quarta-feira, dezembro 29, 2010

debate pouco alegre

Sigo com tédio moderado o debate entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. Na verdade, a ornamentação destes debates televisivos também não ajuda para uma clarividência que se deve exigir numa campanha eleitoral.
Não é, de fato, difícil o emprego de Presidente da República, tirando alguns fins de semana preenchidos com convites folclóricos. O candidato Manuel Alegre e o candidato Cavaco Silva (gosto destas imparciais designações) não trazem nada de novo ao país. Brilhar, brilhar, só mesmo no minutito final no qual os candidatos se viram para as câmaras, ou melhor, para os putativos portugueses que os acompanham, e estrebucham o discursozito político afincadamente elaborado pelos seus assessores. Interessante será seguir agora os comentadores destrinçadores de imagéticas políticas esvoaçadas.

adenda: a ilusão desta campanha (e das outras presidencialistas) pode ser aferida numa frase de Cavaco Silva, a respeito dos pobres, desempregados, pensionistas, etc.: "para esses não pode faltar dinheiro". Se tivermos em conta os cortes nos diversos subsídios sociais e que o Presidente da República promulgou (ainda hoje a notícia do dia diz respeito ao pagamento das taxas moderadoras por todos os que ganham mais do miserável salário mínimo), este tipo de declarações confere ao cargo uma inocuidade preocupante.

terça-feira, dezembro 21, 2010

magistratura ativa

Cavaco Silva não foge à regra da projeção de um segundo mandato presidencial mais ativo. O que antigamente era cooperação estratégica passa agora para o menos português suave magistratura ativa. Deu já um atabalhoado sinal ao afirmar que estaria atento ao projeto-lei que altera, principalmente ao nível do financiamento (não é nisto que agora tudo desemboca?), a cooperação do Ministério da Educação com algumas escolas privadas. Antes, porém - e por que ainda não nos situamos temporalmente no segundo mandato -, originou mais um daqueles casos prodigiosos, reveladores do seu mainstream político: a lei do financiamento (não é nisto que tudo, hoje, desemboca?) dos partidos e campanhas eleitorais. Cavaco promulgou a lei e de imediato passou a combatê-la (curiosa ética cavaquista: a lei pode potenciar a lavagem de dinheiro, segundo as suas próprias e escritas palavras). Já assim acontera antes, com a promulgação da lei que enquadra, legitimadamente, o casamento entre homossexuais.
Veremos o que o futuro nos aguarda, nesta índole ativista do presidente.

domingo, dezembro 19, 2010

a campanha

As ideias sobre a presente pré-campanha (e a futura campanha) presidencial estão desde há muito formatadas. Todas elas vão ao encontro de uma caraterística preconceituosa da classe jornalística. O desinteresse é a nota dominante nesta gente. De uma maneira geral, os candidatos são avaliados pela espuma vaporosa das suas palavras e não pelas ideias que criticam ou que apresentam. Ou porque Fernando Nobre se apresentou exageradamente delicado para com Cavaco Silva (o último candidato a tratar grosseiramente um presidente em exercício - Basílio Horta - obteve um resultado miserável, de acordo, aliás, com a miserabilidade da sua campanha), ou porque Francisco Lopes é uma cassete comunista (esta ainda pega), ou ainda porque Manuel Alegre se agarra ao seu milhão de votos de 2006, ou porque Defensor Moura não tem ideias (crítica que é, na verdade, garantida para todos), ou ainda porque Cavaco Silva se limita a deixar escorrer, em percurso digressionista, o seu vazio ideotemático.
Eu sei que as preocupações dos portugueses nesta altura não se prendem muito com eleições, sejam presidenciais ou outras quaisquer. No entanto, seria bom que a imprensa fosse capaz de, desta vez, remar um pouco contra a maré cada vez mais afetada que teima grassar, resolutamente, na sociedade portuguesa.

cavaco e os sem abrigo

Cavaco Silva continua a sua senda demagógica a pouco mais de um mês de uma campanha eleitoral que se avizinha, apesar de tudo, fácil para a sua reeleição. Agora foi a vez dos sem abrigo, aparecendo (o verbo poderia ser outro, é verdade) num festivo casamento de alguém que foi ou ainda é um sem abrigo. As suas palavras foram ao encontro da ocasião: combate à pobreza, etc. Tudo muito encenado, tudo muito teátrico, à boa maneira de José Sócrates.

