terça-feira, janeiro 31, 2012

o encerramento dos tribunais: mais uma machadada no interior do país

Entre os deves e os haveres, não vislumbro o objetivo desta ação de despejo de alguns tribunais portugueses situados em concelhos pobres. Já aqui escrevi que isto não vai lá com um país assim desgraçadamente desenhado, com régua e esquadro sustentados por uma iluminada manápula. Este é o tipo de erro que pagaremos bem caro mais tarde, quando cairmos no ridículo de uma outra troika nos prescrever (quase que escrevia ordenar, mas optei por tom mais eufemístico) o repovoamento do interior. No imediato, uma evidência: a justiça, para as pessoas do interior, ficará mais cara. Do mesmo modo, contar-se-ão facilmente facilmente os advogados que resistirem neste mundo rural tão pomposa e mediaticamente (e interesseiramente) acarinhado.
Por que razão nos empurram para o litoral? Será que nos querem afogar aos poucos?

sábado, janeiro 28, 2012

álvaro

Álvaro, ministro,

justificou do seguinte modo a polémica causada na chamada sociedade civil decorrente da abolição dos feriados de 5 de outubro e 1º de dezembro: "quando se tenta fazer reformas profundas, quando se tenta alterar comportamentos, é natural que haja reações. Portanto, não surpreende".
Não sei profundamente se o Álvaro tem condições para perceber o que lhe vou dizer. No entanto, é meu dever, como cidadão deste cada vez mais tristonho país (ouvi-o também afirmar, descomplicadamente, que Portugal é um excelente país para se viver... será, decerto, para si, Álvaro...) explicar-lhe o seguinte: cortar dois ou três feriados não o torna necessariamente um reformador. E é fácil explicar porquê: não é reforma alguma. É uma simples medida avulsiva, de alguém que não faz a mínima ideia do que anda cá a fazer. Eu não alinho pelo diapasão daqueles que, inevitavelmente, expurgam as suas culpas. Você tem, efetivamente, culpa no cartório. E tem-na porque aceitou um cargo que visivelmente não se achava preparado. Não é o único, infelizmente, neste seu governo.
Não sei se sabe, Álvaro ministro, mas existem mais álvaros no mundo. E muitos destes trabalham oito desgraçadas horas por dia, ganham uma miséria e aguardam religiosamente os feriados para, de certa forma, se sentirem senhores de si próprios. E o que você certametne sabe, Álvaro, é que são precisamente estes que não contam nas suas contas. São, simplesmente, abstrações.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

os mais ricos

Obama orientou, no discurso do estado da União, o que irá ser o leit motiv da sua campanha eleitoral: os ricos devem pagar mais impostos. Felizmente, ele vive num país no qual os multimilionários (alguns, pelo menos) gozam de um forte sentido patriótico e altruísta. Neste sentido, Bill Gates seguiu o teor discursivo do seu colega endinheirado, Warren Buffett, e afirmou, descomplexadamente, em Davos, que paga poucos impostos, pelo menos tendo em conta o que seria justo pagar.
Por cá, o encadeado discurso dos comentadores económicos e políticos plana, invariavelmente, no seguinte pressuposto: dão emprego a muita gente. E é assim que eles sobrevivem, silentes, nestes corredores pátrios. Como sabemos, um deles até alcançou o obsceno descaramento de sublinhar que não é rico, que é apenas um trabalhador.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

nós e os outros

O ordenado mínimo em França, Espanha e Luxemburgo é muito superior ao nosso; a gasolina, nestes países, é mais barata do que em Portugal. Na Suíça, debate-se a criação de um salário mínimo de 3000 euros, no sentido de proporcionar às pessoas (pessoas, seres humanos, vidas... esquecemo-nos, muitas vezes, no meio deste turbilhão mercantilista, deste pormenor...) uma vida decente. Em Portugal, destrói-se, inapelavelmente, importantes tecidos sociais, designadamente aqueles que conferem a cada país verdadeiros índices de desenvolvimento.

