quinta-feira, dezembro 06, 2012

colégios gps

Vi só agora a excelente reportagem da TVI sobre o extraordinário grupo empresarial GPS, que possui, no seu longo braço tentacular, vinte e quatro colégios financiados pelo Estado português. É um acabado exemplo de como a política, no seu paradigma do centrão (leia-se: PS e PSD) passa por ser a mais inglória das atividades, quando deveria ser precisamente o contrário. Há, se dúvida, uma série de gente a comer à sombra do Orçamento, aqui oportunamenente ortografado com maiúscula.

o último sopro de oscar niemeyer

Morreu o arquiteto oscar Niemeyer, com quase 105 anos. Não vou falar de arquitetura porque não sei. Quero somente deixar aqui um retalho - uma frase, apenas - de uma entrevista concedida há cerca de dez anos a um jornalista português. Dizia então Niemeyer que a vida é para ser vivida a rir, chorando... não interessa. A vida passa rápido, a vida é um sopro.
Vem isto a propósito destas doidas teorias económicas que vigoram neste conturbado tempo a partir da Alemanha e zelosamente respeitadas pelo incauto governo português. Quantos sopros esta gente já aniquilou? Quantos amanhãs deixaram de cantar? Em nome do quê? De um futuro? De um porvir qualquer? Que eu saiba, são os gatos que têm sete vidas.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

contra a iniciativa privada

Os chineses revelam-se uns verdadeiros privatizadores. Querem agora o que resta do Estado português (4%). Na verdade, é peso a mais de um Estado para uma empresa de capitais... públicos.

os jovenzitos psd

Uma coisa afigura-se praticamente certa: um dia, um destes jovenzitos social-democratas será líder do partido e, possivelmente, primeiro-ministro. Afrontar Mário Soares parece ser uma obrigatoriedade na senda desta gente. Há uns anos largos, também Passos Coelho se referiu ao ex-presidente da República em modos similares, anotando que Soares se encontrava (aos setenta e poucos anos) fora do prazo de validade.
Assim se fazem os líderes deste país nestes tempos.

sexta-feira, novembro 16, 2012

há três anos avisei!...

Típico de Cavaco Silva: se vocês bem se lembram, há três anos eu avisei que iríamos viver uma situação explosiva...
O homem vive para estas coisas. O problema é que fica demasiado caro.

unanimismos

Assustam-me, por vezes, os unanimismos. Sobre a manifestação de ontem, já referi que condeno os energúmenos que conseguiram transformar aquilo num recetor de holiganismo futebolístico. Por outro lado, não entro em sintomatologias laudatórias relativamente à carga policial. Os energúmenos não ultrapassavam a vintena. Eram sempre os mesmos os que atiravam pedras. Encontravam-se na primeira fila, distanciados dos manifestantes "normalizados". Eram até estes que se autodistanciavam. Os outros encontravam-se, pois, facilmente detetáveis. Por conseguinte, não seria tarefa complicada proceder à sua detenção. Bastava, por parte da polícia, ter seguido outra estratégia de atuação. Mais cedo e sem grande aparato.

quarta-feira, novembro 14, 2012

a vertiginosa inclinação destruidora

Este título não tem nada a ver com o procedimento do Governo. Mas assentava-lhe bem. Diz respeito à manifestação que neste momento foi dispersa junto à Assembleia da República. A polícia investiu contra os manifestantes que arremessavam desde há horas pedras, garrafas, petardos, sinais de trânsito... Investiu, pois, a polícia. Com cães e tudo. De caminho, iam também desferindo uns pontapés ao que lhes estava mais à mão. Por exemplo, não sei que mal é que uma desgraçada bicicleta, já inerte e descomposta no passeio, possa significar para um grupo destes incansáveis polícias. Violência gera violência. E há vários tipos de violência, como muitos daqueles manifestantes bem sabem.

as declarações grevistas

Em dia de greve, o momento é de retorno. Para uns, sucesso; outros, porém, sublinham o fracasso. E há os patriotas. Estes, obviamente, encontram-se do lado dos não aderentes. Um dos tiques destes últimos tem a ver com a incapacidade de não conseguirem sustentar as suas atitudes sem o autoelogio formal. Diz Cavaco: "Apesar da greve, da minha parte não deixei de trabalhar". Mas alguém esperaria que o Presidente da República deixasse pendurado o seu homólogo colombiano por causa de uma greve? Então, para quê essa necessidade de deixar uma mensagem tão inoportuna?
No mesmo sentido, Passos Coelho releva a coragem dos que foram trabalhar (em prol do sucesso do país, está claro) e - mais cínico ainda - dos desempregados que "não se conformam com essa situação e fazem por melhorar as suas perspetivas de empregabilidade". Nos dias como os de hoje, dispensava-se tamanha demagogia.

segunda-feira, novembro 12, 2012

a visita de merkel

Veio e já foi. Antes de vir, já se sabia que não demorava. E também não precisava. Passo apressado. Falou o que todos nós já sabemos. Passos Coelho acompanhou-a. Nos passos e no discurso. Depois, os empresários falaram. Foi recebida como costuma ser o presidente dos Estados Unidos. Em vez de união, plantou-se uma Europa dividida em dois. Nós e os patrões.

sexta-feira, novembro 02, 2012

o fmi e o corte da despesa

Um sinal claro de fraqueza dado pelo Governo este o de pedir ajuda ao FMI para reformular o Estado na sua vertente despesista. Um sinal claro que isto chegou a um ponto de completo desnorte político. Mesmo tendo em conta que esta crise só se resolve extramuros, através de uma reformulação desta paranoica estrutura contabilística (gostei de ver Manuel Maria Carrilho propor uma paragem de três desta vertiginosa estrutura credor-devedor), esta aparente humildade do senhor Gaspar não é mais do que uma estratégia de convencimento no sentido de desmantelar, constitucionalmente, o estado social. É que para alterar pequenos pontos da nossa lei fundamental a este respeito, bastaria, na verdade, um acordo entre os partidos políticos com assento na Assembleia da República.

ajustamento pela despesa

Tendo em conta que os ajustamentos pela despesa dizem respeito, nas resplandecentes cabeças dos nossos capatazes, quase exclusivamente aos cortes sociais e salariais, proponho, mui respeitosamente, um reformulação dos seus ordenados para, vá lá... 1000 euros por mês, sem outras mordomias. O senhor Carlos Costa, respeitado presidente do Banco de Portugal, um acérrimo defensor dessa dieta estatal, poderia ser o primeiro. Seguir-se-iam outros. Assim, sim...

domingo, outubro 28, 2012

ministério da segurança social

O próprio nome elucida-nos. Segurança Social quer dizer mesmo isso: contribuir para melhorar a vida das pessoas que estão temporária e/ou definitivamente mais desfavorecidas (no fundo, será sempre temporariamente, visto que ninguém viverá duas vezes - um aspeto que se tem vindo a esquecer neste cenário de resolução da crise). Aponta-se o dedo acusador para a forte despesa deste ministério. Há, pois, que reduzi-la. Ser desempregado nunca foi um estado de alma apaziguador. Agora, porém, acrescenta-se-lhe um dogma culpabilizador.

refundação

Refundação do memorando! Eis a frase mais histriónica saída das não menos burlescas jornadas parlamentares conjuntas do CDS-PP e PSD. Na verdade, nota-se, por parte desta desolada maioria, um crescendo desacreditar das opções tomadas no âmbito do Orçamento de Estado para o próximo ano. De repente, surge um plano B. De repente, Paulo Portas agarra-se desesperadamente ao mote dado por Christine Lagarde de que só a austeridade não chega. De repente, o inacreditável Ministro da Segurança Social desiste da redução dos subsídios sociais. De repente, Gaspar inventa uma comparação maratonista para se desculpabilizar do insucesso do seu miserável desenho financeiro...
A refundação mal pensada pelo PSD só vem entregar ao Presidente da República mais um argumento para a urgente demissão deste Governo. Falharam! Está à vista! Faça-se, pois, a refundação. Governativa e partidária.

quarta-feira, outubro 24, 2012

ao contrário

É já tempo de dizer basta. A desolada escalada deste Governo contra os mais desfavorecidos abarca um claro preconceito ideológico: os desempregados, os que recebem prestações sociais do Estado, são uns mandriões. Daí que se torne incontornável um corte nas prestações mínimas do subsídio de desemprego e do rendimento mínimo garantido. Aquele ficará assim abaixo do limiar da pobreza, nos 377 euros mensais.
Depois, há esta coisa de lançar para a praça pública estas propostas e, quase no imediato, mostrar humildade democrática, afirmando que existe uma disponibilidade total para negociar e até recuar, como já o declarou Mota Soares.
É, pois, já tempo de dizer basta. Nunca vi um governo tão incompetente como este. Sinceramente, nem o de Santana Lopes. O país não pode continuar com este triunvirato, constituído pelos senhores Gaspar, Passos e Borges. O que vier será certamente melhor. Até porque pior é impossível. Parem, por isso, de anunciar que não há alternativa. Até porque Cavaco Silva pode acreditar.

ps. Estou em crer que é precisamente nestas alturas que se deve impulsionar a economia dos mais fracos. O aumento do ordenado mínimo, por exemplo, estaria, pois, neste enquadrado neste devir económico-social.

sábado, outubro 20, 2012

isto começa a cansar

António Seguro, hoje em Felgueiras: "[o país] não está condenado ao caminho da austeridade há um caminho diferente (...) o PS tem uma ideia para Portugal (...) [os socialistas] continuarão a assumir as suas responsabilidades (...) nós estamos a matar a economia, a sufocar as pessoas, a atirar os portugueses para a pobreza (...) a margem é curta, mas há outro caminho".
Perante este trágico cenário, o que faz o líder do PS? Pede a todos os santos para que o Governo se entenda e que aguente até ao fim da legislatura.

sexta-feira, outubro 19, 2012

o eterno conflito democrata-cristão

Vi há pouco Paulo Portas na televisão, após uma prolongada reunião da sua Comissão Política (ao que parece, a moda agora é avaliar as reuniões não ao metro mas às horas). E o que ele veio dizer, ligeira e propositadamente desgastado, foi que o país não aguentava agora uma crise política e blá, blá, blá e mais blá, blá, blá. Falou também na conjuntura externa, relacionando-a com o país, o qual tem de estar preparado para uma eventual alteração dessa mesma conjuntura. Mas a questão fundamental ficou por resolver: revê-se o CDS nesta coligação? A resposta é clara e negativa, embora omissa.
O CDS-PP de Paulo Portas corre um sério risco de quase extinção parlamentar. Na atual situação que o país atravessa e que há de ainda vir, a pior decisão que este partido pode tomar é a de aniquilar por completo o seu ADN político. Coligado a um partido verdadeiramente popular, esponjoso no país rural, com algumas franjas também urbanas, consoante o desgaste do PS, a diferença de Paulo Portas deveria ser a de uma assunção plena das divergências, de um evidente projeto nacional. Daí que a decorrente saída deste executivo, com o sem acordo parlamentar não se afiguraria trágico para o país. Com eleições antecipadas ou sem elas, haveria soluções. Até porque este CDS-PP encontra-se, neste momento, mais próximo do PS do que do PSD. Ironias do destino.

quinta-feira, outubro 18, 2012

presunçosos académicos

Há, neste Governo, uma espécie de autoclassificada elite, vinda dos meios académicos. Os sinais são sistemáticos e vão desde, por exemplo, do incontornável Borges e aquele tosco episódio da reprovação dos empresários no primeiro ano da "seu" curso na universidade, passando pelo Gaspar, com as décadas passadas a estudar proporcionadas galhardamente pelo Estado (estando ele, agora, na condição de cidadão exemplar e abnegado) e o tom de voz que será ligeiramente diferente se o jornalista continuar a teimar com a mesma pergunta, acabando, naturalmente, nos encómios que estes dois senhores se dirigem de forma descaradamente espelhar.
O pior disto tudo é que esta imagem de competentíssimas criaturas vendeu muito bem ao princípio, não só entre a própria classe política (o mito do tecnocrata brilhante que salvará o mundo, relevando aquele aforismo de que a política é demasiado importante para ser deixada aos políticos...), como também para os jornalistas. A este propósito, houve até quem enaltecesse o tom de voz utilizado pelo Sr. Gaspar, dissonante no meio, como se o estafado tom de voz do ministro resultasse de alguma espécie de poção mágica, academicamente elaborada.
A elite é assim mesmo, principalmente quando de elite não tem nada. O que os senhores Borges e Gaspar encontraram neste país foi simplesmente um balão de ensaio para uma qualquer experiência económica, em nome próprio. O memorando é simplesmente um pretexto, como, aliás, se tem vindo a verificar, quando os próprios já o contornaram por variadíssimas vezes. E não me venham dizer que tudo é o resultado de conjunturas económicas inesperadas. Quem, desde o início, se assumiu pró-memorando, jurando ir mais além do dito, foram estes senhores, acompanhados por um perdido Passos Coelho, que dá sempre muito jeito.

