quarta-feira, fevereiro 24, 2010

37, 42, 50?

Parece-me absolutamente despropositada a incoerência que tem vindo a ser anunciada pelos órgãos de comunicação social relativamente aos números de mortos do aluvião que se abateu sobre a ilha da Madeira no último sábado. É evidente que os jornais, televisões se rádios não têm culpa primeira: os números são, de facto, contraditórios. No entanto, a insistência obcecada neste assunto deturpa, de certo modo, o valor essencial da notícia. Esta diz respeito, tão-somente, ao acidente. Há mortos, desaparecidos, pessoas que ficaram numa situação muito difícil, sem casa, sem trabalho. Há também todo um trabalho de reconstrução e de ajuda nacional e europeia. Importa, pois, ir por aí. O resto é hipocrisia no meio dum assunto que não devia ser delineado neste tom. Como se 37, 42 ou 50 fossem apenas números.

domingo, fevereiro 21, 2010

sinais

Vêm paulatinamente à superfície do nosso status social casos e mais casos que, na eventualidade de não resultarem judicialmente em nada, ao menos dão a conhecer um pouco da forma como se cozinham, na "alta política" (devidamente grafada por aspas), as estratégias, os compadrios, as destemperanças. O caso "Face Oculta" é, a este propósito, paradigmático.
Li uma das entrevistas dum senhor chamado Rui Pedro Soares, ex-administrador da PT, nomeado pelo Governo, através do pressuposto normativo da Golden Share do Estado nessa empresa. Obviamente que esta tão inócua existência pública do Sr. Rui Soares não passaria disso mesmo: um pássaro a migrar para os calores trópicos durante os nossos invernos descontentes. Acontece que é difícil a atenuação do deslumbramento para alguém que diz, orgulhoso, que entrou aos quinze anos para a Juventude Socialista (um problema, esta gente) e que, questionado pela sua ascensão meteórica, afirma que se está "a fugir-se a avaliação dos quatro anos em que fui administrador da PT SGPS", e também que, no reinado PSD, ente 2001 e 2004, triplicou o seu salário na PT.
Ora, é precisamente neste ponto que convém ficarmos alerta. Estas personagens - verdadeiros tipos sociais - não merecem o dinheiro que ganham. Simplesmente por que ainda não tiveram tempo de o demonstrar. Como escreve Henrique Monteiro no Expresso, um técnico superior da Função Pública no topo da carreira levaria mais de 20 anos a ganhar o mesmo que Rui Pedro Soares num ano." Deste modo, as certezas, quanto aos favores políticos, de alguém que contribuiu, modestamente (Rui Soares dixit), na eleição do primeiro-ministro, desenvolvem-se de forma inexorável. As crises podem ser benéficas, na medida em que revelam a expressão dos países e das suas gentes. Neste sentido, as catarses advindas nestes momentos mais difíceis poderão, efectivamente, ser a única salvação nacional. Daí que seja salutar sabermos que estes senhores andam, sorrateiramente, a viajar para Milão com um contrato no bolso de 350 mil euros com Luís Figo (um amigo, mais um) e ainda afirmam, deleitados, que é um número inferior ao que o ex-futebolista costuma cobrar pela imagem (um caso de sentido patriotismo, portanto). Do mesmo modo, é também interessante sabermos que as encenações de Figo com "Sócrates 2009", juntos, numa esplanada do Parque Expo, poderão ser o resultado de mais uma qualquer contratualização (é a imagem, estúpido...) laboral.
Daí que a recente candidatura de Fernando Nobre, presidente e fundador da AMI, poderá constituir, no nosso triste espectro político e social, uma lufada de ar fresco. Aparentemente, Fernando Nobre será, de forma objectiva, o candidato da cidadania, isto é, um verdadeiro candidato apartidário. Por isso, estou em crer que é de todo precipitado a contabilidade eleitoral em que já se embrenharam parte dos jornalistas e comentadores, na qual preconizam um eleitorado de esquerda dividido e a subsequente vitória de Cavaco Silva logo na primeira volta. O actual presidente da República agradece, pois, o serviço prestado por estes valorosos e intuitivos opinion makers. Só que nos devemos questionar por que razão é que Fernando Nobre dividirá apenas o eleitorado de esquerda. Acaso os valores éticos e morais que o norteiam não se enquadram com os valores sociais da igreja? Não demonstrou já ser uma personalidade que não contrapõe qualquer enquadramento partidário nas suas tomadas de posição político-sociais (a este propósito, convém notar que já objectivamente avalizou candidatos que vão da esquerda à direita parlamentar, nas diversas eleições nacionais, autárquicas e europeias)? No entanto, para os nossos jornalistas, tudo está, já, definido: Alegre, coitado, está perdido.
Pela minha parte, gostei de ler a entrevista do candidato ao Expresso, quando afirmou, peremptório, que "as pensões mínimas deveriam ser de 500 euros, e as reformas máximas de 5 mil euros" (não é populismo, como alguns já começaram, maldizentemente, a desenhar). É, de facto, um sintomático ponto de partida. Do mesmo modo, salientou que não deveriam ser as grandes obras públicas o impulsionador primeiro da saída da crise. Em sua substituição, os investimentos mais pequenos, como a requalificação urbana e a recuperação do património revelar-se-iam bem mais coerentes e proveitosos (ideia já defendida aqui algumas vezes). Na verdade, ouço sistematicamente na comunicação social a promoção do aeroporto da Portela. Na mesma óptica, as auto-estradas parecem-me mais que suficientes, ao contrário da melhoria de algumas estradas nacionais.
Por isso, a candidatura de Fernando Nobre poderá ser uma espécie de surgimento nacional. Não, obviamente, pela índole sebastianista, que não é, aliás, séria. Mas antes pela oportunidade de, talvez pela primeira vez numa campanha eleitoral para o mais alto cargo institucional da nação, ouvirmos alguém falar a língua de todos nós, seja ateu ou cristão, muçulmano ou católico, de direita ou de esquerda. Alguém em quem, verdadeiramente, os partidos não se revejam.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

