terça-feira, setembro 08, 2009

falar verdade na Madeira

Não sei o que se passa na cabeça dos políticos quando visitam a Madeira. O que sei é que ficam de tal modo destemperados que, invariavelmente, iniciam um rol de articulações verbais disparatadas. Jaime Gama, numa das suas visitas oficiais enquanto Presidente da Assembleia da República, foi ao ponto de evocar o Presidente Jardim como o exemplo supremo do político democrático. Cavaco Silva, que tem um posicionamento político-social que se encontra nos antípodas de Alberto João Jardim, foi extrovertidamente encomiástico, há pouco mais de um ano, quando realizou uma visita de cinco dias ao arquipélago, sublinhando que Jardim é uma referência incontornável e um “impulsionador decisivo da nova face da Madeira” e que (talvez por isso) não precisava de elogios porque a sua obra (sempre a obra!) falava por ele. Agora foi a vez de Manuela Ferreira Leite que, já em campanha, afirmou que jamais poderia não visitar a ilha, um exemplo de governação social democrata. Entusiasmou-se e explicou que, afinal, asfixia democrática é um mero conceito virtual na Madeira e real no continente.
Por sua vez, o PS, através do seu extraordinário porta-voz, João Tiago Silveira, não deixou escapar esta pérola argumentativa e, em resposta imediata, convocou os jornalistas para lhes transmitir que é, afinal, na Madeira que se vive uma asfixia democrática. Enumerou cinco virtuosos exemplos da democracia madeirense: o impedimento da entrada do deputado do PND na Assembleia Regional, a visita de Cavaco Silva sem sessão solene na mesma assembleia, a qual deixou de comemorar o 25 de Abril, o congresso do PSD Madeira que Alberto João Jardim fechou à comunicação social e o financiamento com dinheiro públicos do Jornal da Madeira, onde o próprio Jardim assina uma coluna de opinião.
Surpreende-me este tipo de agilidade argumentativa. Afinal, com tantos e graves problemas esconjurados pelo porta-voz do partido que apoia o governo na Assembleia da República, torna-se legítimo perguntar por que razão é que nuca houve, por parte do PS, um agendamento parlamentar que visasse o combate a este tipo de despotismo tão extravagantemente anunciado por João Silveira? Deste modo, ficámos a saber que a nossa democracia vive, airosa e despreocupadamente, com duas verdades: uma, a proclamada; outra, a vivida. Pelo menos, quando se aterra na Madeira, as proclamações ficam em casa, isto é, no continente.

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vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

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