o voto favorável

Isto é mais ou menos como no futebol: remete-se o despedimento do treinador para uma pré-declaração de confiança. Esta insólita coligação navega nestas águas: torna-se necessária a pré-declaração de apoio ao Orçamento de Estado.

domingo, outubro 14, 2012

(mais) uma oportunidade perdida

Sabemos que um dos maiores males de Portugal enquanto nação é a profunda desigualdade geral entre os cidadãos. Este extraordinário Governo tem o despudor de esclarecer e acentuar a luta a este combate quando, às pinguinhas, vai ora acrescentando, ora retirando tímidas e pouco esclarecedoras propostas orçamentais para o próximo ano. Uma delas tem a ver com a redução dos escalões do IRS.
Eu até podia aceitar que 40 mil euros anuais é já um muito bom ordenado, tendo em conta, obviamente, que existem, em Portugal, 3 milhões de famílias que auferem entre 4 mil e 19 mil euros por ano (entre os 20 mil e os 50 mil euros serão, segundo a PORDATA, 1,3 milhões de famílias). Por estes números, facilmente se depreende que, no próximo ano, a economia entrará numa nova espiral recessiva, pois esta enorme classe média - baixa, menos baixa e alta - não terá apêndice financeiro para comprar o que quer que seja. Por conseguinte, encerrarão mais micro e pequenas e médias empresas, com um forte incremento do desemprego.
A minha questão é, porém, outra. Se tudo isto é feito em nome de uma maior equidade (do combate à desigualdade social, portanto), segundo o sr. Vítor Gaspar, por que razão não se aumentou o salário mínimo? É que assim continuamos todos a perder. Ou melhor, os que estavam já desesperançados, nesse fundo da pirâmide social, continuarão aí, desoladamente, estacionados; os outros, os que ainda conseguiam vislumbrar alguma coisa, serão esmiuçadamente empurrados para este completo descalabro social.
A conclusão que eu tiro de tudo isto é que esta gente, completamente inócua de sentido social, usa expressões como combate à desigualdade social de forma inacreditavelmente, assustadoramente, tenebrosamente cínica.
A única forma de combater a desigualdade social é subir os ordenados de quem não consegue já sobreviver.
A questão será sempre a mesma: conseguiria o senhor ministro viver com o ordenado mínimo? Se respondeu honesta e afirmativamente, então faça o favor de desculpar. Estamos no bom caminho.

sexta-feira, outubro 12, 2012

a impunidade?... acabou!

A desassombrada ministra da justiça continua na sua senda de justiceira. Hoje, na cerimónia de tomada de posse na Procuradora-Geral da República, voltou ao mesmo: a impunidade acabou! Fico contente por estas palavras. Fico, no entanto, menos animado saber que, até aqui, a impunidade grassava. E não sou eu que o digo: é alguém que anda nisto há muitos anos e que é ministra da justiça há ano e meio!

não havia necessidade

Não creio que deva haver uma obrigatoriedade de atribuição do prémio nobel todos os anos. Se é verdade que no que diz respeito à literatura, por exemplo, este balizamento temporal possa descomplexadamente existir, já o mesmo não se passa com o da paz. Há um ou dois anos, o distinguido foi Obama; este ano, foi a vez da União Europeia. É verdade que os pressupostos justificativos têm razão de existir. Porém, não é menos verdade que haveria (já os houve) decerto melhores dias para que tudo isto acontecesse.

o cardeal

José Policarpo referiu magnificamente hoje que não é com manifestações que se resolve a crise. Do mesmo modo, anotou que estas desvirtuam o preceito constitucional.
Gosto de ouvir estas vozes, sapientes nas suas análises. Fico enternecido com a preocupação de sua eminência reverendíssima com a nossa lei fundamental. Só não entendo a ensurdecedora ausência desta mesma análise constitucionalista quando o Governo se lembrou de eliminar os dois subsídios aos trabalhadores da função pública. Que eu saiba, em democracia, continua a ser o povo quem mais ordena. E o povo, normalmente, anda na rua.

não votem psd, segundo marques mendes

Ao que o PSD chegou!... Marques Mendes, nos Açores, apelou ao voto de Berta Cabral e não no PSD. Não liguem à cor política, defendeu o ex-líder. Porém, depois rematou com esta coisa extraordinária: imaginem o candidato do PS negociar, segunda-feira, com Vítor Gaspar. Em resposta, Berta Cabral, ameaçou que segunda-feira encostará o todo poderoso ministro das finanças à parede, exigindo a retoma dos princípios fiscais. Que confusão!...

domingo, outubro 07, 2012

o gaspar

Com muito atraso, não posso deixar aqui de anotar, na estranhíssima conferência de imprensa da equipa das finanças, no abusivo uso da palavra liberdade proferida, por duas ou três vezes, pelo sr. Gaspar, Ministro das Finanças da República. Dizia então o ministro que temos de prosseguir este caminho da liberdade (não sei ao certo as palavras, mas o sentido seguia, categoricamente, este rumo).
Eu não consegui entender o sentido de liberdade de Gaspar. Sei, simplesmente, que quanto maior as pessoas se sentem em exclusão social, mais esse direito se encontra num processo de coartação. Todavia, não estou claramente certo que exclusão social seja uma das preocupações de Gaspar e companhia.

o morde e foge

É certo que só os mais distraídos poderiam esperar alguma coisa de António José Seguro. Verdadeiro Passos Coelho do PS, lembro-me, há uns dez anos, ouvi-lo afirmar que estava já cansado da extenuante vida política. Estaria na altura Seguro a desempenhar cabalmente o fatigante trabalho de deputado europeu. Lembro-me também de ler, em resposta a esta imbecilidade, um adelgaçado artigo de opinião de Baptista-Bastos no, se não me engano, Diário de Notícias.
Todavia, Seguro é líder do PS, apesar de ter disputado as eleições internas com um militante que apontava caminhos diferenciados e que, a meu ver, era o que melhor respondia a este longo e difícil caminho. Por esta escolha, inteiramente da responsabilidade dos militantes do PS (que não souberam aferir, por exemplo, as qualidades do homem quando iniciou a sua campanha eleitoral no próprio velório do Governo de Sócrates, à porta do elevador do hotel onde se realizava a declaração de vencido do seu partido), se pode ver que também estes não se podem desresponsabilizar do estado a que isto chegou. É que pior do que uma nulidade a gerir os destinos do país, é haver outra nulidade como alternativa...
A orientação de António José Seguro, enquanto líder do maior partido da oposição, tem sido marcada, inelutável e resumidamente, através de uma marca de pura covardia política. Explicando melhor: Seguro não quer ser Governo neste momento; prefere, simplesmente, que o poder lhe caia nas mãos como, aliás, caiu a Passos e, antes dele, a outros. De preferência (condição essencial, presumo) depois desta coisa aborrecida chamada troika ter saído de vez do país e este andar outra vez, cantando e sorrindo, nas ondas do irregular mercado financeiro. Daí que fuja a sete pés das moções de censura apresentadas pelos partidos à sua esquerda (extrema-esquerda, dizem, o que me confunde porque fico sem saber o que é a esquerda neste momento em Portugal), quando passa a vida a apontar - e bem - o descalabro desta coligação. Arranja depois estes joguinhos de baixa política, quando se lembrou (por aqui podemos ver a disposição estratégica dos seus colaboradores, não ficando estes a dever nada aos de Passos Coelho, como se não tivessem todos sido tirados das mesmas sacolas das juventudes partidárias) de apresentar uma proposta de redução de deputados na Assembleia da República. Obviamente que, com esta extraordinária jogada, o que este não menos extraordinário think tank socialista pretende é criar desregulações na coligação. Não seria, pois, necessário. A coligação está já moribunda e não tem pernas para aguentar. O que estes joguinhos farão é criar uma espécie de intervalo (não aconselhável) daquilo que realmente interessa: nós. E nós somos o país.

sexta-feira, outubro 05, 2012

5 de outubro

Foi o último 5 de outubro em que se comemora sendo feriado. O primeiro-ministro faltou com um néscio pretexto de estar numa insignificante cimeira em Bratislava. António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, discursou bem, mas foi covarde quando não deu oportunidade ao povo de se manifestar. O 5 de outubro tem um paralelo com o 25 de abril. Ambas as revoluções são populares. O povo não merece este tipo de desfeitas. Do mesmo modo, revela-se repugnante a eliminação deste feriado. Grandes poupanças!...
O melhor do 5 de outubro de 2012 foi uma rapariga que cantou Fernando Lopes Graça, com letra de João José Cochofel. Mereceu os aplausos finais:




Firmeza

Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.
Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.

Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta.

terça-feira, outubro 02, 2012

pc e bloco

Aparentemente, PCP e Bloco de Esquerda lançaram-se numa coordenação de esforços, ao anunciarem ambos uma apresentação de uma moção de censura ao Governo. Nada mais óbvio, este trilhamento das mesmas veredas do combate político. Penso até que tanto um como o outro, se quiserem contar para alguma coisa num pressuposto mais determinantemente operativo, terão de alinhavar estratégias pré ou pós eleitorais. Por isso não entendo a divergência após aparente convergência. É que tanto o Bloco como o PCP afirmaram já que terão de refletir primeiro sobre o caráter expositivo da moção de cada partido, para assim delinearam o seu sentido de voto. Podiam-nos poupar a estes números e simplesmente convergirem. São estes manobrismos políticos que deitam tudo a perder. Tipo Seguro.

segunda-feira, outubro 01, 2012

o absoluto paradoxo

Ficamos há poucas semanas a saber que, segundo Passos Coelho, 2013 será o ano da retoma, de viragem da crise económica e social. Do mesmo modo, fontes governativas asseveram que a taxa do desemprego para o próximo ano continuará nos 16%. E confesso que não entendo. Afinal, neste desequilibrado guião governativo, o que significará a palavra retoma? O afundamento das pessoas para níveis subcivilizacionais? Um acréscimo tímido nas exportações e o seu correspondente importativo? O que eu temo - e contrario aqui o título deste post - é que não haja nestes pressupostos qualquer sinal paradoxal. O que realmente interessa, para os gabinetes, são estas coisas, assim tristemente, numericamente escalonadas.

sábado, setembro 29, 2012

ignorância e confiança

Um fim de semana interessante, este que se inicia hoje, sábado, nesta despedida de setembro. António Borges, uma espécie de cardeal mordomístico, acusou os empresários portugueses de serem ignorantes, e que não passariam do primeiro ano da faculdade. Tudo porque a baixa da taxa da TSU é uma medida "extraordinariamente inteligente", Borges dixit. Quem também não concorda, para além dos burros dos empresários, é a American Enterprise Institute, uma prestigiada revista norte-americana da área económica, que reforça a ideia de que a mexida na TSU teria sido um desastre.
Pela minha parte, acredito no sr. Borges, tendo em conta as extremadas inteligências que constituem o elenco governativo, todos, aliás, com carreiras universitárias brilhantes, como o exemplo Relvas atesta. Ah!... Relvas... Alertou, este ministro-adjunto dos Assuntos Parlamentares, para o perigo que constitui a crescente falta de confiança que os cidadãos europeus têm em relação aos políticos!... Li, embasbacado, a notícia. Quem? O Relvas? O Relvas?!
Não teria o PSD arranjado melhor locutor? O Relvas?!...

quinta-feira, setembro 27, 2012

a impunidade acabou

As declarações de hoje da ministra Teixeira da Cruz, ao afirmar que ninguém se encontra acima da lei e que a impunidade acabou (ao contrário de outros tempos próximos, presume-se), quando era interrogada sobre as buscas domiciliárias da judiciária aos ex-membros do Governo socialista, são, num saudável Estado de Direito, absolutamente intoleráveis. Não existe já Governo, somente franco atiradores.

não me filmas a cara

Nunca tinha visto um segurança tão zeloso em relação à sua imagem. Eu pensava que os seguranças não tinham preocupações filmogénicas. Por causa disso, um operador de camara foi agredido.

segunda-feira, setembro 24, 2012

a coisa do futebol

Os árbitros são os únicos elementos de um jogo de futebol aos quais não lhes é permitido errar. Os treinadores fazem asneira, os jogadores falham e inventam penalties (pergunto-me muitas vezes: como é possível o árbitro aperceber-se do número circense do jogador que mergulha, em ângulo perfeito, para a relva?), atiram ao lado, para a bancada e para as nuvens, os presidentes dizem asneiras e erram nas contratações... Mas o árbitro - muitas vezes a melhor equipa em campo - está sujeito ao escrutínio da câmara lenta, dos patetas comentadores da bola, e dos ululantes adeptos dos clubes, que vão, muitas vezes, atrás do pagode.