o sr. feliz e e o sr. triste

Não deu tempo de introduzir no post anterior o desabafo existencial de Vítor Constâncio, em que afirma que é, simultaneamente, "um homem feliz e triste". Feliz por estar de malas aviadas para Frankfurt e triste por, imagine-se... abandonar o país. Laconizou ainda mais o seu raciocínio: partia com alguma amargura por ter sido motivado a deixar o torrão natal.
É evidente que não posso deixar de ficar também amargurado pela desventura do nosso mais recente herói nacional. Por conseguinte, proponho desde já uma petição, o mais abrangente possível, que apele à sensibilidade mais recôndita de Constâncio, para que o impeça de abandonar o país. Seria uma boa dor de cabeça para muitos, mas o que é que isso importaria estando em jogo os superiores interesses da nação?

um desígnio nacional chamado constâncio

Mais uma vitória portuguesa. Mais um desígnio nacional conquistado. Mais um chorrilho de elogios, todos eles iniciados pelo majestático "doutor". Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal, foi eleito, pelos ministros das finanças da zona euro, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Se não fosse ele, teria sido outro. No meu modestíssimo entendimento, uma qualquer vice-presidência do BCE deveria estar interdito a um governador de um banco central que não teve engenho nem arte para prever o descalabro e as irregularidades financeiras dos bancos nacionais que, por imperativo do cargo,tutelava. Mas o Correio da Manhã deixou-me, hoje, mais descansado. É que Vítor Constâncio vai tão-somente ser o "responsável máximo da supervisão financeira da Zona Euro e terá poderes reforçados na chamada supervisão macroprudencial". Fiquei, pois, aliviado, apesar de não ter percebido patavina. Continuei a leitura: afinal, esta coisa da "chamada supervisão macroprudencial" é um tipo "de supervisão que não deu problemas em Portugal dado que os casos da banca, como o do BPN e BPP, recaem sobre a supervisão comportamental". Ufa! que susto. Podemos, assim, dormir mais descansados. É "mais um êxito da nossa diplomacia internacional", disse, orgulhoso, o nosso primeiro-ministro.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

o carnaval brasileiro made in portugal

É deveras interessante ver aquelas mulheres que, por altura do carnaval, se mostram, em biquini, pelas ruas de Ovar, Loulé, Torres Vedras e outras cidades com fortes tradições carnavalescas. O interesse reside num simples facto meteorológico: é inverno nesta parte do planeta. Se não chove, neva, se não neva, faz frio, se não faz frio, ventaneja, se não ventaneja, nem faz frio nem neva ou chove, então acontece tudo isto em simultâneo ou quase. Mas, mesmo assim, os irredutíveis foliões da nossa praça teimam em estabelecer, em terras lusas, o carnaval carioca. Somos um povo de foliões, alegre, sambista.

