal um ministro das finanças que não passa disso, embora, reconheça-se, cheio de competência técnica. Chefia o nosso governo um ministro que por acaso é o primeiro, embora este epíteto pareça cada vez mais artificializado à luz das diretivas internacionais delineadas no acordo das troikas, da externa e da interna. Acima disto tudo, paira, orgulhosa, a chanceler alemã e o não menos ufano Sarkozy. Os deveres de fidelidade são muitos e visíveis, ao ponto de não conseguir definir o papel político de Passos Coelho.
Aos poucos, o duopólio central arreia o seu contingente. Para além de Portugal, surgiu depois o novo tecno- grego seguido, quase de imediato, pelo seu congénere italiano. Estes, os italianos, rejubilaram de alegria. Encheram praças e dispuseram-se à frente da residência oficial do chefe do governo horas e horas notívagas. Lembrei-me das imagens de Mussolini pendurado de pernas para o ar, na praça Loreto, em Milão. Pela alegria, gostaram da troca ou - muito mais grave - desinteressaram-se do voto.
Sem política, a Europa não pode caminhar. Simplesmente porque ela é, fundamentalmente, um tratado político.

sexta-feira, novembro 11, 2011

os gestos de ronaldo e madaíl

São curiosas as afirmações de Gilberto Madaíl a respeito do gesto de Ronaldo (dedo médio em riste apontado para o público), quando afirma que compreende a reação do jogador. Depois diz que os jogadores estão habituados a este tipo de provocações (por parte do público, o qual assesta baterias, principalmente, para o jogador do Real Madrid, com o nome de Messi à cabeça) e que, além disso, já são crescidinhos.
Faz-me lembrar uma outra situação passada com João Pinto, quando agrediu um árbitro em pleno jogo do mundial. O agora comentador desportivo virou, num ápice, com esse desafio, uma espécie de herói nacional.
Tivemos, nas escolas (são jovens os que consomem este tipo de episódios - os jovens e os inenarráveis comentadores desportivos), a moda da cuspidela (via futebol, em grande parte, que o diga um outro exponencial ex-futebolista, de seu nome Sérgio Conceição). Pode ser que agora o dedinho apontado se cole, episodicamente, em algumas mentes engraçadas. O Madaíl, decerto, compreenderá.

quarta-feira, novembro 09, 2011

limitações salariais para os gestores públicos

É uma medida justa, concordante com os tempos que correm, a limitação salarial que os gestores de empresas públicas vão estar sujeitos. Essa limitação vai ter como teto retributivo o ordenado do primeiro-ministro. O que já me custa a entender são as exceções. Estas dizem respeito aos gestores que operem em empresas ligadas à atividade mercantil e em regime de concorrência de mercado. Continuamos, pois, no mito dos homens providenciais e, mais do que isto, na ordenança catalogada das impiedosas leis do mercado.

sexta-feira, novembro 04, 2011

o abstémio

Nós não somos os gregos, está-se mesmo a ver. Ainda bem, dirão uns, ainda mal, outros. Nós não pertencemos, portanto, àquela zona de confusão sistémica grega. Temos assim dois partidos, muito limpinhos, muito bem comportadinhos, os quais, por obra e graça de nosso senhor e também dos portugueses, se revezam, sofregamente, no poder do Estado. Os dois partidos são mentirosos. É, na verdade, uma das muitas caraterísticas siamesas que os aglomera. Invariavelmente, ganham eleições mentindo aos portugueses. Nesta propósito, Passos Coelho ocupa um lugar invejável no ranking dos primeiros-ministros que faltaram ao prometido. Há sempre a desculpa, oportuna, do desconhecimento das contas herdadas pelo anterior executivo. É esta, no fundo, a base da teoria barrosista do Portugal está de tanga. Neste momento de tormenta, cabe ao PSD governar o país. O PS, por conseguinte, lidera a oposição que outrora foi ocupada, nos mesmos moldes discursivos, pelo PSD. O PS de Seguro discorda profundamente do Orçamento de Estado para 2012 (curioso e obtuso ponto de reflexão de Aguiar Branco: este é um orçamento de estado do Partido Socialista). Vai mais longe do que a Troika; oprime os portugueses; é ultraliberal; é... é.... e é... O líder do PS, que gosta da pose institucional, debita especiais sound bites políticos: este não é o meu orçamento, mas é o meu país e não volto as costas a Portugal. Aplausos? Parece que existem por aí alguns, dentro do próprio PS e também no PSD.
Seguro é incapaz de entender que não tem de se abster quando não concorda, pública, frontal e explicitamente das diretrizes económicas e sociais preconizadas pelo Orçamento de Estado. Como partido corresponsável pela entrada do triunvirato (por onde andas, Portas?...) em território luso, esta abstenção é, sobretudo, um autoatestado de incompetência. Nós somos contra, mas abstemo-nos. Alguém entende esta gente, se excluirmos, como é óbvio, aqueles jogos e joguetes políticos costumeiros? Precisamente esses que têm deixado Portugal numa jangada de pedra?

quinta-feira, novembro 03, 2011

o referendo grego

Chegou a Grécia a um limite. O suposto referendo ao novo empréstimo monetário acrescido de mais um plano de austeridade não é mais do que um referendo à saída da Grécia da união monetária. Talvez seja com decisões deste tipo, assentes, portanto, na democracia, que a Europa pule e avance. Mesmo que isto implique uma aparente regressão. No fundo, o que falta à Europa são europeus, a voz do povo.

segunda-feira, outubro 31, 2011

pensão vitalícia, subsídios, políticos

Jorge Coelho renunciou, estoicamente, à pensão vitalícia a que tinha, por inelutável intermédio da letra de lei, direito. Sabemos que o Governo prepara uma diretiva no sentido de acabar com este tipo de benesses a ex-políticos que se encontrem a usufruir de uma acumulação no setor privado. Daí que a nobreza deste gesto de Coelho se encontre ao mesmo nível de uns outros seus compagnons de route, agora no governo, os quais recusaram - vejam só! - o subsídio de alojamento a que tinham direito, mesmo sendo possuidores de habitação própria na capital. Foi até com este tipo de fundamentação que Aguiar Branco superou esta onda de hipocrisia política ao renunciar a um dos subsídios de alojamento (o monetário).
A este propósito, convém desmistificar algo que os comentadores políticos teimam em engrandecer, que se cola a uma suposta verdade que é a de que os políticos, em Portugal, são mal pagos. Mal pagos em relação a quem? Quantos quadros superiores públicos recebem, por exemplo, 800 euros mensais de subsídio de alojamento? E não sei quanto para despesas de representação?
A meu ver, urge, efetivamente, em Portugal, uma reforma salarial. Só que a mesma não passa - não deve - pelo aumento da massa salarial dos políticos.

emigrar, diz o jovem secretário de estado

Ora aqui está um governante sem papas na língua. Chama-se Miguel Mestre e é secretário de estado da juventude e do desporto. O homem salienta então que, quem está no desemprego, deve procurar vida além fronteira, que é como quem diz, por aqui não há hipótese de se safarem. Ora, como ele parece estar "safo", pelo menos nos próximo quatro anos (vamos ver... vamos ver...) e, projetadamente, mesmo para além da legislatura (já se sabe que em Portugal, melhor do que ser ministro, é ser ex-ministro - que o digam os Coelhos e os Loureiros e outras espécimes dificilmente extinguíveis), não se vislumbra que Miguel Mestre oriente a sua vidinha na Alemanha ou na América latina. Provavelmente, até pode ser que nestas zonas haja quem necessite de secretários do desporto e da juventude.

quinta-feira, outubro 27, 2011

os 12 vencimentos

Para já, o corte dos subsídios de natal e férias tem um balizamento temporal de dois anos. Depois... bem... depois logo se vê... Com efeito, é este singelo raciocínio económico que tem sido plasmado, ora mais encobertamente, ora através de afortunados discursos diretos, pelos responsáveis governativos. E quando se fala em responsáveis governativos, aparece, à cabeça, Miguel Relvas, o verdadeiro superministro deste Governo. E Relvas referiu hoje que "muitos países só têm 12 vencimentos", e que só os países do sul - Portugal, Espanha e Itália - compartilham a loucura dos 14 soldos, precisamente, sublinha, manhosamente, o ministro, aqueles que se encontram em dificuldades económicas.
E pronto, Relvas, num abrir e fechar de olhos, estabeleceu uma relação de causa e efeito digna de um felicitado prémio, senão nobel, um outro qualquer. Ficamos, no entanto, sem saber se os 14 meses de ordenado serão distribuídos pelos 12 (se tal propósito se concretizar) ou, simplesmente, se 12 meses serão distribuídos por 12.

segunda-feira, outubro 24, 2011

a legalidade do subsídio de alojamento

Miguel Macedo e José Cesário foram céleres a abdicarem do subsídio de alojamento, o qual se encontra amparado através da letra difusa da lei. A questão é, no entanto, outra.
A primeira tem a ver com a cega difusão deste enquadramento legal. A meu ver, só deveria ter acesso ao subsídio quem provar que não possui alternativa habitacional. A segunda diz respeito à espantosa amplitude ética da classe política em geral e destes governantes, em particular. Ter casa própria em Lisboa e candidatar-se ao subsídio de alojamento?!...
Na minha humilde opinião, estas singulares e finórias personagens deveriam, simplesmente, pedir a demissão dos cargos republicanos que ocupam. E isso está também abrangido pela lei.

adenda1: a hipocrisia atingiu um alto nível com a abdicação do subsídio de alojamento, por solidariedade com os seus colegas, do ministro Aguiar Branco. Convém não esquecermos que o ministro da defesa possui, por inerência do cargo, hospedagem oficial, neste caso, o vistoso forte São João da Barra.

adenda2: Carlos Zorrinho disse agora na SIC Notícias que tem de se ver muito bem os casos dos subsídios a ex-deputados. Argumenta que doze anos na Assembleia da República são suscetíveis de originar um distanciamento da vida (social, laboral) que pode impedir, aos quarenta e tal anos (por exemplo), um normal reingresso na vida ativa. Só é pena que esta preocupação com os menos jovens não se estenda aos demais trabalhadores.

quinta-feira, outubro 20, 2011

hipocrisia ocidental

Não se pode imaginar algo mais hipócrita do que o que se passou hoje com as reações à morte de Kadhafi. Todos os líderes ocidentais, sem exceção, declararam, galhardamente, o fim de um tenebroso ciclo e o início de outro, mais reluzente. Todos se esqueceram que há cinco ou seis meses recebiam, ufanos, o ditador nos seus jardins citadinos. Nenhum deles apontou o dedo ao que se passou hoje, à luz dos bramidos ululantes de "Deus é grande", ao mesmo tempo que uma rajada de tiros punha fim à vida do escabroso ditador. Não há, de facto, líderes à altura da humanidade.

quarta-feira, outubro 19, 2011

cavaco e o orçamento

O Presidente da República tem de se definir acerca do orçamento de Estado para o próximo ano: ele está contra o corte dos subsídios (há limites que provavelmente já se atingiram, diz ele), ou quer que todos os trabalhadores do país (públicos e privados) sejam abrangidos pela proposta orçamental? Uma coisa parece que se inicia: a embriaguez da maioria começa já a fazer efeito naquelas mentes. A declaração de Nuno Melo, hoje, ao remeter o Presidente para o seu assentozito em Belém, é, cristalinamente, exemplo disso.

