quinta-feira, janeiro 31, 2008

assistência médica

Retenho uma frase (de uma fina ironia) e escrevo-a sem autorização dum leitor da visão a respeito de toda a problemática que vem grassando na nossa sociedade que é o fecho das urgências e respectiva assistência médica: Problemas com assistência médica? Não tenho... Vivo no litoral, possuo seguro de saúde e um rendimento mensal superior a 10 mil euros...
Não podia o leitor da revista ser mais certeiro na análise a toda esta problemática. A nova ministra da Saúde deveria encaixilhá-la pelos menos durante uns tempos no seu gabinete.

barroso candidato a nobel da paz


O senhor que vemos na fotografia de gravata vermelha era na altura primeiro-ministro de Portugal e recebeu, extremamente vaidoso, os seus homólogos espanhol e inglês, mais o inenarrável presidente dos Estados Unidos da América, George Bush. Como sabemos, esta cimeira, apelidada por muitos como a cimeira da mentira ou dos mentirosos, originou uma das maiores catástrofes humanitárias deste início de século que é a Guerra do Iraque, onde morrem, diariamente, centenas de pessoas, entre soldados ocidentais e, principalmente, civis iraquianos. Para além disso, a intervenção levada a cabo pelo ocidente no Iraque (os quatro políticos representavam, no fundo, essa parte do mundo, numa espécie de cruzada dos tempos modernos) potenciou, de uma maneira extremamente nefasta, o terrorismo a uma escala nunca antes vista. Os atentados de Madrid e de Londres provam-no, assim como a insegurança psicológica que se vive nas grandes cidades do ocidente.
Mas nada disto parece suficiente para o desconforme José Ramos Horta, presidente de Timor-Leste, ao sugerir o agora José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, para prémio nobel da paz (convém repetir, sublinhando-o, o nome do galardão: prémio nobel da paz). Ora este disparate de Ramos Horta vem provar que nem ele, um ex-premiado, entende muito bem o que representa um galardão desse tipo. Existe, pois, nestas coisas dos nóbeis, um completo desvirtuosismo daquilo que realmente representam.
Que Ramos Horta queira retribuir um favor qualquer a Barroso (eventualmente a Portugal) é lá com ele. O que é (ainda mais) estranho é a aparente anuência por parte do comité nobel a este tipo de candidatos.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

a remodelação

O primeiro-ministro remodelou o governo. Fez bem! No entanto, poderia ter ido mais longe, com a substituição, por exemplo, da já exausta ministra da educação.
Porém, o que me deixa assombrado são estas remodelações carregadas de desproporcionados elogios aos ministros remodelados, principalmente a Correia de Campos (Isabel Pires de Lima, coitada, não foi "perdida nem achada" nos panegíricos de Sócrates). Estes ministros, convém lembrar, falharam na abordagem que fizeram às reformas que implementaram (saúde) e na tendência inquisitória das suas acções (cultura). Por isso, elevar os elogios a um ponto de não se perceber o que é que está mal é não só incorrecto como potencialmente hipócrita.

terça-feira, janeiro 29, 2008

aldeia da luz, lembram-se?

Escrevi nas páginas do Público, aquando do "afogamento" pelas águas da barragem do Alqueva da antiga Aldeia da Luz e a sua respectiva deslocalização para um outro lugar, que os habitantes da aldeia "estão a assumir um enormíssimo sacrifício em prol do desenvolvimento da sua região e, consequentemente, do seu país. Por isso, não deveria haver um único membro desta comunidade insatisfeito com a casa que lhe é oferecida." A minha carta teve até uma simpática resposta e um convite do relações públicas da empresa EDIA, SA para visitar o local, a nova aldeia e todo o espaço idílico que aí nasceria.
Ora passados mais ou menos dez anos o que se verifica, a julgar pelas declarações de Francisco Oliveira, presidente da Junta de Freguesia da Aldeia da Luz, é que os habitantes desta pequena comunidade se sentem enganados (lembro que a Aldeia da Luz teve honras de visita do Presidente da República, Jorge Sampaio). Francisco Oliveira é peremptório na resposta ao entrevistador do DN: "Prometeram-nos a construção do centro artesanal, da marina, da adega, do posto de recolha de azeitona, de o barco passar por aqui para levar e trazer pessoas. Sabe o que foi feito? Nada!"
É, pois, lastimável que a marca mais visível do governo da república, orientado pelos políticos que por lá passam (alguns de passagem para postos ora mais elevados, ora mais rentáveis) seja a de promessas não cumpridas.
Com efeito, esta deslocalização poderia ser exemplar na construção dum novo paradigma social, ecológico e habitacional para o Alentejo, até por que uma pequena aldeia construída de raiz é uma oportunidade que deveria aproveitada de forma exemplar. Convém não esquecer (e retomo o que escrevi na altura), que estas pessoas assumiram "um enormíssimo sacrifício em prol do desenvolvimento da sua região e, consequentemente, do seu país. Por isso, não deveria haver um único membro desta comunidade insatisfeito com a casa que lhe é oferecida." Deste modo, se o Presidente da Junta de Freguesia ultrapassa a sua própria individualidade ao representar toda a comunidade, temos aqui mais um caso paradigmático da relação que o Estado (prefiro dizer, os governantes) mantêm com aqueles que não têm voto... na matéria.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

os apupos vistos por Sócrates

Vem já sendo um hábito José Sócrates ser apupado por onde quer que vá em visita oficial (um bom sinal para a nossa civilidade: os políticos podem andar descansadinhos pelas praias da costa que ninguém os incomoda...). Do mesmo modo, o primeiro-ministro habitua-se à mesma desculpa: "a CGTP acha que me intimida colocando manifestantes a gritar insultos, mas comigo isso não resulta, não me deixo intimidar com este tipo de actuações". E conclui: "há 30 anos que faz as mesmas fitas, apenas para as televisões filmarem."
Duas notas apenas sobre o que Sócrates disse: o "não me intimida" e o "para as televisões filmarem". A primeira é mentira; a segunda é verdade. Eu explico: Sócrates, produto comunicacional ímpar, detesta estes improvisos televisivos. Não sabe lidar com eles porque não gosta que o contrariem. E o facto é que o primeiro-ministro recebe só o que semeia com o seu instrumento predilecto de cultivo: os holofotes.

