sábado, setembro 12, 2009

o debate

Um debate é, por definição, um confronto de ideias entre duas ou mais pessoas. Tendo em conta este pressuposto, o que vimos na SIC no passado dia 12 de Setembro foi mais um confronto de personalidades do que de ideias. Neste sentido, não é de todo inapropriado afirmar que, afinal, no que diz respeito a programas ideológicos, PS e PSD são, efectivamente, partidos que poderiam muito bem coexistir num só. O que eu quero dizer com isto é que nem o PS é um partido de esquerda (posição ocupada de forma natural pelo Bloco e PCP), nem o PSD é um partido de direita (ao contrário do que acontece, por exemplo, com o CDS-PP, com claras orientações programáticas, as quais absorvem, por vezes, o que de mais radical se verifica numa direita europeia cada vez mais extremista, embora ainda dentro de alguma virtuosidade democrática). Por isso, o fantasma alimentado por José Sócrates quando diz que Manuela Ferreira Leite quer introduzir mais sistema privado na saúde, educação e segurança social não tem realmente sentido, uma vez que a própria líder é categórica a desmentir essa suposta pretensão. Ou seja: não é pelo caminho das privatizações que podemos aferir as diferenças programáticas entre estes dois partidos. Para definir clivagens nesse sentido, temos, como disse, o Bloco e o PCP, cujos programas apostam fundamentalmente num cada vez mais premente peso estatal em diversos sectores basilares da sociedade, como a energia (EDP e GALP), a banca e os seguros. Nada, aliás, que um "bom" socialista não subscrevesse. Basta ouvir, por exemplo, Manuel Alegre ou Mário Soares (não entendo, sinceramente, a não ser por uma espécie de sintoma de pai fundador, os notáveis encómios de Soares relativamente a Sócrates).
Por tudo isto – e ao contrário do que diz José Sócrates e do que porventura pensa Ferreira Leite – não é uma escolha entre duas visões antagónicas de perspectivar a política que vai estar em causa dia 27 de Setembro. O que verdadeiramente separa, neste momento, PS e PSD é, essencialmente, a personalidade dos seus líderes, isto é, duas formas distintas de estar na política. Se, por um lado, Sócrates parece mais ministeriável do que Ferreira Leite é porque, simplesmente, ocupou a chefia do governo durante quatro anos e meio, alimentando, ao mesmo tempo, numa comunicação social muitas vezes estúpida, uma imagem pretensamente natural (talhada, portanto, para tão altos voos) mas que, amiudadas vezes, mais não fez do que reflectir uma personagem facilmente irritável quando confrontado com ideias contrárias às dele, embora sublinhe, como convém, que convive muito bem com o contraditório.
Se repararmos bem, toda a estratégia do primeiro-ministro ao longo da legislatura baseou-se no pormenor de linhas esquecidas de há quatro, três, dois anos atrás, ditas pelos seus opositores. Vimos isso nos debates semanais na Assembleia da República e vimo-lo agora nos televisivos. Quando não pode contrapor o que foi dito há dois ou três anos, regressa, imudável e finoriamente, ao detalhe duma qualquer menção no programa eleitoral do seu opositor. Trabalhinho de muitos assessores, pois é também para isso que eles servem. Duvido mesmo que, no caso do secretário-geral do PS e primeiro-ministro, tenham mais alguma utilidade. Por isso, Ferreira Leite tem razão quando reflecte que Sócrates é incapaz de perceber que não há duas realidades exactamente iguais e que defender, há quatro anos, o TGV não é a mesma coisa que o abraçar nos dias que correm. Daí que Sócrates fale muito do passado e apresente, invariavelmente, exemplos determinados de decisões pretéritas, as quais, embora importantes, não são pertinentes para definir a marca estrutural dum governo, pois não haverá nenhum político que não consiga alterar, num período de quatro anos e meio, nada.
Por outro lado, Ferreira Leite torna-se incapaz de se distender discursivamente e, por isso, perde qualquer debate televisivo com José Sócrates, o qual se pode afirmar que é um verdadeiro especialista em falar para as câmaras de televisão. Curiosamente, nos breves minutos que a líder do PSD concedeu à estação televisiva após o debate, quase que se transfigurou no que diz respeito à estruturação do seu discurso.
Por conseguinte, o que nos espera no dia a seguir às eleições não vai ser muito diferente do que temos hoje. Mudam as pessoas, mas a política mantém-se mais ou menos na mesma. Com uma – enorme – diferença: o Parlamento vai adquirir uma importância que nunca deveria ter sido subalternizada nas três maiorias absolutas que a nossa democracia passou. E isso só pode ser positivo.

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