terça-feira, abril 24, 2012

o roubo da pen, em oliveira do bairro

A história conta-se em poucas e simples palavras. Um afagado grupelho de alunos de uma turma do 11º ano, em Oliveira do Bairro, roubaram a pen da professora de biologia, com o vetusto intuito de conhecerem, em primeiríssima mão, os exames da disciplina. Para isso, conquistaram a preciosa ajuda intercalar de alguns colegas, os quais remeteram a professora para o pbx da escola, a fim de atender um ausente telefonema.
Nada de anormal, até aqui. Nada do que outros alunos, noutros tempos, não houvessem já elaborado, com ou sem telefonema, mas decididamente sem pen. A escola foi quase célere a sancionar os alunos: alguns foram alvo de sete dias de suspensão; outros ficaram-se pelas 24 horas, de acordo, naturalmente, com o grau de envolvência no ato.
O que não deixa de ser singular - e um espelhamento dos tempos - foi a rapidez com que uma mãezinha (e aqui o diminutivo é óbvia e depreciativamente propositado) recorreu para a Direção Regional de Educação do Centro, a fim de anular tão pesada sentença. Este órgão, em arrumação de casa, determinou que um dos prazos havia sido ultrapassado pela direção da escola, anulando o castigo.
Está, assim, narrada a história. Pensei de imediato na mãe de Bragança que enviava as respostas do teste para a filha de dez ou onze anos, via telemóvel. O problema disto tudo é que estes pais são já fruto de todas as experiências educativas do nosso famigerado incrédulo sistema de ensino.

segunda-feira, abril 23, 2012

um conde no tribunal constitucional

A candidatura de Conde Rodrigues a juiz do Tribunal Constitucional levantou polémica na praça política. E não consigo vislumbrar o porquê. Acaso não foram sempre os partidos a partilhar desde sempre as cadeiras do Palácio Ratton? Qual a diferença se este saiu há pouco tempo do Governo? Por que razão atira Paulo Portas com um "acho que o Tribunal precisa de juízes credíveis e não de juízes de partido"?
De qualquer modo, estes lampejos iniciaram uma envergonhada vaga de contestação ao próprio tribunal. Será preciso um tribunal fiscalizador da constituição? Não existe para isso o Presidente da República? Pois a equação deveria, a meu ver, ser colocada ao contrário: se já existe um órgão para fazer cumprir os preceitos constitucionais, então qual o papel do PR? Alimentar o uso estafado da palavra?

quarta-feira, abril 11, 2012

a industriosa e utópica autoestrada transmontana da esperança num estafado programa de televisão

Ouço e vejo na televisão o programa “Portugal Hoje”, conduzido pela inevitável Fátima Campos Ferreira, dedicado ao interior do país, em geral, e ao distrito de Bragança, em particular. Os convidados são, na sua maior parte, transmontanos. Para além de algumas pequenas barbaridades eleitas por alguns destes convidados (sentido pejorativo em se ser do interior?!...os inconjuráveis caretos de uma aldeia de Macedo de Cavaleiros...), não me escapa ainda, estupefacto, a inglória crença que esta gente ainda açambarca na autoestrada transmontana. Demora-se muito tempo para chegar a Bragança, diz, afoita e obtusamente, a locutora. O que ela queria? Uma autoestrada em linha reta? O que interessa ter uma via de comunicação terrestre rápida se do outro lado existir um vazio, um lugar oco, sem esperança e sem retorno? Por acaso nunca ninguém pensou no desenho demográfico do país, imposto por governos décadas após décadas? Por acaso nunca ninguém se questionou por que razão é que se pode trabalhar no Porto e residir em Aveiro e ser transportado diariamente através de comboio, o que já se afigura completamente impossível se o local de residência for, por exemplo, Vila Real? Quando é que estes governantes, presidentes de câmaras, partidos políticos, teimam na opção circunstancial, efémera, em vez de projetarem uma região, um país, igual nas suas oportunidades, igual no seu desenvolvimento social? O que significa verdadeiramente a palavra interior num país como Portugal, todo ele litoral? Não é, decididamente, um vocábulo com uma abrangência polissémica significativa. Acrescentaram-lhe simplesmente, ingloriamente, esta trágica aceção.

terça-feira, abril 10, 2012

as explicaçõesde cavaco

Por muito que Cavaco Silva explique ao país as (suas) razões de concertação com o diploma do Governo que projeta o fim das reformas antecipadas, a verdade é que ninguém com uma sólida estrutura democrática consegue eficazmente entender o modo como tudo foi cozinhado, muito menos as extraordinárias desculpas de Passos Coelho. Este sublinhou simplesmente isto: tudo foi feito à revelia dos demais parceiros sociais (dos portugueses, portanto), pois de outro modo os trabalhadores portugueses em situação de pré-reforma correriam todos, angustiados e desalmados, a solicitar esse último maná institucional.
Isto não é próprio de uma democracia.