o formiguinha

Miguel Macedo quis somente homenagear, com a boutade fabulísitica da cigarra e da formiga, aqueles que produzem riqueza para o país, especialmente os que trabalham por conta de outrem, pequenos e médios empresários e também agricultores. Os outros, coitados, os que estão neste momento encostados às amarguradas cordas do desemprego por conta de outrem e por conta própria, são, portanto, as cigarras. Eu não disse? Passos Coelho, de facto, era incapaz de produzir melhores etapas discursivas. Será que é o sr. Miguel Macedo que lhe prepara os discursos?

domingo, setembro 23, 2012

as cigarras e a formiga

Miguel Macedo é uma formiga. Segundo o ministro da Administração Interna, há, em Portugal, muita gente que não faz nada, ou melhor, que vive à custa das ajudas do Estado. Talvez entusiasmado pelas recentes declarações de Mitt Romney, candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, que foi apanhado, mais ou menos em off, a denegrir, descaradamente, cerca de metade da população do seu país - precisamente a que vota em Obama -, o sr. Miguel Macedo esqueceu-se talvez da sua própria real politik, quando, por exemplo, resguardando-se numa qualquer legalidade idiota, recebia cerca de 1400 euros por mês de subsídio de alojamento, apesar de possuir um apartamento seu na área de Lisboa, onde reside durante toda a semana. Sabemos depois que esta formiguinha renunciou a este apetitoso bolo mensal, por vontade pessoal, como fez questão de sublinhar.
São, pois, exemplos deste teor que nos fazem falta. Tudo em nome dum cenário "muito, muito difícil", com "constrangimentos de soberania financeira" evidentes (palavras suas). Mais um precioso contributo para a paz social.
Passos Coelho não faria melhor.

sábado, setembro 22, 2012

conselhos de estado

Noto que alguns conselheiros de estado são vedetas da televisão ao nível do comentário político. No mínimo, é estranho. Esperamos por domingo e pelo dia de Marques Mendes na TVI para conhecer melhor as vicissitudes do Conselho. Belíssimas viaturas, as dos conselheiros.

sexta-feira, setembro 21, 2012

a manifestação e o país

Vejo na televisão um aglomerado de pessoas junto ao Palácio de Belém, onde decorre um extraordinário Conselho de Estado. Mário Soares abandonou a sala há umas horas. Presumo que, mais uma vez, foi uma voz dissonante dentro dos conselheiros, eventualmente irritado com os dois professorais plasmas que o ministro Gaspar usou na sua deprecante explicação. Independentemente de tudo, o momento é histórico. Cai por terra uma série de verdades feitas por pessoas que, de uma maneira geral, estão bem com a vida, isto é, têm a sua existência montada em bons ordenados. Uma delas tem a ver com a serenidade do povo português. Na verdade, o povo é sereno, mas não é burro. Pelo menos, até certo ponto. No entanto, há um ponto que paira vincadamente nesta estratosfera política: a de que os governantes não conhecem o país. Hoje espreitei várias vezes a televisão vi, amiudadamente, sorrisos na face de Passos Coelho e Gaspar. Nos dias que correm, os ministros deveriam auto decretar a proibição do sorriso.

conselho de coordenação da coligação

Que ideia mais estapafúrdia esta a de criar um conselho de Coordenação da Coligação. O que irá fazer? Imiscuir-se nos assuntos do Governo? Falar, antes das reuniões do Conselho de ministros, com cada um dos seus membros para alinhavar posições? Então o Relvas? Já não coordena? Esta gente gosta de se arvorar com minudências deste tipo. É, sem dúvida, o governo dos megaministérios e das minúsculas comissões. Tantos especialistas!

Adenda: vi a Comissão Política do PSD juntar-se na sede do partido. Todos, invariavelmente, com bons carros, de topo de gama, como convém. O secretário-geral do partido, ao lado do motorista. Vive-se bem, apesar de serem os políticos mal pagos.

segunda-feira, setembro 17, 2012

o país

Por muitas voltas que a nossa politizada imaginação consiga engendrar nos mais cerebrais e recônditos lugares, a manifestação de há dois dias foi uma chapelada que os portugueses ofereceram aos nossos governantes, os quais, incapazes de perceber o país e o povo, nada mais lhes restou do que enrolar meia dúzia de vacuidades que mais ajudam a agudizar a crise generalizada que vivemos.
Uma pergunta falta fazer aos políticos, sem demagogias: era o senhor ministro capaz de viver com o ordenado mínimo? A questão não é irrelevante. Esta pergunta feita, por exemplo, na Alemanha alcançava, decerto, resposta afirmativa. E é precisamente nesta questão que reside a falência de um receituário que mais não é do que o preenchimento de uma série de cruzinhas.

quinta-feira, setembro 13, 2012

o momento

Os momentos são fundamentais em política. Jerónimo de Sousa sabe-o muito bem e, pela primeira vez, desfiou os fios do tempo: está na altura de juntar esforços de esquerda e pedir a demissão do Governo. Estou de acordo. Este Governo, se tivesse um pingo de vergonha na cara, teria, desde logo, desde o momento que percebeu que o combate ao défice tinha, afinal, fracassado, pedido a sua demissão ao Presidente da República. Não me venham com a história da alternativa. Este tipo de desculpa é já muito velha e revela, no fundo, fraqueza política. A alternativa está aí. Está, por exemplo, na distancia crítica de militantes do PSD e do CDS-PP em relação à arquitetura decisória do executivo, na proposta do Jerónimo de Sousa, na alternativa crítica de Louça, no crescimento custoso de José Seguro. O que não podemos mais aturar é o sr. Gaspar, vindo de um escritório da União Europeia, com o seu bloquinho quadrado de deves e haveres na mão, a governar o nosso futuro. Passos Coelho é o que é: um primeiro-ministro demasiado fraco para o ser. O país não pode mais com isto.

sexta-feira, agosto 31, 2012

com conhecimento de causa

A coisa, afinal, está a correr bem. Quem o diz é António Borges, alguém que fala com conhcimento de causa. Presumo que haverá poucos, em Portugal, com tão altos predicados. Poucos que, "como sabem" trabalharam no FMI (continua a ser um grande cartão de visita). Haverá também poucos que falam assim tão bem, tão despreocupadamente. E não haverá assim tantos que, do alto das suas dezenas de milhares de euros mensais, debitam este tipo de empenhada ciência económica. Será que o Sr. António Borges saberá quanto é o ordenado mínimo em Portugal? Ou o médio?

quinta-feira, agosto 30, 2012

o respeitinho é muito bonito: 5,3%

É bom que estes senhores da Troika venham cá a casa para sabermos o que se passa. Até ontem, os mais entusiastas da coligação que nos governa (ou desgoverna, nunca é demais apontar) pensavam que o défice iria ser cumprido. Afinal, era a grande bandeira (eleitoral e pós-eleições) de Passos Coelho e Gaspar (ou Gaspar e Passos Coelho). Perante os olhares perscrutadores do triunvirato e o tremelicar corcovado dos ministros, desenhamos uma nova previsão até ao fim do ano: 5,3%.
Podemos extrair daqui a moralidade disto: estamos piores e não cumprimos o défice. O que mais falta para este Governo apresentar a demissão ao Presidente da República?

terça-feira, agosto 28, 2012

os políticos e a vidinha

Uma interessante notícia do Correio da Manhã de hoje dá conta que, de 2011 para 2012, os deputados e governantes tiveram um aumento na sua massa salarial, de acordo com relatório da Direcção-Geral da Administração e Emprego Público. Deve-se tudo, segundo alguém do Ministério das Finanças, a uma atualização dos subsídios (deslocação e afins). Assim, o ganho médio mensal dos representantes do poder legislativo e de órgãos executivos passou de 5.605 para 5.686 euros.
Perante isto, não me apetece escrever muito mais, até porque não há muito mais para escrever. O argumentário destes senhores é vasto e eloquente. Afinal, o que são cinco mil e tal euros? Ou umas componentes subsidiárias de umas centenas de euros? Francamente!... Apelidar de bem pagos estes senhores!...

domingo, agosto 26, 2012

a rtp no plano político

Como se previa, a insólita manifestação, via entrevista televisiva, de António Borges originou um catapultar de anseios e opiniões dos mais variegados quadrantes políticos. Seguro, na Madeira, preditou a ação de um Governo PS a este respeito: haverá serviço público de televisão. Quanto a indemnizações (fala-se numa concessão de 25 anos para quem ficar com o projeto), nem uma palavra. Aliás, este tipo de entrecortes entre público e privado, através das impulsionadas PPP, resultando em inevitáveis e indiscutíveis lucros para os empresários, tem sido, desde Cavaco (o verdadeiro mentor destas parcerias), um verdadeiro mas oculto caderno de encargos. Seguro, com esta eloquente proclamação, não traz, pois, nada de novo.

sexta-feira, agosto 24, 2012

a rtp

Com o desenho que o Sr. António Borges esboçou relativamente à concessão a privados da RTP, permito-me afirmar que estamos numa completa desorientação sobre o que efetivamente uma televisão pública representa para um país. Sabemos que esta concessão prevê um pagamento de 140 milhões de euros à entidade exploradora da televisão. Do mesmo modo, ficamos também conhecedores que a empresa se encontra há já algum tempo num processo de reestruturação, o qual resulta, atualmente, numa dinâmica empresarial que chega mesmo a colher lucros de vários milhares de euros.
Sendo assim, a questão impõe-se: porquê desbaratar um património referencial da nação, ao ponto de apagar por completo um canal verdadeiramente imbuído num enquadramento de serviço público, como é o caso da rtp2 (nunca é demais lembrar que a TDT, ao contrário de outros países, não trouxe qualquer ganho quanto ao número de canais)? A resposta, para além da ignorância e da insensibilidade cultural desta gente (por onde andas Francisco José Viegas?) tem também a ver com um caderno de encargos previamente ofertado a alguém que, "concessionariamente", surgirá de um latebroso normativo jurídico.

o décimo segundo ministro

Como o décimo segundo jogador, o sr. António Borges joga nas bancadas. Esta evidência foi, aliás, deleitosamente calcorreada por si próprio na entrevista que hoje deu à TVI. Não tem nada a ver com estruturas governativas, não está na política, exprime simplesmente a sua opinião pessoal. Mas depois resvala. Exprime-se estranhamente na primeira pessoa do plural. E é aqui que vemos que o décimo segundo vale muito mais do que o segundo ou mesmo do que o primeiro. Se reconstruirmos a analogia futebolística, há muitos treinadores que se vão embora por causa das bancadas.
Devemos, no entanto, preocuparmo-nos com tudo isto. Mais do que uma orientação política, um pensamento, este Governo almeja a apresentação de resultados "custe o que custar". E isso é, óbvia e desgraçadamente, preocupante. Estamos, como sabemos, vendedores. O resto logo se verá.

terça-feira, agosto 14, 2012

uma notícia engraçada

Psssos Coelho, na sua reentré à porta fechada, afirmou que espera renovar o mandato no final destes quatro anos e que 2013 marcará o fim da crise (de que crise falará Passos Coelho?). Admitiu ainda que nem tudo correu como o esperado (está bem enganado: tudo fazia prever esta hecatombe social - que classe média pensarão estes senhores que existe em Portugal?).

uma má notícia

Dados recentes do INE:
- o desemprego galopa incansavelmente sobre os trabalhadores (827 mil trabalhadores no desemprego no segundo trimestre - mais 7.600 pessoas que no trimestre anterior, e mais 152 mil pessoas do que no mesmo trimestre de 2011);
- descida do PIB que caiu 3,3 por cento relativamente ao segundo trimestre do ano passado.

uma boa notícia

Li no Expresso sobre a doação que o empresário Paulo Paiva Santos remeteu para a fundação "O Século", este Verão sem argumentos financeiros para reiterar o que vem fazendo desde há 28 anos: levar meninos carenciados a uma colónia balnear. Este empresário da indústria farmacêutica fez questão de publicitar este seu filantropo ato, visto que, segundo as suas próprias palavras, "há muita gente que pode ajudar e não o faz [pois] estamos a falar de meia dúzia de tostões para quem está na lista dos 25 mais ricos de Portugal, para quem 300 milhões de euros ou 400 milhões. Talvez assim percebam que uma quantia insignificante para eles pode terum enorme efeito".
É uma inelidível verdade que em Portugal não existe uma cultura de aproximação filantrópica dos mais ricos à comunidade. A pátria, para eles, não é mais que um lugar vazio, um lugar existente algures entre um espaço financeiro de quanto mais melhor. Umbilicalmente melhor.