terça-feira, outubro 18, 2011

poupar mais e investir melhor

O título deste post não é da minha autoria. Carlos César, governador do Banco de Portugal, emprestou-mo sem, no entanto, saber. Peço-lhe, por isso, as minhas humildes e sinceras desculpas. De qualquer maneira, o que me arrasta para a aura do sucessor do extraordinário Constâncio é precisamente o conselho com que aquele hoje presenteou os portugueses, ao dirigir-lhes as seguintes e predicatórias palavras: "poupar mais, investir melhor, usar o crédito de forma mais responsável". Fico-me, evidentemente, pelas duas primeiras premissas. A quem é que o sr. Carlos Costa se dirigia? À classe média, presumo. A todos os portugueses, decerto. Acontece que o argumentário do governador do Banco de Portugal revela, sobretudo, a ambivalência mental dos nossos dirigentes públicos. Para eles, a existência salarial começa a partir, sei lá... dos cinco mil euros.

desativação das linhas ferroviárias

Com Cavaco iniciou-se o desmantelamento da rede ferroviária nacional, outrora um forte sinal de progresso e de coesão nacional. Tudo em nome do que agora o novo governo apelida de Plano Estratégico de Transportes. Só que de plano tem muito pouco, de estratégico, quase nada e de tranportes uma incógnita. O interior do país, como é fácil de ver, é o mais sacrificado. Nada de novo no reino, portanto. Só queria era saber uma pequeníssima coisa: e quando descobrirem que, afinal, o farol do desenvolvimento nacional, tendo em conta, sobretudo, a coesão do território, assenta também (sobretudo?) nos comboios? Será que esta gente pensa verdadeiramente o país?

segunda-feira, outubro 17, 2011

o desemprego no orçamento

A questão não é tanto os números de desempregados que o Orçamento de Estado para 2012, hoje apresentado, alcança para o próximo ano e ainda para o seguinte. Na verdade, os 13, 4% de desempregados são, simplesmente, um número. O que devemos perguntar a estes senhores é o seguinte: quem são estas centenas de milhares de desempregados? O que fazem? Qual a faixa etária na qual se inserem? Que qualificações têm? Quais as oportunidades que podem ainda agarrar? A estas perguntas, o pacato Gaspar engasga-se e remete-nos a todos para os seus manuais de contabilidade.

sexta-feira, outubro 14, 2011

previsões

Os tempos que correm são de díficil narrativa preditiva. Todavia, um dado podemos acertar, o qual se liga ao crescimento das desigualdades em Portugal. A democracia só é, de facto, louvável se for bem regulada. E o que estamos a assistir afasta-se incontornavelmente de uma regulação justa e racional. Veremos simplesmente os ricos continuarem (mais) ricos e os pobres imergirem numa cada vez mais insustentável (degradante) pobreza. A crise não é mais nada do que isto.

quinta-feira, outubro 13, 2011

a chantagem de passos coelho

A declaração de Passos Coelho ao país, em pleno horário nobre, prognosticando os cortes dos subsídios de natal e de férias a praticamente todos os funcionários públicos não foi mais do que uma telegénica chantagem política. Com efeito, tudo foi muito curto e pouco elástico. O PS, com estes pressupostos, só tem um caminho a seguir: chumbar o Orçamento de Estado para o próximo ano. adenda: Coelho propôs uma "grande" medida: o aumento da carga horária de trabalho em meia hora diária. E anda esta gente a estudar para político!...

segunda-feira, outubro 10, 2011

portugal e o interior

Ouvir um cidadão de Viseu falar que o interior deveria ser objeto de uma discriminação positiva por parte do poder central diz tudo sobre o país que temos. É, na verdade, com estes exemplos que verificamos a força que as palavras podem alcançar. Mobilizam, muitas vezes, outras vezes arrepiam, outras ainda suicidam. Viseu fica no meio de um país que tem pouco mais de duzentos quilómetros até à única fronteira terreste. Distancia-se, portanto, a 100 quilómetros do mar, a pouco mais de uma hora. Mas o mais desgraçado de tudo isto é que aquela voz viseense está cheia de razão.

a descoberta da manuela

Afinal, a economia, por vezes, tem de se vergar à política. Manuela Ferreira Leite disse, há horas, isto: o ideal seria prolongar por mais alguns anos o prazo contratual com a Troika. Há pessoas assim, pessoas que se defendem (e escondem) através do alto grau do seu padroeiro académico, pessoas que se autoinstitucionalizaram e que a sociedade, através de uma imprensa muitas vezes abúlica, acompanhou, panegiricamente, essa (auto)institucionalização. De repente, após crises e deceções, estudos e acompanhamentos troikanos, efetuam 500 passos atrás e defendem aquilo que uma consensual visão política desde sempre concebeu: não é possível e não é justo resolver os males económicos do país com receitas "exteriores" que colocam em causa, irremediavelmente, a vida das pessoas. Toda a gente sabe que é necessário reduzir a despesa, implementar sistemas de produção mais eficazes, combater a fraude fiscal (e a fraude mental, já agora), privatizar (com muito, muitíssimo cuidado), otimizar a educação, a saúde e a justiça. Mas também se torna evidente a necessidade de reduzir (acabar) as desigualdades territoriais e humanas (dos países da OCDE, só a Turquia e o México ficam atrás de Portugal, estando este em último lugar, neste indicador, no que concerne à União Europeia), regular a banca, impulsionar o mercado de trabalho e combater a precariedade laboral (mais uma vez, ocupamos os lugares cimeiros neste parâmetro). Mas tudo isto se faz de duas maneiras: à custa das pessoas, roubando-lhes a única vida que têm (a terrena, para quem não deseja conceber etéreos tons para lá da humanidade) ou à custa dum plano - político, se faz favor - que preveja, a médio/longo prazo, um efetivo arranjo do nosso tempo, do nosso espaço físico e mental. Caso contrário, resta-nos andarmos para aqui ao sabor destes senhores que mais não fazem do que abrir, incessante e perdidamente, os manuais de economia.

domingo, outubro 09, 2011

a retirada de césar e a tirada de seguro

Carlos César retira-se airosamente da política governativa dos Açores. Nada mais natural, ao fim de 16 anos de poder (e outros tantos de oposição). No fundo, a lição do seu homólogo da Madeira serviu-lhe para alguma coisa. Na verdade, Alberto João Jardim é e irá ser uma sombra do que outrora foi o seu traço apologético político. Estou propenso a crer que não se aguentará todo o mandato. Por outro lado, teremos, no Parlamento madeirense, o sr. Coelho, que, com toda a justiça do voto, alicerçou a sua sombra na ilha. Os madeirenses gostam, definitiva e desgraçadamente, destas personagens. Tiveram Jardim durante trinta e muitos anos e, pelos vistos, não se cansaram. Voltemos aos Açores. Seguro transmitiu que por ele, isto é, se Carlos César o ouvisse, aguentar-se-ia mais tempo ao comando das ilhas açorianas. Não se entende esta gente: num dia afirma que não é normal, em democracia, os candidatos prolongarem os seus mandatos durante uma vida ativa (e quem diz que não há empregos para a vida?!...); noutro, reafirma o seu desgosto por César não esticar a sua estadia no palácio do Governo Regional dos Açores. Mas estamos todos habituados a isto, não é verdade?

quarta-feira, outubro 05, 2011

reinventar a coisa

Em andanças comemorativas, há sempre frases mais ou menos tonitruantes, mais ou menos pesadas de sentido. Infelizmente, nem sempre aquelas têm uma direta correspondência com estas. O Presidente da República, no seu discurso dos 101 anos da República, afirmou que era necessário reinventar o republicanismo, o "espírito republicano", nas suas palavras. De imediato, instigado pelos jornalistas presentes, o secretário-geral do PSD, José Matos Rosa, assinalou positivamente esta frase de Cavaco como forma de sustentar a sua concordância relativamente à oratória do presidente. Acontece que este não definiu, de forma concreta, o que é que isso verdadeiramente significa. Na verdade, o espírito republicano de 1910 (e dos anos precedentes) está, em grande medida, por realizar, visto que o que está aqui em causa serem valores essencialmente civilizacionais, democráticos e humanos, os quais carecem, nas sociedades hodiernas, de efetiva e ampla concretização. No que respeita a Portugal, esses valores republicanos foram postos em causa com a ditadura do Estado Novo. Notei que Cavaco passou por cima desses 48 anos quando lembrou as dificuldades passadas pelos portugueses.

terça-feira, setembro 27, 2011

cavaco silva e o descalabro da madeira

A revista Sábado remete-nos na sua última edição para 2008, aquando duma intervenção de Cavaco Silva, presidente da República, no Parlamento. Interessa-me a reprodução, designadamente em alguns pontos discursivos fundamentais, a respeito da Região Autónoma da Madeira: 1- a região "é um caso de sucesso económico e social"; 2- o "desenvolvimento aqui registado deve servir de estímulo para Portugal inteiro"; 3- a Madeira mostra ao país "que é possível fazer melhor"; 4- é "legítimo que o governo regional exija mais e melhor da parte das autoridades da República". Sabemos também que o Tribunal de Contas tem vindo alertar, preditivamente, nos últimos anos, para as sucessivas irregularidades financeiras do governo regional. Conjugando tudo isto, há uma conclusão que emerge, meia embrumada, de tudo isto. Esta gente, que ocupa os lugares cimeiros do nosso desenho político-administrativo, é de uma completa inutilidade. E esta minha afirmação não se dirige em especial ao presidente da República. Todavia, gostaria de relembrar aos mais descuidados que Cavaco Silva toma a palavra como um ponto de honra. Na verdade, repetiu até à exaustão, nas duas campanhas eleitorais para a presidência da República, o valor da (sua) palavra. Para além, obviamente, do seu alto grau de doutor em ciências económicas, o que dá sempre um jeitaço nestas coisas da alta política.

terça-feira, setembro 20, 2011

a madeira e nós

Sem demagogias (apesar das contingências próprias e naturais duma leitura poder encaminhar o raciocínio para esse sentido único), importa questionarmo-nos sobre o seguinte: quantos mais desempregados, quantos mais encerramentos de instituições públicas, quantos mais cidadãos serão irremediavelmente afetados pelas desgraças de Alberto João Jardim, apesar de este não ser, como sabemos, caso único? Jardim vai ganhar novamente as eleições, com maioria confortável, fazendo jus à nossa bonomia, a qual ajudou a reeleger outros candidatos-tipo como Valentim Loureiro e Isaltino Morais. Será mesmo a democracia, num país com estes cidadãos, o sistema mais viável? Apesar de tudo, penso que sim. Um outro ponto que gostaria de referir diz respeito ao estafado argumento do político que faz obra, argumento que garantirá quase naturalmente a reeleição do líder. Na verdade, o difícil, nestas circunstâncias, residiria em não alcançar o desígnio da autoestrada e do túnel, da rotunda e da fonte luminosa. Já o ensinamento helénico, pela pena de Isócrates, nos alerta que o governante, para merecer as honras do seu povo, terá de exercer sobre si próprio uma severa disciplina e que a sua superioridade está ligada a uma excelência na virtude que iguale ou exceda as honras de que é objeto. Mais respeitinho, portanto, com a Grécia. Afinal, somos todos gregos.

