domingo, setembro 27, 2009

derrotas

Primeiras previsões de resultados: várias derrotas: PS, PSD e CDU. Vitórias: abstenção, CDS-PP e Bloco de Esquerda. Por tudo isto, não compreendo os festejos eufóricos do PS.

quarta-feira, setembro 23, 2009

boçalidades

Se olharmos para a maioria das campanhas eleitorais em curso, não vemos muito mais do que boçalidades. A última foi conduzida por José Junqueiro em Viseu, quando leu, de forma ignorante, um excerto de um discurso de Salazar em pleno projecto daquilo que se designou por Estado Novo. O que quis Junqueiro provar com isso? Para além da sua própria boçalidade, o que conseguiu demonstrar foi que quantos mais junqueiros aparecerem em público (e já apareceu, pelo menos, um outro, chamado João Soares, para além daqueles circunstanciais que se empolgam com a presença do chefe), mais próximo Manuela Ferreira Leite se encontra da vitória no domingo. Ela esteve, aliás, muito bem na resposta à estupidez de Junqueiro. Tudo isto, de certo modo, me amargura. Ainda para mais quando todos estas pessoas se encontram sentadas, como deputados da nação, nas cadeiras da Assembleia da República.

segunda-feira, setembro 21, 2009

os srs. sondagens

Ouvir estes responsáveis pelas sondagens realizadas no nosso país no Prós e Contras é muito engraçado. São verdadeiros aprendizes de feiticeiros. Estou propenso a crer que eles não sabem que as pessoas gostam de desviar a resposta quando recebem um telefonema lá em casa a pedir o seu voto. Ouvi um dizer que não há dúvidas quanto ao vencedor que vai ser o Partido Socialista. Feitiçaria. A Fátima Campos Ferreira, embalada, simplesmente apaga o Partido Comunista nas suas espantosas análises pós-eleitorais.

contradição cavaquista

Uma contradição tremenda: Cavaco não quer perturbar estes dias de campanha eleitoral, deixando "todo o espaço para os partidos políticos" e acaba por demitir o seu mais fiel e antigo assessor. Sem esperar uns meros dias.

os equivocados

Não pretendo obviamente dar lições de socialismo a Mário Soares e Manuel Alegre, mas pasmei quando os vi, fervorosos, num apoio incondicional a José Sócrates no último fim-de-semana. É certo que vivemos numa época da Realpolitik, onde as tradicionais clivagens ideológicas entre os diversos contentores políticos tendem a esbater-se na espuma cada vez mais mediática da política. Por isso é que tendemos a olhar para os dois partidos do poder e vemo-los num só, incapazes duma real bifurcação política. O último governo de José Sócrates serve modelarmente de exemplo, quando expediu milhões de euros para salvar o BPN das fraudes de colarinho branco que durante anos foram sendo descaradamente desenroladas, ou então quando agiu de forma irredutivelmente prepotente nas pretensas reformas educativas protagonizadas por Maria de Lurdes Rodrigues, a qual liderou, provavelmente, a mais lastimável equipa educativa desde o 25 de Abril. Podia trazer ainda à colação aquilo que Francisco Louça tem anotado durante a campanha eleitoral sobre a privatização da GALP ou da EDP, empresas que oferecem, aos seus maiores accionistas, lucros fabulosos. Neste pressuposto, torna-se relevante que o maior accionista tivesse deixado de ser o Estado.
Pode ser também verdade que o PSD tem uma inclinação mais liberal do que o PS. Passos Coelho teve mesmo a ideia fabulosa, quando se apresentou à liderança do seu partido contra Manuela Ferreira Leite, de privatizar a Caixa Geral de Depósitos, um banco que deveria servir de referência aos demais, o que – facilmente se verifica – não está de todo a acontecer, pois toda a orientação administrativa da Caixa se tem fundamentado numa total diluição num mercado virado do avesso, como se desoladamente provou com a presente crise económica e financeira que vivemos.
Ora, foi contra todo este status quo neo-liberal, contra este socialismo moderno que tanto Mário Soares como, principalmente, Manuel Alegre se opuseram durante os últimos anos. Basta lermos os artigos de jornais e intervenções públicas do ex-presidente para facilmente verificarmos que coexistem, no interior do partido socialista, dois socialismos divergentes, em que cada vez se denota mais os tentáculos ameaçadores do tal que é moderno ou, se quisermos ser mais polidos, mais terceira via à Tony Blair. Manuel Alegre foi mesmo ao ponto de participar em comícios guiados pelo Bloco de Esquerda, pairando mesmo a ideia que o histórico socialista pudesse vir a formar um novo partido, partindo duma base de apoio de um milhão de votos conquistados nas eleições presidenciais. Pelos vistos, falou mais alto a visão adesivista da política, um defeito que Alegre, no alto da sua efígie poética, tem, convenientemente, combatido. Daí que, entre um eventual desapoio do PS nas próximas eleições presidenciais e este assomar no comício ao lado de Sócrates, Alegre não tenha hesitado (muito) e se quedasse, ainda que envergonhado, por esta última opção. E foi por tudo isto que, à falta de melhor argumento, Manuel Alegre se saiu com isto, numa tentativa frustradíssima de delinear objectivamente as diferenças entre os dois partidos do meio: uns trazem cravo na lapela nas comemorações do 25 de Abril; outros, não. Para Sócrates, foi suficiente.