terça-feira, julho 24, 2012

convento de santa clara

Conheço o Convento de Santa Clara, em Vila do Conde, só de o ver passar, na estrada. Sei, no entanto, que o Convento de Santa Clara é sinónimo de Vila do Conde, sendo o contrário igualmente verdadeiro. Na televisão, passou hoje uma reportagem que mostrou a extrema degradação deste património nacional, com mais de 250 anos. Olho para as baixas de algumas cidades, entre as quais o Porto, património mundial, e o que vejo é vergonhoso. Do mesmo modo, as autoestradas são do melhor que há: rápidas, confortáveis, desertas... Não sei nada de finanças (mas Jesus Cristo também não, segundo Pessoa). No entanto, não andarei muito longe da verdade se afirmar que a muito desnecessária autoestrada transmontana (e um exemplo basta, havendo muitos mais) daria para requalificar muitos Conventos de Santa Clara. É que quando se fala de turismo é precisamente disto que se trata. Só não vê quem não quer. Ou quem é muito burro. Ou quem tem um ego desmesurado.

o jardim da madeira

Pelo que se tem visto por aí, com o Miguel Relvas a comandar as tropas da comunicação social e a figurar-se como um não assunto para Passos Coelho, confesso que o sr. Alberto João Jardim começava a entrar-me no... digamos... no goto. É evidente que a chalaça sobre a licenciatura do ministro adjunto, em que exteriorizou a sua pretensão de solicitar, às respetivas universidades, quatro ou cinco cursos superiores, entre os quais astronomia, ajudou para que o homem, neste cansado estio, conseguisse escalar umas décimas de agrado na minha difícil classe de simpatia. Acontece que hoje, instigado por uns jornalistas por que razão não parou para falar com a população atingida pelos violentos incêndios que devastaram parte da ilha, Alberto João respondeu que não gosta de mostrar lamúrias. Interessante ponto de vista. Tenho pena que o presidente do Governo Regional da Madeira não assim pense quando se trata de exibir o pagode eleitoral que, de quatro em quatro anos - ou menos -, se constrói como a principal estratégia política, a qual tem ganhado eleições desde há trinta anos.
Resumindo: Alberto João Jardim serve-se do povo (do povão, como diria Herman José) para cortar as inelutáveis fitas folclóricas, mas já não gosta de o encarar quando, em vez de festejo, reina a privação.

sábado, julho 14, 2012

as férias de ronaldo

Que o Correio da Manhã faça primeira página a partir das andanças estivais do futebolista Cristiano Ronaldo e da sua namorada, é coisa que não surpreende e até se entende; agora que as televisões procedam da mesma forma nos respetivos blocos noticiosos diários é já algo que, francamente, se manifesta despropositado, embora, infelizmente, já não surpreenda assim tanto.

terça-feira, julho 10, 2012

as viagens de garrett e as nossas

Escreveu Garrett, nas suas Viagens:
"plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. — No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?"
Eu sou daqueles que pensam que a crise se resolverá, mais tarde ou mais cedo, e que mais tarde ou mais cedo teremos um esquadriado défice de 3% ou mesmo 0%. Aliás, não há crise que não traga crescimento. A questão levantada deveria ser, porém, outra: quantas vidas aniquiladas serão preciso para sairmos dela?

domingo, julho 08, 2012

desgovenando-nos

A já não tão curta história da democracia portuguesa abarca complacentes episódios, mais ou menos anedóticos. Em 74 e 75 vivemos sob brasas, em que o virar da esquina era sempre uma grande interrogação. Nasceram e renasceram, porém, neste período, verdadeiros líderes, os quais edificaram, estruturalmente, o edifício democrático do país. Depois disso, depois do alcançamento da sonhada Europa, a nação transfigurou-se. Vieram novos líderes partidários e inventaram-se as jotas, agremiações de miúdos que ansiavam (e anseiam) pela política e falavam (e falam), alegadamente, por todos os jovens do país. Granjearam, em nome dessa juventude que se tornou moda, assento parlamentar e muitos deles reformaram-se (reformam-se?)com trinta e tal anos, em nome das radicais leis de aposentação dos deputados. Outros houve, no entanto, que fizeram da política a sua casa, desprezando, de certa maneira, tudo que é próprio no currículo de cidadãos "normais", que é estudar e depois trabalhar, mesmo que consideremos laboralmente a política.
O enquadramento político-ritualista das juventudes partidárias criou, em grande medida, portanto, uma espécie modus faciendi político fundamentalmente diferenciador dos da primeira geração da nossa democracia. A política como meio individual para chegar a algum lado - nem que seja a um curso superior - sobrepôs-se à política dos valores, feita em nome do bem comum. Se quisermos, é o individualismo - matriz liberalizador da sociedade - a suplantar o coletivo.
É neste contexto que surgem os Relvas do sistema. Trabalhadores incansáveis, o seu dinamismo e aparente subserviência ao líder cedo denotam uma capacidade indefetível de sustentação colegial e até de uma certa honestidade intramuros. O grupo que o sustenta não difere muito deste tipo de operacionalização política.
Os Relvas são participativos, subservientes, incansáveis, hipersociáveis, mas também são perigosos. Não para eles, não em grau superior para o partido. A perigosidade dos Relvas da nossa democracia desagua inexoravelmente no país, principalmente quando, de um dia para o outro, os seus currículos ocultos se transformam em currículos oficiosos do regime. Ser ministro, para os Relvas, é o começo de tudo.

sexta-feira, julho 06, 2012

o tribunal constitucional e o presidente da república

Custa-me cada vez mais a compreender o porquê da existência do cargo de Presidente da República num regime semiparlamentar como o nosso. Não posso tolerar a leviandade com que Cavaco Silva olha para uma decisão do Governo como a de acabar com os subsídios de férias e de Natal para os trabalhadores do Estado sem ao menos lhe suscitar uma simples e inteligente dúvida, capaz de encaminhar o projeto de lei para a apreciação do Tribunal Constitucional. Por vezes, o óbvio teima em ser compreendido e praticado: a Constituição da República, a nossa lei fundamental, sobreleva-se a qualquer Troika. A assunção da sua matriz é o alicerce da nossa democracia.

ps. não interessa muito neste momento denotarmos as consequências desta decisão do Tribunal Constitucional: se o Governo alargará os cortes aos privados, se diminui o nível salarial dos trabalhadores, ou se solicita um alargamento do prazo ao triunvirato. O que se torna relevante, neste domínio, é sabermos que uma instituição funciona e que faz realmente cumprir a Constituição.

quinta-feira, julho 05, 2012

as prioridades

A seleção de futebol teve um comportamentto mediano no campeonato da Europa de Futebol e foi recebida, no aeroporto, pelo ministro Relvas; os atletas de atletismo alcançaram, em igual campeonato da Europa da modalidade, medalhas de bronze, prata e ouro e foram recebidos pelo secretário de Estado; a equipa de arbitragem, que dignificou o país com a presença no jogo da final do campeonato da Europa de futebol, foi recebida por um telefonema.
E acaba desta maneira a história.

quarta-feira, julho 04, 2012

o relvas, outra vez

Miguel Relvas licenciou-se num ano. Aproveitou uma espécie de Novas Oportunidades, a qual faz aproveitar aquilo que comummente se apelida de experiência de vida. Os seja: os candidatos expõem as competências a um júri e este (in)valida.
O que não se entende foi a ligeireza crítica, por parte do atual executivo, dirigida ao programa Novas Oportunidades do anterior Governo. Concluir o 9º ano ou uma licenciatura é precisamente o mesmo, dentro dos parâmetros pessoais de cada indivíduo. Muitas das pessoas que almejavam, por exemplo, a conclusão da escolaridade obrigatória faziam-no mais por uma questão de orgulho, que residia na realização de, pelo menos, esses anos mínimos de ensino, e muito menos tendo como ponto piramidal uma escondida realização profissional. Com o ministro Relvas (e também com o ex-ministro Sócrates) passa-se essencialmente o mesmo: não precisa do dr. para ascender a qualquer cargo político. Mas ir à televisão e não se existir enquanto dr. é uma grande chatice. Para isso, já basta o Jerónimo de Sousa.

sexta-feira, junho 29, 2012

o défice enquanto problema tripartido

O INE respondeu: o défice orçamental do primeiro trimestre do ano foi de 7,9% do PIB, ficando, portanto, longe do oásis dos 4,5%. O primeiro-ministro, que nunca fala de questões nacionais lá fora, apressou-se a clarificar as coisas o que, na sua simplicidade obstinada, quer dizer que haverá mais medidas adicionais, se necessário for.
Eu percebo o Governo. Cumprirão tudo que vem no memorando da troika, tudo até à última vírgula. No final, a culpa será também repartida. Não foi por acaso que no último debate parlamentar Passos Coelho referiu que, quando reuniu com a troika enquanto líder do maior partido da oposição, transmitiu-lhe (reivindicou?) que seria melhor prolongar mais um ano o tempo das medidas contratualizadas. Azar dos azares: a troika e o Governo (o PS) já tinham balizado temporalmente o memorando. Moral da história: deveria ter sido primeiro-ministro mais cedo.

segunda-feira, junho 25, 2012

moção de censura

Segui grande parte da moção de censura do PCP ao Governo. Gostei de algumas intervenções. A última, de Bernardino Soares, controladamente sanhuda, foi, em grande parte, uma resposta ao orador que o precedeu, o admirável ministro Paulo Portas. Retive uma frase deste, a respeito do eventual monopólio da esquerda, designadamente do PCP, em questões de justiça social. Dizia então Portas que este Governo também emerge em relação aos mais desfavorecidos. E do que se lembrou? Das refeições dadas nas cantinas das escolas para os agregados familiares duplamente desempregados. E não precisou de dizer mais nada o ministro. Obviamente que não teve ensejo em ajuizar que uma família em situação de desemprego constitui uma clara derrota das políticas seguidas por este Governo. E é para debater estas coisas que as moções de censura também se justificam.

adenda: aquele rapaz Meneses, do PSD, é uma coisa do outro mundo. A sua intervenção debitou atrozes vacuidades sobre nada.

erc

Confesso a minha ignorância, mas não sabia da compostura da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, simplificadamente, ERC. Ao escrever este advérbio de modo, reparei que é, no fundo, o que está na base de toda a política portuguesa desde o século XIX, principalmente para quem se situa na esfera do rotativismo governativo. Então, simplifiquemos, partindo e acabando na seguinte fórmula: eleições realizadas, tachos distribuídos.
Eu não sabia que os cinco membros que compõem o conselho da ERC são meros joguetes dos partidos. Neste caso, três para o Governo, dois para o PS, o maior partido da oposição. Perante isto, para quê tanta indignação, para quê tanta fervor mediático? Acaso os comissários do Governo na ERC deixariam cair Relvas? Peço licença a Fernando Madrinha que, no Expresso, coloca a seguinte questão: "Sendo assim, o que se deve considerar é se vale a pena gastar 4,5 milhões de euros anuais para sustentar uma entidade cujos membros se limitam a replicar, noutra sede, as posições dos partidos que os propuseram." Eu, simplificadamente, respondo: claro que não.

quinta-feira, junho 21, 2012

uma moção de censura ou a (in)sustentável leveza da política

O PCP é o partido mais previsível do nosso panorama parlamentar. Não quero, obviamente, com esta asseveração, tecer qualquer tipo de consideração mais crítica. O partido, na sua pujança existencial, insere-se numa linha contestatária de combate ao capitalismo. Daí que a resposta a este desenfreado liberalismo económico-político venha sob a forma de moção de censura. Seria bom que outras instituições "tradicionais" como, por exemplo, a igreja católica (muito parecida, aliás, ao partido comunista numa certa ritualização normativa) se mantivessem iguais a si próprias no que diz respeito a princípios dogmáticos, principalmente àqueles que se colam às injustiças sociais.
O comportamento do PS foi também, nesta matéria, expectável. A resposta à moção de censura do PCP firmou-se, pois, numa renúncia à ação. A justificativa foi a mesma usada pelo PSD em outras ocasiões similares: não se deve acrescentar uma crise política à crise social que vivemos, como se uma estivesse indissociável da outra. Em termos práticos, a abstenção do PS significa tão-somente isto: não estamos preparados para governar. Ou então: não conseguiríamos fazer melhor do que o PSD. Ou ainda: optaríamos precisamente pela mesmas opções das que foram tomadas pelo Governo. Ainda: estamos numa encruzilhada e precisamos da orientação do triunvirato.
A moção do PCP clarifica, assim, as águas. Possui, neste sentido, uma utilidade prática. As espumas mediáticas desaparecem e os partidos e os líderes surgem iguais ao que verdadeiramente são: minguados projetos.

segunda-feira, junho 18, 2012

o encerramento do interior do país

Uma anotação a este respeito, aqui várias vezes pronunciada. Não há país que se eleve a índices de desenvolvimento civilizacionalmente normalizados se a sua estrutura administrativa geral estiver assente em desarmonias territoriais. Com efeito, não é concretamente possível que um pequeno país como Portugal se desenvolva com este tipo de configurações, as quais acentuam ainda mais o ridículo que é viver num país subdividido, na prática, em dois.