segunda-feira, setembro 19, 2011

a madeira dos partidos

O pior que podia acontecer a este imbróglio batoteiro madeirense é ser tratado como uma disputa de galos partidários, entre o PS e o PSD. Conhecendo os políticos da nossa praça, esta inclinação chineleira era inevitável. Jardim, que devia estar muito caladinho, começou logo a acusar o Governo PS sobre a lei da finanças regionais, a qual resultou num encolhimento das remessas cubanas. Antes, porém, já Miguel Relvas, a respeito duma ocultação de seis milhões de euros no Instituto do Desporto desde 2003 ou 2004, convocou aparatosamente tudo e todos, ameaçando com tudo e todos para o apuramento de responsabilidades. Interessante verificar agora o seu silêncio mudo. Neste propósito, convém realçar o sóbrio comportamento político-partidário do PCP, separando o povo madeirense dos políticos extraviados do arquipélago, apesar, julgo eu, das responsabilidades que aqueles também detêm no caos contabilístico do Governo Regional, ao eleger sistemática e alegremente João Jardim há mais de trinta anos. E continuarão a fazê-lo. Tudo porque a política, para esta gente, é qualquer coisa que não lhes pertence.

sábado, setembro 17, 2011

o naufrágio esperado na madeira

Para estarmos parecidos com a tragédia grega nos noticiários internacionais só faltava mesmo este descalabro escondido das contas da Região Autónoma da Madeira, governada há mais de trinta anos por uma personagem igualmente digna dos melhores aprendizes de déspotas políticos. O poder origina muitas vezes estas tortuosas veredas, as quais acabam invariavelmente num ponto sem retorno. Ouvindo João Jardim agora, mete dó. O homem que se impôs, ano após ano, legislatura "cubana" após legislatura, tenta apontar, desapontado ele mesmo, o dedo ao último governo socialista. Não deixa, no entanto, de ter alguma razão. Acontece que os atores políticos não foram somente socialistas. Houve presidentes da República, e outros (contas, constitucionais, banco de Portugal...), social-democratas, democrata-cristãos e até uma Assembleia da República que nunca ligaram angularmente para o país do Alberto João. Uma classe política adormecida, anestesiada, a mesma que deixou o país (Madeira incluída) chegar ao presente vergonhoso que nos governa. Por isso aquele gesto de Vítor Constâncio, em Bruxelas, quando os jornalistas lhe perguntaram sobre as contas madeirenses, encolhendo infantilmente os ombros, basta para percebermos a tragédia, a nossa tragédia.

quinta-feira, setembro 15, 2011

crise económica e crise social

Temos um manual de instruções que o governo prometeu religiosamente seguir. Na última página, o sol renascerá para Portugal. A crise económica resolver-se-á. Ficaremos, portanto, todos mais felizes. Todos exceto uns milhares de sacrificados, os quais estarão, nestas suas únicas vidas, irremediavelmente excluídos. Substituiremos, assim, uma crise económica por uma crise social. Acontece que esta, em grande parte, é muito mais silenciosa, isto é, mais conveniente. E a Troika não trata destas coisas.

domingo, setembro 04, 2011

o discurso de passos

Este tipo de argumentário de Passos Coelho ao reclamar o início do fim da crise para 2012, ao mesmo tempo que aponta o dedo para aqueles que "pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal" não pega. Em primeiro lugar, porque é demasiado mofoso. Depois, porque nos remete para uma certa pacovice nacional quando, por exemplo, afirma que "pode haver quem se entusiasme com as redes sociais e com aquilo que vê lá fora, esperando trazer o tumulto para as ruas de Portugal”. Para as ruas de Portugal... lá fora... Será um recado ao facebook cavaquista?

quinta-feira, setembro 01, 2011

o super álvaro e a pagadoria da crise

Candidamente, o ministro Álvaro advoga que os contribuintes não devem ser mais carreteados com a crise. Por isso, coadjuvado com o menos super Gaspar, defende a urgência nos cortes da despesa do Estado. E esses cortes resumem-se, simplificadamente, a uma palavra: desemprego, isto é, colocar no olho da rua aqueles que presumivelmente estão a mais. Tudo em nome, obviamente, de um acordo que o seu partido siamês (socialista de seu nome) também assinou e que não foi (não foram) capaz(es) de discutir verdadeiramente (dinheirinho sonante, de imediato, fala mais alto do que qualquer argumentação...). Acontece que este governo, liderado por Passos Coelho, sofre de um certo provincianismo cavaquista, o qual também se pode resumir ao que foi, em tempos, o (auto)epíteto do melhor aluno. Daí que a estafada asserção do querer ir mais longe ande na boca desta gente, como se com isso ganhasse o respeito da sr.ª da Alemanha e dos restantes parceiros. Provavelmente até olharão Passos com alguma benquerênça e - quiçá - com fugazes esgares de algum respeito. Mas valerá realmente a pena? Naturalmente, a resposta é não. O que este governo delineia, na sua globalidade estruturante, não é mais do que tratar os portugueses mais dependentes como meros objetos de índole abstrativa. Os portugueses não são números, dizia o eufórico Guterres na onda de uma vitória contra Cavaco Silva. Pois não. Mas também não são instrumentos.

quinta-feira, agosto 25, 2011

imposto para os ricos em frança

Deem-se as voltas que se queiram dar e desaguamos inevitavelmente naquilo que é uma boa medida do governo francês, não só tendo em conta o quantificável, como também o simbólico. E a verdade é esta: os ricos, os muito ricos, podem objetivamente tornar o mundo um lugar melhor para viver. Só é pena que os nossos milionários tenham ainda impregnado nas suas cabecinhas que ainda estamos no século XX. A resposta de Amorim (eu não rico: sou um trabalhador) é demasiado elucidativa, penosamente elucidativa.

terça-feira, agosto 23, 2011

o ministro relvas

Há personagens que não desiludem, pelos bons e maus motivos. Miguel Relvas tem a indubitável aura de se encaixar neste grupo. O que ele desassombradamente fez hoje, ao acusar indiretamente a anterior gestão do Instituto de Desporto de Portugal de atividades no mínimo ilícitas (por conseguinte, criminosas), quando afirmou, publica e candidamente, que foram encontradas, “numa sala fechada” faturas no valor de seis vírgula qualquer coisa milhões de euros (o preciosismo desta gente: "um euro é um euro", diz, finório, a personagem) revela, sobretudo, o carácter do autor da missiva.
Qualquer indivíduo com um mínimo de ética (republicana, porque não) teria acionado, em primeiríssimo lugar, o canal de comunicação mais adequado, o qual seria, sem dúvida, o interno. É que entre a equipa cessante e a nascente a distância deveria ser curtíssima, ausente até. Infelizmente, esta gente, com a mesquinhez que a carateriza, não pensa assim. Na cabeça deles, o que interessa é, sobretudo, o acerto de contas, sejam elas quais forem.

segunda-feira, agosto 22, 2011

o estranho caso do correspondente em washington

A tradição ainda é o que era! A RTP e os tutelares ministros que o digam! Miguel Relvas, apesar das transparentes juras incondicionais de não se meter em assuntos de "boys", não conseguiu, afinal, esgueirar-se à sua própria e cada vez mais pesada e incontornável sombra. A coisa explica-se muito simplificadamente, pois é de coisas simples que se trata. Simples e bem portuguesas.
Mário Crespo prendou durante largo tempo o agora ministro Relvas com a importante e decisiva notoriedade televisiva, no âmbito do comentário político. Imagino que as condições contratuais entre os outorgantes tivessem sido igualmente muito interessantes para Relvas. Tal como Sócrates (que se projetou essencialmente na televisão, ao lado do eterno Santana Lopes), Relvas chegou um dia a ministro, cheio de ideias para o (seu) país. E uma destas tensões idealistas foi o de retribuir o emprego e a simpatia ao seu colega Mário Crespo. Fim da história, com moral: por mais que se embandeire, há coutadas que resistem.

quinta-feira, agosto 04, 2011

benfica: nova audiência

Começa a não haver pachorra para os pedidos de audiência que a direção do Benfica SAD insiste em realizar. Desta vez, é ao presidente do organismo que regula o mercado de valores mobiliários, Carlos Tavares, a propósito da extraordinária transferência do guarda-redes Roberto. Não deixa de ser um modo de vida...

quarta-feira, agosto 03, 2011

a chamada falsa para o 112

Os criativos deputados do PSD fizeram hoje, no âmbito de uma comissão parlamentar, uma chamada falsa para o 112 no sentido de verificarem, "in loco", os prazos de resposta do INEM. Podiam mesmo ter ido mais longe e simularem um acidente de viação acrescido de uma paragem cardiorrespiratória. Reponsável, esta gente...

terça-feira, agosto 02, 2011

o social neoliberal

Os ventos das mudanças trouxeram uma tendência comunicativa curiosa, aparentemente mais terrena, por parte dos nossos governantes. De repente, essa gente passou a ser inultrapassavelmente séria, ciosamente inexpugnável. O ministro da educação afirma que haverá professores que não terão lugar nas escolas para o próximo ano letivo. Por sua vez, o BPN é vendido a um grupo económico que, descomplexadamente, defende o encerramento de dezenas de balcões e de centenas de despedimentos. O ministro da economia quer ir ainda mais além do que foi acordado com a troika a respeito da redução dos cargos de dirigentes (vamos a ver para onde é que desaguarão os que o são e os que o não o são). Diz que quer ter "less jobs for the boys"...
Entretanto, os mais ricos vão ficando mais ricos e os mais pobres ainda mais pobres. E ninguém se dá conta que muitos dos ricos pagam, à grande maioria dos seus trabalhadores, 485 euros por mês, correspondente ao extraordinário salário mínimo português. Se eu fosse rico como o sr. Soares dos Santos ou como o sr. Amorim ou como o sr.Belmiro, o ordenado mínimo nas minhas empresas seria de 1000 euros. É certo que não elevava a minha riqueza pessoal a patamares tão deslumbrantes. Mas deixaria decerto muito feliz muitas mais pessoas.

domingo, julho 31, 2011

jardins

E por falar em mundos à parte... Grande declaração de Jardim, hoje, nos preliminares do Chão da Lagoa: se não tiver maioria absoluta, sairá de cena. Obviamente, sr. Jardim, ninguém esperaria outra coisa.

assuntos internos com dinheiros públicos

Gosto de ouvir os Madaíles da nossa praça afirmarem o que o do futebol transmitiu caprichosamente aos jornalistas: o prémio de 720 mil euros que Carlos Queiroz vai receber da Federação Portuguesa de Futebol é uma questão interna, interna e da sua gestão. Tudo isso é claramente verdade. Acontece que a Federação Portuguesa de Futebol é uma instituição pública. Logo, não é coutada do Madaíl. Logo, pode ser assunto interno, mas não é, seguramente, privado. Ou o futebol é, definitivamente, um mundo à parte?