quarta-feira, setembro 16, 2009

os "gatos" e os políticos

Desproporcionado o impacto que a série de entrevistas humorísticas protogonizadas por Ricardo Araújo Pereira é o mínimo que se pode dizer sobre isto. Qual Judite de Sousa, qual Constança, qual Clara de Sousa. Seria a "morte do artista" a rejeição ao programa. Até a Manuela percebeu isso.

campanha

O que eu verdadeiramente dispensava, nesta campanha, era o discurso de João Soares em Faro ("a outra senhora", repetiu ele, sem graça) e as palermices dum jota qualquer do PSD num jantar comício de hoje, com Manuela Ferreira Leite presente. A líder bem se esforça por fazer uma campanha diferente (e eu estou a gostar da ideia e até mesmo da campanha), mas há sempre esta raça indistinta que dá pelo nome de jotas e que até tem direito a um número negociado de deputados (!) e também a este tipo de imbecilidades.

segunda-feira, setembro 14, 2009

o fantasma do iberismo

Parece-me absurdo extrapolar as palavras de Ferreira Leite sobre o interesse particular dos espanhóis relativamente ao TGV. Em primeiro lugar, porque parece que tem razão, se tivermos em conta a reacção de alguns políticos do país vizinho. Depois, porque anexar às suas declarações uma espécie de nacionalismo primário, à extrema-direita, é precisamente de quem tem uma visão algo apertada sobre as relações/negociações que devemos ter com a única fronteira que nos abraça. E o verbo abraçar vem, neste caso, muito a propósito.

