sexta-feira, junho 29, 2012

o défice enquanto problema tripartido

O INE respondeu: o défice orçamental do primeiro trimestre do ano foi de 7,9% do PIB, ficando, portanto, longe do oásis dos 4,5%. O primeiro-ministro, que nunca fala de questões nacionais lá fora, apressou-se a clarificar as coisas o que, na sua simplicidade obstinada, quer dizer que haverá mais medidas adicionais, se necessário for.
Eu percebo o Governo. Cumprirão tudo que vem no memorando da troika, tudo até à última vírgula. No final, a culpa será também repartida. Não foi por acaso que no último debate parlamentar Passos Coelho referiu que, quando reuniu com a troika enquanto líder do maior partido da oposição, transmitiu-lhe (reivindicou?) que seria melhor prolongar mais um ano o tempo das medidas contratualizadas. Azar dos azares: a troika e o Governo (o PS) já tinham balizado temporalmente o memorando. Moral da história: deveria ter sido primeiro-ministro mais cedo.

segunda-feira, junho 25, 2012

moção de censura

Segui grande parte da moção de censura do PCP ao Governo. Gostei de algumas intervenções. A última, de Bernardino Soares, controladamente sanhuda, foi, em grande parte, uma resposta ao orador que o precedeu, o admirável ministro Paulo Portas. Retive uma frase deste, a respeito do eventual monopólio da esquerda, designadamente do PCP, em questões de justiça social. Dizia então Portas que este Governo também emerge em relação aos mais desfavorecidos. E do que se lembrou? Das refeições dadas nas cantinas das escolas para os agregados familiares duplamente desempregados. E não precisou de dizer mais nada o ministro. Obviamente que não teve ensejo em ajuizar que uma família em situação de desemprego constitui uma clara derrota das políticas seguidas por este Governo. E é para debater estas coisas que as moções de censura também se justificam.

adenda: aquele rapaz Meneses, do PSD, é uma coisa do outro mundo. A sua intervenção debitou atrozes vacuidades sobre nada.

erc

Confesso a minha ignorância, mas não sabia da compostura da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, simplificadamente, ERC. Ao escrever este advérbio de modo, reparei que é, no fundo, o que está na base de toda a política portuguesa desde o século XIX, principalmente para quem se situa na esfera do rotativismo governativo. Então, simplifiquemos, partindo e acabando na seguinte fórmula: eleições realizadas, tachos distribuídos.
Eu não sabia que os cinco membros que compõem o conselho da ERC são meros joguetes dos partidos. Neste caso, três para o Governo, dois para o PS, o maior partido da oposição. Perante isto, para quê tanta indignação, para quê tanta fervor mediático? Acaso os comissários do Governo na ERC deixariam cair Relvas? Peço licença a Fernando Madrinha que, no Expresso, coloca a seguinte questão: "Sendo assim, o que se deve considerar é se vale a pena gastar 4,5 milhões de euros anuais para sustentar uma entidade cujos membros se limitam a replicar, noutra sede, as posições dos partidos que os propuseram." Eu, simplificadamente, respondo: claro que não.

quinta-feira, junho 21, 2012

uma moção de censura ou a (in)sustentável leveza da política

O PCP é o partido mais previsível do nosso panorama parlamentar. Não quero, obviamente, com esta asseveração, tecer qualquer tipo de consideração mais crítica. O partido, na sua pujança existencial, insere-se numa linha contestatária de combate ao capitalismo. Daí que a resposta a este desenfreado liberalismo económico-político venha sob a forma de moção de censura. Seria bom que outras instituições "tradicionais" como, por exemplo, a igreja católica (muito parecida, aliás, ao partido comunista numa certa ritualização normativa) se mantivessem iguais a si próprias no que diz respeito a princípios dogmáticos, principalmente àqueles que se colam às injustiças sociais.
O comportamento do PS foi também, nesta matéria, expectável. A resposta à moção de censura do PCP firmou-se, pois, numa renúncia à ação. A justificativa foi a mesma usada pelo PSD em outras ocasiões similares: não se deve acrescentar uma crise política à crise social que vivemos, como se uma estivesse indissociável da outra. Em termos práticos, a abstenção do PS significa tão-somente isto: não estamos preparados para governar. Ou então: não conseguiríamos fazer melhor do que o PSD. Ou ainda: optaríamos precisamente pela mesmas opções das que foram tomadas pelo Governo. Ainda: estamos numa encruzilhada e precisamos da orientação do triunvirato.
A moção do PCP clarifica, assim, as águas. Possui, neste sentido, uma utilidade prática. As espumas mediáticas desaparecem e os partidos e os líderes surgem iguais ao que verdadeiramente são: minguados projetos.

segunda-feira, junho 18, 2012

o encerramento do interior do país

Uma anotação a este respeito, aqui várias vezes pronunciada. Não há país que se eleve a índices de desenvolvimento civilizacionalmente normalizados se a sua estrutura administrativa geral estiver assente em desarmonias territoriais. Com efeito, não é concretamente possível que um pequeno país como Portugal se desenvolva com este tipo de configurações, as quais acentuam ainda mais o ridículo que é viver num país subdividido, na prática, em dois.

