quinta-feira, abril 28, 2011

forum tsf

Ouvi praticamente na íntegra o forum de hoje da TSF. E ouvi a grande maioria dos intervenientes (quase a totalidade) esboçar grandes elogios ao trabalho de José Sócrates, o convidado especial da emissão. Pela amostragem do programa, o atual primeiro-ministro ganhava as eleições com uma votação igual à do último congresso do seu partido. Um dado curioso e apaziguador: a nota dominante daquelas pessoas que telefonaram foi marcada e excessivamente laudatória, com teores qualificativos do tipo "o grande inovador", "o engenheiro é o homem do futuro", nunca houve no passado nem irá haver no futuro um primeiro-ministro como o senhor". Chegaram mesmo a questionar Sócrates sobre onde é que ele ia buscar tanta força, tanta energia.
Sócrates ficou, assim, provavelmente sem ele ter dado por isso, mais ligado ao passado do que ao futuro.

terça-feira, abril 26, 2011

foleiro, by josé lello

Acabei agorinha de ouvir a justificação de José Lello sobre o epíteto que colou a Cavaco Silva no seu facebook. Diz ele que aquilo era privado e que, por engano, foi parar ao público. Diz ele que para um camarada de partido, não tem problema neste tipo de linguagem e que, se fosse para ser publicado optaria por verter este qualificativo para a linguagem "parlamentês", a qual resultaria mais ou menos nisto: "o presidente da República não tem abrangência..." etc.
É bom termos alguém que nos traduza o "parlamentês"...

segunda-feira, abril 25, 2011

a ausência de teixeira dos santos

Sigo a procissão dos convidados em rumo acertado para o palácio de Belém. Ouço-os em breves entrevistas que repórteres descuidados e inócuos insistem em confecionar. Todos chegam atrelados a bons carros pretos, de fatos alinhavados com o carro e vestidos cuidados. Os motoristas ficam cá fora, numa espera costumada. De toda esta gente, existe um espécime deveras interessante. São os membros do governo demissionário. Os jornalistas recorrem ao mesmo referente: como interpreta a ausência de Teixeira dos Santos? E aqui entramos num dos mais perfeitos manuais de hipocrisia que a democracia - esta democracia - originou. E o maestro (devidamente instruído pelo arquimaestro Sócrates) chama-se Vieira da Silva, elevado agora a esta espécie de aprendiz maquiavélico de feiticeiro.

sábado, abril 23, 2011

quem ganhará?

São sondagens, valem o que valem, não é?... As descodificações são, paradoxal e tradicionalmente, diversas e convergentes, quer venham do PC ou do PP, do PS ou do PSD, do Bloco ou do Emídio Rangel (é verdade... teria sido este também convidado - tal como sucedeu com o seu colega da televisão, o sr. Amorim de Abreu, professor em duas universidades - para deputado da nação? Se não foi, deveria tê-lo sido...). Ora oferecem-nos a visão do purgatório com Sócrates, ora a estremeção achacada de Passos. A escolha é, pois, medonha.
Estou propenso a crer que Sócrates já não tem mais margem de manobra ascendente, enquanto que Passos poderá ainda subir uns imerecidos degruazitos. Pelo contrário, poderá advir uma surpresa dos outros três partidos, estes sim com um caminho à sua frente que, sendo coerentemente desbravado (tanto à direita como à esquerda), poderá consusbstanciar-se numa apreciável percentagem eleitoral.
Estamos assim perante uma realidade política única, com a imiscuição do FMI (mais uma, mas esta, apesar de tudo, diferente das anteriores, visto vivermos numa conjuntura europeísta efetiva, tanto para o bem como para o mal) nas contas públicas da nação.
O tempo do partido único pode estar a chegar ao fim.

quinta-feira, abril 21, 2011

efémeras vaidades políticas

O PSD tem andado discordante. A principal razão liga-se à escolha de Fernando Nobre para presidente da Assembleia da República. Neste sentido, António Capucho tornou pública a sua rejeição para ser vice-presidente do Parlamento. E o seu principal argumentário é autopanegírico, como se pode aferir nesta interessante carta publicada nos jornais: "Mas não poderia aceitar ser Vice-Presidente de Fernando Nobre por uma questão de coerência. Se o Partido deseja a minha candidatura ao Parlamento não pode ignorar - desculpem a imodéstia - que fui Vice-Presidente do Parlamento Europeu, Ministro dos Assuntos Parlamentares e Líder Parlamentar, para além de todos os outros cargos que o meu curriculum atesta. Fui cabeça de lista em Setúbal e em Faro, ganhei eleições para o Parlamento Europeu contra o PS com João Cravinho, e obtive por três vezes mais de 50% dos votos nas eleições para a Câmara de Cascais."
Só gostaria de lembrar que o último cargo político ativo de Soares foi o de deputado europeu pelas listas do PS. Quando se fala da falta de qualidade (nível) dos políticos europeus atuais comparativamente aos que os precederam são também estas pequenas grandes coisas que se evocam.