sábado, janeiro 21, 2012

a razão de cavaco

Quero ainda acrescentar, para além disto, que Cavaco Silva estaria provavelmente a pensar no novo emprego de Catroga. Este, estou certo, não deixará de concordar em absoluto com o seu amigo sr. presidente.

adenda: o primeiro-ministro regozijou-se com este coelho saído da cartola presidencial. Em Guimarães, não se fez esquisito e insistiu, mais uma vez, que os portugueses - entre os quais o sr.presidente da República se inclui - compreendem os sacrifícios que estão, neste penoso momento pátrio, a fazer, pois sabem que não existe alternativa a este caminho.

as 180 palavras de cavaco silva

O professor solicita aos alunos para que a composição não ultrapasse as 180 palavras. A maioria não chega a tão padronizado número. Outros, mais finos, ficam a dez ou mesmo quinze palavras desse desígnio, sabendo de antemão que o professor não as conta ao milímetro. Porém, há ainda os que, em vez de 180 palavras, enchem duas folhas de uma sofrível prosa, principalmente aquela que começa a ultrapassar a meia página, onde o limite das 180 palavras se inicia.
Cavaco Silva costuma pertencer ao primeiro grupo, dos certinhos, daqueles que ficam nas 150 ou 170 palavras. Não desilude, mas também não deslumbra. Ontem, mais distendido na prosa, o presidente da República decidiu ir mais além do seu enquadramento verbal. Espalhou-se por completo e nem precisou de duas páginas.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

nomeações pseudoautocriticadas

Pedro Mota Soares, interessante e zeloso deputado do CDS-PP na anterior legislatura, criticava a ministra do trabalho, Helena André, por esta ter escolhido uma boa mão cheia de "boys" para os diversos cargos de diretor e diretor adjunto. A então ministra justificava assim o seu processo de escolha: todos os nomeados tiveram o currículo como primeiro factor de avaliação.
Pedro Mota Soares, atual ministro da Segurança Social, procedeu exatamente da mesma forma da sua anterior visada. Mas o mais interessante reside na sua própria justificação, a qual é, ipsis verbis, a que Helena André, confrontada um dia, na Assembleia da República, pelo tal deputado do CDS-PP, utilizou: tudo se encontra exclusivamente assente em paradigmas curriculares.

domingo, janeiro 15, 2012

as nomeações contestatárias

Aos poucos, este governo começa a dar sinais de um panorama de desilusão e de incompetência, o que leva a acreditarmos que é tudo uma questão de oportunidade, tendo em conta o momento do país e o tradicional rotativismo partidário. Foi assim com Sócrates (alguém julgaria que chegasse a primeiro-ministro?) e foi assim também com Passos Coelho (a mesma questão se coloca). Daí que as voltas e baldrocas dos ministros numa vã tentativa de desculpabilizar as quase inauditas nomeações dos Catrogas partidários sejam objetivamente patéticas. Portas, como vimos, tentou, desfasadamente, evocar uma guerra norte-sul a respeito desta matéria. Agora, Assunção Cristas, uma promessa arriscada num trabalho que nitidamente não é para ela (a fazer lembrar aquelas promessas futebolísticas que nunca passaram de promessas) disse exatamente isto, a respeito da nomeação de Manuel Frexes, presidente da Câmara Municipal do Fundão, a qual arrasta pelos tribunais uma querela com a empresa que o próprio vai agora administrar (não sei se haverá muito disto por esse mundo fora, mas estou propenso a crer que esta situação merece almanaque): "a melhor maneira de resolver o problema é trazer os que mais contestaram". Esqueceu-se, todavia, de acrescentar: ... se forem do partido do Governo.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