a seleção de todos nós, de alguns de nós ou dos próprios

Gostava principalmente de deixar aqui um desejo: será que a seleção de futebol não se pode limitar a jogar à bola e mais nada? Para quê as mimalhices de Paulo Bento e companhia após o bom jogo contra a Holanda, uma equipa claramente fragilizada (solidariedade com Ronaldo, segundo as transpirações da comunicação social - não vê esta gente que este tipo de solidariedade pode ser contraproducente?)? Por que razão é que florescem as opiniões dos vários quadrantes da sociedade (li há pouco um título de um artigo, oriundo de um "especialista", de seu nome José Silvério, que afirma que as críticas feitas a Cristiano Ronaldo serviram como trampolim psicológico para encarar positivamente o jogo com a Holanda, não lhe passando pela cabeça que outras anteriores críticas originaram, seguindo o seu sapiencial raciocínio, resultados contrários) e por que razão é que a comunicação social, com as televisões em primeiro plano, lhes dá infindáveis e escabrosos tempos de antena? Eu sei que o povo gosta, mas isso não pode ser resposta para este aprofundamento do nosso atávico e tradicional provincianismo.

sexta-feira, junho 15, 2012

mourinho: 22 milhões

José Mourinho fatura 22 milhões de euros por ano. O banco BPN foi vendido por 40 milhões. Um outro banco, quase falido, paga milhões por Mourinho. O FMI convida o Governo espanhol a descer ordenados. José Mourinho é um treinador de futebol. Ronaldo, que é um jogador da modalidade, deve também ganhar mais ou menos isso. E outros como o Ronaldo. Não lhes conheço algum tipo de tendência filantrópica em prol do país. O que eles ganham numa semana não ganha um trabalhador de ordenado médio em toda a sua vida. O povo gosta do Ronaldo e do Mourinho. Os presidentes e os ministros também. Parece que são os melhores do mundo. E se não o fossem, também o seriam, para os patrióticos tugas.
Dizem que não há dinheiro. Pois a mim parece-me que nunca houve tanto dinheiro como agora.

quinta-feira, junho 14, 2012

a irresponsável década espanhola

Custa a entender-se, de facto, a senhora Merkel. Depois de investir contra a Grécia e Portugal, repete a ingerência com Espanha. Mais do mesmo: estes países obtêm agora o fruto dos seus excessos passados, designadamente (no caso de Espanha, segundo a chanceler), os do último decénio. Ainda bem que temos esta espécie de coro das tragédias gregas a evocar os nossos pecados e a apontar o caminho do futuro.

domingo, junho 10, 2012

renegociação do empréstimo

Portugal não vai pedir a renegociação do empréstimo contraído, afirmou hoje o zeloso primeiro-ministro português. Espanha foi agraciada com uma ajuda de 100 mil milhões de euros, com condições bem diferenciadas das de Portugal ou Irlanda, designadamente no que diz respeito ao caminho da austeridade imposta pelo triunvirato. Ou seja: o dinheiro vai diretamente para os cofres dos bancos, sem mais contrapartidas económicas e sociais. Irlanda ameaçou de imediato com a renegociação, reclamando as mesmas condições. Mas o Governo de Portugal, navegando ao sabor dos ventos dos mais fortes, não vislumbra razões para que tal aconteça. O que importa, para Passos Coelho e Gaspar, é a aritmética fria e incontornável dos números. A outra, a aritmética das pessoas, é coisa que eles são incapazes de entender, por mais esbracejados e institucionais discursos idealizem.

quinta-feira, junho 07, 2012

a redução de borges

A celeuma causada pelas declarações de António Borges, um respeitadíssimo conhecedor do Portugal etéreo, não tem, a meu ver, razão de existir. Afinal, o homem só disse, simplesmente, que é urgente a redução dos salários em Portugal e que o Estado é um mau gestor. Por acaso é mentira? Quando ele próprio, por um trabalhinho que está a fazer em "part time" para o Governo, aufere milhares de euros em cada fim do mês, quando gestores de empresas públicas ombreiam, no que diz respeito a salários, com os seus congéneres privados, quando Portugal é um dos países mais desiguais da Europa, com um ordenado mínimo de 480 euros, por que razão é que o ordenado de alguém que ganha 20 mil euros não se pode reduzir para 7 ou 8 mil? Será isto demagogia? Ou não era isto que o sr. António Borges estava a pensar?

domingo, junho 03, 2012

demitiu-se o líder da jota madeirense!

Foi notícia que surgiu por acaso, primeiro na televisão e depois no computador. O líder da JSD madeirense, um espécime quase acefalita, videirinho e estouvadamente seguidista de Alberto João Jardim (não sei o nome do rapaz nem tão-pouco me apetece procurá-lo), demitiu-se do cargo que ocupava nessa estrutura partidária. Ouvi-o e viu-o na televisão. Estupefacto fiquei! Noto o cenário por detrás, que resume toda a governação regional: túneis, autoestradas, enfim: obra feita!...
Não é meu hábito, propositadamente, inserir amostras fílmicas aqui no Res Civitas. Mas parece-me que isto vale a pena. Custa-me simplesmente acreditar como é possível termos deixado isto acontecer. Estes filhos de Jardim são deputados. E este diz que vai voltar.

domingo, maio 20, 2012

estamos caminhando em direção ao olimpo, numa versão de santana lopes

Espreitei Santana Lopes no seu blogue. Vi a sustentação da tese neoliberal deste Governo esparrinhada ao seu melhor nível: "É bom de notar que, nas últimas semanas, as notícias de há meses sobre sucessivos encerramentos de empresas, quase desapareceram. Aumentaram os sinais e as notícias de pessoas à procura de emprego, por vezes, em situações quase desesperadas. Mas, de facto, nestes primeiros meses, a recessão parece não ter ido tão fundo".
Palavras para quê?!...

como é possível?

No Público, nesta semana, apresenta-se um estudo onde se revela que as empresas cotadas na bolsa de Lisboa (PSi-20) corrigiram a massa salarial dos seus trabalhadores, em 2011, penalizando-os em 11%. Do mesmo modo, os gestores dessas mesmas empresas desfrutaram da respetiva correção salarial, ao verem os seus ordenados aumentados em 5,3%. Isto faz com que a diferença nos salários entre trabalhadores e gestores atinja a extraordinária expressão numérica de 44, a favor dos últimos. Acrescente-se que este cenário é também possível devido aos prémios que estes gestores conseguem arrebanhar, no alto das suas sapiências tradicionais.
Nem imagino o que seria de nós sem esta gente.

outra vez o futebol

Não poderia a seleção portuguesa de futebol participar no campeonato da Europa sem toda esta pacovice em volta da sua pessoa? Desde hinos e canções, concursos populares, autocarro último modelo, prolongação do contrato do treinador sob ameaça velada, tempos intermináveis de antena deste e daquele... tudo tem lugar no mundo pátrio do futebol. Eu sei que o povo gosta, mas o mais importante são os jogos.

estranha República

Um dia, um importante deputado socialista, em trabalho na Assembleia da República, no meio de uma entrevista, levanta-se e surripia os gravadores dos jornalistas. As consequências deste tão nobre e elevado gesto foram uns louvores do presidente do grupo parlamentar do PS, Francisco Assis, dando conta de nada e um encaminhamento, passadas umas breves semanas, do deputado para diversas comissões, entre as quais - é preciso ser-se de ferro para não esboçar um sorriso - a comissão parlamentar de ética, cidadania e comunicação.
Miguel Relvas telefonou para o jornal Público com ameaças do género: não publiquem isto! Se o fizerem, promoverei um blackout junto do conselho de ministros para com o jornal! Para além disso, anunciarei na internet dados sobre a vida privada da jornalista!
Miguel Relvas é ministro da República e tutela a comunicação social; Ricardo Rodrigues continua como deputado. Nem um nem outro deveriam pertencer à Política.

sábado, maio 12, 2012

da oportunidade à tragédia

Passos e Gaspar entraram, aparentemente, em rota de colisão. O que ambos disseram sobre a problemática do desemprego daria, por si só, para a apresentação de um pedido de demissão por parte do ministro das finanças. Tudo por que as declarações de um posicionam-se em contextos extraordinariamente dissonantes das do outro. A não ser que vivamos, politicamente, num regime de completa hipocrisia e falsidade, por parte do executivo. Já aqui escrevi que este Governo é demasiado incompetente para dar resposta às várias crises que, desde 2008, nos têm assolado, vindas não só da Europa e dos Estados Unidos (onde tudo começou), como também originadas internamente, desde há décadas, desde o maná dos dinheiros europeus cavaquistas. E a incompetência do executivo começa, desde logo, pelo chefe do Governo, Passos Coelho, o qual, por estar à hora certa no lugar certo, e também porque em Portugal impera um desgraçado rotativismo que já nos afundara nos finais do século XIX, se viu convidado a formar governo pelo Presidente da República, tendo como visão sacrossanta um livrito escrito meses antes da tomada de posse, onde dava conta de uma visão de um extremado neoliberalismo, em que inclusivamente se desenhava a venda do único banco público.
E aqui entramos neste aparente ponto de desencontro entre os dois governantes. Neste sentido, Gaspar não apresenta o mais que lógico pedido de demissão simplesmente porque não estava a ser sincero, ao contrário de Passos. É que Passos Coelho, tal como Gaspar, acredita mesmo que o desemprego é uma janela de oportunidade, aproximando o desempregado de um frio e opaco número estatístico. Daí que as suas declarações se afigurem naturais à luz da doutrina que defende. No que diz respeito a Vítor Gaspar, bebedor da mesma fonte opípara, deve-se realçar simplesmente a sua construção dissimulada, saída de uma bem construída teia de tecnocracia europeia e competente, precisamente aquela que nos iria a pôr a todos, incautos biltres do funcionalismo público, na ordem.

terça-feira, abril 24, 2012

o roubo da pen, em oliveira do bairro

A história conta-se em poucas e simples palavras. Um afagado grupelho de alunos de uma turma do 11º ano, em Oliveira do Bairro, roubaram a pen da professora de biologia, com o vetusto intuito de conhecerem, em primeiríssima mão, os exames da disciplina. Para isso, conquistaram a preciosa ajuda intercalar de alguns colegas, os quais remeteram a professora para o pbx da escola, a fim de atender um ausente telefonema.
Nada de anormal, até aqui. Nada do que outros alunos, noutros tempos, não houvessem já elaborado, com ou sem telefonema, mas decididamente sem pen. A escola foi quase célere a sancionar os alunos: alguns foram alvo de sete dias de suspensão; outros ficaram-se pelas 24 horas, de acordo, naturalmente, com o grau de envolvência no ato.
O que não deixa de ser singular - e um espelhamento dos tempos - foi a rapidez com que uma mãezinha (e aqui o diminutivo é óbvia e depreciativamente propositado) recorreu para a Direção Regional de Educação do Centro, a fim de anular tão pesada sentença. Este órgão, em arrumação de casa, determinou que um dos prazos havia sido ultrapassado pela direção da escola, anulando o castigo.
Está, assim, narrada a história. Pensei de imediato na mãe de Bragança que enviava as respostas do teste para a filha de dez ou onze anos, via telemóvel. O problema disto tudo é que estes pais são já fruto de todas as experiências educativas do nosso famigerado incrédulo sistema de ensino.

segunda-feira, abril 23, 2012

um conde no tribunal constitucional

A candidatura de Conde Rodrigues a juiz do Tribunal Constitucional levantou polémica na praça política. E não consigo vislumbrar o porquê. Acaso não foram sempre os partidos a partilhar desde sempre as cadeiras do Palácio Ratton? Qual a diferença se este saiu há pouco tempo do Governo? Por que razão atira Paulo Portas com um "acho que o Tribunal precisa de juízes credíveis e não de juízes de partido"?
De qualquer modo, estes lampejos iniciaram uma envergonhada vaga de contestação ao próprio tribunal. Será preciso um tribunal fiscalizador da constituição? Não existe para isso o Presidente da República? Pois a equação deveria, a meu ver, ser colocada ao contrário: se já existe um órgão para fazer cumprir os preceitos constitucionais, então qual o papel do PR? Alimentar o uso estafado da palavra?

quarta-feira, abril 11, 2012

a industriosa e utópica autoestrada transmontana da esperança num estafado programa de televisão