o telmo

Vi relançado o nome de Telmo, um rapaz que participou no programa televisivo "Big Brother", como uma das escolhas para deputado pelas listas do PS Leiria, a mesma que é encabeçada por Basílio Horta. Li depois os argumentos justificativos desta opção. E li o seguinte, do sr. Miguel Chagas, líder do PS Batalha: "É um jovem empresário e facilmente pode ser reconhecido por ter participado num programa de televisão".
Posto isto, não é claramente necessário acrescentar mais nada para este pastoreio nacional partidário.

teixeira dos santos

Teixeira dos Santos bem pode afirmar que se soubesse o que sabe hoje, teria feito muita coisa diferente. E uma delas - talvez a mais importante (para si e para o país) - seria decerto apresentar atempadamente o seu pedido de demissão ao primeiro-ministro, o que já foi há muito defendido aqui e aqui. No entanto, deixou-se enredar na enevoada rede socratista-partidária. Ao que consta, não foi convidado pela direção do PS para deputado. Vieira da Silva, seu apaniguado colega no Governo, justificou assim a coisa: "não se colocou a questão de Teixeira dos Santos ser convidado para integrar as listas do PS. Um partido faz sempre opções. São convidadas umas centenas de pessoas e muitos milhares não são convidadas".
Aprende-se muito com esta gente.

futebol jornalístico

Nunca entendi muito bem a vertigem que todas as televisões sofrem com a apetência para os diretos televisivos, ora à entrada, ora à saída do jogo, ora ainda à chegada do autocarro das claques. Aquela macacada toda, com urros e outros tipos de ululações constituem, de facto, um triste panorama das nossas televisões. No entanto, tudo isto se encontra no mesmo nível da comentação oficial e daqueles desgraçados repórteres que têm a penosa incumbência de andar por ali, zoolátricos, à cata de opiniões variegadas. Igualmente confrangedor é olhar para os outros, os que se montam nas cadeiras da sala de imprensa com o dilatado desígnio de perscrutar os treinadores após a refrega dos jogos. Entra-se num atmosfera circular e não se sai disso.

quarta-feira, abril 20, 2011

a propósito de egoísmos nacionais

Cavaco Silva remeteu de novo os portugueses para o seu facebook quando aborda a questão dos egoísmos nacionais dos diversos países, sintoma que se encontra nos antípodas dos propósitos dos pais fundadores da Comunidade Económica Europeia, os quais pensaram e desenharam o projeto como um espaço de convergência unitária em prol de um desenvolvimento hegemónico e homogéneo de todo o espaço europeu. É pois verdade que tudo isto se encontra perdido no tempo, em virtude dos tristes líderes europeus que nos calharam na rifa (basta olharmos para aqueles encontros de Bruxelas, o modo como aquela gente se cumprimenta, se deleita com uma qualquer triste anedota de algum qualquer triste personagem para denotarmos sem dificuldade o nível "brutucratizado" daquilo). Acontece que estes egoísmos nacionais também moram em Portugal. Basta lembrar, por exemplo, que temos vivido alegremente no país com o índice de desigualdade (económica, social, cultural, profissional...) mais proeminente de todo o espaço europeu e que o 25 de abril também não se fez para isso. E o que consta é que nunca nenhum dos nossos afamados governantes adormeceu pior com esta triste constatação.