sexta-feira, julho 22, 2011

portugal pequenino

Visitei prazenteiramente Guimarães. Esperava dececionar-me. E dececionei-me.
Com o sempre apetecível e anuente pretexto de estarmos inseridos numa lógica internacionalista de bom gosto, os autarcas, os governantes, os administradores arregaçam as mangas e toca a fazer obras, que já se afigura tarde. Foi assim que presenciei a outrora bela praça do Toural solvida num grande e aparatoso estaleiro de construção civil. É para o que servem estas candidaturas a capitais de alguma coisa. Estou certo que o resultado da transfiguração da praça será igualmente aprazível, moderna até. Aposto mesmo que nascerão alguns focos de luzes a iluminar uma qualquer fonte. Mas a questão que se deveria ter colocado quando os génios começaram a pensar a coisa era tão somente se valeria a pena alterar um dos maiores símbolos identificativos da cidade. E se o dinheiro gasto não seria melhor encaminhado para outra coisa qualquer. Mas nós somos assim. O Governo nomeia uma bem paga administração, aponta-lhe um interessante plafond e exige mudanças. E estas não podem ter outro contexto referencial senão as obras. E estas nascem, inventam-se e reinventam-se.
Um outro sinal da nossa pequenez deu-se também esta semana com a atribuição da medalha de ouro que a autarquia de Vila Real concedeu a Passos Coelho. A miopia vem, aliás, dos dois lados: de quem dá e de quem açambarca. A pergunta que se deveria ter colocado quando estas outras luminárias se lembraram de tão glorioso tributo era, simplesmente: qual a pressa?

quarta-feira, julho 20, 2011

conselho europeu

Hoje há conselho europeu: Angela Merkel e Sarkozy reuniram à porta fechada. E todos acham isso muito normal.

os privilegiados

Deleito-me um pouco com a moda agora imposta por alguém que a iniciou entre os comentadores políticos de assumirem os seus esgares de privilégio. "Eu sou um priveligiado, reconheço... sou daqueles que irá contribuir, em sede de irs, com metade do que aufere..." e assim por diante. Aí está uma profissão que compensa!... Acima deles, nestes tempos difíceis, só mesmo os clubes de futebol.

quinta-feira, julho 14, 2011

o colossal alinhamento de passos coelho

Afinal, a receita é para cumprir, o rotativismo oblige. Aliás, desde a monarquia constitucional (com o devido e respeitoso interregno da ditadura do Estado Novo) que este tipo de atuação política tem feito escola em Portugal. Ora um, ora outro, assacando as culpas ora a um, ora a outro. Claro que culpabilizando o antecedente à porta fechada, o efeito resulta mais requintado. "Os senhores jornalistas estão a extrapolar, as coisas não foram bem assim, não obstante..."
Ainda ninguém notou que esta é mais uma promessa quebrada de Passos Coelho. É a versão soft do "Portugal está de tanga", do inoperante e desertor Barroso.

quarta-feira, julho 13, 2011

a europa e o rating

Só o facto de se exigir, no meio de uma Europa em desvario mental, uma agência de notação financeira europeia é preocupante. É que na base dessa exigência assenta o manto obscuro da transparência, da independência relativamente aos interesses americanos, com o dólar à cabeça. Tudo seria realizado como um caminho límpido, natural, inevitável se... se não tivéssemos andado a reboque destas agências (são três as mais decisivas) durante estes últimos anos, os mesmos que colocaram a Europa na penosa existência atual. E quando se reflete sobre a ausência de verdadeiros líderes políticos neste velho continente é precisamente destas coisas que se fala, isto é, a atroz incapacidade de ver mais além.

terça-feira, julho 12, 2011

a hipocrisia da união europeia

A União Europeia, um projeto revolucionário e visionário de poetas - como alinhavava Victor Hugo ao preconizar os Estados Unidos da Europa - tem, como fundamento - e podemo-lo verificar nas diretrizes dos Tratados de Roma, os quais originaram a Comunidade Económica Europeia - uma união cada vez mais estreita entre os povos europeus. Essa união asseguraria, inevitavelmente, o progresso económico e social dos povos europeus, eliminando as barreiras que dividem a Europa, assim como asseveraria o desenvolvimento harmonioso pela redução das desigualdades entre a diversas regiões e do atraso das menos favorecidas.
Quer isto dizer, simplesmente, que os países, seriam todos tratados por igual, independentemente das idiossincrasias inerentes a cada um.
Ontem ouvi Zapatero, compungido e sério, falar das ramificações que a crise pode trazer para o resto dos países periféricos, como, por exemplo, Itália. Deixando de lado o seu país, o primeiro-ministro espanhol adjetivou a Itália como um país importante. Sem querer, Zapatero deslocou-se para o cerne de tudo isto: a Europa, na cabeça destes líderes, não é toda igual. Por conseguinte, há os países importantes e outros menos importantes. Por isso a cosmética de certas eleições e reeleições para o cargo de Presidente da Comissão Europeia não é mais do que isso: pura cosmética. A sr.ª Merkel é que sabe.

segunda-feira, julho 11, 2011

a mudança no ps

Certos políticos, senão mesmo todos, empurram-me para caminhos cada vez mais íngremes da desacreditação. São como aqueles treinadores de futebol que remetem quase sempre para o árbitro (muitas vezes, o melhor do jogo) a culpa do mau desempenho da sua equipa e que só mais tarde conseguem vislumbrar os erros passados. Francisco Assis (ou melhor, praticamente todos os políticos da nossa praça) está assim entre este tipo de espécime. Sabemos que a situação que vivemos – dramática a vários níveis – decorre, sobretudo, da falta de visão dos protagonistas políticos ao longo, sobretudo, das últimas duas décadas. A encimar o clã não posso deixar de colocar Cavaco Silva, o qual primava por uma obscura e patética teoria do melhor aluno da Europa e que ainda há poucos meses, no fulgor da campanha eleitoral, lembrava. Decorriam então os anos oitenta, com fluxos extraordinários de euros convertidos em escudos a desaguarem diretamente para os bolsos de muito poucos, sem qualquer enquadramento de desenvolvimento hegemónico. Foi, como sabemos, o período do betão e do aparecimento de algumas personagens que agora são muito mal vistas pelo povo e também pela justiça. Depois de Cavaco, os pretendentes ao trono lá foram apontando os erros que pareciam não existir até à derrocada. Salto Guterres, que também saltou para fora do pântano, mas que também não teve engenho nem arte para sacudir o país dos vícios e maleitas adquiridas durante demasiado tempo.
Agora, depois de um marcante executivo socialista liderado pelo ausente Sócrates (dá sempre um jeitão – e fica bem – um cursito de filosofia no estrangeiro nestas alturas...), Francisco Assis, que foi tão-somente líder da bancada socialista no Parlamento, remete o partido para uma atónita autocrítica, ao afirmar que "o PS nem sempre soube fazer a pedagogia da crise" (seja lá o que isso signifique) e que era evidente há mais de um ano (!) que um "governo assente numa maioria relativa não tinha consistência". Adianta ainda, entusiasmado, que o primeiro-ministro "devia ter forçado um entendimento parlamentar há mais de um ano".
Acontece que a lembrança que eu tenho de Francisco Assis de há um ano para cá é a de um acérrimo defensor de toda a "pedagogia" política do PS de Sócrates. Nunca o ex-líder da bancada socialista se levantou contra medidas políticas conjunturais do governo. A culpa não é, decerto, só dele. Os partidos políticos estão assim estruturados, isto é, deixam de o ser quando se encontram na suserania governativa. Tudo porque os partidos são fracos porque são fracos quem os lidera. "O fraco rei faz fraca a forte gente", como escreveu Camões. A minha única dúvida é se existe forte gente.

domingo, julho 10, 2011

seremos todos comunistas (e bloquistas)?

A decisão da Moody's ao remeter-nos para o caixote do lixo trouxe aos nossos grupos de especialistas uma metamorfose ideotemática interessante. De repente, as agências financeiras já não vão para o céu. Pelo contrário, implorarão, incessante e inutilmente, a entrada para a barca da Glória. Mas os pecados são muitos e grandes. E os anjos jamais permitirão que estes onzeneiros (?) desenhem uma porta de entrada para o reino da salvação. Portugal poderá, assim, mais uma vez, marcar a história do continente e do mundo. Há males que vêm por bem.

quinta-feira, julho 07, 2011

a notação da moody´s

Um aspeto positivo da imbecilidade do prognóstico (o qual deveria seguir o pragmatismo de João Pinto, o antigo capitão do FCP, esperando pelo fim do jogo para então desenhar uma acertada antevidência) da agência financeira Moody's, que coloca a dívida pública portuguesa ao nível de lixo, liga-se à aparente (?) coesão europeia em torno desta inusitada decisão da agência financeira. Tenho pena que este enlaço político se fique por aqui e não tenha uma continuação efetiva, como, por exemplo, "cortar relações", por parte da União, com estas empresas de notação financeira.

terça-feira, julho 05, 2011

renúncia de nobre

Nobre renunciou e fez bem. Ele candidatou-se a deputado para ser eleito presidente da Assembleia da República. Não o conseguiu. Candidatara-se antes a presidente da República. Ficou também, inglório, pelo caminho. Pior do que sair, seria mesmo ficar.

segunda-feira, julho 04, 2011

portugal no seu melhor

Entretemo-nos com défices e crises gregas, com governos mal governados e com cidadãos mal amanhados, com a Europa e com os alemães que nos sufocam. Mas não somos capazes de parar um pouco e pensar nos resultados dos últimos Censos, designadamente no que diz respeito à distribuição da população pelo parco território nacional. É que se efetivamente houvesse, neste país de ping pong clientelar, políticos ou governos capazes de encetar verdadeiras reformas, começariam indubitavelmente pela mãe de todas: a homogeneização do território nacional. Tenho escrito e continuarei a ditar: jamais chegaremos sustentavelmente a qualquer esquina de desenvolvimento enquanto existirem concelhos, regiões inteiras, neste pequeníssimo país, que se lançam desenfreadamente para uma vergonhosa e dificilmente contornada desertificação humana. Depois, como é nossa sina, cavalgamos em escombros que nós próprios edificamos. E já gastamos trinta e tal anos de democracia, a mesma que não previa nada disto.

sexta-feira, julho 01, 2011

mau começo

O novo governo liderado por Passos Coelho começa mal. E tudo por causa do imposto extraordinário, o qual diminuirá em 50% o subsídio de natal dos trabalhadores portugueses que auferem mais do que o salário mínimo nacional. Não me interessa trazer para aqui a necessidade da medida (ficamos também hoje a saber que o buraco orçamental português se situa nos dois mil milhões de euros, o que porventura reforçará o enquadramento deste novo imposto). O que se revela incontornavelmente penoso é este bifurcamento temporal no qual os políticos costumam existir: o antes e o depois, o pré e o pós, a oposição e o governo.

quarta-feira, junho 29, 2011

o novo ministério da educação

Os tambores ressoaram para os lados da 5 de outubro, na cabeça de Nuno Crato, o novíssimo ministro da educação. Aliás, o pensamento pedagógico administrativo do crítico do eduquês que nos tem guiado ao longo destes anos já há muito absorvia retumbantes esgares de mudança. Com efeito, parece crescer um novo paradigma referencial alicerçado em meia dúzia de palavras: rigor, independência, avaliação, exames, valoração profissional. Neste último ponto - o da credibilização da classe docente - o escopo primeiro direciona-se para a prestação de provas, a qual permitirá (ou não) o acesso à carreira docente. A meu ver, nada a opor. Contudo, será mesmo necessário aferir a vertente cognitiva dos candidatos? Não será antes imprescindível refundar os cursos universitários das imensas universidades e institutos e escolas superiores (de educação, proeminentes em eduquês) que têm arriscado a formação dos futuros professores? Para além disso, não será demasiado perverso colocar em causa, em duas ou três horas de examinação, o trabalho de quatro ou cinco anos de estudos? Não seria mais pertinente se essa aferição que possibilita a entrada na carreira docente se fizesse alicerçada sobretudo em aspetos psicotécnicos? É que a profissão de professor não pode estar, efetivamente, entregue a indivíduos com pouca postura valorativa, ética ou moral. Infelizmente, são essas ausências que edificam, muitas vezes, a ramificação de opiniões negativas sobre a classe. Mas, como em todas as profissões, uma árvore não faz (não pode, não deve) a floresta.
Um outro ponto que queria apontar relativamente a esta credibilização da profissão docente tem a ver com a situação dos professores contratados. Na verdade, não consigo vislumbrar medida mais urgente - no sentido da dignificação da profissão - do que a integração dos milhares de professores que há anos (demasiados) nomadizam (ou não) nas diversas escolas públicas do país.