domingo, janeiro 27, 2008

ainda antónio marinho pinto

Na sua secção "Sobe e Desce" na última página do jornal Público, vem assim escrito a propósito das acusações do bastonário da Ordem dos Advogados: António Marinho Pinto falou de corrupção e tráfico de influências envolvendo pessoas que ocupam "cargos relevantes para o Estado". Se se trata do primeiro acto de uma denúncia fundamentada, o gesto é de aplaudir e de seguir atentamente. Se ficar por aqui, o gesto é gratuito e injustificado e impróprio do bastonário dos advogados.
Afinal, o que é que se passa com a nossa classe jornalística (O DN, na edição de ontem, em editorial, aponta igualmente o dedo acusador ao bastonário, afirmando que deveria referir nomes)? A verdadeira dimensão do que Marinho Pinto revelou liga-se somente a uma verdadeira posição cívica de alguém que, mercê do cargo que ocupa, deve ter uma voz activa em parâmetros tão essenciais a um regime democrático, como são as vertentes da corrupção e da política. Compete agora a todos com responsabilidades (jornalistas incluídos) que actuem em conformidade, designadamente na área da investigação (jornalística ou penal). Até porque se virmos bem, o modo como António Marinho Pinto se referiu a estes casos não difere muito (mais no seu propósito conteudístico do que na forma como o fez, obviamente) dos eternos avisos dos vários presidentes da república nos fins de ano ou mesmo dos vários senadores da nossa república que volta e meia retomam este tipo de assuntos nas páginas dos jornais.
Só que ser bastonário da Ordem dos Advogados - um cargo com uma forte componente de intervenção cívica - é diferente do que ser senador, seja lá o que isso representa no nosso panorama socio-político. Agora o que não podem os jornais fazerem é andarem por aí a exigirem que António Marinho Pinto aponte nomes. Isso é trabalho que compete a outros. Aliás, a hipocrisia é tanta, neste caso, que ao ouvir o bastonário imediatamente se associa o nome à personagem, ou melhor, às personagens.

sábado, janeiro 26, 2008

onde pára a notícia?

Afinal, o que é que António Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, disse que mereça um destaque noticioso de primeira página? Por acaso referiu alguma coisa que se não saiba? A resposta é obviamente negativa. Com efeito, há já muitos anos que grassa na nossa pequena política (feita por gente pequena) um atitude ética simplesmente deplorável. Basta ler os jornais e verificar que o que António Marinho Pinto sublinhou não é mais do que os jornalistas vêm dizendo e apontando, com a diferença que estes fazem-no com nomes. Ferreira do Amaral e Pina Moura, por exemplo, são dois nomes que de repente sobem à superfície deste pântano. Uma coisa parece certa: é preciso moralizar isto. Por isso, a atitude do bastonário só pode merecer aplauso de todos os que lutam por um país realmente mais civilizado. E estes são, felizmente, muitos.

viver e morrer no interior do país

Não me ocorre mais nenhum título para definir o que se passou anteontem à noite numa aldeia remota do distrito de Vila Real, concelho de Alijó. Sofre-se em vida e pena-se na morte no interior deste nosso Portugal profundo.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

a tragicomedia

Vale a pena ouvir o diálogo surrealista entre uma operadora do INEM, o irmão duma vítima supostamente já falecida, um bombeiro de Favaios e um outro bombeiro de Alijó. O que se prova, com esta tragicomédia, é que certas opções políticas são tomadas sem o mínimo conhecimento da realidade do país, principalmente com aquele panorama mais esquecido que é o interior do país.

out of question, by Santana Lopes

Só mesmo Santana Lopes para produzir uma frase com todos estes "soundbytes". Até a diz em inglês, não vá alguém entendê-la. E o que é que ele diz? Que se recusa trabalhar com uma agência de comunicação, no caso em apreço com a agência Cunha Vaz & Associados, a que assessoria Menezes desde que tomou posse como presidente do partido. A julgar pelo trabalho que a agência vem desenvolvendo na cada vez mais primordial tarefa de "fazer passar a mensagem" (se repararmos bem, um dos reparos mais sonantes da nossa vida política diz respeito a esta chaga política que é a de que a mensagem não está sendo bem assimilada pelos respectivos receptores, logo, torna-se imprescindível trabalhar o locutor...), Santana Lopes fez bem em repulsar o trabalho da instituição de comunicação. E fez mais: disse, enfático, e ainda com um rasgo ânglico, que "nós aqui não precisamos de "outdoors" (lembram-se do homem na câmara de Lisboa?...). Continuamos, assim, a ter Santana Lopes no seu melhor.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