o (des)apoio de joão césar das neves

João César das Neves não apoia Cavaco Silva, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na última campanha presidencial, a cuja comissão de honra do candidato fez orgulhosamente parte. No entanto, César das Neves acrescenta que Cavaco é, de longe, o melhor dos candidatos.
É a primeira vez que vejo um candidato ser desapoiado tão pouco convincentemente. O setor católico social-democrata fica, assim, mais esclarecido sobre o seu sentido de voto.

cavaco

Cavaco tem, afinal, uma ficha na PIDE. Em 1967, preencheu um pequeno e obrigatório boletim para que lhe fosse permitido o acesso a certos documentos secretos da NATO. O opúsculo é daqueles que cheira a burocracia ditatorial. Nota-se, por parte do mais ou menos jovem Cavaco, uma formalidade igualmente burocrática no seu preenchimento. Daí que quando escreve, numa das alíneas, que se sente "integrado no atual regime político", podemos acreditar, sem qualquer esforço, que seria muito mais um ato de rigidez reflexiva do que uma mera inevitabilidade casuística. Por conseguinte, trazer à baila da campanha eleitoral achegas tão inócuas como estas parece-me pouco acertado. Até porque o 25 de abril - ou quem passou anos a lutar por ele - deve ser encarado como um movimento de génese generosa, longe de paternidades excessivamente dilatadas no tempo. Mas uma coisa é a diacronia política e outras (fazendo, embora, parte desta) são as campanhas eleitorais. Os exemplos desvirtuosos são vários. O próprio Mário Soares parece que não resistiu de apontar as virtualidades da monogamia casamenteira, dirigindo-se, obviamente, ao então seu principal rival Sá Carneiro, em situação concubinal com Snu Abecassis. Como também é seu timbre, mais tarde (muito mais tarde, quando tudo se decidira já) veio esboçar uma valorosa e arrependida mea culpa (passou-se o mesmo em relação a Freitas do Amaral, autorecriminando-se, já no alto do seu pedestal presidencial, por haver sido, na famosa campanha presidencial dos divisos 138692 votos, por vezes demasiado cruel nos ataques ao seu opositor).
Mas voltemos então a Cavaco e ao detestável boletim. O que é então pertinente naquilo? Nada mais nada menos que o insignificante campo das observações. Qualquer cidadão com alguma consciência social (Cavaco era então um ambicioso investigador universitário), não podendo prescindir da análise minuciosa desses documentos, preencheria o odioso panfleto da forma mais simplória possível, entregando-o depois aos insipientes serviços da ditadura, no caso concreto, da PIDE. Procedendo deste modo, Cavaco estaria, de certa forma, a lutar contra o statuo quo, isto é, contra o regime político (mesmo rabiscando que se encontra nele integrado). Mas o agora recandidato a presidente preferiu pincelar a coisa acrescentando, naquela delicada alínea das observâncias (não obrigatória, portanto), que não se dava com a segunda mulher do sogro.
Para mim, estas três linhas opinativas (as únicas de caráter desobrigatório) do candidato revelam muito mais da sua essência política e social do que o próprio documento. A sua justificação para isto, expressa na última semana, vem igualmente ao encontro deste ponto de vista: "não sei o que é que o regime pensava de mim nessa altura, mas tendo-me mandado para Moçambique 10 dias depois de casar, quando ainda estava em viagem de núpcias, e estando eu no terceiro ano do curso, não me tendo deixado terminar o curso, eu e a minha mulher com certeza que não pensavamos bem do regime". Sinceramente, já o vi em melhores dias. Uma vez, por exemplo, respondeu de forma admirável a uma provocação, quando lhe perguntaram onde estava em abril de 74. Disse simplesmente que se encontrava na Fonte Luminosa, a ouvir Mário Soares e outros democratas a discursarem.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

consumo a aumentar

O valor das compras e levantamentos multibancos aumentou este ano relativamente ao mesmo período do ano passado. Só nas duas semanas de dezembro, a variação foi de 7,3%. A venda de telemóveis nos primeiros 9 meses do ano foi de 4,5 milhões (!) (nos mesmos meses do ano passado, venderam-se 4,1 milhões). A Conferação de Vendas (curioso nome) considerou, recatadamente, "interessantes" os números.
Explicações: segundo os cientistas que tratam destas coisas, tudo isto se deve a uma antecipação das compras por causa do aumento do IVA logo em janeiro e também - pasme-se - a uma espécie de último relaxamento antes da crise que se avizinha.
Tudo isto é, de fato, verdadeiramente interessante.

