terça-feira, julho 24, 2012

convento de santa clara

Conheço o Convento de Santa Clara, em Vila do Conde, só de o ver passar, na estrada. Sei, no entanto, que o Convento de Santa Clara é sinónimo de Vila do Conde, sendo o contrário igualmente verdadeiro. Na televisão, passou hoje uma reportagem que mostrou a extrema degradação deste património nacional, com mais de 250 anos. Olho para as baixas de algumas cidades, entre as quais o Porto, património mundial, e o que vejo é vergonhoso. Do mesmo modo, as autoestradas são do melhor que há: rápidas, confortáveis, desertas... Não sei nada de finanças (mas Jesus Cristo também não, segundo Pessoa). No entanto, não andarei muito longe da verdade se afirmar que a muito desnecessária autoestrada transmontana (e um exemplo basta, havendo muitos mais) daria para requalificar muitos Conventos de Santa Clara. É que quando se fala de turismo é precisamente disto que se trata. Só não vê quem não quer. Ou quem é muito burro. Ou quem tem um ego desmesurado.

o jardim da madeira

Pelo que se tem visto por aí, com o Miguel Relvas a comandar as tropas da comunicação social e a figurar-se como um não assunto para Passos Coelho, confesso que o sr. Alberto João Jardim começava a entrar-me no... digamos... no goto. É evidente que a chalaça sobre a licenciatura do ministro adjunto, em que exteriorizou a sua pretensão de solicitar, às respetivas universidades, quatro ou cinco cursos superiores, entre os quais astronomia, ajudou para que o homem, neste cansado estio, conseguisse escalar umas décimas de agrado na minha difícil classe de simpatia. Acontece que hoje, instigado por uns jornalistas por que razão não parou para falar com a população atingida pelos violentos incêndios que devastaram parte da ilha, Alberto João respondeu que não gosta de mostrar lamúrias. Interessante ponto de vista. Tenho pena que o presidente do Governo Regional da Madeira não assim pense quando se trata de exibir o pagode eleitoral que, de quatro em quatro anos - ou menos -, se constrói como a principal estratégia política, a qual tem ganhado eleições desde há trinta anos.
Resumindo: Alberto João Jardim serve-se do povo (do povão, como diria Herman José) para cortar as inelutáveis fitas folclóricas, mas já não gosta de o encarar quando, em vez de festejo, reina a privação.

sábado, julho 14, 2012

as férias de ronaldo

Que o Correio da Manhã faça primeira página a partir das andanças estivais do futebolista Cristiano Ronaldo e da sua namorada, é coisa que não surpreende e até se entende; agora que as televisões procedam da mesma forma nos respetivos blocos noticiosos diários é já algo que, francamente, se manifesta despropositado, embora, infelizmente, já não surpreenda assim tanto.

terça-feira, julho 10, 2012

as viagens de garrett e as nossas

Escreveu Garrett, nas suas Viagens:
"plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. — No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?"
Eu sou daqueles que pensam que a crise se resolverá, mais tarde ou mais cedo, e que mais tarde ou mais cedo teremos um esquadriado défice de 3% ou mesmo 0%. Aliás, não há crise que não traga crescimento. A questão levantada deveria ser, porém, outra: quantas vidas aniquiladas serão preciso para sairmos dela?