as urgências: uma proposta discriminadora

Em primeiro lugar, devo referir o que penso acerca do desempenho do ministro Correia de Campos e da lógica que está na base da sua política reformadora da saúde.
O ministro Correia de Campos não se adequa ao lugar que ocupa. Não chegam as intenções (quem as não tem?), mas (sobretudo) a capacidade de perceber o verdadeiro pulsar das populações, nomeadamente aquelas que sofrem desde há décadas (eventualmente séculos) um arrastamento cada vez mais gritante daquilo que todos nós no fundo procuramos e que se resume a uma vida cada vez mais confortável nos vários parâmetros que constituem a nossa condição de seres humanos.
Quanto à política do ministério (Sócrates bem diz que não há uma política deste ou daquele ministério, mas antes uma política do governo...), verificamos desde logo um erro de base: ela alicerça-se tendo especialmente em conta critérios macro-económicos, designadamente o tão proclamado défice económico-financeiro do país. Tudo, portanto, errado, visto que qualquer política de saúde se deve basear noutro tipo de défice que não o financeiro. Neste sentido, importa muito mais aquilo que Manuel Alegre designou (e bem) como o défice social (injustiças sociais, assimetrias regionais, índices culturais e educacionais baixos em grande parte da população do interior, etc.).
O que fazer, então? Em primeiro lugar, o ministro da saúde deve pedir a demissão do lugar que ocupa, pois não tem já capacidade de reacção (de resposta) relativamente aos milhares de pessoas que se sentem directamente atingidas com o modo patriarcalmente desajustado em que ele, nas suas incontáveis comunicações ao país ("Prós e Contras", entrevistas temáticas, entrevistas de rua...) tenta, exauridamente, sublinhar que todo este árduo trabalho constitui-se exclusivamente com o propósito de oferecer às pessoas (a estas mesmas pessoas que não o entendem) o que elas até aqui nunca tiveram: um sistema de saúde condigno com as suas necessidades.
O segundo passo a dar é também muito simples e baseia-se na tão proclamada discriminação positiva. Com efeito, esta expressão não se deve ligar exclusivamente a eventuais benefícios fiscais (a empresas ou mesmo a pessoas) direccionadas para certas regiões mais desajustadas com o todo nacional. Pelo contrário, a discriminação positiva deverá englobar tudo o que diz respeito à vida das pessoas, principalmente daquelas que mais necessitam: saúde, educação, estradas, tecnologia, etc.
Assim, em todos os concelhos, principalmente os que se localizam no interior (os outros, situados em regiões mais desenvolvidas, têm por perto hospitais com valências mais completas), deveria existir, 24 horas por dia, um serviço de urgência básica, com capacidade de diagnóstico célere e capaz de efectuar pequenas cirurgias (e por que não radiologia e análise), composto por médicos (um ou dois em permanência) e enfermeiros (um ou dois em permanência). É evidente que muitas das noites destes profissionais de saúde seriam passadas a jogar às cartas ou a ver televisão. E ainda bem! Toda a gente gosta de ver os carros dos bombeiros bem estacionadinhos lá nas garagens, não é verdade?
O que realmente ninguém deveria ter orgulho é na política que este ministro da saúde está a desenvolver e que afecta lamentável e vergonhosamente todas aquelas pessoas que, devido a factores vários, muito precisam de alguém que as acompanhe, seja médico ou amigo. Mas se puder ser médico e amigo, melhor ainda.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes na edição do dia 31 de janeiro de 2008)

terça-feira, janeiro 22, 2008

governo sabia há muito dos estudos do aeroporto

Eu ouvi e vi o presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) afirmar que o primeiro ministro sabia desde 19 de dezembro que o campo de tiro de Alcochete era a melhor localização para o futuro aeroporto de Lisboa, segundo o estudo apresentado (e explicado) numa reunião em que também participaram o ministro das Obras Públicas e o ministro da Presidência, Pedro da Silva Pereira. Vi e ouvi o presidente do LNEC afiançar que Mário Lino conhecia as conclusões do estudo "muito antes" desta data ("desde o início de dezembro"). Mas também vi e ouvi José Sócrates e Mário Lino, em janeiro, assegurarem que estavam à espera do estudo do LNEC para se pronunciarem sobre a localização do novo aeroporto.
É, pois, neste permanente festival idiossincrático que vivemos, em que a mentira convive de paredes meias com a hipocrisia, e a hipocrisia enlaça-se imperecivelmente com uma parlapatice sonsa e pacóvia.

(publicado no jornal Expresso na edição do dia 26/janeiro/2008)

antónio nunes no parlamento

A recente visita de António Nunes, o inspector-geral da ASAE, ao Parlamento para "explicar aos deputados" os eventuais excessos persecutórios deste agrupamento de inspecção das actividades económicas (pelo sentido da sigla se nota que o termo polícia é completamente desajustado nos seus pressupostos de acção) revelou uma personagem sem surpresas. António Nunes começou por sublinhar que as suas declarações anteriores (que avisavam que metade dos restaurantes e cafés "estão condenados a fechar", segundo o semanário Sol) foram mal interpretadas e compreendidas (por sua incapacidade, referiu, como aliás, convém a um inspector-geral). Afinal, o homem quis simplesmente dizer o seguinte: "cinquenta por cento da restauração precisava de modernizar-se, adaptar-se" (DN). Esclarecido este importante ponto de reunião, António Nunes invocou ainda, de forma tão natural como quem bebeu de seguida um gole da água que assentava no seu copo, Bruxelas e a Europa e, qual um mágico a sacar da cartola o respectivo coelhito, tirou da algibeira umas fotografias degradantíssimas, com ratos, bolor, sujidade, baratas, aranhas e teias, onde a cor dominante era invariavelmente o branco sujo e o castanho besuntoso.
Por estas e por outras, estou propenso a crer que este sr. António Nunes ainda nos vai dar muitas alegrias.