domingo, fevereiro 14, 2010

os des-patriotas

O que fará um proeminente deputado europeu comportar-se, num tonitruante discurso parlamentar, como se vivesse num exílio, longe – imperativamente longe – da sua pátria amada? A resposta: a sua pre-candidatura a líder do seu partido. Na verdade, o que Paulo Rangel fez em Estrasburgo, acusando Portugal de ser um país em que se vive informativamente obstruído foi completamente despropositado e inglório, ao nível daqueles que andaram por Lisboa vestidos de branco a reclamarem os mesmíssimos pressupostos. Eu sei que somos um país muito sensível a estas coisas. Vivemos oprimidos durante quarenta e nove anos de ditadura, em que a mesa ao lado no café (ou no restaurante) podia não ser uma mesa mas antes um deformado auricular. Sei também que só nos fica bem, enquanto cidadãos, esta preocupação. Mas também sei que, nestas matérias (como noutras) os excessos são, geralmente, contraproducentes. Os de branco calaram-se rapidamente; Rangel redimiu-se na apresentação da sua candidatura, a qual, diga-se desde já, entoou uma linha bem ao jeito de Manuela Ferreira Leite (disse: "O primeiro objectivo de um governo de ruptura, que queira salvar o bem-estar das gerações presentes e a sobrevivência condigna em Portugal das gerações futuras, só pode ser um e esse mesmo: criar condições para libertar o futuro dos encargos até aqui contraídos". Manuela sublinhou esta ideia vezes sem conta na campanha para as legislativas. Tem, no entanto, um problema: a sua imagem não passa nos rectângulos televisivos. Rangel, aparentemente, ultrapassa com alguma distinção esse inconveniente).
A respeito deste episódio lembrei-me do sentido de pátria instituído, por exemplo, por Teixeira de Pascoaes (um ser vivo superior aos indivíduos, um ser espiritual que depende da vida individual), e a respeito disto tudo lembrei-me de ver Laborinho Lúcio, há tempos, na televisão, desenvolvendo uma ideia crítica sobre a justiça em Portugal. A sua reflexão ia num sentido preciso: Portugal carece de cultura cívica. Neste sentido, é comum vermos réus e testemunhas faltarem, desassombradamente, às sessões de julgamento, sem que nada lhes aconteça ao nível da responsabilização pessoal. Adiantou ainda o ex-ministro da justiça que, num fórum europeu sobre justiça, perguntara, semanas antes, a um colega alemão o que é que acontecia no seu país, se alguns destes protagonistas não comparecesse a uma sessão de julgamento. O alemão ficou incrédulo com a questão e, de imediato, retorquiu: "mas em Portugal faltam?" "Não", respondeu, Laborinho, "só perguntei por curiosidade".
Rangel teria aproveitado para berrar aos microfones do fórum. Quero, no entanto, acreditar que não.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

procuradores

Não temos tido sorte com muita coisa. A respeito de procuradores, penso que esta ideia tem também razão de se erguer. O anterior a este tendia, inexoravelmente, para a vertigem do mediatismo televisivo em forma de entrevista de rua, ligeira, com a porta do carro ainda aberta e com o motorista pronto a carregar rápido no acelerador do potente automóvel. Perdia-se e deixava-se estar assim, discorrendo, com um pé fora e outro dentro, com olho-de-gato constipado, como um dia o denominou Eduardo Prado Coelho.
O actual é diferente. Surge numa outro contexto epocal. Tem uma escola diferente, um pouco à Vitor Constâncio, governador do Banco de Portugal. É, digamos, uma escola do nada fazer, ou melhor, prever, para depois criticar. Pinto Monteiro é, com efeito, um crítico da justiça. Acontece que ele representa a própria justiça, na medida que o seu alto posto institucional é o garante da efectiva assunção do estado de direito. Não pode (não deve), por isso, espalhar, como uma efémera tempestade tropical, que sente muitas vezes o seu telemóvel sob escuta, ou que nada pode fazer a respeito da violação do segredo da justiça. Então quem pode?

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...