terça-feira, junho 28, 2011

os princípios fundamentais do ps

É simplesmente delicioso ver Maria de Belém, a aprazada líder parlamentar do Partido Socialista, advertir para o possível desvirtuamento da essência programática do PS se o acordo assinado com a Troika estrangeira colocar em causa os "princípios fundamentais do Partido Socialista". Maria de Belém vai mesmo mais longe quando afirma que há "várias formas de interpretar o conteúdo das medidas" e que é, portanto, imprescindível a "salvaguarda do nosso [PS] quadro referencial", pois o voto do partido não pode ser tido como seguro no âmbito do próprio acordo.
Confesso que não entendi esta alocução da ex-ministra da saúde. Estará para nascer outro partido socialista?

marcelo e bairrão

Marcelo, vetusto comentador da praça portuguesa e um pouco menos vetusto membro do Conselho de Estado falou, no seu espaço semanal de comentário televisivo, que Bairrão seria um dos próximos secretários de estado do ministério da administração interna. Passos Coelho, que tenta, a todo o custo, marcar uma relevada posição política, trocou as voltas ao professor comentador, remetendo o futuro secretário de estado para a desconchavada posição de ex futuro secretário de estado. Ora este episódio, um tanto cómico, remete Marcelo para um vínculo de autoridade ou de influência que ele, aparentemente, não possui. Assim, sempre que Marcelo queira riscar do mapa governativo alguma personagem, basta falar dele na sua conferência domingueira.

quarta-feira, junho 22, 2011

adjunto do presidente da câmara

O presidente da Câmara Municipal de Grândola nomeou para seu adjunto (para o gabinete pessoal do presidente) o seu filho, justificando o ato de um modo, digamos, suficientemente cordato. Segundo Carlos Beato, a nomeação tem uma relação direta com a confiança, pessoal e profissional. Daí que esta nomeação, de alguém que conhece há 29 anos (presumo ser esta a idade do filho), se encaixe, paradigmaticamente, na sua demanda. Para além disso, o agora seu adjunto desfruta de uma "qualificação académica bastante pontuada" e tem trabalhado em empresas do setor privado "ligadas à área do desenvolvimento e turismo".
Penso que com justificações deste teor não haverá muito mais a dizer ao sr. Carlos Beato para que ele entenda que o país se envolve, atualmente, no combate a este tipo de situações.

segunda-feira, junho 20, 2011

maria de lurdes rodrigues

Escrevi já muito sobre Maria de Lurdes Rodrigues. Posso resumir toda a minha prosa numa asserção: foi uma péssima ministra da educação, sem qualquer ideia pedagógica para o sistema educativo em Portugal, sem qualquer peso político, com pouca formação democrática. Teve a habitual recompensa que alcança este tipo de gente, com a nomeação, feita pelo chefe, para presidente da Fundação Luso-Americana, substituindo um já estranho Rui Machete. Soube-se hoje que foi constituída arguida pelo ministério público, acusada de prevaricação de titular de cargo político. Supostamente, andou a enriquecer um amigo (João Pedroso) com empreitadas de ajuste direto que eram manifestamente desnecessárias. Em causa estão dois contratos de valor superior a 300 mil euros para fazer a compilação, harmonização e sistematização legislativa no domínio da educação. Tratava-se, portanto, da constituição de um grupo de trabalho que fizesse um levantamento de todas as leis publicadas sobre o setor. Nada, decerto, que não conseguisse ser consumado por alguém do interior do ministério da educação.
Lurdes Rodrigues é, naturalmente, inocente de tudo isto, até prova em contrário. Mas o tempo de nulidades convidadas tem de acabar em Portugal.

a não eleição de fernando nobre

Fernando Nobre, após duas tentativas de eleição, retirou a sua candidatura ao cargo de Presidente da Assembleia da República. Não sei se era um bom candidato. É um homem independente e muito ligado à sociedade civil. Eventualmente, este perfil poderia, em certa medida, constituir uma mais-valia para o Parlamento. Convém não esquecer que o presidente da AMI obteve muitas centenas de milhares de votos nas últimas eleições presidenciais, ficando, julgo, com 14 ou 15% dos votos. Uma coisa me pareceria certa: Fernando Nobre não se vergaria a ninguém, enquanto presidente da Assembleia da República.
Fala-se agora em Guilherme Silva. Não vislumbro, neste hipotético candidato, uma espécie de delfim de Jardim, evidências mais clarificadoras para ocupar este cargo. Eu sei que conhece muito bem os meandros da Assembleia. Mas isso bastará?

ronaldo na turquia de férias

Estamos a iniciar mais uma "silly season", mas esta, em Portugal, afigura-se algo diferenciada das demais. O país anda num constante e trágico rodopio estonteante. O que nos resta? Iniciarmos as patetices mais cedo? Fiquei a saber que a namorada de Ronaldo andou por Miami (?) a tirar fotografias e fiquei também a saber que o casal se encontra de férias na Turquia, no iate do presidente do Besiktas (de quem é amigo), e que também ficaram instalados num hotel, cuja diária é de dois mil euros. Depois, seguem para o Algarve. Ah! e batizaram também o filho do futebolista...
Isto é notícia não só de televisões e jornais privados, mas também dos órgãos de comunicação social públicos, designadamente a RTP. O gosto também se educa. Infelizmente, o serviço público de televisão presta um servço medíocre ao país, salvo raríssimas exceções.

sexta-feira, junho 17, 2011

fernando nobre

A primeira questão fraturante da nova legislatura é a muito difícil eleição de Fernando Nobre para presidente da Assembleia da República. Em torno disto, a demagogia vai grassando por aí. A encimá-la, encontra-se, é claro, a falta de experiência parlamentar do candidato. Que eu saiba, não é exigido nenhuma experiência parlamentar aos deputados, nem de governo aos ministros. Continuamos, assim, no mundo da pura e fértil politiquice.

a formalização

Vi em direto, nas televisões, a formalização do anúncio do acordado e novíssimo Governo da República. A festa ocorreu num hotel de Lisboa e logo se me assomou uma questão: para quê tanto espalhafato? Estava lá tudo: repórteres aos magotes a acotovelarem-se nos corredores à espera daquilo que parecia ser um noivado, assessores atuais e futuros, secretários de estado que hão de vir a sê-lo, etc. Na verdade, alguma coisa esta gente aprendeu com José Sócrates.
Aquilo que ali se passou não passou de pura politiquice, para usar de empréstimo esta expressão que ainda hoje Soares empregou.

quinta-feira, junho 16, 2011

a pasta ou as pastas de canavilhas

Parece que Isabel Canavilhas lamenta não ter a quem entregar "as pastas", no novo executivo. Fica, pois, registado este suspiro.

quarta-feira, junho 15, 2011

garcia pereira recusa representar portas

O advogado Garcia Pereira tem todo o direito, enquanto profissional, de recusar representar quem quer que seja. O que não me parece deontológico é o advogado Garcia Pereira exaltar nos órgãos de comunicação social, em forma de comunicado (e mesmo na sempre aprazível e cómoda configuração de desmentido), essa recusa.

domingo, junho 12, 2011

o imediato antes e pós-sócrates

Findo o conturbado período eleitoral, o qual levou à demissão o líder do Partido Socialista, José Sócrates, inicia-se agora um processo de purgação na praça pública. Maria de Belém, uma (parece) caraterizada candidata a secretário-geral do partido, reflete, numa entrevista, que Sócrates não sabia ouvir, isto é, não perdia muito tempo a escutar os conselhos dos seus compaginados camaradas. Será, pois, verdade. O que eu não sei é se esses mesmos camaradas tiveram alguma vez coragem de transbordar esse copo que estava - sabemo-lo empiricamente agora - quase cheio. O PS teve um congresso não há muito tempo e não se discutiu, nem sequer por um minuto, a possibilidade de mudar de líder, de colocar programaticamente um fim a um ciclo que tudo indicava estar esgotado. Houve, na verdade, um desgraçado de um militante, remetido convenientemente para más-horas mediáticas, que defendeu que o partido devia ir a eleições com um novo secretário-geral. Mas esse militante, coitado, não era ninguém. E os ninguéns só contam, geralmente, na hora do voto, nas feiras e noutros lugares afins.

sexta-feira, junho 10, 2011

10 de junho

António Barreto levantou, no seu discurso comemorativo do dia de Portugal e de Camões, uma série de pontos críticos pertinentes. É bom ouvir palavras sem subterfúgios semânticos que os jornalistas, depois, teimam em decifrar e nós, reouvintes cansados, de sorver indignados.

a greve dos tripulantes

Será, provavelmente, um sinal dos tempos, mas acordar o fim de uma greve que se projetava naturalmente alicerçada em pressupostos reivindicativos dignos, pela aceitação de umas viagenzitas aos familiares grevistas revela a estirpe desta gente da tripulação da TAP.

quinta-feira, junho 09, 2011

as fatiotas

No que respeita a fatiotas, Paulo Portas bate todos aos pontos. Em campanha, é aquele que se mistura com o povão, essa massa anónima que por vezes aborrece, mas que é incontornavelmente útil em determinados momentos eleitorais. Depois é vê-lo sair das suas já reuniões ministeriais da sede do PSD, à Lapa. Aí o povo é ostensivamente ignorado e às perguntas dos jornalistas (para o povo, os que nele votaram), responde, deplorável e altivamente, com a fatiota. Segredo institucional, à Cavaco Silva, imposto pela fatiota de ministro.
E por falar em fatiotas, José Sócrates parece que já arranjou emprego. A política, afinal, sempre serve para alguma coisa.

adenda: entretanto, o ainda primeiro-ministro parece já ter desmentido a notícia do convite de Dilma. Não podia, aliás, reagir de outra maneira, visto ainda ser o chefe do governo da República. De qualquer modo, este eventual acolhimento do convite para representar as empresas brasileiras no exterior (europeu) não deixa de seguir uma longa tradição da nossa República.

terça-feira, junho 07, 2011

as declarações de ana gomes

O que se pode dizer das declarações de Ana Gomes, as quais colocam Paulo Portas como uma espécie de mafioso compulsivo, é que as mesmas são, no mínimo, despropositadas e extemporâneas. A meu ver, a eurodeputada anda, de certo modo, descompensada. Talvez porque nenhum jornal (ainda) a não cozinhou como putativa candidata a líder do seu partido; talvez porque anda numa qualquer ânsia de protagonismo permanente em casos de denúncia pública e justiceira; talvez porque quer estabelecer uma espécie de Sócrates à direita (a curiosa e extravagante pergunta da jornalista da Rádio Renascença, em plena catarse socratina, na noite da despedida, com o homem a suar por todos os poros do seu corpo, tentando estabelecer uma relação umbilical do poder institucional com a justiça); ou simplesmente talvez porque Ana Gomes terá uma qualquer estranha patologia mental.
Ana Gomes, com este número, deita por terra algumas das suas verdades, que também as teve.