nomeações competentes

Paulo Portas defendeu a nomeação de Castello-Branco, ex-vice presidente da Câmara do Porto, para a administração da empresa Águas de Portugal. Não foi, no entanto, muito criativo na sua argumentação. "É uma pessoa muito qualificada", diz o ministro dos negócios estrangeiros. No entanto, Portas esbarra contra uma parede de palha quando toma uma - esta sim, inovadora - singular defesa do norte (este homem não é do norte...): "a menos que seja por uma questão de xenofobia contra o Norte". Onde já se viu Paulo Portas com este tipo de discurso? Não me recordo. O que verdadeiramente sobressai, nesta desarrazoada declaração - acoplada a outras do mesmo teor de outros membros do Governo, a começar pelo próprio Passos Coelho, um primeiro-ministro cada vez mais notoriamente impróprio para o cargo que ocupa - é o desprovimento de decência política do executivo.
O tempo que vivemos não se deve limitar, no que à ética diz respeito, aos voos em económica nem às "desgravatadas" decisões da ministra Cristas. Deveria ser um tempo de mudança de mentalidade. E estou cada vez mais convencido que será o povo a iniciar mais esta revolução.

terça-feira, janeiro 10, 2012

edp-psd

Pode estar tudo certinho na nova equipa de administradores da EDP, com Mexia a encimá-la. As tontearias de Catroga, tentando justificar o injustificável (tenho valor de mercado, diz, burlescamente, o homem) valem o que valem, que é, absolutamente, zero.
O que aconteceu, com a promoção de valores de mercado como Catroga, Celeste Cardona (aqui está alguém que nasceu para isto), Teixeira Pinto (outro abençoado), Rocha Vieira (não está reformado?), Braga de Macedo e Ilídio Pinho, antigo patrão de Passos Coelho, foi, simplesmente, uma oportunidade perdida no reino da ética política.
Talvez os chineses devessem comprar mais de 50% da empresa e talvez estes pontas de lança estivessem a jogar num outro campeonato.

quanto vale a palavra de um ministro

O défice derrapará, este ano, na ordem dos 0,9% acima do acordado (imposto) com a troika no Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF). Não deixa também de ser curioso que esta derrapagem tenha uma ligação direta com o fundo de pensões da banca, as quais foram, de certo modo, nacionalizadas. Gaspar, o zeloso ministro das finanças, já veio a terreiro afirmar que não serão necessárias gravosas medidas adicionais para os portugueses. Alguém acredita ainda nisto? Terá ele próprio, alguma convicção no que diz?

domingo, janeiro 08, 2012

à tripa-forra

Mistifica-se e cozinha-se tudo muito bem na comunicação social: os políticos são mal pagos em Portugal. Olha-se para o lado e parece que, tendo em conta as idiossincrasias dos diversos países, parece que as coisas não são bem assim. na verdade, comparativamente a outras profissões, a distância da classe política para com os seus congéneres europeus encontra-se, grosso modo, apaziguada. O mesmo não se aplica, evidentemente, a um professor, enfermeiro ou a um caixa de supermercado. Mas uma mentira, pronunciada muitas vezes, sofre uma espécie de metamorfose. E o mais grave de tudo isto é que são os próprios, aqueles que legislam, a acreditar nisso. Daí que Alberto Martins, um sofrível ex-ministro da justiça, se tenha permitido gastar, no último mês de maio, 1100 euros em almoços. Foi até poupado, se tivermos em conta que o plafond mensal do seu (nosso) cartão de crédito era de 4000 euros. Coisa pouca, se notarmos que os restantes membros do ministério usufruíam, entre todos, 12000 para jantaradas e afins, totalizando, portanto, a módica quantia de 16000 euros. Perante isto, ninguém se fez rogado e José Magalhães, secretário de estado de Alberto Martins, desbaratou, em junho, mês de eleições legislativas, 3500 euros em refeições. Por isso é que esta gente, quando está no governo, engorda tanto!