Ouço e vejo na televisão o programa “Portugal Hoje”, conduzido pela inevitável Fátima Campos Ferreira, dedicado ao interior do país, em geral, e ao distrito de Bragança, em particular. Os convidados são, na sua maior parte, transmontanos. Para além de algumas pequenas barbaridades eleitas por alguns destes convidados (sentido pejorativo em se ser do interior?!...os inconjuráveis caretos de uma aldeia de Macedo de Cavaleiros...), não me escapa ainda, estupefacto, a inglória crença que esta gente ainda açambarca na autoestrada transmontana. Demora-se muito tempo para chegar a Bragança, diz, afoita e obtusamente, a locutora. O que ela queria? Uma autoestrada em linha reta? O que interessa ter uma via de comunicação terrestre rápida se do outro lado existir um vazio, um lugar oco, sem esperança e sem retorno? Por acaso nunca ninguém pensou no desenho demográfico do país, imposto por governos décadas após décadas? Por acaso nunca ninguém se questionou por que razão é que se pode trabalhar no Porto e residir em Aveiro e ser transportado diariamente através de comboio, o que já se afigura completamente impossível se o local de residência for, por exemplo, Vila Real? Quando é que estes governantes, presidentes de câmaras, partidos políticos, teimam na opção circunstancial, efémera, em vez de projetarem uma região, um país, igual nas suas oportunidades, igual no seu desenvolvimento social? O que significa verdadeiramente a palavra interior num país como Portugal, todo ele litoral? Não é, decididamente, um vocábulo com uma abrangência polissémica significativa. Acrescentaram-lhe simplesmente, ingloriamente, esta trágica aceção.

terça-feira, abril 10, 2012

as explicaçõesde cavaco

Por muito que Cavaco Silva explique ao país as (suas) razões de concertação com o diploma do Governo que projeta o fim das reformas antecipadas, a verdade é que ninguém com uma sólida estrutura democrática consegue eficazmente entender o modo como tudo foi cozinhado, muito menos as extraordinárias desculpas de Passos Coelho. Este sublinhou simplesmente isto: tudo foi feito à revelia dos demais parceiros sociais (dos portugueses, portanto), pois de outro modo os trabalhadores portugueses em situação de pré-reforma correriam todos, angustiados e desalmados, a solicitar esse último maná institucional.
Isto não é próprio de uma democracia.

sábado, abril 07, 2012

Manuel Alegre, afinal, não queria ser presidente

Não lembrou ao diabo mas lembrou a Manuel Alegre: ficamos hoje a saber pelo próprio que o candidato a presidente da República Manuel Alegre estaria somente talhado para ocupar o mais alto cargo político do país quando os ventos corressem de feição. Surpreendentemente, o poeta escreveu, no prefácio ao livro de Alfredo Barroso, o seguinte admirável trecho do pensamento político contemporâneo: "Sempre que vejo (os funcionários da troika) dou graças não ter sido eleito Presidente, porque não suportaria tamanha humilhação". O seu primeiro republicanismo patriótico obriga-o depois a divagar pelo lugar-comum, inventado por Fernando Ulrich, e afirmar que esta velha nação não deve andar de mão estendida para três funcionários da Troika (a aristocracia é assim: não aceita estender a mão para qualquer um).
Tenho a ligeiríssima impressão de que o que sobrou do milhão de votos da derrotada primeira eleição presidencial andará como Manuel Alegre: a dar graças!...

sexta-feira, abril 06, 2012

as reformas antecipadas e cavaco

Não lembraria decerto ao diabo o que lembrou a Gaspar e Passos Coelho quando teceram, pela calada da noite, a proibição das reformas antecipadas. Esta baixa política é tão ou mais grave do que aquela que originou o fim do Governo de José Sócrates, quando este não deu cavaco ao Cavaco relativamente à implementação do PEC4. Se o Presidente da República (aqui corresponsável pela omissão) representa o povo português como o mais alto magistrado da nação que é (provedor do povo, como gosta de se intitular), então parece-me que estamos muito mal representados. É que com o seu silêncio (e aprovação) anuiu com esta forma de fazer política, unilateral, umbilicalmente neoliberal e - as evidências oblige - com uma certa dose de tiques próprios de uma governação negativamente autoritária. Para além disso, não vejo de que maneira é que esta proibição contribui para a melhoria do nosso tecido laboral. Quem pensa reformar-se antecipadamente, ciente de que não vai usufruir a reforma equivalente aos seus anos completos, é inegavelmente um trabalhador desmotivado. Por outro lado, aquele que o substitui, ou por via de uma situação de desemprego, ou por início de carreira, estará decerto mais apto para contribuir positivamente para a produção da empresa que o acolhe. Vejamos, por exemplo, o caso de um professor (abro parêntesis para salientar a apropriada declaração de Mário Nogueira quando referiu o teor anacrónico desta lei, ao defraudar objetivamente a expetativa de muitos professores que esperavam, em nome de um equilíbrio pedagógico-didático, o final do ano letivo para passarem a uma tão desejada reforma, mesmo que esta se afigurasse "antes do tempo"), vejamos, dizia, o caso de um professor, com muitos anos de serviço, despegado das novas tecnologias e incapaz (no sentido de não ter curiosidade nem engenho intelectual) de originar qualquer perspetiva investigadora. Não será melhor para os alunos dessa escola, para os níveis educacionais do país, a entrada no sistema de ensino de outro docente, com mais empenho, ideias, em suma, mais capacidade (de trabalho, pedagógica, instrutiva, cultural...)?
Não me enganarei muito se asseverar que esta proibição terá um resultado prático contraproducente, o qual se manifestará no aumento dos atestados médicos. E estes não serão, estou certo, deslegitimados por qualquer índole revanchista. Não vejo como se pode obrigar a trabalhar quem já optou por deixar de trabalhar. As simples e frias somas aritméticas, neste caso, não resultam.

quinta-feira, abril 05, 2012

os subsídios perdidos

Anda por aí muita confusão. O sr. Weiss admitiu que os portugueses trabalhadores inseridos no setor público jamais tornarão a apalpar os subsídios de férias e de natal. Membros do Governo, entre os quais Carlos Moedas e o próprio Gaspar reafirmaram a vontade do acordo da Troika a este respeito, ou seja, os cortes a este nível durarão até ao término contratual entre a Troika e o Governo português. Por fim, Passos Coelho afirma que os subsídios só serão repostos em 2015, ano de... eleições legislativas (esta última parte, na verdade, já a não verte atmosfera comunicativa da imprensa). Andamos como baratas tontas. Obviamente, uns mais do que outros. E o grande problema passará sempre por aí: a desigualdade gritante que vai crescendo sempre mais um pouco a cada dia que o sol nasce, em Portugal.

quarta-feira, abril 04, 2012

uma visita ao millennium

É raríssimo ter de deslocar-me aos bancos. Porém, hoje fui obrigado a visitar uma sucursal do Millennium. O que antes se afigurava um balcão brioso, com um atendimento personalizado, tendencial e preocupadamente eficaz, é hoje uma espécie de tasca financeira. Desde azulejos partidos, o balcão de atendimento picado, manchas negras no teto, luzes fundidas, funcionários desmotivados (vestuário, artificialismo penoso na linguagem), computadores demorados, tudo vi naquela visita que demorou quinze ou vinte minutos. Reparei ainda no prodigioso e altaneiro José Mourinho, que disponibiliza a sua marca ao Millennium. Decididamente, a cara não bate certo com a careta. Ou será que estes iluminados administradores (e os criativos publicitários) pensam que são os milhões pagos ao mister Mourinho que conjugam a salvação do banco?

terça-feira, abril 03, 2012

a suspensão permanente dos cortes

A Comissão Europeia, pela voz do senhor Peter Weiss, da direção-geral de Assuntos Económicos e Monetários e membro da missão de ajuda externa para Portugal, já avisou que os cortes relativos aos 13º e 14º meses dos funcionários públicos e pensionistas poderão assumir um caráter permanente. Percorri de imediato o calendário e verifiquei que o primeiro de abril já havia passado. Peter Weiss deve conhecer a realidade do país, tal como a conhecem Gaspar e Passos e também o Álvaro. Conseguintemente, considerará normalíssimo a dissipação da tradicional classe média portuguesa, a qual se afigurava já manifestamente remediada, tendo em conta padrões de outros países. O escopo de outrora inverte-se, agora. Antigamente, importava tirar da pobreza cerca de 20% da população. Atualmente, interessa encostar à base piramidal da sociedade o maior número de portugueses. E a equação é simples, óbvia, cristalina: quantos mais forem os excluídos, mais serão aqueles que sairão, dentro de dois ou três anos, do limbo social. E a receita, tão estoicamente assentada pelos portugueses, deu, afinal, frutos. Gaspar e Passos e este Weiss tinham, luminosamente, razão.

sábado, março 31, 2012

salários públicos alemães sobem

Em dois anos, os salários das empresas públicas alemãs subirão 6,3 por cento. Para além disso, os trabalhadores terão direito, em 2013, a 29 dias úteis de férias, aos quais se acrescentará mais um a partir dos 55 anos de idade.
Quando confrontamos estes dados, ficamos com um não sei quê de descontentamento, siderados com um efémero país de costas voltadas para os seus compatriotas, guiado por obsessivas personagens de aritmética linear. Por muito que estes senhores nos queiram fazer crer em novos amanhãs, vivemos cada vez mais em mundos diferentes. Nós, evidentemente, não eles.

segunda-feira, março 26, 2012

o futebol português

Desde que me lembro, sempre ouvi a mesma cantilena dos dirigentes, treinadores e futebolistas relativamente aos erros dos árbitros. No caso dos dirigentes, o caso afigura-se mais grave, pois são eles o rosto institucional do clube. No dia em que um qualquer energúmeno, desses que uivam pelas claques, se lembrar de um qualquer ajuste de contas mais grave, então será esse o dia da condenação generalizada, em que se multiplicarão os minutos de silêncio, a reflexão efémera e os olhares envergonhados. O futebol é o reino das culpas alheias. Todos erram, menos os dirigentes, os treinadores e os futebolistas, que até falham golos de baliza aberta.

terça-feira, março 20, 2012

deputados europeus contra presença de Dominique Strauss-Kahn

Que eu saiba, Dominique Strauss-Kahn não foi condenado pelos tribunais americanos. Por conseguinte, não me parece que seja um cidadão coartado dos seus direitos, tendo em conta que a União Europeia se edifica nos princípios normativos de um Estado de Direito. Se um conjunto de garotos universitários ingleses apupou e apedrejou com ovos de galinha o antigo presidente do FMI não é coisa que me surpreenda. A juventude, a eterna juventude é irreverente, qualidade que Cavaco Silva gosta muito em campanha eleitoral e já não tanto quando se aproxima da Escola António Arroios. Porém, quando eurodeputados contestam a presença de Strauss-Kahn no Parlamento Europeu para dissertar sobre a crise financeira, apensando argumentos tão extraordinários como a dignidade das mulheres (um convite "indecente" e que "pode provocar problemas", dizem), são eles próprios que se desenquadram no que deve ser o respeito pela normalidade judicativa. A não ser que, para esta gente (um conservador holandês, de seu nome Derk Jan Eppink e um grupo de mulheres socialistas e verdes da Bélgica e da Hungria) o postulado da inocência valha absolutamente nada.

quarta-feira, março 14, 2012

o extraordinário alargamento para 18 clubes

Por vezes, espanta-me certas iluminadas decisões de não menos reluzentes sábios da nossa praça. O futebol, então, anda cheio delas. A poucos meses do término do campeonato da primeira divisão, projeta-se o seguinte, como forma de alargar para 18 o número de clubes para o próximo ano: ninguém descerá de divisão. Posto isto, ninguém quer saber da verdade desportivo, a qual estaria assegurada com o empenho, nestes derradeiros jogos, das equipas que até à data se mantinham na luta para não descer de divisão. Ninguém se lembrou, por exemplo, que o factor desportivo estaria assegurado se os dois últimos classificados da primeira liga disputassem uma liguilha com os quatro primeiros da divisão de honra, a fim de aferir as melhores quatro equipas, precisamente as que teriam acesso direto ao principal campeonato, no próximo ano.

terça-feira, março 13, 2012

cavaco e a questão sócrates

Cavaco Silva ainda não entendeu verdadeiramente o que está em causa. E o que está em causa, no prefácio que escreveu ao livro que compagina as suas intervenções políticas do último ano (roteiros vi), é muito menos as afirmações que edifica em relação à lealdade de José Sócrates e muito mais a sua falta de coerência política. Marcelo Rebelo de Sousa explicou isso muito bem no seu comentário semanal na TVI. E a desconexão de Cavaco Silva pode-se resumir na seguinte formulação interrogativa: se o primeiro-ministro violou mesmo a Constituição da República (artigo 201), como advoga Cavaco, por que raio o não demitiu? A não ser que a nossa lei fundamental valha já muito pouco para esta gente. Aliás, pelo que se tem visto, desacertos constitucionais é coisa que anda por aí aos montes.