luís amado e os voos cia

Foi interessante ver Luís Amado explicar hoje os rasantes voos da CIA sobre território português. O nosso representante máximo no estrangeiro, homem costumadamente pesado nas palavras e de compleição cuidada, ficou hoje singularmente decomposto com as perguntas efetuadas pelos jornalistas que o aguardavam à saída de um qualquer encontro. Justificou-se com uma espécie de grau zero argumentativo, claudicando amiudadas vezes nas justificações que pairavam obstinadamente na sua cabeça. Fiquei esclarecidíssimo. Melhor do que ele, só José Sócrates.

eurobond

O economiquês continua a sua senda. O tempo, agora, é de eurobonds. Sorridente, ouvimos José Sócrates, lá em Bruxelas, na terra dos eurobonds, fazer-nos descomplexadamemnte acreditar que desde há muito defende esta receita contratual entre estados membros. Parece que a Alemanha, a menos eurobondista do grupo, não quer encarrilhar nesta vereda.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

escorreitamente

Tem-se multiplicado em Portugal uma espécie de altruísmo sinalético do tipo dai de comer a quem não tem. Vemos inclusivamente um (o) Presidente da República apadrinhar uma iniciativa de um grupo de restaurantes que fazem das sobras refeições para os carenciados. É este tipo de portugalidade que eu não gosto. Cavaco espelha-o bem.

voos cia autorizados

A ser verdade a autorização em segredo dos voos da CIA com prisioneiros para Guantánamo, os dois devem apresentar de imediato a demissão (e, consequentemente, o Governo) ao Presidente da República. A mentira não deve, de fato, ser congénita no discurso político.

jardim 2

A questão em torno dos subsídios regionais açorianos em resposta aos cortes nacionais é mais de forma do que de conteúdo. Foi interessante verificar que, vendo César a aproveitar um pequeno apontamento televisivo continental, as semelhanças com Jardim são muitas. Em primeiro lugar, esta gente engorda muito. Depois, são os tiques. No Jardim da Madeira existe, todavia, a vantagem da patente. No dos Açores nota-se muito mais a anfratuosidade do discurso: um nos Açores e um outro no Continente. Alguns tolos comentadores já esboçaram voos nacionais para este. Seriam demasiados rasos.

terça-feira, dezembro 14, 2010

o portugal errático

Vejo ali na televisão António Barreto criticar, com razão, as opções de Portugal enquanto país de há 20 ou 25 anos atrás. Viviamos então envolvidos e mergulhados na onda europeia de uma espécie de refundação nacional, onde as prioridades se centravam no que era novo: autoestradas e subsídios da CEE. Deixávamos para trás importantes setores estruturais da nossa vida enquanto nação: a agricultura, o mar, as pescas. Lembro-me desses tempos. E o que me recordo é que andávamos todos embevecidos com os novos caminhos que os automóveis, impingidos cada vez mais veementemente em suaves prestações, breve e celeremente percorreriam.
Pena foi que estes visionários do passado não tivessem projetado esgares luminosos para o futuro. O futuro que, afinal, chegou neste presente.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

propagandisticamente

José Sócrates, o melhor vendedor de ilusões que o país teve a chefiar um Governo (e houve-os mais ou menos às carradas), debate no Parlamento sobre os resultados do último PISA (2009). Portugal ficou, nestes testes, pouco abaixo da média dos países intervenientes. Sócrates salienta os resultados notáveis, os quais marcam uma época no país, um antes e um depois, segundo as suas próprias e extraordinárias palavras.
Neste sentido, importa relevar o seguinte: foi a primeira vez que Portugal atingiu, de facto, estes desígnios. Daí que se afigure notavelmente incipiente este alarido à volta do programa PISA. Aliás, este exemplo adequa-se na perfeição ao que foi e continua a ser o paradigma do sistema educativo em Portugal: tudo muito avulsivo, tudo muito sincrónico, tudo muito pouco projetivo. Neste sentido, ainda havemos de ver alguma luminária proclamar Maria de Lurdes Rodrigues como o melhor ministro da educação do Portugal democrático.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

crise na justiça

É tragicamente curioso verificarmos o desenfreado mutismo do ministro Alberto Martins relativamente ao caos provocado pelas torrentosas demissões de um Secretário de Estado, de um diretor-geral da Administração, de um subdiretor-geral e de uma direção em bloco, ou seja, tudo pessoas que acompanhavam bem de perto toda a estrutura emanada pelo ministério, a qual, presumo, se enquadaria ainda no mais globalizante programa do Governo para a área.
Mas de programas governamentais estamos já há muito conversados. Na verdade, ninguém sabe muito bem, hoje me dia, o que isso é, apesar de, em áreas tão melindrosas e importantes como a Justiça, a Educação ou a Saúde, não deveria haver crise alguma que se sobrepusesse ao que fora previamente apresentado e outorgado pelos cidadãos eleitores.
Alberto Martins estará certamente à espera (como, aliás, muitos outros seus pares) que abril ou maio cheguem depressa para se ver livre da prisão em que José Sócrates o meteu.