domingo, julho 08, 2012

desgovenando-nos

A já não tão curta história da democracia portuguesa abarca complacentes episódios, mais ou menos anedóticos. Em 74 e 75 vivemos sob brasas, em que o virar da esquina era sempre uma grande interrogação. Nasceram e renasceram, porém, neste período, verdadeiros líderes, os quais edificaram, estruturalmente, o edifício democrático do país. Depois disso, depois do alcançamento da sonhada Europa, a nação transfigurou-se. Vieram novos líderes partidários e inventaram-se as jotas, agremiações de miúdos que ansiavam (e anseiam) pela política e falavam (e falam), alegadamente, por todos os jovens do país. Granjearam, em nome dessa juventude que se tornou moda, assento parlamentar e muitos deles reformaram-se (reformam-se?)com trinta e tal anos, em nome das radicais leis de aposentação dos deputados. Outros houve, no entanto, que fizeram da política a sua casa, desprezando, de certa maneira, tudo que é próprio no currículo de cidadãos "normais", que é estudar e depois trabalhar, mesmo que consideremos laboralmente a política.
O enquadramento político-ritualista das juventudes partidárias criou, em grande medida, portanto, uma espécie modus faciendi político fundamentalmente diferenciador dos da primeira geração da nossa democracia. A política como meio individual para chegar a algum lado - nem que seja a um curso superior - sobrepôs-se à política dos valores, feita em nome do bem comum. Se quisermos, é o individualismo - matriz liberalizador da sociedade - a suplantar o coletivo.
É neste contexto que surgem os Relvas do sistema. Trabalhadores incansáveis, o seu dinamismo e aparente subserviência ao líder cedo denotam uma capacidade indefetível de sustentação colegial e até de uma certa honestidade intramuros. O grupo que o sustenta não difere muito deste tipo de operacionalização política.
Os Relvas são participativos, subservientes, incansáveis, hipersociáveis, mas também são perigosos. Não para eles, não em grau superior para o partido. A perigosidade dos Relvas da nossa democracia desagua inexoravelmente no país, principalmente quando, de um dia para o outro, os seus currículos ocultos se transformam em currículos oficiosos do regime. Ser ministro, para os Relvas, é o começo de tudo.

sexta-feira, julho 06, 2012

o tribunal constitucional e o presidente da república

Custa-me cada vez mais a compreender o porquê da existência do cargo de Presidente da República num regime semiparlamentar como o nosso. Não posso tolerar a leviandade com que Cavaco Silva olha para uma decisão do Governo como a de acabar com os subsídios de férias e de Natal para os trabalhadores do Estado sem ao menos lhe suscitar uma simples e inteligente dúvida, capaz de encaminhar o projeto de lei para a apreciação do Tribunal Constitucional. Por vezes, o óbvio teima em ser compreendido e praticado: a Constituição da República, a nossa lei fundamental, sobreleva-se a qualquer Troika. A assunção da sua matriz é o alicerce da nossa democracia.

ps. não interessa muito neste momento denotarmos as consequências desta decisão do Tribunal Constitucional: se o Governo alargará os cortes aos privados, se diminui o nível salarial dos trabalhadores, ou se solicita um alargamento do prazo ao triunvirato. O que se torna relevante, neste domínio, é sabermos que uma instituição funciona e que faz realmente cumprir a Constituição.

quinta-feira, julho 05, 2012

as prioridades

A seleção de futebol teve um comportamentto mediano no campeonato da Europa de Futebol e foi recebida, no aeroporto, pelo ministro Relvas; os atletas de atletismo alcançaram, em igual campeonato da Europa da modalidade, medalhas de bronze, prata e ouro e foram recebidos pelo secretário de Estado; a equipa de arbitragem, que dignificou o país com a presença no jogo da final do campeonato da Europa de futebol, foi recebida por um telefonema.
E acaba desta maneira a história.

quarta-feira, julho 04, 2012

o relvas, outra vez

Miguel Relvas licenciou-se num ano. Aproveitou uma espécie de Novas Oportunidades, a qual faz aproveitar aquilo que comummente se apelida de experiência de vida. Os seja: os candidatos expõem as competências a um júri e este (in)valida.
O que não se entende foi a ligeireza crítica, por parte do atual executivo, dirigida ao programa Novas Oportunidades do anterior Governo. Concluir o 9º ano ou uma licenciatura é precisamente o mesmo, dentro dos parâmetros pessoais de cada indivíduo. Muitas das pessoas que almejavam, por exemplo, a conclusão da escolaridade obrigatória faziam-no mais por uma questão de orgulho, que residia na realização de, pelo menos, esses anos mínimos de ensino, e muito menos tendo como ponto piramidal uma escondida realização profissional. Com o ministro Relvas (e também com o ex-ministro Sócrates) passa-se essencialmente o mesmo: não precisa do dr. para ascender a qualquer cargo político. Mas ir à televisão e não se existir enquanto dr. é uma grande chatice. Para isso, já basta o Jerónimo de Sousa.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...