debate pros e contras e o fumo do tabaco

O debate ontem realizado na RTP no âmbito do programa "Prós e Contras" sobre a nova lei que impõe regras apertadas aos fumadores chegou a ser patético na argumentação de alguns intervenientes (o Sr. Dr. Sabe quantas partículas o monóxido de carbono?...; a lei trezentos e setenta e três barra 98 na alínea h no parágrafo cinco está de acordo com a trezentos e quarenta e tal barra sete alínea não sei quantas...; responda-me sr. Dr., responda-me...; é o que a Europa está a fazer... a Bélgica começou... A Irlanda... etc. etc.).
São pois destes esclarecidos que a agora polícia de intervenção (ASAE, leia-se) gosta, muito especialmente o seu extraordinário chefe António Nunes.
Com efeito, bom senso e menos armalhanço (desculpem-se popularismo vernacular) seriam necessários para que o legislador, essa figura abstracta mas que é invocada como se do sr. Silva se tratasse, não fosse conduzido para uma panóplia extremada de números em nome dos bons interesses europeus.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

optimismo e recessão para 2008

Fico contente que o nosso governo seja o único da zona euro a acreditar na viabilidade económica do ano que agora se iniciou. No entanto, esta boa fé (será disso que se trata?) deixa-me também apreensivo: o que virá aí para o governo ser tão assertivo nas suas previsões, ao mesmo tempo, por exemplo, que o preço do barril de petróleo sobe a preços inimagináveis até há bem pouco tempo?!... Temo, portanto, que 2008 continue na senda dos cortes a régua e esquadra, com um enfoque prioritário na saúde e na educação.

domingo, janeiro 20, 2008

o expresso e rui rio

Confesso que ando confuso. Abro a última edição do Expresso (20 de Janeiro, p. 8) e, curioso, inicio a leitura da entrevista a Rui Rio. Primeira pergunta (pertinente) de Ricardo Jorge Pinto: "Na semana em que Luís Filipe Menezes desafiou os militantes descontentes com a sua liderança do PSD a dara cara, que avaliação faz da prestação do novo presidente do partido?" Resposta pronta do entrevistado: "Tal como combinado,esta entrevista é sobre o Porto, pelo que não irei fazer qualquer comentário sobre a vida intena do PSD."
Ando mesmo confuso... A expressão "tal como o combinado" massacra-me os neurónios por não se adequar a um jornal que recentemente recusou um panfleto publicitário que não era mais do que um panegírico às supostas virtudes humanas do presidente da Líbia, Muammar Kadafi. Chegámos, portanto, a um ponto jornalístico em que o que era condenável no tempo da censura do Estado Novo é agora democraticamente aceite por um jornal que se orgulha (louvavelmente) de ter nascido antes do 25 de Abril e de ter ajudado a combater a falta de liberdade de expressão na sociedade de então e de que os jornais eram os principais alvos.
Por isso, não consigo entender como é que o Expresso aceita, numa entrevista, ser previamente regido (pois é disso que se trata) por Rui Rio (ou por qualquer outro), precisamente um dos políticos que representa um dos paradigmas mais evidentes da nossa política caseira: uma incapacidade gritante de diálogo, de ouvir com boa fé os interlocutores e (em particular) de ser uma espécie de tiranete na cidade do Porto. São, pois, os sinais do tempo em que vivemos. Só não me agrada que o Expresso tire bilhete de primeira fila.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

os milhões de teixeira pinto

É daquelas notícias que o resumo da primeira página diz tudo. Paulo Teixeira Pinto, que trabalhou doze anos no BCP, sai com uma reforma vitalícia de 35 mil euros por mês (14 meses ao ano). Do mesmo modo, também não há muito a dizer sobre isto tudo. O problema é que olhamos para o lado e o cenário também não difere muito. Lembro-me, por exemplo, das reformas (correspondentes a pouquíssimos anos de trabalho) majestáticas dos presidentes da Caixa Geral de Depósitos.
Coloca-se, assim, uma questão que urge dar resposta: o que é que o cidadão comum, aquele que se péla para pagar os juros mensais do seu empréstimo à habitação, pode fazer? Penso sinceramente que se poderia fazer alguma coisa se eventualmente existisse uma dinâmica nacional com intuitos de uma maior justiça (ou equilíbrio) social. Pela minha parte, vou dar baixa da minha conta no millennium bcp.
(nota última: afinal, quem é que anda para aí a falar do Armando Vara?!...É só tentar descobrir as diferenças...).

quinta-feira, janeiro 17, 2008

os cargos e os boys

Medeiros Ferreira escreve hoje no Bicho Carpinteiro: "No início dos anos noventa António Guterres convidou-me para um cargo em Bruxelas. Perante algumas reticências que lhe estava a colocar respondeu-me com o fundo da questão«Medeiros, repara que é o melhor cargo que eu, como líder da Oposição, posso oferecer a alguém»". Conclui depois, pacoviamente, que "O resto da história já não interessa".
Ora é precisamente "o resto da história" que interessa. De qualquer modo, o que este exemplo mais uma vez traz ao cimo desta pirâmide cada vez mais ascensional é a facilidade com que estas pessoas põem e dispõem de lugares ora deixados vagos por uns, ora criados especialmente para outros. Convém notar que foi Guterres o autor da célebre frase "no jobs for the boys". Entretanto... mudou alguma coisa?...

portugal ontem e hoje

A excelente reportagem de Filipe Santos Costa na revista Única 1837 (12 Janeiro 2008, pp. 46-54), salpicada aqui e ali por comentários exegéticos de Rui Ramos e Maria Filomena Mónica, merece ser atentamente lida. O focus analítico tem a ver com as grandes obras públicas do regime: a linha de caminho de ferro de meados da centúria de oitocentos; o TGV e a o aeroporto no início deste século. Na altura, como agora, o argumentário tanto a favor como contra é demasiado espelhante.