terça-feira, abril 19, 2011

o político tipo do psd coelhista

É notório que Passos Coelho tem mergulhado num paulatino declínio no que diz respeito à sua mensagem política, se é que alguma vez teve alguma. Ganhou a direção do partido como uma espécie autocultivada de homem novo político, o que, nos tempos que correm, queria somente dizer que não é aldrabão. Ora, quanto a este qualificativo, estamos conversados com a história do saber/não saber atempadamente do PEC 4.
Chegou a altura das apetecíveis (apetecíveis? Que ideia obtusa, pacóvia, delirante, acusar-me-ão alguns deles) listas de deputados e, com estas, algumas (notórias, demasiadas...) recusas. A par de alguns indefetíveis como Miguel Relvas, eis que surgem algumas caras novas (novas?!... Eu?!... Incriminar-me-á o ofendido) como o senhor que se apresenta com esta prosa deliciosa em artigo no Jornal de Notícias de ontem, de seu nome Carlos Abreu Amorim, cabeça de lista por Viana do Castelo:
“O que me leva, enquanto professor em duas universidades, escrevendo regularmente em três publicações de prestígio, comentando o estado do país na televisão e tendo-me tentado afirmar por uma visão politicamente livre e desinteressada, a aceitar um convite para ser candidato a deputado nas próximas legislativas? Que razões motivarão o risco de abandonar uma posição confortável e a amena arrumação das rotinas existenciais estabilizadas em prol de uma vida de alvoroço em Lisboa, numa cidade que não é a minha, distante da família e dos amigos de sempre e irremediavelmente colocado numa perigosa fronteira com a contagiante lógica da corte cujos desmandos tanto tenho combatido em intervenções públicas?”

os outsiders

O Bloco de Esquerda e o PCP decidiram ficar de fora dos encontros que os agentes (não infiltrados) do FMI estão a desenvolver pelas várias forças políticas e instituições (bancos, sindicatos...). A razão peca pela previsibilidade patológica: são contra. Numa altura destas, é claramente um erro de político de palmatória. Não entendo como é que esta gente vem depois apontar o dedo aos abstencionistas nas (próximas?) eleições legislativas.

plafonamentos nas reformas públicas

Passos Coelho acordou hoje para a questão dos tetos nas reformas públicas. Em Espanha, diz o líder do PSD, não existe nenhuma reforma pública superior a 2500 euros. Teve de imediato a resposta do PS, numa apagadíssima segunda linha, acusando-o de querer privatizar a segurança social e implementar um regime profundamente neoliberal.
Este episódio é claramente revelador do modo como se vão desenrolar a pré-campanha e campanha eleitorais. O grau zero da clarificação política será a norma e não a execeção. Valer-nos-á, porventura, a troika para acreditarmos em alguém, em alguma coisa.

quinta-feira, abril 14, 2011

perfeita inocuidade

A ainda ministra do trabalho saiu-se hoje com esta excecional tirada: "o desemprego em Portugal tem tido aumento no último ano e não nos podemos assustar. Temos de agir e temos de encontrar soluções para apoiar o regresso das pessoas ao mercado de trabalho e é isso que estamos a fazer".
Eu não sei bem se a senhora já se deu conta que vive num tempo ligeiramente diferente do de há mais ou menos um ano, altura em que este tipo de inocuidades discursivas abraçava um país letárgico, ainda mergulhado numa esperança de acreditar no que o Governo lhe dizia. Mas agora é tudo diferente. Daí que este tipo de comunicações à Sócrates não tem, no tempo presente, razão para existir.

quarta-feira, abril 13, 2011

os puristas da linguagem

Não é novidade a crítica, por parte de alguns elementos do Governo, relativamente ao uso da linguagem que outros - a oposição - fazem. Passos Coelho quer saber a verdade, não quer "gato escondido com o rabo de fora", ou "esqueletos no armário". Silva Pereira, presunçoso, no alto do seu pendor socratino, afirmou, despeitado, que este tipo de pendor vernacular do líder do maior partido da oposição é impróprio para o momento.

o perigoso mundo de uma campanha eleitoral

Há uns meses, Passos Coelho não tinha pressa. Esperava simplesmente pelo desgaste natural de um governo liderado por um altaneiro primeiro ministro. Agora, com as inconstâncias e o vazio angustiante do predito poder a curtíssimo prazo, Passos Coelho deseja que tudo passe rápido e lhe caia nas mãos a notificação do FMI.

segunda-feira, abril 11, 2011

as primeiras damas

Anda para aí um livro intitulado Primeiras Damas (e que teve honra de noticiário televisivo, não fosse o mesmo escrito por uma jornalista da casa...) que, ao que parece, tenta escrevinhar a teoria de que as grandes mulheres andam sempre ao lado dos grandes homens (nunca atrás, diz, afetada, a autora). A par disso, a obra induz o leitor impávido e sereno no seguinte pressuposto: ser primeira-dama em Portugal é desassombradamente um cargo de muito trabalho e sacrifício. Não li o livro nem o vou ler. Mas vem este a propósito do que há muito me vem remoendo os neurónios: por que razão as primeiras damas não continuam nas suas vidinhas em vez de andarem a passear por esse mundo fora à custa do erário público? Não quero obviamente esboçar juízos de valor sobre as senhoras que ocuparam tão prestigiado e moderno cargo. Acho-as até muito simpáticas. O que eu penso é que a presidência da República não deve ser um cargo com ramificações familiares institucionalizadas.