sábado, setembro 12, 2009

o debate

Um debate é, por definição, um confronto de ideias entre duas ou mais pessoas. Tendo em conta este pressuposto, o que vimos na SIC no passado dia 12 de Setembro foi mais um confronto de personalidades do que de ideias. Neste sentido, não é de todo inapropriado afirmar que, afinal, no que diz respeito a programas ideológicos, PS e PSD são, efectivamente, partidos que poderiam muito bem coexistir num só. O que eu quero dizer com isto é que nem o PS é um partido de esquerda (posição ocupada de forma natural pelo Bloco e PCP), nem o PSD é um partido de direita (ao contrário do que acontece, por exemplo, com o CDS-PP, com claras orientações programáticas, as quais absorvem, por vezes, o que de mais radical se verifica numa direita europeia cada vez mais extremista, embora ainda dentro de alguma virtuosidade democrática). Por isso, o fantasma alimentado por José Sócrates quando diz que Manuela Ferreira Leite quer introduzir mais sistema privado na saúde, educação e segurança social não tem realmente sentido, uma vez que a própria líder é categórica a desmentir essa suposta pretensão. Ou seja: não é pelo caminho das privatizações que podemos aferir as diferenças programáticas entre estes dois partidos. Para definir clivagens nesse sentido, temos, como disse, o Bloco e o PCP, cujos programas apostam fundamentalmente num cada vez mais premente peso estatal em diversos sectores basilares da sociedade, como a energia (EDP e GALP), a banca e os seguros. Nada, aliás, que um "bom" socialista não subscrevesse. Basta ouvir, por exemplo, Manuel Alegre ou Mário Soares (não entendo, sinceramente, a não ser por uma espécie de sintoma de pai fundador, os notáveis encómios de Soares relativamente a Sócrates).
Por tudo isto – e ao contrário do que diz José Sócrates e do que porventura pensa Ferreira Leite – não é uma escolha entre duas visões antagónicas de perspectivar a política que vai estar em causa dia 27 de Setembro. O que verdadeiramente separa, neste momento, PS e PSD é, essencialmente, a personalidade dos seus líderes, isto é, duas formas distintas de estar na política. Se, por um lado, Sócrates parece mais ministeriável do que Ferreira Leite é porque, simplesmente, ocupou a chefia do governo durante quatro anos e meio, alimentando, ao mesmo tempo, numa comunicação social muitas vezes estúpida, uma imagem pretensamente natural (talhada, portanto, para tão altos voos) mas que, amiudadas vezes, mais não fez do que reflectir uma personagem facilmente irritável quando confrontado com ideias contrárias às dele, embora sublinhe, como convém, que convive muito bem com o contraditório.
Se repararmos bem, toda a estratégia do primeiro-ministro ao longo da legislatura baseou-se no pormenor de linhas esquecidas de há quatro, três, dois anos atrás, ditas pelos seus opositores. Vimos isso nos debates semanais na Assembleia da República e vimo-lo agora nos televisivos. Quando não pode contrapor o que foi dito há dois ou três anos, regressa, imudável e finoriamente, ao detalhe duma qualquer menção no programa eleitoral do seu opositor. Trabalhinho de muitos assessores, pois é também para isso que eles servem. Duvido mesmo que, no caso do secretário-geral do PS e primeiro-ministro, tenham mais alguma utilidade. Por isso, Ferreira Leite tem razão quando reflecte que Sócrates é incapaz de perceber que não há duas realidades exactamente iguais e que defender, há quatro anos, o TGV não é a mesma coisa que o abraçar nos dias que correm. Daí que Sócrates fale muito do passado e apresente, invariavelmente, exemplos determinados de decisões pretéritas, as quais, embora importantes, não são pertinentes para definir a marca estrutural dum governo, pois não haverá nenhum político que não consiga alterar, num período de quatro anos e meio, nada.
Por outro lado, Ferreira Leite torna-se incapaz de se distender discursivamente e, por isso, perde qualquer debate televisivo com José Sócrates, o qual se pode afirmar que é um verdadeiro especialista em falar para as câmaras de televisão. Curiosamente, nos breves minutos que a líder do PSD concedeu à estação televisiva após o debate, quase que se transfigurou no que diz respeito à estruturação do seu discurso.
Por conseguinte, o que nos espera no dia a seguir às eleições não vai ser muito diferente do que temos hoje. Mudam as pessoas, mas a política mantém-se mais ou menos na mesma. Com uma – enorme – diferença: o Parlamento vai adquirir uma importância que nunca deveria ter sido subalternizada nas três maiorias absolutas que a nossa democracia passou. E isso só pode ser positivo.