bloco de esquerda

Muito se tem discutido ou analisado sobre a abruta queda do Bloco de Esquerda relativamente às últimas legislativas, quer em número de votos, quer em número de deputados. Na verdade, o Bloco reduziu para metade os seus representantes na Assembleia da República, atingindo, assim, o mesmo número de eleitos de 2005. A questão que (também) se deve colocar é se não estariam inflacionados os dezasseis deputados resultantes do ato eleitoral de 2009.

segunda-feira, junho 06, 2011

fábrica de candidatos

Mistura-se tudo muito bem misturadinho por entre a imprensa escrita, radiofónica e televisiva. Junta-se umas entrevistazinhas num qualquer vão de escada (pode ser mesmo à porta de elevadores, a subir ou descer, não importa), amadurece-se a massa para a tornar mais consistente, aperfeiçoa-se com umas poses de estado e eis que surge, em todo o seu esplendor, um mais ou menos candidato a líder do partido socialista.

a mudança que a eleição alcança

Estou propenso a crer que a eleição legislativa que hoje terminou marca o início de uma viragem do espetro político partidário do país. Não só ao nível de uma implacável rotatividade (a qual, na verdade, mais uma vez, ainda se confirmou) de maioria absoluta de um só partido que nos tem regido nestas décadas em democracia, mas também ao nível das lideranças políticas. Neste ponto, Passos Coelho apareceu como um líder que, pelo menos, trabalhou para a diferença. Neste sentido, disse, desde muito cedo, ao que vinha, não se escondendo em tradicionais e ilusórias retóricas políticas (um bom exemplo da continuação de um "modus faciendi" desgraçado aconteceu esta noite com António José Seguro, o qual não conseguiu manter a satisfação da derrota do seu partido, autoproclamando-se, à saída de um elevador do hotel, candidato a líder). Por isso, não tem, agora já eleito, de esboçar grandes mutações no que diz respeito à ação política. E isto vale não só para consumo externo (ao partido), mas também tendo em conta as ávidas vozes que (também tradicionalmente) se alevantam no mundo PSD. O seu discurso de vitória foi também um bom prognóstico, ao afirmar que não pediria contas ao passado e o que importa é olhar para o futuro. É, sem dúvida, um bom princípio e marca também uma diferença em relação ao seu antecessor (não houve praticamente um mês, ao longo dos últimos seis anos, que Sócrates ou algum do seus apaniguados não desse conta da temível herança recebida…).
Passos Coelho é o líder que, talvez a par com Jerónimo de Sousa, se apresenta mais igual ao comum dos portugueses. Daí que seria bom que a vertigem do cargo não enublasse esta sintomatologia social do até agora candidato a primeiro-ministro de Portugal. Neste sentido, serão sempre bem vindas medidas que cortem um certo "show off" sul europeu que Sócrates tão bem representou como, por exemplo - e sem demagogias - os carros de altíssima cilindrada nos quais os membros do Governo se fazem transportar. Também aqui as mudanças de mentalidade terão de ser iniciadas. E o exemplo dos países do norte da Europa (das mentalidades, sobretudo, isto é, a ausência de vaidades pueris e pacóvias) poderá, neste âmbito, ser elucidativo.
Tendo ainda em conta o pressuposto de uma alteração panorâmica do desenho político partidário do país, estas eleições poderão ter marcado o início do fim do Bloco de Esquerda, enquanto partido autónomo e representativo de um eleitorado consistente. O Bloco perdeu metade dos seus deputados e não é crível que os recupere algum dia, ainda para mais tendo em conta que será muito difícil uma nova vaga de migração de eleitores do Partido Socialista para o Bloco (será muito mais acreditável isso acontecer para o PCP, que se tem revelado um partido com uma indubitável solidez eleitoral). Neste sentido, uma eventual aglomeração eleitoralista do Bloco de Esquerda pelo PCP, ou melhor, pela CDU (PCP-PEV e também, no seguimento desta tese, BE) será um cenário muito mais expetável do que, em princípio, possa parecer.

domingo, junho 05, 2011

ps

Sócrates deve fazer o que deveria ter feito há muito: demitir-se da liderança do Partido Socialista.

psd e e hipocrisia

Ver Passos Coelho ao princípio e agora revela bem que este PSD se encontra (ainda) infestado de caciques, barões e baronetes. Vamos é ver se o agora líder e futuro primeiro-ministro consegue alterar (varrer) este estado de coisas.

eleições

Um dado a constar para as estatísticas políticas e eleitoraias é, sem dúvida, o resultado cada vez mais dilatado da abstenção. E não é, de facto, admissível que numa altura destas, de plena assunção de uma certa portugalidade perdida, os cidadãos se desobriguem desse dever cívico. Por outro lado, é também de constar a pertinência dos apelos do Presidente da República para que a cada eleitor correspondesse, efetivamente, um voto. Ou seja: que os eleitores não se transformem em potenciais eleitores. É simplesmente mais um dado a somar a outros para a importância do presidente na vida política de Portugal.

sexta-feira, junho 03, 2011

os donos de portugal

Curiosa a afirmação de Passos Coelho hoje, em Lisboa, defendendo a alteração do estado de coisas em Portugal que potencia uma cada vez maior desigualdade entre os portugueses. Coelho vai, neste sentido, ao encontro de Francisco Louçã (e de Jerónimo), quando afirma, por exemplo, que "há um punhado de gente que quase é dona de Portugal". Esta linguagem esquerdizante não é inocente: Coelho joga o tudo por tudo pela maioria absoluta e, sabendo que não pode mais pescar no CDS de Portas, não se coíbe de pescar à linha nos descontentes do PS e também em algumas incoerências comunistas e bloquistas. Chama-se a isto, simplesmente, eleições. Depois, é claro, tudo fica como aquele momento antes de tudo. E os papéis retomam os seus devidos escalonamentos.

quinta-feira, junho 02, 2011

campanhas

Hoje foi um dia em cheio para PS, PSD e CDU, que andaram a banhos de multidão pelo Porto (não tenho a certeza por onde andou Paulo Portas). Fica assim para memória futura o Porto, cidade de liberdade, cidade cujas pessoas têm o coração na boca, segundo expressão de Jerónimo de Sousa. Não sei, sinceramente, onde para o coração desta gente do norte em geral e do Porto em particular. O que me parece é que estas arruadas, divertidas e festivas, não são espelho de nada, nem mesmo do povo. Quando muito, refletem a hipocrisia dos políticos e da política "made in Portugal". Mas espelham também algumas pessoas, estas anónimas, as quais não têm mais para onde se virar, a não ser para o queixume estéril das campanhas. Outras, porém, olham para os partidos como se de clubes de futebol se tratasse (eu sei que Paulo Portas insiste nesta ideia, que não é, aliás, nova). Decididamente falta a esta gente o que sobra aos políticos e aos partidos, um não sei quê de algum maquiavelismo.

Adenda: interessante verificar os apoios sonantes que têm surgido timidamente em redor de Passos Coelho. Hoje, especialmente, gostei de ver Rui Rio na arruada de Santa Catarina.

quarta-feira, junho 01, 2011

dia mundial da criança

Nunca o dia mundial das criancinhas foi tão insistentemente focado por esta gente que anda por aí em campanha eleitoral. A esquerda, então, tem-me enternecido o coração. Ver Luís Fazenda, Louçã e Jerónimo (que até as comia ao pequeno-almoço) assim tão infantis, assim tão de corações partidos, é coisa que efetivamente modificará o voto de muita boa gente. O que não sei é para que lado.

agressividade social

Há tempos, uma velhota foi encontrada em estado já de putrefação, esquecida pelo mundo que lhe era próximo. O país ficou com um sincrónico estado de depressão. De repente, outros casos, de invariáveis mortes esquecidas, iniciaram o seu aparecimento nos ecrãs jornalísticos.
Agora o tempo da comunicação social é outro: comutaram-se simplesmente os idosos por jovens sintomaticamente espancados por outros jovens, estes notoriamente depravados. Depois disso, outros casos virão e, depois destes, os mesmos. Ficará tudo na mesma?

domingo, maio 29, 2011

marinho pinto

O bastonário da Ordem dos advogados criticou a decisão do juiz Carlos Alexandre ao ter este optado pela prisão preventiva dos passivos e ativos agressores da jovem de 13 anos, perto de uma escola, em Lisboa. O seu argumento é deveras pertinente: um juiz não pode decidir através de impressões pessoais, as quais resultam, amiudadas vezes, em condenações díspares e por vezes contraditórias, consoante se trata do juízo impressionista do juiz A ou do juiz B. Tem razão. Acontece que a decisão de Carlos Alexandre deveria constituir-se como regra e não como exceção.

fidelidades

Ouvi Mário Soares justificar bem alto o seu voto: a fidelidade ao partido. Não podia o ex-presidente da República ser mais preciso no seu discurso justificativo. E é essa mesma fidelidade, aliás, que tem acompanhado José Sócrates nesta sua penosa (para ele e para todos nós) campanha eleitoral. António José Seguro, por exemplo, devia ter dado graças aos deuses pela abençoada chuva que caiu na sua emprestada augusta cidade de Braga. Todos sabemos o que se passará para a semana nas hostes dos derrotados e, principalmente, neste partido socialista sufocado de vários anos de recolhimento identitário.
Entretanto, as fidelidades partidárias descambam, muitas vezes, nos mais íngremes disparates. Foi o caso de Francisco Assis que afirmou, antes do discurso de Mário Soares, que seria catastrófico para o país e para (imagine-se!) a Europa se José Sócrates saísse da cena política. Assis defende que Sócrates tem um incomensurável prestígio na Europa e que é uma das vozes mais proeminentes na defesa do socialismo moderado. Deste modo, em dois ou três minutos, esqueceu-se tudo: as dívidas, os desempregados, o empréstimo e, o mais preocupante de tudo, a ausência de país.

sábado, maio 28, 2011

deliquência juvenil

Uma boa notícia a da detenção dos tristes jovens que filmaram e agrediram violentamente uma rapariga de 14 anos. É, sem dúvida, um bom exemplo de combate ao "bullying", o qual tem vindo a grassar nas escolas portuguesas. Só espero que os anormalzitos que filmaram e agrediram cumpram efetivamente um castigo, para além do que já foi imposto pelo juiz Carlos Alexandre.

sexta-feira, maio 27, 2011

duas versões do memorando troikano

Parece-me uma história mal amanhada, esta das duas separadas versões do memorando assinado com a troika. Parece-me, simplesmente, mais um daqueles números chico-espertistas que José Sócrates, na sua ânsia de algo agarrar (nem que seja uma qualquer volatildade) nos tem, ao longo destes anos, presenteado. Reflete, tão-somente, uma maneira de estar na política.

quinta-feira, maio 26, 2011

sondagens (2)

Notícia de abertura da SIC-Notícias: "O PSD continua à frente, mas o PS aproximou-se nas últimas horas". E depois quer esta gente das televisões que os levemos a sério.

terça-feira, maio 24, 2011

sondagens

Parece que gostamos de sondagens. Gostamos?!... Gostam, os das televisões. Há-as diárias, semanais, mensais, mais ou menos católicas, mais ou menos sérias e imprecisas. Há também o comentário às sondagens, com programas completos dedicados à coisa. Gostamos, pois, de comentadores. Gostamos?!... Gostam, os das televisões. O povo, a sociedade mais ou menos sabedora, vão embarrilando, divertidos, esta gente com empates técnicos. Divertimo-nos.

