sexta-feira, março 28, 2014

ouvir em silêncio

Artur Jorge, ex-selecionador de futebol, campeão europeu pelo FCP, disse um dia que desligava o som da televisão durante um jogo de futebol para não ouvir as necedades dos comentadores de serviço. Pois anda a passar-se mais ou menos o mesmo comigo. Desligo, prazenteiramente, o som. Depois, é ouvi-los papaguear ondulantemente a bocarra, sorrisos e promessas. Sei que anda por aí o alvor de um mundo melhor, novos amanhãs que cantarão. Sei que Portugal é um país de rosas com alguns espinhos e que estamos a sair da crise. Gosto de desligar o som da televisão e ver, simplesmente, Passos Coelho, Portas, Maduro e Seguro. Por mim, caladinhos é que eles estão bem.
Entretanto, não desligo para as minhas caminhadas diárias, as ruas e os caixotes do lixo, aquele olhar intrínseco e haurido das pessoas. Se os ouvisse, era bem capaz de acreditar.

dois milhões

Somos dois milhões a menos. O número é redondo e tem a ver com os recentes dados (ainda provisórios) do INE sobre a pobreza. A questão é, pois, muito séria e deixou de ser conjuntural. Estes dois milhões são pobres e sê-lo-ão para toda a vida. Para alguns, a vida está já no seu outono, para outros, no seu início; para outros ainda, com muitos sonhos e aspirações. No entanto, um traço comum os une: o irremediável e impositivo apego à pobreza.
De dois milhões sobram oito milhões. Estes, embora mais pobres, vão dando para encher as estatísticas positivas do Governo: uns carritos ali, uns défices acolá, um retomar de qualquer coisa mais além. No polo oposto, estão os mais ricos, agora ainda mais ricos. Estes também vão ajudando para os famigerados sinais positivos da economia. Portugal está na moda e recomenda-se. Somos um país estupidamente Gold.
Entretanto, somos dois milhões a menos.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...