nota: quando me insurjo contra este aprazível cargo aplico a mesma energia refutatória aos ainda não criados cargos de primeiros-cavalheiros.

nobre, o fernando e alegre, o manuel

Fernando Nobre destabilizou o PSD e o PS e restantes partidos com a aceitação de encabeçar as listas pelo círculo de Lisboa do PSD. Não haverá muito a dizer. É um homem livre e, segundo rezam as crónicas, houve uma imposição feita pelo próprio: ser indigitado para presidir à Assembleia da República. Ou seja: Nobre ficará, se o PSD de Coelho ganhar as próximas eleições legislativas, como uma espécie de vice-presidente da República. Não consigo, pois, compreender a tremenda agitação dos partidos políticos. O sr. Vitalino Canas chegou mesmo a afiançar que o cargo de Presidente do Parlamento deveria ser preenchido por alguém com (vasta) experiência de deputado. Ridículo argumento, a partir do momento de que existe a possibilidade de cidadãos independentes concorrerem ao cargo de deputados da nação. Para além disso, este ponto de vista configura uma sobranceria nada compaginável com o pressuposto de que a Assembleia da República é a casa da democracia, isto é, dos cidadãos portugueses, os quais são representados pelos deputados. Nobre almeja um dia vir a ocupar a tribuna de Belém. Está no seu direito. Por mim, acho muito bem que se sujeite a quatro anos de trabalhos esmiuçados, enquanto Presidente da Assembleia da República. O que não deve, a meu ver, é aceitar o lugar de deputado caso o PSD perca as eleições. Aí é que colocava em causa a palavra dada aos seus estupidamente desiludidos eleitores.
Um outro curioso caso nestes dias de nebulosidades políticas é o apoio aparentemente incondicionado de Manuel Alegre a José Sócrates. É certo que o poeta já desbaratou aquilo que julgava ser a sua reforma política, mais ou menos avalizada na formosa quantia de um milhão de votantes. Formosa, mas não segura, como previsivelmente se verificou no seu último teste presidencial. Convém recordar que Alegre foi sempre um opositor – feroz! – a José Sócrates, não só enquanto deputado e candidato a Presidente da República (primeira parte), mas também enquanto membro da Comissão Política Nacional do partido. Ora, a questão que se deve colocar é: o que é que mudou? A resposta antevê-se naturalmente negativa se a ligarmos ao ainda primeiro ministro. Na verdade, José Sócrates, tem sido de uma incomensurável constância no que à projeção política diz respeito. Tudo nele é previsível, como, aliás, se viu no último congresso partidário, ao esgrimir a teoria da vitimização (os outros... os outros....), acusando a oposição de ser a responsável pelo caos financeiro-económico-político que o país se encontra. Pelo contrário, quem efetivamente alterou a sua postura interventiva foi Manuel Alegre, ao sujeitar-se a uma intervenção que não foi mais do que mero alcance propagandístico, pois Manuel Alegre está para Sócrates como Maomé está para o toucinho.
E por falar em visões propagandísticas, Passos Coelho deu um grande e arriscado passo (paronímias à parte) ao convidar Nobre para número um por Lisboa. Voltamos sempre ao mesmo: mais importante do que saber quem encima uma longa lista, é conhecermos individualmente cada candidato a deputado. Não irá decerto ser Nobre ou Ferro Rodrigues (meros candidatos fantasmas) os representativos da nação socialista ou social democrata. Aqueles, na verdade, não passam de simples e confiados pontas de lança, os quais simplesmente não podem fazer mais do que prometer marcar muitos golos. Acontece que por vezes os golos não passam de desvirtuosos e desgraçados autogolos. Tal e qual como no futebol.

domingo, abril 10, 2011

os 47

Confesso que não entendi muito bem o que querem aquelas 47 personalidades que assinaram um documento visando (ou intitulado) um "compromisso nacional", que o Expresso este fim de semana publicou. Antes de mais, porque tudo aquilo me parece óbvio. Depois, eu não sei muito bem quem são os "principais partidos". Por último, em democracia, é sempre o povo, bem ou mal, quem escolhe as regras do jogo.