a seleção de todos nós, de alguns de nós ou dos próprios

Gostava principalmente de deixar aqui um desejo: será que a seleção de futebol não se pode limitar a jogar à bola e mais nada? Para quê as mimalhices de Paulo Bento e companhia após o bom jogo contra a Holanda, uma equipa claramente fragilizada (solidariedade com Ronaldo, segundo as transpirações da comunicação social - não vê esta gente que este tipo de solidariedade pode ser contraproducente?)? Por que razão é que florescem as opiniões dos vários quadrantes da sociedade (li há pouco um título de um artigo, oriundo de um "especialista", de seu nome José Silvério, que afirma que as críticas feitas a Cristiano Ronaldo serviram como trampolim psicológico para encarar positivamente o jogo com a Holanda, não lhe passando pela cabeça que outras anteriores críticas originaram, seguindo o seu sapiencial raciocínio, resultados contrários) e por que razão é que a comunicação social, com as televisões em primeiro plano, lhes dá infindáveis e escabrosos tempos de antena? Eu sei que o povo gosta, mas isso não pode ser resposta para este aprofundamento do nosso atávico e tradicional provincianismo.

sexta-feira, junho 15, 2012

mourinho: 22 milhões

José Mourinho fatura 22 milhões de euros por ano. O banco BPN foi vendido por 40 milhões. Um outro banco, quase falido, paga milhões por Mourinho. O FMI convida o Governo espanhol a descer ordenados. José Mourinho é um treinador de futebol. Ronaldo, que é um jogador da modalidade, deve também ganhar mais ou menos isso. E outros como o Ronaldo. Não lhes conheço algum tipo de tendência filantrópica em prol do país. O que eles ganham numa semana não ganha um trabalhador de ordenado médio em toda a sua vida. O povo gosta do Ronaldo e do Mourinho. Os presidentes e os ministros também. Parece que são os melhores do mundo. E se não o fossem, também o seriam, para os patrióticos tugas.
Dizem que não há dinheiro. Pois a mim parece-me que nunca houve tanto dinheiro como agora.

quinta-feira, junho 14, 2012

a irresponsável década espanhola

Custa a entender-se, de facto, a senhora Merkel. Depois de investir contra a Grécia e Portugal, repete a ingerência com Espanha. Mais do mesmo: estes países obtêm agora o fruto dos seus excessos passados, designadamente (no caso de Espanha, segundo a chanceler), os do último decénio. Ainda bem que temos esta espécie de coro das tragédias gregas a evocar os nossos pecados e a apontar o caminho do futuro.

domingo, junho 10, 2012

renegociação do empréstimo

Portugal não vai pedir a renegociação do empréstimo contraído, afirmou hoje o zeloso primeiro-ministro português. Espanha foi agraciada com uma ajuda de 100 mil milhões de euros, com condições bem diferenciadas das de Portugal ou Irlanda, designadamente no que diz respeito ao caminho da austeridade imposta pelo triunvirato. Ou seja: o dinheiro vai diretamente para os cofres dos bancos, sem mais contrapartidas económicas e sociais. Irlanda ameaçou de imediato com a renegociação, reclamando as mesmas condições. Mas o Governo de Portugal, navegando ao sabor dos ventos dos mais fortes, não vislumbra razões para que tal aconteça. O que importa, para Passos Coelho e Gaspar, é a aritmética fria e incontornável dos números. A outra, a aritmética das pessoas, é coisa que eles são incapazes de entender, por mais esbracejados e institucionais discursos idealizem.

quinta-feira, junho 07, 2012

a redução de borges

A celeuma causada pelas declarações de António Borges, um respeitadíssimo conhecedor do Portugal etéreo, não tem, a meu ver, razão de existir. Afinal, o homem só disse, simplesmente, que é urgente a redução dos salários em Portugal e que o Estado é um mau gestor. Por acaso é mentira? Quando ele próprio, por um trabalhinho que está a fazer em "part time" para o Governo, aufere milhares de euros em cada fim do mês, quando gestores de empresas públicas ombreiam, no que diz respeito a salários, com os seus congéneres privados, quando Portugal é um dos países mais desiguais da Europa, com um ordenado mínimo de 480 euros, por que razão é que o ordenado de alguém que ganha 20 mil euros não se pode reduzir para 7 ou 8 mil? Será isto demagogia? Ou não era isto que o sr. António Borges estava a pensar?

domingo, junho 03, 2012

demitiu-se o líder da jota madeirense!

Foi notícia que surgiu por acaso, primeiro na televisão e depois no computador. O líder da JSD madeirense, um espécime quase acefalita, videirinho e estouvadamente seguidista de Alberto João Jardim (não sei o nome do rapaz nem tão-pouco me apetece procurá-lo), demitiu-se do cargo que ocupava nessa estrutura partidária. Ouvi-o e viu-o na televisão. Estupefacto fiquei! Noto o cenário por detrás, que resume toda a governação regional: túneis, autoestradas, enfim: obra feita!...
Não é meu hábito, propositadamente, inserir amostras fílmicas aqui no Res Civitas. Mas parece-me que isto vale a pena. Custa-me simplesmente acreditar como é possível termos deixado isto acontecer. Estes filhos de Jardim são deputados. E este diz que vai voltar.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...