terça-feira, setembro 08, 2009

avenida manuel pinho

Custa-me a crer que a recente inaugurada Avenida Doutor Manuel Pinho, em Paços de Ferreira, não tenha sido objecto de análise política. É verdade que ultrapassa o básico cariz político para se inserir, alegremente, num foro psico-clínico. É também verdade que um acontecimento destes não é mais do que o resultado dos tempos desavergonhados que vivemos e que Manuel Pinho, um ex-ministro da Economia que um dia apontou, no Parlamento, uns corninhos a um deputado comunista, não fez mais do que continuar os tiques duma maioria política obtusa e deformada. No entanto, a parolice de Paços de Ferreira merece ser criticada. O caso envolve tudo, até o desgraçado do cantor Tony Carreira, que recebeu Pinho no camarim, segundo declara o Expresso. Um autarca do PSD prometera, em Março - já em final de mandato, portanto -, aquando da inauguração da primeira fase do Multipark, que o nome de Pinho ficaria perpetuado numa avenida. Esta, como acontece com muitas obras inauguradas por esse país fora, não estava ainda concluída, visto que o piso se apresentava muito irregular. Nada que demovesse o empolgado autarca e também Pinho. Este, desavergonhada e singelamente, reflecte esta verdadeira delícia retórica: "estas homenagens não se pedem, aceitam-se".
Ele não sabe porque é incapaz de atingir que com este gesto de aceitação vaidosa e presunçosa colocou em causa princípios éticos republicanos como, por exemplo, o de servir o outro. E o outro, neste caso invertido, não é mais do que ele próprio.

falar verdade na Madeira

Não sei o que se passa na cabeça dos políticos quando visitam a Madeira. O que sei é que ficam de tal modo destemperados que, invariavelmente, iniciam um rol de articulações verbais disparatadas. Jaime Gama, numa das suas visitas oficiais enquanto Presidente da Assembleia da República, foi ao ponto de evocar o Presidente Jardim como o exemplo supremo do político democrático. Cavaco Silva, que tem um posicionamento político-social que se encontra nos antípodas de Alberto João Jardim, foi extrovertidamente encomiástico, há pouco mais de um ano, quando realizou uma visita de cinco dias ao arquipélago, sublinhando que Jardim é uma referência incontornável e um “impulsionador decisivo da nova face da Madeira” e que (talvez por isso) não precisava de elogios porque a sua obra (sempre a obra!) falava por ele. Agora foi a vez de Manuela Ferreira Leite que, já em campanha, afirmou que jamais poderia não visitar a ilha, um exemplo de governação social democrata. Entusiasmou-se e explicou que, afinal, asfixia democrática é um mero conceito virtual na Madeira e real no continente.
Por sua vez, o PS, através do seu extraordinário porta-voz, João Tiago Silveira, não deixou escapar esta pérola argumentativa e, em resposta imediata, convocou os jornalistas para lhes transmitir que é, afinal, na Madeira que se vive uma asfixia democrática. Enumerou cinco virtuosos exemplos da democracia madeirense: o impedimento da entrada do deputado do PND na Assembleia Regional, a visita de Cavaco Silva sem sessão solene na mesma assembleia, a qual deixou de comemorar o 25 de Abril, o congresso do PSD Madeira que Alberto João Jardim fechou à comunicação social e o financiamento com dinheiro públicos do Jornal da Madeira, onde o próprio Jardim assina uma coluna de opinião.
Surpreende-me este tipo de agilidade argumentativa. Afinal, com tantos e graves problemas esconjurados pelo porta-voz do partido que apoia o governo na Assembleia da República, torna-se legítimo perguntar por que razão é que nuca houve, por parte do PS, um agendamento parlamentar que visasse o combate a este tipo de despotismo tão extravagantemente anunciado por João Silveira? Deste modo, ficámos a saber que a nossa democracia vive, airosa e despreocupadamente, com duas verdades: uma, a proclamada; outra, a vivida. Pelo menos, quando se aterra na Madeira, as proclamações ficam em casa, isto é, no continente.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...