terça-feira, março 06, 2012

ministro a prazo? não, não, diz relvas

O governo de Passos Coelho é uma estrutura desconexa e, muitas vezes, incompetente. Olho para a ministra da agricultura, pescas e ambiente e o que parece é que vemos uma personagem sem rasgos de alguma notoriedade nestes assuntos, a braços com uma estrutura que desconhece, uma espécie de criança com um brinquedo novo nos braços. O ministro Álvaro foi alvo de uma grande pressão nestes últimos dias. Passos coelho ajudou à festa, reunindo com ele durante três horas, quando os holofotes mediáticos estalavam no sentido da sua eventual saída da orgânica do executivo. Tudo porque é visível o paulatino esvaziamento do seu raio de ação.
Mas o mais grave e interessante deste Governo chama-se Relvas. Ainda há pouco o ouvi afirmar, perentório, à saída de um qualquer e ocasional encontro, que Álvaro Santos Pereira não se encontrava a prazo no Governo. Ora, que eu saiba, Relvas não é primeiro-ministro e só a este compete demitir ou avalizar a continuação dos ministros.

quinta-feira, março 01, 2012

decidam-se

Com o desemprego em janeiro nos extraordinários 14,8%, colocando-nos no pelotão da frente europeu, o novo responsável da missão do Fundo Monetário Internacional em Portugal defende que o Governo deve implementar políticas ativas de emprego. E a explicação é simples: é desta maneira que a economia cresce.
Sabemos que o que está a ser feito assenta num exclusivo pressuposto: cumprir as regras, inverter os números do défice. Convenhamos que não é tarefa que exija especiais atributos. Daí que nas "novas democracias" da Grécia e Itália os governos não são votados pelo povo, mas nomeados tecnocratas "competentes". Sabemos também que estes têm, em relação à política, um epidérmico afastamento. Acontece que nada se resolve sem política, pois é precisamente esta que olha e decide em nome das pessoas e não em virtude dos números.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

recomendações

O relatório Going for Growth, de 2012, da OCDE, traz variadíssimas recomendações a Portugal, todas, aliás, de grau muito pouco surpreendente. No que se refere ao mundo do trabalho, gostaria de salientar apenas uma: o estendidíssimo alargamento, ao nível da proteção do emprego, entre os trabalhadores vinculados e os trabalhadores a prazo fixo. Um outro dado inolvidável diz respeito à distribuição dos rendimentos entre os trabalhadores portugueses. Nada que não se saiba há já longos anos. Somos, assim, dos países da OCDE com maiores índices de desigualdade salarial. Quando é que haverá coragem para se modificar estes dados? Não será por aí que o impulso para a verdadeira modernização, para a real saída da crise, se encaminhará?

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

alguém acredita?

Até posso acreditar na vontade, mas o mesmo já não acontece com a probabilidade. Afirmar que Portugal se encontra no pico da recessão e que daqui para a frente será tudo a subir no sentido de um progressivo afastamento desse cume, não só me parece implausível como também onírico. É que conhecer a classe média portuguesa através de números não é a mesma coisa do que a conhecer de facto, no seu respirar quotidiano. Por conseguinte, não me parece que a ausência dos subsídios de férias e de Natal seja um bom remédio para nos tirar de qualquer recessão económica. Mas esses senhores de Bruxelas (é de lá que partem estas previsões e não do nosso extraordinário ministro das finanças) lá fizeram, decerto, bem as contas. E dois e dois continuam a ser quatro, para alguns.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

detenção em algeciras

Andarei decerto distraído, mas ainda não percebi a relevância das copiosas notícias dos nossos telejornais a respeito da detenção, em Algeciras, de Sara Norte. Ando às voltas e não sei quem é Sara Norte. Proponho um documentário, em simultâneo e em horário nobre, sobre a vida (e obra) de Sara Norte.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

regulamento de contratação de professores

O ministério da educação continua na sua senda vertiginosa de uma plausível reforma curricular. Entrementes, virou-se para a contratação de professores. Justifica-se com a agilização dos concursos. Uma das propostas não me deixou alheio. Trata-se da equiparação, para efeitos de concurso, dos professores do privado com os do ensino público. Ambos prestam um serviço de educação pública, adianta alguém ministrável.
Pois muito bem. Deve então o ministério da educação, na sua douta e desassossegada demanda justiceira, começar por integrar no quadro aqueles professores do ensino público que laboram há muitos e estafados anos num regime de exclusividade contratual. É que os professores do ensino privado, ao fim de três anos, entram automaticamente nos quadros da escola. Se queremos ser sérios, senhores, não basta parecê-lo.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

isabel jonet premiada

Em 2007, escrevi isto. Hoje, após ler a notícia de que Isabel Jonet foi distinguida, pela Seleções Reader's Digest, com o prémio Personalidade Europeia do Ano, a impressão mantém-se. Entre o orgulho de pertença e a emoção desalentada intrínseca à justificação do próprio prémio, gostaria que o mesmo não tivesse existido. E termino como em 2007: estou certo que Isabel Jonet concordará comigo.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

gente que não se conhece

De vez em quando, a frase de Paul Valéry sobre a guerra - "a guerra é um massacre entre gente que não se conhece, para proveito de pessoas que se conhecem, mas não se massacram" - assoma-se-me descomplexadamente, como se forçasse uma qualquer entrada desautorizada. Estes rompantes desassossegos são, obviamente, mais frequentes quando a temática versa a própria guerra. No entanto, penso que esta frase pode ser ajustada tendo em conta a aparentemente irresolúvel crise económica e financeira que passamos. Deste modo, poderíamos escrever que gente que não se conhece é arrebanhada pelas ações decretadas por gente que se conhece, mas que não arrebanha. Numa palavra, pois já vai longa a noite: é fácil prescrever, quando se vive (bem) acima da média do comum dos mortais, sofríveis remédios para uma suposta cura.

domingo, fevereiro 12, 2012

o cândido vasco

Vasco Graça Moura não esperava tanta polémica em torno da seu prepotente gesto em mandar retirar dos computadores do Centro Cultural de Belém o programa que verte, automaticamente, a grafia portuguesa para o que se designou apelidar de nova ortografia. Parece-me no mínimo ridículo esta afirmação. É evidente que Graça Moura estava ciente do que originaria. E também é claro que lhe assiste um direito de lutar por esta causa, a qual é, aliás, muito distinta e importante. Daí que também não encarrilhe com aqueles que lhe apontam dedos acusatórios de não obediência a normativos governamentais. Vasco Graça Moura usa simplesmente as armas que tem ao dispor e usa-as muito bem, ainda para mais quando se começam cada vez a ouvir, com maior empreendimento, de toda os cantos da lusofonia, vozes que esgrimam válidos e diferenciadores argumentos sobre esta decisão luso-brasileira.
Há tempos, o primeiro-ministro convidou, toscamente, os professores a emigrar. Nesta perspetiva, revela-se muito interessante a seguinte constatação: das várias áreas curriculares do ensino básico e secundário, uma das que se manifesta de maior incongruência relativamente a outros países lusófonos como, por exemplo, o Brasil, é precisamente o ensino da Língua Portuguesa. Ou seja: é muito mais fácil um professor de química, de inglês ou de matemática lecionar numa escola brasileira do que um seu colega de língua portuguesa. Afinal, há muito mais a fazer quando se pensa na preservação e incrementação no mundo da língua portuguesa. Neste sentido, a recentíssima reforma curricular na área do ensino da língua materna (os chamados novos programas para o ensino básico e secundário) é uma perfeitíssima inutilidade, tendo em conta, precisamente, a uniformização do ensino da língua portuguesa.

nem tanto ao mar, nem tanto à terra

O que não devia passar de um fait divers absolutametne inócuo, tornou-se assunto de interesse político. Uma conversa de intervalo entre o ministro Gaspar e o seu homólogo alemão só tem interesse num país cujos jornalistas funcionam espelharmente, retratando, de certo modo, a miséria grasnante. Daí que a paranóia patriótica do Bloco de Esquerda tenha a correspondência apropriada no desestruturante discurso de Relvas (desestruturante na medida em que se afasta vertiginosamente da realidade). Ou seja: nem o lusitano Gaspar se humilhou (foi, simplesmente, educado), nem o germânico Schaeuble disse nada de jeito.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

os bancos e a publicidade milionária

Não deixa de ser curioso que os bancos com maiores prejuízos no exercício de 2011 tivessem sido aqueles que apostaram em autênticas estrelas do firmamento desportivo: Millennium, com o inevitável Mourinho; BES, com o inevitável Ronaldo; CGD, com o inevitável Benfica. É certo que se pode sempre conjeturar que sem estas dispendiosas imagens de marca, as coisas correriam muito pior. Pessoalmente, duvido muito deste raciocínio.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

entrevista à josé gomes ferreira

Ouvi e vi a estafada entrevista de José Gomes Ferreira ao ministro da economia, Álvaro Santos Pereira. E o que se ressalvou de todo aquele monocordíssimo linguajar foi uma desconsolada sintomatologia de grau zero. Dois ou três desconcertados vocábulos a pairar naquela bafienta sala (o que estava no cimo da lareira eram sinos de natal?!...): reformas estruturais, brevemente e não há alternativa. Nada, pois. Estou mesmo propenso a crer que o próprio Álvaro não faz a mínima ideia de todo este seu teor discursivo. Diz o que tem de dizer e pronto. Tudo se resume a um efémero manual governativo. E as pessoas, essas, não cabem nas páginas do livro. O desígnio inicia-se e finaliza-se numa obstinação, numa congeminação troikana virada crença por este conjunto de pessoas mandadas. Cada vez mais o ser humano, na sua dignidade, não existe. Não há alternativa, diriam o Álvaro, o Passos, o Gaspar.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

magistrados com fome

Cavaco Silva tem razão. Há limites para os sacrifícios dos portugueses, ele próprio incluído. Os parcos rendimentos do Presidente da República mal chegam para as despesas. Não anda só neste incomensurável trilho deficitário. Maria José Morgado, coordenadora do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, referiu hoje que existem magistrados a passar fome.
Retenho-me uns segundos nesta incompreensível asserção e depressa chego à conclusão de que se entranha na cabeça de muita gente - pessoas de determinados estratos sociais e profissionais -, de que existem portugueses de primeira e de segunda condição.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

o piegas

Carece obviamente de explicação a grande reflexão de hoje do nosso primeiro-ministro sobre os portugueses, para que estes apelem à "transformação de velhas estruturas e velhos comportamentos muito preguiçosos" e que sejam "mais exigentes" e "menos piegas".
Provavelmente, ele quereria dizer: temos de ser mais alemães.

sábado, fevereiro 04, 2012

passos não gosta do carnaval

Esta fobia contra tudo que engloba descanso e apaziguamento de alma também cansa. Ficamos a saber que Passos Coelho não gosta do Carnaval. Eu também não. Aliás, eu não gosto do exacerbamento pagão como também não gosto do seu correspondente religioso. Acontece que estas coisas não se medem por gostos pessoais. "Ninguém perceberia em Portugal", adianta Passos, "que numa altura em que nos estamos a propor acabar com feriados como o 5 de outubro, o 1º de dezembro ou até feriados religiosos, que o Governo pensasse sequer em dar tolerância de ponto, institucionalizando, a partir de agora, o Carnaval como feriado." Noto esta vertigem para o prosaico popularucho ao enfatizar o "ou até feriados religiosos".
Fico simplesmente desalentado que esta gente não entenda que nem todos usufruem as suas deleitosas (deleitosas, sim senhor, deixem-se de volutuosas bagatelas discursivas) existências e que os feriados constituem, para o comum dos trabalhadores (sabem quanto é o ordenado médio em Portugal, não sabem? E o mínimo? E o número de horas semanais de trabalho? E o número de feriados por ano? Parece que, afinal, só estamos, desgraçadamente, à frente nas primeira e segunda opções) uma afortunada oportunidade de revitalizar a alma. Com ou sem folias carnavalescas.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

mário crespo e a demissão da direção de informação da RDP

Teve azar Mário Crespo. No momento em que apresentava o ministro Relvas num excerto da entrevista de ontem a Maria Flor Pedroso, na qual o ministro, com ar decidido e cândido, mandava a jornalista perguntar ao seu diretor de informação por que razão o jornalista Pedro Rosa Mendes fora despedido, nesse momento, dizia, onde só faltava a áurea a encimar o cocuruto de Relvas, surgia a nota de rodapé: última hora: direção de informação das rádio do grupo RTP demite-se em bloco.