campanhas

Eis que surge, ao segundo dia da campanha, um novel personagem, que conhecíamos somente de algumas pequenas conferências e entrevistas rápidas. O seu nome é Paulo Campos e é (ou foi) secretário de estado de qualquer coisa. O sr. Paulo Campos transpirou a sua verve comiceira reinaugurando (coisa que estará, certamente, habituado no decorrer da sua última atividade) o slogan "Soares é fixe", mas agora emprestado a Sócrates. Campos tentou emergir a estupefacta assistência que o ouvia (ou talvez não), com as repetições e demais paradigmas comiceiros. O resultado foi paupérrimo. Ouvimo-lo, vimo-lo de braços erquidos e nada. Quase não se ouviu o fixe. Quase não se ouviu o Sócrates. A coisa continuou depois no comício seguinte, agora com o sr. José Junqueiro, um habitué nestas coisas do disparate em campanha eleitoral.

domingo, maio 22, 2011

jardinices

Nada como uma boa campanha, no sentido popular da coisa (é disto que o meu povo gosta, diria um famoso jornalista desportivo, já falecido) para outorgar um sentido de uma certa imparcialidade na visão que se tem dos partidos políticos em geral e dos políticos em particular. E no que diz respeito a campanhas eleitorais, os principais partidos orientam-se, de facto, numa espécie de bitola jardinista, com o seu foguetório televisivo, em que o que conta é muito mais a inócua espuma discursiva e muito menos a pretensamente necessária mensagem política.

festejos futeboleiros

Ainda não entendi muito bem a obsessão das televisões de colocar os adeptos (néscios ou menos néscios) em direto ao redor do pobre repórter, o qual é nitidamente enxovalhado pela massa ululante que festeja alegremente os títulos das equipas. É divertido, é certo, mas o cultivo deste tipo de tempo de antena desfavorece um pouco toda a gente: o clube, a televisão e, o que é mais gravoso, não ajuda nada na educação (sentido escolar, mesmo) desta gente.
Poderia também entrar na onda dos comentadores da coisa e a opinião não se alterava muito. No fundo, estão bem uns para os outros.

sexta-feira, maio 20, 2011

o africanista

Ontem um dirigente socialista alentejano referiu-se a Passos Coelho como o "africanista de Massamá". Hoje, Vieira da Silva, dirigente nacional, lamentou a expressão, ofensiva e de mau gosto. Excluindo as subjetividades alcançáveis, o que me importa salientar liga-se a este conglomerado de personalidades existentes num partido como o PS, tradicionalmente defensor de valores civilizacionais que emergiram no século anterior, designadamente o valor da igualdade do ser humano, independentemente da raça, credo ou estatuto social. Consequentemente, teve o PSD a hipótese de brilhar, através de Fernando Seara, presidente da Câmara municipal de Sintra, o qual referiu que se sente orgulhoso de "liderar um concelho multicultural", que defende "a tolerância, a multiculturalidade [e] o sentido de respeito".
Seria bom que a estupidez pagasse imposto. Pelo menos colocaria alguns pacóvios no sítio.

quinta-feira, maio 19, 2011

12,4%

Importa anotar esta percentagem de pessoas sem emprego que vem grassando paulatinamente desde há meses, desde há anos, em Portugal. Importa também anotar as desculpas do governo perante este descalabro social: contas alteradas por parte do INE e crise internacional. Importa lembrar quem são os maiores responsáveis por isto. Finalmente, importa anotar a delicadeza dos responsáveis do Instituto Nacional de Estatística, os quais fizeram questão de lembrar que a metodologia do inquérito ao emprego, efetivamente, se alterou.

quarta-feira, maio 18, 2011

uniformizações

Gosto da ideia das uniformizações, principalmente quando estas surgem tendo em conta parâmetros que se ligam à vida das pessoas, profissional, salarial e pós-laboral. E foi com este desígnio que a sr.ª Angela Merkel se lembrou de ditar algumas noções respeitantes ao número de dias de férias e à idade da reforma. Podia era ter começado pelos ordenados mínimos (e máximos), massas salariais, desequilíbrios sociais, níveis educacionais, etc., etc., etc.

terça-feira, maio 17, 2011

debate louçã vs sócrates

Ouço na SIC Notícias os comentários dos comentadores (Sasfrield Cabral, Ricardo Costa e Maria João Avillez) do debate entre Louçã e Sócrates. Ouço-os e sou levado a crer que a obscuridade pesada dos dois interlocutores, infernizados em economês, contagiou o cogito deste triunvirato comentador. Louçã ganhou claramente o debate? Onde? Em que sentido? Por que razão? Para mim, que fiquei cansado de os ouvir (aos dois) - como estou também cansado de ouvir o pretensioso trio -, quem verdadeiramente me deleitou no debate foi Clara de Sousa, que esteve simplesmente impecável.

debate louçã-coelho

Para mim, foi o melhor debate de todos os que até agora se realizaram. Tudo porque a sr.ª Judite de Sousa deixou os interlocutores exporem calmamente as suas ideias. Para além disso, tanto Passos como Coelho mostraram que mesmo estabelecidos em posições ideológicas opostas, há capacidade de entendimento, não para um futuro governo, obviamente, mas para conjugações esporádicas tendo em vista o avanço do país. As pessoas são, também, importantes.

adenda: vejo agora João Soares afirmar que Louçã ganhou o debate quase por KO. Na verdade, a ramificação viral deste PS é deveras preocupante para o partido e, mais problematicamente, para o país.

adenda 2: João Soares continua com uma hipocrisia gritante, agora colocando Louçã nos píncaros da lua.

segunda-feira, maio 16, 2011

posição confortável

Há palavras que matam, ou que ofendem, ou que simplesmente têm a força do riso (e da consequente ironia). (Eduardo Catroga anda agora pelo Brasil e faz bem manter-se por lá durante uns tempos.) Teixeira dos Santos, ao afirmar, hoje, em Bruxelas, à entrada para uma reunião de ministros das Finanças da União Europeia, que Portugal está numa posição confortável obedece a este princípio da sandice política. Não importa o contexto, desculpa demasiadamente invocada por estas personagens. O que o futuro ex-ministro das finanças disse é que Portugal está numa posição confortável face ao programa ambicioso, bastante abrangente e também ajustado oriundo da troika FMI-UE-BCE.
Confortável seria estarmos noutra, completamete divergente da situação atual. Isso sim seria vivermos confortavelmente enquanto país e enquanto cidadãos livres.

campanhas

Vivemos já sob o signo contumaz das campanhas. Passos Coelho adverte e apela para que o primeiro-ministro não trate os portugueses por imbecis. Por sua vez, Sócrates não ouve e sabe muito bem (tal como Portas) que em campanha eleitoral o mais importante é o sound bite, aquela ideia que é nada porque não é mais do que uma inverdade, uma pura e obsidiante fantasia. Neste sentido, importa encostar Passos Coelho ao ultraliberalismo que até a água aspira a privatizar. Pois é, camaradas, nunca se viu tal coisa em trinta anos de democracia. Os outros camaradas (bloquistas e comunistas) esfalfam-se por combater esta ideia terrível de que possa haver camaradas no Largo do Rato socratista. Portas, enlevado pelas sondagens, descobriu que este será o início da futura vida do partido, talvez um sonho de passagem de aglutinado para aglutinador.
Os da troika só fizeram mal não ficar por cá até dia 5 próximo. Aí piaríamos todos baixinho. Ou quase todos.

sexta-feira, maio 13, 2011

os pudicos

Entra-se em certas espirais e vai-se por aí fora. Agora, a respeito duma expressão clara e popularmente idiomática, Eduardo Catroga é um alvo apetitoso da nossa imprensa. No momento social que corre, cruel e quase caótico para muitas famílias, este tipo de apontamento jornalístico, ultrapassando parâmetros desejáveis, é o que menos precisamos.

adenda: entretanto, Catroga já foi despachado para o Brasil, justificando assim o descanso do guerreiro. É também do que menos precisa o PSD.

quarta-feira, maio 11, 2011

psd zangado com barroso

Parece que o PSD anda de costas voltadas com o enganoso presidente da Comissão Europeia. Tudo porque Barroso aquiesceu nos prazos permitidos a Sócrates para comunicar ao país o falso memorando da troika. Depois é o costume: urgem-se teias de politiquice, de parte a parte, com jornalistas misturados no meio da salsada, muitas vezes a comandar as operações. Daí que este ex-primeiro ministro que um dia deu à sola, desonrando os compromissos que tinha para com o (seu) povo, esteja agora já lançado numa campanha presidencial que se realizará, se houver ainda Presidência da República, algures no ano de 2016. O homem, claro, agradece.

segunda-feira, maio 09, 2011

debate portas sócrates

Foi um bom debate este entre Portas e Sócrates. A meu ver, Portas foi mais esclarecedor do que Sócrates. Este não tem, na verdade, muitas opções de refúgio para esconder o que foi os seus frutuosos e dispersos atos de comunicação política ao longo destes últimos meses. E quando o tenta, cai inevitavelmente no ridículo quando é exposto perante essas mesmas declarações. Foi talvez o melhor momento de Portas (e do debate) quando o líder do PP confrontou o "candidato José Sócrates" com as suas declarações de um Portugal oasiano semanas antes da realidade lhe cair em cima. No entanto, há sempre a marcha da propaganda do partido que sempre pode alcançar algumas mentes mais desacauteladas.

domingo, maio 08, 2011

sevinate pinto troca psd pelo pp

A notícia foi este fim de semana veiculada pelos jornais. O antigo ministro da agricultura de Durão Barroso (que foi, outrora, num Portugal de tanga, primeiro-ministro da República portuguesa e que num ápice se exilou em Bruxelas como presidente da Comissão Europeia, o que constituiu, na altura, um incomensurável orgulho pátrio, deixando o governo entregue, com a conivência do extraordinário presidente Sampaio, a Santana Lopes, o qual, na primeira oportunidade de voto, os portugueses remeteram para o limbo paradisíaco do comentário político, originando, por sua vez, um longo consulado socialista socratiano) trocou o seu tradicional voto no PSD pelo apoio a Paulo Portas. As razões são invariavelmente pertinentes e porventura capazes de gozar de um significado mais exemplar e abrangente na relação dicotómica destes dois partidos, designadamente na presente campanha eleitoral. Segundo Sevinate, o CDS-PP é o único partido que atenta aos problemas da agricultura e do mundo rural. Paulo Portas, como se sabe, estende essa exclusividade ao Partido Comunista Português. Todavia, o que me importa perspetivar nesta atitude racional do ex-ministro da agricultura são as suas próprias premissas, ao afirmar que desde que José Sócrates chefia o governo foi feito "um conjunto de maldades incontáveis" nas questões da agricultura e do mundo rural. Adianta que "os agricultores foram sistematicamente humilhados e o PSD tornou-se cúmplice dessa humilhação, na medida em que entrou mudo e saiu calado", não tendo "uma única palavra sobre agricultura durante os quatro anos e meio" do primeiro mandato de Sócrates. Na verdade, a recente e estrambólica proposta de Passos Coelho em transformar o ministério da agricultura numa secretaria de estado parece dar razão em absoluto a Sevinato Pinto.
Acontece que o sr. Sevinato Pinto não é uma pessoa qualquer no mundo da agricultura. Tendo sido já ministro da agricultura ainda não há muito tempo, tem, obviamente, uma quota-parte de responsabilidade relativamente ao estado de insolvência do nosso mundo rural e agrícola. No entanto, não é por aí que pretendo ir com estas linhas (aliás, este tipo de raciocínio retroativo no que às culpas no cartório diz respeito não se afigura, como se sabe, novidade). O sr. Sevinato Pinto ocupa, atualmente (e decerto bem remunerado - um complemento de alguma coisa...), desde 2006, a nobre e mui distinta função de consultor do Presidente da República para os assuntos agrícolas e do mundo rural. Ora, não me parece de dificuldade assinalável concluir que ou o presidente não ligou patavina aos seus doutos conselhos, ou o sr. Sevinate prefere andar assim pelos jornais nesta atmosfera de aconselhamento tardio e estéril.
Em qualquer dos casos, é óbvio que urge também uma reestruturação, por parte do Palácio de Belém, relativamente ao número de conselheiros temáticos e políticos do Presidente da República. É que este presidente tem vindo a dar uma imagem de completa inocuidade política efetiva. Eu sei que não é a ele que cabe decidir, governar. Mas, com tantos e teoricamente bons (e repito: eventualmente bem remunerados) conselheiros, a ele compete avisar os portugueses dos desvios infundados e dramáticos que o rumo governativo, nos diversos momentos, teimosamente (contra os conselhos de muita gente, como se tem vindo abundantemente a provar) delineia. E este exemplo da desgraça que a agricultura portuguesa caiu pode ser considerado paradigmático desta ausência de respostas do órgão de soberania que é a Presidência da República. Não é, pois, por falta de estudos nem de conselheiros (e de estado ou de outros) que Portugal está como está. O problema são, a maior parte das vezes, os políticos.