o ps em congresso, em matosinhos

As trompetas esganam-se de cada vez que o nome de José Sócrates é pronunciado. António Vitorino, no alto do seu palanque, que o diga. O camarada Sócrates responde, com intensidade inquiridora e lacrimejante, para as suas devotas tropas, com gestos, silêncios, nadas... Afinal, o tempo é de conluios e não há lugar para dissidentes. O congresso é um lugar de desespero, de catarses enviesadas. Sonha-se com impossibilidades: aquilo é uma impossibilidade. Os comentadores, também eles, apesar de avisados, levados pela corrente orgânica do sucesso, vão deixando a mensagem: Sócrates é mesmo um animal... terrível... feroz... político. A nação treme, pois, de medo: voltaremos a existir com Sócrates ao leme?...
A estratégia do PS para estas eleições foi definida antes do Congresso. Resume-se a uma palavra: vitimização. Neste sentido, a culpa não morreu solteira: chama-se Cavaco Silva e PSD. Dantes havia um PEC4; agora há um remodelado PEC4. Dantes não havia FMI; agora já cá mora. Por conseguinte, teremos um PS numa posição curiosíssima: a sua campanha será uma espécie de oposição às suas marcações governativas. A esquerda terá, portanto, um nome: Partido Socialista.

sexta-feira, abril 08, 2011

o 17º congresso

Entramos no fim de semana de congresso socialista. Este resultará em nada ou, quando muito, na demonstrada incapacidade do PS num ressurgimento interno. Existe ainda, no partido, ténues esperanças num Sócrates animal político. Nada mais errado. O mito de Sócrates se fechará, definitivamente para tarefas executivas públicas, dentro de dois meses.
A memória dos portugueses é, contudo, curta (tanto espanto, tanta agonia com a vinda do FMI e já vamos no terceiro resgate em trinta e tal anos de regime democrático, um verdeiro recorde!...) e existirá sempre o descansado pouso presidencial. Ressuscitará então o homem providencial, aquele que travou duras e penosas batalhas em nome de Portugal, o homem do Tratado de Lisboa, da Cimeira União Europeia-África, da exemplar e derradeira presidência portuguesa, do túnel do Marão, do TGV´s e aeroportos que outros, de visões estreitas, não quiseram. E será esta vastíssima experiência de Sócrates a base para uma candidatura.

quinta-feira, abril 07, 2011

a ajuda

Vamos ser ajudados, mas existem questões que devem ser colocadas: por que razão não foi o FMI solicitado mais cedo, em vez de percorrermos o caminho até ao precipício (tendo como princípio de que não haveria outra direção a tomar)? O que andou a fazer Cavaco Silva, mago em finananças, durante estes anos (ainda há bem pouco tempo, o atordoado Governo de Sócrates, decretou um aumento de mais de dois por cento aos funcionários públicos)? E o Banco de Portugal do sr. Constâncio? É com esta gente que contamos? Até à próxima?...

quarta-feira, abril 06, 2011

desigualdades nacionais

Vem a propósito do que aí vem, com a entrada do FMI em Portugal. Existe, no país, uma espécie de estruturação que é feita a régua e esquadro. Hoje, os noticiários contaram, quase como nota de rodapé, que o posto de correios de Torre Dona Chama encerrará num brevíssimo espaço temporal (simplex). Vi o pesar de muitos locais, alguns choros, muita indignação. "Não votaremos nas próximas eleições", ouviam-se lamuriosos tons de revolta, a maior parte gastos pelo tempo.
Na verdade, a origem da tendência dissemelhante do país encontra-se algures no tempo da nossa empreitada marítima, quando o rei não soube estruturar o território homogeneamente, aliciando mão de obra masculina para as grandes cidades marítimas (o mercantilismo reinante exigia também empregos qualificados ligados aos deves e haveres do próprio Estado, empregos que não podiam ser deslocalizados para fora da orla marítima: o futuro, o plano tecnológico de então, era o mar, os barcos, o comércio, as rotas... A agricultura começou, então, tal como agora, a volver-se num parente pobre do progresso). Desde aí, Portugal, país geograficamente reduzido (daí o paradoxo), nunca soube inverter uma situação gritante de desigualdade cada vez mais crescente a todos os níveis, acabando por ser, no início do século XXI, o país europeu com maiores índices de desigualdades.
Lastimavelmente, o Governo não consegue entender o país e, por conseguinte, é assustadoramente incapaz de perceber o interior. Na verdade, pode arquitetar de forma exemplar uma determinada narrativa aritmética, do quanto poupa ao encerrar um posto de correios ou um centro de saúde. O que não consegue é entrar na cabeça das pessoas para quem um atendimento personalizado ali perto, onde se paga a água e a luz, onde se levanta a parca reforma esticada para um demasiado longo mês, faz toda a diferença do mundo. Volto a Guterres na crítica a Cavaco Silva: os portugueses não são números.