terça-feira, janeiro 15, 2008

filipe menezes quer mais contraditório nas televisões

Filipes Menezes defendeu, no encerramento da jornadas parlamentares do PSD, que as televisões (públicas e privadas) deveriam seguir uma linha editorial que permitisse, nos programas cuja génese é o comentário político, a assunção de uma maior representatividade partidária. Começou depois a projectar o desenho desses mesmos programas. Só que o mundo para o sr. Luís Filipe Menezes (o mundo partidário) esgota-se em dois partidos - o PS e o PSD - remetendo os restantes para o limbo do nosso regime parlamentar. Assim, o programa da SIC notícias "Quadratura do Círculo" deveria ser enquadrado com mais um político da área do PSD (visto que o Pacheco Pereira é uma espécie de social democrata desprogramado) e o comentário político na RTP teria que abarcar, por exemplo, o António José Seguro, do PS.
Curiosamente, Filipe Menezes já se tinha insurgido contra a uma eventual falha por parte do PS relativamente a um famoso e exteriorizado acordo de partidos, o qual permite uma rotatividade nos postos de gestão empresarial. Agora, o envolvimento protestativo vai direitinho para as televisões.
Entretanto, Sócrates e o PS agradecem e podem dormir sossegados.

autarcas do oeste reclamam investimentos

E lá vai o governo, em nome do justo equilíbrio de desenvolvimento nacional, ressarcir os autarcas do oeste pelos prejuízos que tiveram nestes últimos anos com a não concretização daquilo que almejavam há mais de uma década: a construção do aeroporto. Posto isto, estes senhores acham-se no direito de exigir "um pacote para minimizar todos os prejuízos nas diversas áreas, como a saúde e o ensino" (Carlos Lourenço, presidente da Associação de Municípios do Oeste), pois o "Oeste ficou mais uma vez esquecido" e urge agora "negociar com os diversos ministérios" para encontrar medidas que compensem a população e empresários da região, concretamente "no desenvolvimento de acessibilidades para o novo aeroporto".
Ora não parece que esta região do Oeste seja das mais esquecidas do país. Basta olhar para os principais quadros de desenvolvimento regional do Instituto Nacional de Estatística para verificarmos, sem grande esforço de compreensão, que o país sofre efectivamente de graves assimetrias regionais e que a região do oeste está entre as que melhor se inserem numa lógica de desenvolvimento sustentado. Basta ser uma região litoralizada. Por isso, estes senhores autarcas não devem comportar-se como merceeiros, optando por uma visão completamente distorcida do que é um verdadeiro desenvolvimento nacional sustentado.
Por outro lado, o governo deve, de uma vez por todas, olhar para aquelas regiões que, apesar de não decidirem eleições, sofrem diariamente os agravamentos de décadas de um investimento desigual no todo nacional.

os disparates de augusto santos silva

É para isso que serve um ministro dos Assuntos Parlamentares? Augusto Santos Silva não deve andar por aí a disparar absurdamente com o sentido de mover a atenção das pessoas para assuntos que não têm agendamento político. Ainda por cima, imiscuir-se numa reunião do grupo parlamentar do PSD com o apatetado argumento de que o ex-ministro Bagão Félix vai proferir uma "espécie de comício de encerramento" da sua lista ao Banco Comercial Português é de uma insanidade política muito grande. Para que serve um Ministro dos Assuntos Parlamentares?

segunda-feira, janeiro 14, 2008

a campanha do psd para o bcp vista por augusto santos silva

Parece que o ministro Augusto Santos Silva anda por aí a bradar que nunca se viu tamanha indecência no que diz respeito à intromissão dos partidos na economia privada. Tudo por causa dos futuros orgãos que presidirão ao maior banco privado português. Fá-lo deste modo conclusivo: «nunca antes se vira na democracia portuguesa o facto insólito de um partido, neste caso o PSD, decidir fazer campanha por uma das listas concorrentes a um banco privado». Continua: «O PS pede ao PSD que, de uma vez por todas, acabe com esse tipo de comportamento, porque o destino de uma direcção de uma instituição financeira privada apenas compete aos seus accionistas, e não a partidos ou outras associações políticas».
A pergunta (muito ingénua) que eu coloco é a seguinte: mas não foi o tão proclamado acordo de cavalheiros (de partidos) que está na base de uma espécie de rotatividade entre os dois partidos de governo para o preenchimento deste tipo de altos cargos de gestão? Não se designará este tipo de comportamento como hipocrisia política?

domingo, janeiro 13, 2008

reclusos defecam em baldes

A minha primeira emoção, quando li hoje a primeira página do Público foi de regozijo por vivermos num regime que permite aos jornalistas publicar, sem medo de censura prévia, o que de facto eles entendem que deve ser dado a conhecer aos seus leitores em particular e ao país em geral. O segundo momento de perturbação emocional foi de revolta para com o país em que vivemos e (principalmente) para com os políticos que ao longo destes trinta e tal anos nos têm vindo a governar. Como é possível que 656 celas ainda tenham, como retrete, um balde? Devo notar que o emprego do advérbio seria igualmente chocante há 50 anos atrás. Mas nesse tempo o regime era outro e os presos nem sequer contavam na contabilidade oficial (o Tarrafal era bem pior, sempre se poderia ajuizar...).
Posto isto, o ministro Alberto Costa, o que tutela a justiça (sem ironia...) e, por arrastamento, o governo de que faz parte, iludiram mais uma vez os eleitores no incumprimento de mais uma promessa: balizaram temporalmente a terminação desta vergonha para o final de 2007. O gabinete de Alberto Costa defende-se que das 656 celas ainda sem sanitários, 253 estão "em fase de execução", outras já foram adjudicadas e que nas restantes o projecto está "em curso". Vale a pena dizer mais?