quinta-feira, maio 05, 2011

a comunicação de teixeira dos santos

Teixeira dos Santos comunicou ao país o que José Sócrates, anteontem, silenciou. E o que ficamos a saber resume-se a uma vida muito difícil nos próximos três anos, com aferições periódicas trimestrais de equipas da troika. Ficamos também a saber que o empréstimo de 78 mil milhões não será suficiente para sairmos dos mercados. O que quer dizer que esta retoma aos mercados acrescentará mais dificuldades à economia portuguesa.
Foi também interessante o início do discurso de Teixeira dos Santos, ao afirmar que o programa foi assumido pelo governo com a colaboração da troika. Eu pensava que tinha sido o contrário.

adenda: Teixeira dos Santos desmitificou o pec4, quando afirmou que este programa de ajuda externa assenta naquela proposta de austeridade chumbada pela oposição, mas com aprofundamentos, dando assim razão àqueles que diziam que depois do quatro vinha o quinto e depois do quinto, o sexto.

quarta-feira, maio 04, 2011

o acordo troika

Independentemente da demente declaração triunfalista de José Sócrates, ao proclamar, ontem, o que o acordo com a troika não abrangia, a verdade é que este não consegue ir ao fulcro da nossa marginalidade europeia, a qual tem, basicamente, a ver com a nossa profunda desigualdade social. Com efeito, neste memorando oriundo do triunvirato não existe uma única palavra que vá ao encontro do combate a este desgraçado e tradicional mal português. E neste campo torna-se sempre necessário falar clara e desassombradamente: não deveria ser possível a partilha de reformas públicas basiladas entre umas poucas centenas de euros e dezenas de milhares de euros. Pois é: existem reformas públicas em Portugal de mais de vinte mil euros. E assim não vamos lá.

terça-feira, maio 03, 2011

o momento político de sócrates

Sócrates fez a esperadíssima declaração ao país, dando conta dos resultados da decisões da troika, a qual é composta, como se sabe, por delegações do FMI, Comissão Europeia e BCE. E o que se passou, com toda a solenidade do depoimento (ao ponto de ter um Teixeira dos Santos que mais parecia um candeeiro mal iluminado) foi deplorável. Em primeiro lugar, porque Sócrates nada disse. Pelo contrário, discorreu sobre o que aparentemente não ficou decidido pelo triunvirato. Depois, porque Sócrates apareceu como um vitorioso e não como principal responsável pela crise em que nos encontramos. E a palavra crise de repente deixou de fazer sentido na semântica derramada pelo primeiro-ministro. Ao ponto de nos questionarmos, a fazer fé nas suas palavras (coisa impraticável conhecendo a peça) sobre a necessidade desta ajuda.
Desgraçadamente, o PSD conseguiu entrar na onda politiqueira eleitoralista da missiva. Catroga depressa veio à televisão rebater as palavras de Sócrates. Não poderia ser de outro modo, é verdade. Mas há formas e formas. E neste ponto, Assunção Cristas bateu aos pontos tudo e todos. Disse simplesmente que não conhece o resultado da suposta negociação.

segunda-feira, maio 02, 2011

países irmãos

Não pude deixar de reparar na expressão deveras curiosa, deveras lusófona (quando diz respeito a nações) de Passos Coelho ao apelidar de irmãos os países da União Europeia. Sabendo que são estes irmãos os que mais dispostos estão a castigar os devaneios deste lusofonismo tropical, ao ponto de o FMI necessitar de acalmar este "mercado" (sempre emergente), talvez então seja mais adequado outro tipo de linguagem na cabecinha do presidente do PSD.

domingo, maio 01, 2011

a pássaro e o forum

Acompanhei a oportuna visita de Sócrates à ETAR de Alcântara, a qual mereceu, de resto, honra de inauguração. Tratava-se, no fundo, de mostrar ao povo, que o engenheiro é, realmente, um homem de valor incalculável, desmesurado mesmo, tendo em conta a pequenez do Portugal coevo. A seu lado, estava uma senhora que olhava para o sr. primeiro ministro com fulgurantes radiações quase osculares, mas de certo imensamente agradecida por aquele pisar conjunto do chão da ETAR. O sr.primeiro-ministro, ali, tornou-se, portanto, uma apoteose para a ministra do ambiente. "Sabe, sr. primeiro ministro..." "O sr. primeiro-ministro agora já pode..." era o que se ouvia, amiudada e nesciamente, da boca da senhora. Lembrei-me de repente da intervenção da primeira ouvinte do extraordinário fórum TSF. Era a mesma senhora!... Ou talvez não, estou confuso... E o primeiro-ministro, do alto do seu ego, esboçava para a senhora umas curiosas perguntazitas que os jornalistas, igualmente amorfos, sugavam. E aquilo foi, também, uma reunião de trabalho entre tão distintas criaturas.

quinta-feira, abril 28, 2011

forum tsf

Ouvi praticamente na íntegra o forum de hoje da TSF. E ouvi a grande maioria dos intervenientes (quase a totalidade) esboçar grandes elogios ao trabalho de José Sócrates, o convidado especial da emissão. Pela amostragem do programa, o atual primeiro-ministro ganhava as eleições com uma votação igual à do último congresso do seu partido. Um dado curioso e apaziguador: a nota dominante daquelas pessoas que telefonaram foi marcada e excessivamente laudatória, com teores qualificativos do tipo "o grande inovador", "o engenheiro é o homem do futuro", nunca houve no passado nem irá haver no futuro um primeiro-ministro como o senhor". Chegaram mesmo a questionar Sócrates sobre onde é que ele ia buscar tanta força, tanta energia.
Sócrates ficou, assim, provavelmente sem ele ter dado por isso, mais ligado ao passado do que ao futuro.

terça-feira, abril 26, 2011

foleiro, by josé lello

Acabei agorinha de ouvir a justificação de José Lello sobre o epíteto que colou a Cavaco Silva no seu facebook. Diz ele que aquilo era privado e que, por engano, foi parar ao público. Diz ele que para um camarada de partido, não tem problema neste tipo de linguagem e que, se fosse para ser publicado optaria por verter este qualificativo para a linguagem "parlamentês", a qual resultaria mais ou menos nisto: "o presidente da República não tem abrangência..." etc.
É bom termos alguém que nos traduza o "parlamentês"...

segunda-feira, abril 25, 2011

a ausência de teixeira dos santos

Sigo a procissão dos convidados em rumo acertado para o palácio de Belém. Ouço-os em breves entrevistas que repórteres descuidados e inócuos insistem em confecionar. Todos chegam atrelados a bons carros pretos, de fatos alinhavados com o carro e vestidos cuidados. Os motoristas ficam cá fora, numa espera costumada. De toda esta gente, existe um espécime deveras interessante. São os membros do governo demissionário. Os jornalistas recorrem ao mesmo referente: como interpreta a ausência de Teixeira dos Santos? E aqui entramos num dos mais perfeitos manuais de hipocrisia que a democracia - esta democracia - originou. E o maestro (devidamente instruído pelo arquimaestro Sócrates) chama-se Vieira da Silva, elevado agora a esta espécie de aprendiz maquiavélico de feiticeiro.

sábado, abril 23, 2011

quem ganhará?

São sondagens, valem o que valem, não é?... As descodificações são, paradoxal e tradicionalmente, diversas e convergentes, quer venham do PC ou do PP, do PS ou do PSD, do Bloco ou do Emídio Rangel (é verdade... teria sido este também convidado - tal como sucedeu com o seu colega da televisão, o sr. Amorim de Abreu, professor em duas universidades - para deputado da nação? Se não foi, deveria tê-lo sido...). Ora oferecem-nos a visão do purgatório com Sócrates, ora a estremeção achacada de Passos. A escolha é, pois, medonha.
Estou propenso a crer que Sócrates já não tem mais margem de manobra ascendente, enquanto que Passos poderá ainda subir uns imerecidos degruazitos. Pelo contrário, poderá advir uma surpresa dos outros três partidos, estes sim com um caminho à sua frente que, sendo coerentemente desbravado (tanto à direita como à esquerda), poderá consusbstanciar-se numa apreciável percentagem eleitoral.
Estamos assim perante uma realidade política única, com a imiscuição do FMI (mais uma, mas esta, apesar de tudo, diferente das anteriores, visto vivermos numa conjuntura europeísta efetiva, tanto para o bem como para o mal) nas contas públicas da nação.
O tempo do partido único pode estar a chegar ao fim.

quinta-feira, abril 21, 2011

efémeras vaidades políticas

O PSD tem andado discordante. A principal razão liga-se à escolha de Fernando Nobre para presidente da Assembleia da República. Neste sentido, António Capucho tornou pública a sua rejeição para ser vice-presidente do Parlamento. E o seu principal argumentário é autopanegírico, como se pode aferir nesta interessante carta publicada nos jornais: "Mas não poderia aceitar ser Vice-Presidente de Fernando Nobre por uma questão de coerência. Se o Partido deseja a minha candidatura ao Parlamento não pode ignorar - desculpem a imodéstia - que fui Vice-Presidente do Parlamento Europeu, Ministro dos Assuntos Parlamentares e Líder Parlamentar, para além de todos os outros cargos que o meu curriculum atesta. Fui cabeça de lista em Setúbal e em Faro, ganhei eleições para o Parlamento Europeu contra o PS com João Cravinho, e obtive por três vezes mais de 50% dos votos nas eleições para a Câmara de Cascais."
Só gostaria de lembrar que o último cargo político ativo de Soares foi o de deputado europeu pelas listas do PS. Quando se fala da falta de qualidade (nível) dos políticos europeus atuais comparativamente aos que os precederam são também estas pequenas grandes coisas que se evocam.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...