mortes no estádio

Carradas de críticos com opiniões, especialistas do mundo árabe e afins discorrem sobre os acontecimentos de ontem num estádio de futebol, no Egito. Todos confluem em águas resultantes da tormenta verificada há um ano, a qual resultou na queda do regime do ditador Mubarak. É, digamos, a análise do imediatismo lógico.
O futebol tem-se erigido como uma espécie de um mundo à parte. Pacheco Pereira tem escrito, com muita razoabilidade, sobre o tema. Basta vermos as imagens televisivas em redor de alguns encontros de futebol protagonizadas por elementos das claques dos clubes para verificarmos que, por muito menos, muita gente se encontra nos calabouços. Daí que essa ostentação de superioridade moral exposta nas televisões e rádios sobre o acontecimento de ontem seja de todo infundada. E a razão é simples: o adepto fanático do Al Ahli ou do Al Masri é o mesmo que povoa as bancadas dos estádios portugueses: jovens e menos jovens afetados por um crescendo de impunidade judicial, ao abrigo das cores e da defesa de causas clubísticas. Por conseguinte, esta batalha campal podia muito bem ter lugar num qualquer campo de futebol da civilizada Europa. Há tempos vi parte de um estádio a arder...

terça-feira, janeiro 31, 2012

o encerramento dos tribunais: mais uma machadada no interior do país

Entre os deves e os haveres, não vislumbro o objetivo desta ação de despejo de alguns tribunais portugueses situados em concelhos pobres. Já aqui escrevi que isto não vai lá com um país assim desgraçadamente desenhado, com régua e esquadro sustentados por uma iluminada manápula. Este é o tipo de erro que pagaremos bem caro mais tarde, quando cairmos no ridículo de uma outra troika nos prescrever (quase que escrevia ordenar, mas optei por tom mais eufemístico) o repovoamento do interior. No imediato, uma evidência: a justiça, para as pessoas do interior, ficará mais cara. Do mesmo modo, contar-se-ão facilmente facilmente os advogados que resistirem neste mundo rural tão pomposa e mediaticamente (e interesseiramente) acarinhado.
Por que razão nos empurram para o litoral? Será que nos querem afogar aos poucos?

sábado, janeiro 28, 2012

álvaro

Álvaro, ministro,

justificou do seguinte modo a polémica causada na chamada sociedade civil decorrente da abolição dos feriados de 5 de outubro e 1º de dezembro: "quando se tenta fazer reformas profundas, quando se tenta alterar comportamentos, é natural que haja reações. Portanto, não surpreende".
Não sei profundamente se o Álvaro tem condições para perceber o que lhe vou dizer. No entanto, é meu dever, como cidadão deste cada vez mais tristonho país (ouvi-o também afirmar, descomplicadamente, que Portugal é um excelente país para se viver... será, decerto, para si, Álvaro...) explicar-lhe o seguinte: cortar dois ou três feriados não o torna necessariamente um reformador. E é fácil explicar porquê: não é reforma alguma. É uma simples medida avulsiva, de alguém que não faz a mínima ideia do que anda cá a fazer. Eu não alinho pelo diapasão daqueles que, inevitavelmente, expurgam as suas culpas. Você tem, efetivamente, culpa no cartório. E tem-na porque aceitou um cargo que visivelmente não se achava preparado. Não é o único, infelizmente, neste seu governo.
Não sei se sabe, Álvaro ministro, mas existem mais álvaros no mundo. E muitos destes trabalham oito desgraçadas horas por dia, ganham uma miséria e aguardam religiosamente os feriados para, de certa forma, se sentirem senhores de si próprios. E o que você certametne sabe, Álvaro, é que são precisamente estes que não contam nas suas contas. São, simplesmente, abstrações.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

os mais ricos

Obama orientou, no discurso do estado da União, o que irá ser o leit motiv da sua campanha eleitoral: os ricos devem pagar mais impostos. Felizmente, ele vive num país no qual os multimilionários (alguns, pelo menos) gozam de um forte sentido patriótico e altruísta. Neste sentido, Bill Gates seguiu o teor discursivo do seu colega endinheirado, Warren Buffett, e afirmou, descomplexadamente, em Davos, que paga poucos impostos, pelo menos tendo em conta o que seria justo pagar.
Por cá, o encadeado discurso dos comentadores económicos e políticos plana, invariavelmente, no seguinte pressuposto: dão emprego a muita gente. E é assim que eles sobrevivem, silentes, nestes corredores pátrios. Como sabemos, um deles até alcançou o obsceno descaramento de sublinhar que não é rico, que é apenas um trabalhador.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

nós e os outros

O ordenado mínimo em França, Espanha e Luxemburgo é muito superior ao nosso; a gasolina, nestes países, é mais barata do que em Portugal. Na Suíça, debate-se a criação de um salário mínimo de 3000 euros, no sentido de proporcionar às pessoas (pessoas, seres humanos, vidas... esquecemo-nos, muitas vezes, no meio deste turbilhão mercantilista, deste pormenor...) uma vida decente. Em Portugal, destrói-se, inapelavelmente, importantes tecidos sociais, designadamente aqueles que conferem a cada país verdadeiros índices de desenvolvimento.

sábado, janeiro 21, 2012

a razão de cavaco

Quero ainda acrescentar, para além disto, que Cavaco Silva estaria provavelmente a pensar no novo emprego de Catroga. Este, estou certo, não deixará de concordar em absoluto com o seu amigo sr. presidente.

adenda: o primeiro-ministro regozijou-se com este coelho saído da cartola presidencial. Em Guimarães, não se fez esquisito e insistiu, mais uma vez, que os portugueses - entre os quais o sr.presidente da República se inclui - compreendem os sacrifícios que estão, neste penoso momento pátrio, a fazer, pois sabem que não existe alternativa a este caminho.

as 180 palavras de cavaco silva

O professor solicita aos alunos para que a composição não ultrapasse as 180 palavras. A maioria não chega a tão padronizado número. Outros, mais finos, ficam a dez ou mesmo quinze palavras desse desígnio, sabendo de antemão que o professor não as conta ao milímetro. Porém, há ainda os que, em vez de 180 palavras, enchem duas folhas de uma sofrível prosa, principalmente aquela que começa a ultrapassar a meia página, onde o limite das 180 palavras se inicia.
Cavaco Silva costuma pertencer ao primeiro grupo, dos certinhos, daqueles que ficam nas 150 ou 170 palavras. Não desilude, mas também não deslumbra. Ontem, mais distendido na prosa, o presidente da República decidiu ir mais além do seu enquadramento verbal. Espalhou-se por completo e nem precisou de duas páginas.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

nomeações pseudoautocriticadas

Pedro Mota Soares, interessante e zeloso deputado do CDS-PP na anterior legislatura, criticava a ministra do trabalho, Helena André, por esta ter escolhido uma boa mão cheia de "boys" para os diversos cargos de diretor e diretor adjunto. A então ministra justificava assim o seu processo de escolha: todos os nomeados tiveram o currículo como primeiro factor de avaliação.
Pedro Mota Soares, atual ministro da Segurança Social, procedeu exatamente da mesma forma da sua anterior visada. Mas o mais interessante reside na sua própria justificação, a qual é, ipsis verbis, a que Helena André, confrontada um dia, na Assembleia da República, pelo tal deputado do CDS-PP, utilizou: tudo se encontra exclusivamente assente em paradigmas curriculares.

domingo, janeiro 15, 2012

as nomeações contestatárias

Aos poucos, este governo começa a dar sinais de um panorama de desilusão e de incompetência, o que leva a acreditarmos que é tudo uma questão de oportunidade, tendo em conta o momento do país e o tradicional rotativismo partidário. Foi assim com Sócrates (alguém julgaria que chegasse a primeiro-ministro?) e foi assim também com Passos Coelho (a mesma questão se coloca). Daí que as voltas e baldrocas dos ministros numa vã tentativa de desculpabilizar as quase inauditas nomeações dos Catrogas partidários sejam objetivamente patéticas. Portas, como vimos, tentou, desfasadamente, evocar uma guerra norte-sul a respeito desta matéria. Agora, Assunção Cristas, uma promessa arriscada num trabalho que nitidamente não é para ela (a fazer lembrar aquelas promessas futebolísticas que nunca passaram de promessas) disse exatamente isto, a respeito da nomeação de Manuel Frexes, presidente da Câmara Municipal do Fundão, a qual arrasta pelos tribunais uma querela com a empresa que o próprio vai agora administrar (não sei se haverá muito disto por esse mundo fora, mas estou propenso a crer que esta situação merece almanaque): "a melhor maneira de resolver o problema é trazer os que mais contestaram". Esqueceu-se, todavia, de acrescentar: ... se forem do partido do Governo.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

nomeações competentes

Paulo Portas defendeu a nomeação de Castello-Branco, ex-vice presidente da Câmara do Porto, para a administração da empresa Águas de Portugal. Não foi, no entanto, muito criativo na sua argumentação. "É uma pessoa muito qualificada", diz o ministro dos negócios estrangeiros. No entanto, Portas esbarra contra uma parede de palha quando toma uma - esta sim, inovadora - singular defesa do norte (este homem não é do norte...): "a menos que seja por uma questão de xenofobia contra o Norte". Onde já se viu Paulo Portas com este tipo de discurso? Não me recordo. O que verdadeiramente sobressai, nesta desarrazoada declaração - acoplada a outras do mesmo teor de outros membros do Governo, a começar pelo próprio Passos Coelho, um primeiro-ministro cada vez mais notoriamente impróprio para o cargo que ocupa - é o desprovimento de decência política do executivo.
O tempo que vivemos não se deve limitar, no que à ética diz respeito, aos voos em económica nem às "desgravatadas" decisões da ministra Cristas. Deveria ser um tempo de mudança de mentalidade. E estou cada vez mais convencido que será o povo a iniciar mais esta revolução.

terça-feira, janeiro 10, 2012

edp-psd

Pode estar tudo certinho na nova equipa de administradores da EDP, com Mexia a encimá-la. As tontearias de Catroga, tentando justificar o injustificável (tenho valor de mercado, diz, burlescamente, o homem) valem o que valem, que é, absolutamente, zero.
O que aconteceu, com a promoção de valores de mercado como Catroga, Celeste Cardona (aqui está alguém que nasceu para isto), Teixeira Pinto (outro abençoado), Rocha Vieira (não está reformado?), Braga de Macedo e Ilídio Pinho, antigo patrão de Passos Coelho, foi, simplesmente, uma oportunidade perdida no reino da ética política.
Talvez os chineses devessem comprar mais de 50% da empresa e talvez estes pontas de lança estivessem a jogar num outro campeonato.

quanto vale a palavra de um ministro

O défice derrapará, este ano, na ordem dos 0,9% acima do acordado (imposto) com a troika no Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF). Não deixa também de ser curioso que esta derrapagem tenha uma ligação direta com o fundo de pensões da banca, as quais foram, de certo modo, nacionalizadas. Gaspar, o zeloso ministro das finanças, já veio a terreiro afirmar que não serão necessárias gravosas medidas adicionais para os portugueses. Alguém acredita ainda nisto? Terá ele próprio, alguma convicção no que diz?

domingo, janeiro 08, 2012

à tripa-forra

Mistifica-se e cozinha-se tudo muito bem na comunicação social: os políticos são mal pagos em Portugal. Olha-se para o lado e parece que, tendo em conta as idiossincrasias dos diversos países, parece que as coisas não são bem assim. na verdade, comparativamente a outras profissões, a distância da classe política para com os seus congéneres europeus encontra-se, grosso modo, apaziguada. O mesmo não se aplica, evidentemente, a um professor, enfermeiro ou a um caixa de supermercado. Mas uma mentira, pronunciada muitas vezes, sofre uma espécie de metamorfose. E o mais grave de tudo isto é que são os próprios, aqueles que legislam, a acreditar nisso. Daí que Alberto Martins, um sofrível ex-ministro da justiça, se tenha permitido gastar, no último mês de maio, 1100 euros em almoços. Foi até poupado, se tivermos em conta que o plafond mensal do seu (nosso) cartão de crédito era de 4000 euros. Coisa pouca, se notarmos que os restantes membros do ministério usufruíam, entre todos, 12000 para jantaradas e afins, totalizando, portanto, a módica quantia de 16000 euros. Perante isto, ninguém se fez rogado e José Magalhães, secretário de estado de Alberto Martins, desbaratou, em junho, mês de eleições legislativas, 3500 euros em refeições. Por isso é que esta gente, quando está no governo, engorda tanto!

as notícias em primeiro

O formato dos telejornais das três televisões é um perfeito exemplo de como não deve ser uma televisão generalista. Hoje, por exemplo, o serviço noticioso das 13 horas da TVI abriu com futebol e esteve com futebol durante os primeiros vinte minutos. Tudo porque se realizou ontem um jogo e hoje o Benfica poderia ocupar o primeiro lugar. Depois vieram as notícias. Depois esteve no ar durante mais ou menos 60 custosos minutos de pretensa informação. E depois, nestes quadros de interação dinâmica, onde o zapping é uma indubitável realidade, mudar de canal não é, definitivamente, solução. Mas o mais interessantes de tudo isto é que anda para aí uma entidade reguladora, a qual tem como principal incumbência regular estas pequeninas coisas.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...