ajuda externa

Algo está a mudar no reino da fantasia: o ministro-mor deixou de falar ao país no horário nobre dos telejornais, logo após do musicado e apelativo pórtico de entrada. Agora autoremete-se para o fundo desses espaços informativos. Afinal, as contas eleitorais também se fazem, mesmo com o FMI a mandar.

conselho de estado

A condimentar a crise política só faltava mesmo o mui nobre Conselho de Estado exercer, na praça pública das televisões, o princípio do contraditório.

os abstrativos salvadores da pátria

Ouvimos e lemos por aí os salvadores da pátria contratados (contratados é um modo disfémico de alindar a questão, pois todos sabemos que esta gente, tratando-se de temas tão nobres como, por exemplo, o país - essa realidade abstrata que tão bem os tem servido ao longo de décadas de democracia - recusam todo e qualquer pinto sonante) pelo Partido Social Democrata de Passos Coelho (na verdade, começa-se a não se vislumbrar qualquer dissemelhança de fundo entre este partido de Coelho e os que o antecederam) admitirem, de fronha fixa e aparentemente compungida que, afinal, será necessário - imprescindível mesmo! - cortar o 13º mês aos trabalhadores portugueses.
O verbo, para esta gente, revela-se fácil, resoluto e cómodo quando, lá no assento etéreo onde se encontram (convenientemente colocados pela abstrata e prestativa pátria), abordam assim sem mais nem menos estas questões económicas. Convém sempre recordar que o ordenado médio em Portugal é de, mais euro, menos euro, 750 euros, valor igualmente abstrato para os carrapatosos do regime.
O que se revelava realmente patriótico era esta gente abdicar, durante três ou quatro anos, dos seus próprios subsídios de natal, férias e prémios de gestão. O simbolismo desta decisão reforçava, no fundo, a saída do universo da abstração analítica.

terça-feira, abril 05, 2011

insanos

Melhor do que ganhar 2-1 no Estádio da Luz e comemorar aí o título de "campeon" nacional é ganhar 2-1 no Estádio da Luz, comemorar o título de campeon, desligarem a luz e acionarem o sistema de rega.

segunda-feira, abril 04, 2011

os sinais de josé sócrates

Prescindo de voltar a frisar sobre a secagem que um forte líder partidário origina no seu partido. A entrevista do primeiro ministro hoje na RTP1 ofereceu-nos uns sinais interessantes sobre a personagem. Algumas das curiosidades ligadas ao espaço interior de Sócrates já sobejamente mastigadas pelos comentadores profissionais e de serviço fez-nos o próprio o favor de as relembrar. Assim, é comummente aceite que ele não vira a cara à luta (ouço agora Maria João Avilez afirmar - sem rir - que o homem é um verdadeiro case study). Do mesmo modo, repete variadíssimas vezes que "eu já ganhei as eleições".
Estou propenso a crer que José Sócrates já se esqueceu, mas quem ganhou as eleições não foi ele, mas o Partido Socialista. Do mesmo modo, quem tomou as várias medidas de Governo não foi ele, mas o Conselho de Ministros.
Um outro ponto curioso apontado na entrevista tem a ver com o tempo antes e pós PEC. Ouvindo Sócrates, vivíamos numa espécie de oásis no tempo do antes. Para ele, a crise começou ontem.

sábado, abril 02, 2011

os partidos e as aclamações

Decorrente ainda do post anterior, o Partido Socialista prepara-se, este fim de semana, para um dos mais estúpidos e, consequentemente, inúteis congressos da sua história. Por uma simples razão: este congresso realiza-se exclusivamente para aclamação do líder. Poderia o partido, contudo, visionar o futuro com esta aglomeração de encómios. O problema é que se irá contemplar o passado. Temos, pois, neste espaço de pretensa discussão de ideias, vários cruzamentos temporais: o passado glorioso socratiano (a primeira maioria absoluta do PS - esta gente gosta deste tipo de registos, tal como os adeptos de futebol acarinham as goleadas futebolísticas dos seus clubes) exacerbadamente exaltado no presente para se despejar num futuro de pasmada oposição externa e interna. E o problema reside precisamente nesta última: inicia-se tarde demais.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...