(publicado no jornal Público em 15/01/2008)

sábado, janeiro 12, 2008

asae e o treino paramilitar

Uma coisa parece certa: se a ASAE não existisse o país não conheceria o seu extraordinário inspector-chefe António Nunes que, além de fumar em casinos nas primeira horas da sua proibição, de proferir frases como "se não quisermos viver nesta sociedade, podemos sempre emigrar", sustenta agora a necessidade de equipar o seus polícias com treinos ministrados pelas forças de intervenção americana SWAT. Deste modo, os futuros agentes da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica podem sempre ser coerentes com a vestimenta preta e gorro da mesma cor com que se transvertem e partir para uma fiscalização das feiras, restaurantes (fumos, alimentos, higiene), praias e as bolas de berlim, das colheres de pau e do arroz de cabidela, dos copos bem lavados e sem mácula de vestígios microbióticos, mais musculada. Perante isto, quem será o tolo que se arriscará a acender um cigarro sem ter a certeza absoluta que está dentro da completíssima legalidade? Ainda vamos ver restaurantes a servir um arroz de forno em catacumbas fortemente vigiadas do exterior por umas insuspeitas microcâmaras. Repito: o que o país perdia sem este sr. António Nunes...

(publicado no jornal Expresso no dia 19/01/2008)

sexta-feira, janeiro 11, 2008

júdice e o país normal

Um breve comentário ao último artigo de opinião de José Miguel Júdice no Público. Ele defende que "num país normal" seria motivo de "regozijo e de aplauso" o facto do défice orçamental ter descido significativamente ao ponto de ser o menor dos últimos anos, quiçá "das últimas décadas".
Não sei sinceramente qual conceito que o ilustre advogado tem de um "país normal". O meu é - estou certo - diferente do dele, pois passa muito menos por défices orçamentais e mais pelo combate efectivo aos preocupantes focos de pobreza (sejam eles encapotados ou explícitos) que têm vindo a grassar um pouco por todo o território nacional, e que medidas como o encerramento quase paranóico de serviços de saúde em zonas tradicionalmente desprotegidas são mais um índice que ajuda sem dúvida a combater "esse tal de défice orçamental", mas que originam que este pequeno território de 92 000 quilómetros quadrados se torne uma variante caricatural e grotesca do fundamento regimental do Partido Comunista Chinês, um país, dois sistemas. Poderíamos então afirmar: dois países, um sistema.

(publicado no jornal Público em 14/01/2008)

quinta-feira, janeiro 10, 2008

afinal é em alcochete

O novo aeroporto de Lisboa vai ser construído, afinal, na margem sul. Ver e ouvir agora as declarações do ministro Mário Lino (e, já agora, de Almeida Santos, com a tese da dinamitação das pontes) não deixa de constituir um facto relevante para o anedotário político nacional. O último fragmento satírico de autoria ministerial deste calibre deu-se com Carlos Borrego com a famosa anedota do teor de alumínio no sangue e com pessoas a morrer. Foi, por isso, despedido. A questão, agora, é idêntica. Ninguém, neste momento, pode levar a sério Mário Lino. Bastava, aliás, olhar para a expressão do seu rosto aquando da conferência de imprensa toda a cargo de José Sócrates (pior a emenda que o soneto) para notarmos que o homem é já uma barcaça completamente à deriva. Sócrates não o convidou a apresentar a demissão ou não a aceitou. Fez mal. É que nestas coisas quem costuma pagar é o chefe, e o chefe é aquele que sai em primeiro lugar pela porta, mesmo que nos tenhamos momentaneamente esquecido obrigando-nos a recuar atabalhoadamente um ou dois passos como fez, envergonhadamente, Mário Lino.
São, simplesmente, sinais.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

o povo ordena?

Afinal, o povo sempre mais ordena e esta verdade tão intemporalmente revolucionária vem agora outra vez ao cimo da pirâmide social com a rejeição, por parte dos líderes europeus (até ver...), do referendo ao Tratado de Lisboa. Ficámos no entanto a saber que foi a "ética da responsabilidade" (Sócrates dixit) que fez com que o governo português rejeitasse liminarmente a consulta popular. O problema é que neste pressuposto se cruzam várias responsabilidades: a de hoje (rejeição) e a de ontem (programa do governo que "impõe" o referendo). Em que ficamos?

estudos e pareceres no governo regional da madeira

Estou em crer que as ilegalidades que o Tribunal de Contas detectou nos gastos que o Governo Regional da Madeira relativamente a pareceres e estudos técnicos têm um âmbito acusatório muito mais alargado, designadamente no que concerne aos diversos ministérios do governo da República. No entanto, há aspectos que devem ser considerados no âmbito destes pareceres a cargo do executivo de Alberto João Jardim.
Um deles tem a ver com o pagamento de 114 mil euros ao deputado Guilherme Silva durante ano de 2006 pelos seus serviços forenses. Há, desde logo, uma incompatibilidade ética na contratação directa (uma adjudicação que ocorreu a posteriori, segundo o DN) de Guilherme Silva e que se liga ao facto de ser um deputado eleito pela lista madeirense e uma espécie de apóstolo da mensagem evangelizadora do chefe da tribo madeirense.
De uma vez por todas, o regime tem de se auto-purgar deste tipo de ameaças à sua própria sustentabilidade democrática e moralizadora.