as notícias em primeiro

O formato dos telejornais das três televisões é um perfeito exemplo de como não deve ser uma televisão generalista. Hoje, por exemplo, o serviço noticioso das 13 horas da TVI abriu com futebol e esteve com futebol durante os primeiros vinte minutos. Tudo porque se realizou ontem um jogo e hoje o Benfica poderia ocupar o primeiro lugar. Depois vieram as notícias. Depois esteve no ar durante mais ou menos 60 custosos minutos de pretensa informação. E depois, nestes quadros de interação dinâmica, onde o zapping é uma indubitável realidade, mudar de canal não é, definitivamente, solução. Mas o mais interessantes de tudo isto é que anda para aí uma entidade reguladora, a qual tem como principal incumbência regular estas pequeninas coisas.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

os sacrifícios não serão em vão

As ironias são, muitas vezes, lapidares. Hoje, mais uma vez, ouvimos um governante afirmar que 2012 será "um ano de viragem económica para o país", que é como quem diz, será o início do fim da crise. O governante em causa é o primeiro-ministro. Quase ao mesmo tempo, o Gabinete de Estatística Europeu revelou os seus dados relativamente ao desemprego na União Europeia. Somos o quarto país com índices mais elevados. Batemos um recorde, com 13,2% de desempregados. Posto isto, importa saber do que fala o primeiro-ministro. De pessoas não é, certamente.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

troika "oblige" ou o reino da relatividade

Aos fins de semana e feriados os centros de saúde passarão a um estado de completa ausência de sentido. O interior, mais uma vez, toma por tabela este desígnio da troika. Vi na televisão uma mulher, de meia idade, que refletiu deste modo a notícia do fecho do seu centro de saúde: "a doença não se sabe quando vem". Pelos vistos, andam por aí uns indivíduos que sabem. E também sabem que uma urgência é sempre relativa, nas suas bem amanhadas cabeças. E também sabem que entre pagar 5 euros no centro de saúde e 10 no hospital mais perto (excluindo as "ajudas de custo" dos quilómetros percorridos) conflui no ininteligível reino da relatividade analítica. Do mesmíssimo modo, atinge esta gente que a redução de 20% no Serviço Nacional de Saúde, seja na redução de pessoal, seja em cortes deste tipo, é, para o bom funcionamento do sistema, igual ao litro. Chama-se a isto, simplesmente, crânios.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

o caso jerónimo martins

Afinal, esta deslocalização para sedes fiscais mais atraentes não é caso único das empresas portuguesas. Das vinte cotadas no PSI20, dezanove estão também na Holanda. O capital não tem pátria, dizem, mas os donos do capital devem-na ter. Ou não?!

os donos da bola

Ficamos a saber que a seleção portuguesa de futebol é, de todas as que estão no campeonato europeu da modalidade (o qual decorrerá no próximo mês de junho), a que irá despender uma diária de hotel mais elevada. Trinta e três mil euros por dia. A Espanha, um país que é campeão do mundo e da Europa, fica-se pelos 4700 euros. Já agora, a Dinamarca gastará 7700 euros por dia. É evidente que este pódio só acontece porque a Burkina Faso ou o Gana não podem participar no campeonato.
Terá isto alguma lógica?

terça-feira, janeiro 03, 2012

jerónimo

O ano iniciou-se com a declarada e habilidosa fuga ao fisco da empresa Jerónimo Martins. O caso pode ser considerado paradigmático relativamente ao perfil dos detentores das grandes riquezas nacionais. Em 2011, o maior de todos - Amorim - afirmou, desavergonhadamente, que era apenas um trabalhador, não se considerando, portanto, rico (falamos da ducentésima maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes). Tudo a propósito de um eventual aumento de impostos sobre as grandes fortunas. Agora, Alexandre Soares dos Santos (empresário agraciado, pelo presidente Sampaio, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e, mais tarde, com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, por serviços relevantes prestados à comunidade) deslocalizou a sede social da sua empresa para a Holanda, para que os dividendos das ações auferidos pelos acionistas não sejam tributadas em território nacional. E são estes senhores (há, de facto, muito jerónimos) que apontam o dedo para o cidadão comum e afirmam que este tem vivido, durante estes anos, acima das suas possibilidades. E isto é tudo feito em nome de uma certa venal legalidade.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...