domingo, dezembro 05, 2010

desregulações mentais

A marca de café Lavazza pagou 1,2 milhões de euros à atriz Julia Roberts para esta abrir esplenderosamente a sua boquinha e revelar a sua alva dentição. Dizem que nem precisou de se deslocar a Itália, visto que se encontrava em filmagens neste país. Daí que este trabalhinho tenha sido efetuado num dos intervalos da rodagem do filme.
Na minha humilde perspetiva, estas situações contratuais - vergonhosas - fazem também parte da chamada desregulação dos mercados. Há-as às centenas, aos milhares, com atrizes, atores, jogadores disto e daquilo, os quais sendo todos extraordinariamente bem pagos no que aos salários diz respeito, ainda penicam uns trocos a espevitadas marcas de produtos comerciais altamente globalizadas. Estas, por sua vez, tentarão sempre aproveitar-se dos incautos cidadãos (a necessidade da escola, da educação!...quão imprescindíveis!...) sempre dispostos a despender essas depenadas migalhas.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

hipocrisia política

Francisco Assis jogou aparentemente alto e excessivo com a chantagem da sua demissão de líder da bancada do grupo parlamentar do Partido Socialista, caso a maioria dos seus correligionários partidários votasse a favor da proposta do PCP, a qual preconizava a antecipação para este ano dos dividendos distribuídos pelas grandes empresas. Jogou, pois, elevado e parece que ganhou. Mas são estas pequenas vitórias da baixa política, fruto de táticas pessoais visando outras ramificações futuras, que fragilizam.
Ao mesmo tempo que Francisco Assis remetia a sua demissão para os colegas, afirmava (embora já convicto da sua vitória) que compreendia as declarações de voto por parte de alguns dos deputados socialistas. São pressupostos justificativos contraditórios e disparatados. É que não se pode ou não deve manifestar este sintoma de anuência a posteriori. Se verdadeiramente compreendesse deixava o barco correr ao sabor dos votos livres dos deputados.
A juntar a todo este circo de final de regime foram as declarações de Sócrates e Teixeira dos Santos, ao remeterem a decisão das empresas em antecipar a distribuição dos dividendos para este ano, para o domínio da moral e da ética. Como sabemos, moral e ética é coisa que sobeja nesta gente. Sempre quero ver onde parará esta dicotomia moralizadora quando se discutir a alteração para 500 euros do salário mínimo nacional. Ou (outro exemplo) a vinculação extraordinária dos professores com mais dez anos de serviço.

luís amado e os voos da cia

A situação é claríssima: Luís Amado afirmou que se demitiria se se provasse que aviões da CIA transportando prisioneiros passaram no espaço aéreo português. Sinceramente, estou em crer que não era caso para tanto empolgamento por parte do ministro dos negócios estrangeiros (os Estados Unidos passaram em todo o lado com aviões de Guantanamo). Ficou provado que isso, efetivamente, aconteceu. Não obstante, o Governo vem obstaculizar a situação com cenários que mais não fazem do que lançar poeiras de confusão analítica para cima dos portugueses incautos. Na verdade, esta não-opção de Luís Amado é simplesmente mais uma machadada no pouco crédito que este Governo tem junto dos portugueses. Por outro lado, o ministro da justiça revelou uma manifesta falta de noção do tempo certo para bater com a porta, preferindo optar pela protelação de mais uma situação entre muitas outras que trilharam este mesmo caminho.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

emprego, desemprego, demagogia

José Sócrates afirmou, desavergonhadamente, que discute somente política e não politiquice. Tudo a propósito das questões levantadas pelos jornalistas sobre uma eventual remodelação governamental (e isso não é politiquice, com toda a certeza, mas entendo por que, na sua cabeça, este assunto não valha um caracol). De seguida, ainda nesse efemeramente curto espaço temporal de glória mediática, o primeiro-ministro saiu-se, desassombrado, com um registo que merece anotação: o que interessa é devolver aos portugueses os seus empregos! Presumo que naquele ténue entendimento declarações deste tipo, as quais atingem direta ou indiretamente centenas de milhares de pessoas, não sejam consideradas de politiquice.
Politiquice é tudo aquilo que se diz e sabe-se que não se cumpre. É o que se encontra mais próximo da demagogia.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...