correia de campos e maria de lurdes rodrigues: os ministros sintomatológicos

Segunda feira, no programa da RTP Prós e Contras, o ministro da saúde Correia de Campos, ocorreu várias vezes ao impetuoso imperativo "cale-se" para que o seu opositor no debate o deixasse desenvolver o seu raciocínio. Na Assembleia da República, no dia 8 de Janeiro, a extraordinária ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, acusou os deputados de "má-criação" (vide DN), ameaçando algumas vezes que abandonaria os trabalhos se as interpelações dos deputados continuassem.
Estes episódios, caricatos, são, no entanto, sintomatológicos sobre a áurea psíquica que paira no interior do executivo. Convém lembrar (sempre) a estes ministros que o facto de ocuparem estes cargos com maioria absoluta não os promove de maneira nenhuma a uma espécie de cidadãos intocáveis no que diz respeito à sua suposta sapiência. Por outro lado, estes ministros, notoriamente marcados pela opinião pública (custou, no caso da Maria de Lurdes Rodrigues), têm de se consciencializar que a pressão que sobre eles recai é o resultado de vivermos há mais de trinta anos num regime que se quer cada vez mais democrático. Ora o aprofundamento da democracia só se faz com a intervenção cada vez mais activa (ou proactiva, vocábulo muito em voga) dos cidadãos e do desenvolvimento de espaços comunicacionais cada vez mais orientado para o contraditório. Por isso, saber viver sob a pressão de uma demissão iminente é também sintoma da boa assunção de princípios civilizacionais pertinentes (aos ditadores, por exemplo, estes princípios não se ajustam). Deste modo, a sintomatologia destes ministros é também um sinal evidente que o executivo no seu todo não se adapta a critérios que em democracia são tão naturais como o ar que respiramos.
Só falta ouvirmos da boca de Cavaco Silva a acusação (implícita, como convém) que vivemos numa espécie de ditadura da maioria (ou a fomentação dos famosos tiques ditatoriais).

terça-feira, janeiro 08, 2008

entrevista de miguel relvas

Há personagens que pelo seu carácter inócuo, seguidista, se tornam autênticas caricaturas. É o caso de Miguel Relvas, deputado do PSD que, ao que parece, ficou entusiasmadíssimo com um recente jantar que Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, promoveu. Diz Relvas (DN) que tem "muito orgulho em que o Dr. [é patético estes insistentes drs.] Durão Barroso tenha sido presidente do PSD, tenha sido primeiro-ministro e seja hoje presidente da Comissão Europeia." Ora o orgulho de Miguel Relvas é simplesmente patético, saloio. Orgulho de Durão Barroso primeiro ministro? O homem debandou a tratar da vidinha depois de ter jurado ("cumprir solenemente", conforme consta no livrinho de aceitação ao cargo de primeiro-ministro) o mandato para o qual foi eleito! Entusiasmado, Relvas anda tem tempo para criticar em abstrato aqueles que não conferem a Barroso um estatuto que ele efectivamente não tem. E fá-lo provincianamente: "Portugal paga caro por não saber valorizar bem os seus melhores protagonistas. O dr. Durão Barroso é uma mais-valia para Portugal." Depois, claro, entrevê Belém: "Se um dia o dr. Durão Barroso for candidato, estarei lá a apoiá-lo. Isso é evidente."
Claro que é evidente, sr. Relvas. Mas alguém duvidaria disso?!...

segunda-feira, janeiro 07, 2008

paulo pedroso e a indemnização do estado

Que Paulo Pedroso se sinta no direito de ser indemnizado pelo Estado relativamente aos quatro meses e meio em que esteve preso, não é nada que seja motivo de espanto comunicacional. Agora pedir para ser ressarcido em 800 mil euros (TSF) é qualquer coisa que já ultrapassa os limites do que se afigura razoável. Convém não esquecer que este mesmo Estado agora condenado por Pedroso o colocou empregado (e é dum emprego que se trata) na Roménia para assessorar o governo deste país na preparação do processo de certificação para a gestão de fundos comunitários e no desenvolvimento da política de emprego romena. Com efeito, nem todos arranjam empregos com nomes assim tão compridos...
De qualquer modo, isto é um claro sinal para os outros arguidos. Vamos ainda boquiabertos verificar os números à direita que por exemplo Carlos Cruz vai reclamar no seu extensivíssimo processo. Mas a culpa não é naturalmente deles. Quem não faria o mesmo?!...

quénia


Esta é uma imagem que dispensa muitas palavras. Diz respeito à distribuição de alimentos no Quénia. Todas estas pessoas têm fome e esperam, de braços no ar, que alguém em cima de um camião atire uma quantidade determinada de um qualquer pacote alimentar que lhes permita não repetir esta cena por mais uns dias.
Entretanto, os líderes deste país - os que governam e os que se encontram na oposição -, discutem sobre qual deles ganhou as eleições que ocorreram no dia 27 de dezembro!...

domingo, janeiro 06, 2008

paulo portas como líder da oposição

Paulo Portas tem, neste estado deplorável em que se encontra o maior partido da oposição, uma oportunidade única de resplandecer. Ouvi as suas críticas a Vítor Constâncio e que me pareceram oportuníssimas, designadamente quando lembrou que a principal função do Governador do Banco de Portugal hoje em dia não é zelar pela moeda (o escudo há já muito que não existe), mas observar atentamente o bom estado das finanças públicas e também dos bancos comerciais que fazem parte do quadro financeiro do país.
É preciso, com efeito, sair deste adormecimento social em que nos encontramos. Não podemos deixar de nos indignar com aspectos que são altamente reprováveis. E este Paulo Portas, mais jornalista que político pode, com efeito, representar uma mais valia para que isto comece objectivamente a sair dum limbo moralmente pouco edificante.

vitor constâncio e antónio nunes: veja as diferenças

Há empregos (perdão, "jobs") que pela sua própria singularidade profissional recaem sobre eles limitações várias (social, profissional, moral...). Por exemplo, um polícia sistematicamente bêbado é mais criticável (e perigoso) do que um carpinteiro com o mesmo vício. Tudo porque a sua profissão adquire exigências sociais (honra, dignidade, exemplaridade...) que são, no fundo, a base da sua conduta profissional e social.
Ora com cargos como Presidente do Banco de Portugal ou o chefe da polícia ASAE passa-se exactamente o mesmo. Convém lembrar que não basta aparecer de vez em quando na televisão, com ar sério e imaculado e dizer duas ou três banalidades para que o cargo se preencha com a qualidade exigida. Tanto Vítor Constâncio como António Nunes têm obrigações acrescidas, tanto sociais como profissionalmente. Por isso ganham muito mais dinheiro que a maioria dos cidadãos e também por isso não concorreram a estes cargos, limitando-se simplesmente a aceitá-los. Deste modo, quando falham nos seus postos relevantíssimos, não existem muitas escapatórias. São os infortúnios destes cargos. Outros existem em que a margem de erro será mais dilatada, pois a responsabilidade é muito menor.
Por tudo isto, tanto António Nunes como Vítor Constâncio não têm opções que não seja a de apresentar o pedido de demissão. Aquele porque foi apanhado a fumar (onde nós chegámos) e este porque acordou tarde e a más horas dos descalabros do Banco Comercial Português. Parece pouco mas na verdade não o é. Tudo em nome de uma ética profissional e republicana. É que são cargos de nomeação política, convém sempre relembrar.
Mas estou em crer que nada disso se vai passar. O que aconteceu com aquela senhora directora da DREN que processou por difamação um colega seu e que o inquérito arquivou revela bem o estado de impunidade mental desta gente.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Dakar cancelado


O que mais preocupa na decisão da organização francesa em cancelar o rali Lisboa-Dakar tem a ver com a efectiva emergência do terrorismo, ao ponto de no dia anterior da primeira etapa de uma prova que possui uma logística espectacular, a organização tomar uma decisão aparentemente inesperada. E o terrorismo é mesmo isto: a consciente ilusão de uma segurança que o medo vai intermitentemente alimentando, por mais paradoxal que tudo isto possa parecer.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

a mensagem do presidente e a sua recepção

Não se compreende muito bem a recepção da mensagem de final de ano do Presidente da República por parte dos diversos partidos políticos. O Bloco de Esquerda e o PCP aplaudem mas defendem que o presidente poderia ter ido mais longe, o CDS louva, o PSD (ainda estamos à espera se o deveremos denominar de PPD-PSD) diz que não comenta (mas lá vai elogiando). Finalmente, o PS é o mais exaltante nas virtudes comunicacionais de Cavaco.
Posto isto, torna-se legítimo questionar onde é que reside o erro: no contexto verbal pouco claro do Presidente da República ou na derivação de pressupostos linguísticos abusivos por parte dos demais partidos? Seja como for, não tenho dúvidas que as mensagens dos presidentes da república nos finais de ano davam um sério case study.

noite de fim de ano na rtp (nas outras estações não sei sinceramente do que se tratava...)

Passei de relance os olhos pela tão anunciada noite de fim de ano da rtp. Os meios envolventes (técnicos, luzes, som, camiões, etc.), os "gatos", milhares de pessoas, etc., etc., etc. Não é meu costume criticar opções que dizem respeito à vida individual de cada um e também o não vou fazer agora. Mas posso esboçar o meu parecer em relação ao posicionamento panorâmico do programa. E o que eu vi (confesso que de relance) foi os artistas preenchendo o palco com o seu número e com uma garrafa de vinho espumante cada, umas dezenas de mesa naquilo que se poderia apelidar de plateia as quais também se encontravam bem apetrechadas quanto a bebidas (e vi umas caras conhecidas e alguns miúdos que presumo que sejam filhos dessas caras conhecidas, todas da rtp) e à volta, cantando e andando, alegretes, aquela massa anónima que pagou dez euros cada para abrilhantar com os seus aplausos e assobios a festa! Assobiaram, aplaudiram, berraram e não beberam!
(nota: a receita do espectáculo reverteu integralmente para o Serviço de Pediatria do Instituto Português de Oncologia, o que dignifica sobremaneira a rtp)

a mensagem de cavaco e os ordenados dos gestores

O que deu brado na mensagem do Presidente da República foi a referência aos ordenados excessivos dos muitos gestores, directores, presidentes de empresas que por aí pululam de empresa em empresa. Ora o que é curioso verificar, no meio de tudo isto, é que quem critica o presidente de demagogia (embora ressalvando que é um tipo de demagogia crente...) é precisamente quem aufere ordenados de milhares e milhares de euros ora comentando aqui, ora escrevendo ali, ora ainda aparecendo como convidado não sei mais onde. E concluem com o argumento (e este nem se atrevem a adjectivá-lo de demagógico): o que está em causa não é o ordenado dos gestores; o que realmente interessa é o ordenado dos trabalhadores que é muito baixo. Pois é, mas acontece que a disparidade entre os chamados gestores de topo e os trabalhadores (que são, no fundo, a classe média) é cada vez maior. E isto resulta que a chamada classe média em Portugal se encontra cada vez mas estagnada, mais pobre e a classe socialmente rica vai gozando cada vez com maior ímpeto o usufruto dos seus rendimentos. No meio de tudo isto, parece que muitos não querem compreender que um país só é verdadeiramente civilizado quando o todo se situa em patamares de desenvolvimento os mais homogéneos possíveis. Ora assim, com o empobrecimento da classe média, não vamos lá.
Uma analogia com este tema é o que se passa com o encerramento das maternidades e urgências nas zonas mais desfavorecidas do país. Estas também tendem, com estas resoluções, a ficar cada vez mais pobres. Por outro lado, as outras (as capitais de distrito), já de si com um capital de riqueza naturalmente acrescido, vêem-se com valências que até nem solicitaram.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...