sábado, abril 07, 2012

Manuel Alegre, afinal, não queria ser presidente

Não lembrou ao diabo mas lembrou a Manuel Alegre: ficamos hoje a saber pelo próprio que o candidato a presidente da República Manuel Alegre estaria somente talhado para ocupar o mais alto cargo político do país quando os ventos corressem de feição. Surpreendentemente, o poeta escreveu, no prefácio ao livro de Alfredo Barroso, o seguinte admirável trecho do pensamento político contemporâneo: "Sempre que vejo (os funcionários da troika) dou graças não ter sido eleito Presidente, porque não suportaria tamanha humilhação". O seu primeiro republicanismo patriótico obriga-o depois a divagar pelo lugar-comum, inventado por Fernando Ulrich, e afirmar que esta velha nação não deve andar de mão estendida para três funcionários da Troika (a aristocracia é assim: não aceita estender a mão para qualquer um).
Tenho a ligeiríssima impressão de que o que sobrou do milhão de votos da derrotada primeira eleição presidencial andará como Manuel Alegre: a dar graças!...

sexta-feira, abril 06, 2012

as reformas antecipadas e cavaco

Não lembraria decerto ao diabo o que lembrou a Gaspar e Passos Coelho quando teceram, pela calada da noite, a proibição das reformas antecipadas. Esta baixa política é tão ou mais grave do que aquela que originou o fim do Governo de José Sócrates, quando este não deu cavaco ao Cavaco relativamente à implementação do PEC4. Se o Presidente da República (aqui corresponsável pela omissão) representa o povo português como o mais alto magistrado da nação que é (provedor do povo, como gosta de se intitular), então parece-me que estamos muito mal representados. É que com o seu silêncio (e aprovação) anuiu com esta forma de fazer política, unilateral, umbilicalmente neoliberal e - as evidências oblige - com uma certa dose de tiques próprios de uma governação negativamente autoritária. Para além disso, não vejo de que maneira é que esta proibição contribui para a melhoria do nosso tecido laboral. Quem pensa reformar-se antecipadamente, ciente de que não vai usufruir a reforma equivalente aos seus anos completos, é inegavelmente um trabalhador desmotivado. Por outro lado, aquele que o substitui, ou por via de uma situação de desemprego, ou por início de carreira, estará decerto mais apto para contribuir positivamente para a produção da empresa que o acolhe. Vejamos, por exemplo, o caso de um professor (abro parêntesis para salientar a apropriada declaração de Mário Nogueira quando referiu o teor anacrónico desta lei, ao defraudar objetivamente a expetativa de muitos professores que esperavam, em nome de um equilíbrio pedagógico-didático, o final do ano letivo para passarem a uma tão desejada reforma, mesmo que esta se afigurasse "antes do tempo"), vejamos, dizia, o caso de um professor, com muitos anos de serviço, despegado das novas tecnologias e incapaz (no sentido de não ter curiosidade nem engenho intelectual) de originar qualquer perspetiva investigadora. Não será melhor para os alunos dessa escola, para os níveis educacionais do país, a entrada no sistema de ensino de outro docente, com mais empenho, ideias, em suma, mais capacidade (de trabalho, pedagógica, instrutiva, cultural...)?
Não me enganarei muito se asseverar que esta proibição terá um resultado prático contraproducente, o qual se manifestará no aumento dos atestados médicos. E estes não serão, estou certo, deslegitimados por qualquer índole revanchista. Não vejo como se pode obrigar a trabalhar quem já optou por deixar de trabalhar. As simples e frias somas aritméticas, neste caso, não resultam.

quinta-feira, abril 05, 2012

os subsídios perdidos

Anda por aí muita confusão. O sr. Weiss admitiu que os portugueses trabalhadores inseridos no setor público jamais tornarão a apalpar os subsídios de férias e de natal. Membros do Governo, entre os quais Carlos Moedas e o próprio Gaspar reafirmaram a vontade do acordo da Troika a este respeito, ou seja, os cortes a este nível durarão até ao término contratual entre a Troika e o Governo português. Por fim, Passos Coelho afirma que os subsídios só serão repostos em 2015, ano de... eleições legislativas (esta última parte, na verdade, já a não verte atmosfera comunicativa da imprensa). Andamos como baratas tontas. Obviamente, uns mais do que outros. E o grande problema passará sempre por aí: a desigualdade gritante que vai crescendo sempre mais um pouco a cada dia que o sol nasce, em Portugal.

quarta-feira, abril 04, 2012

uma visita ao millennium

É raríssimo ter de deslocar-me aos bancos. Porém, hoje fui obrigado a visitar uma sucursal do Millennium. O que antes se afigurava um balcão brioso, com um atendimento personalizado, tendencial e preocupadamente eficaz, é hoje uma espécie de tasca financeira. Desde azulejos partidos, o balcão de atendimento picado, manchas negras no teto, luzes fundidas, funcionários desmotivados (vestuário, artificialismo penoso na linguagem), computadores demorados, tudo vi naquela visita que demorou quinze ou vinte minutos. Reparei ainda no prodigioso e altaneiro José Mourinho, que disponibiliza a sua marca ao Millennium. Decididamente, a cara não bate certo com a careta. Ou será que estes iluminados administradores (e os criativos publicitários) pensam que são os milhões pagos ao mister Mourinho que conjugam a salvação do banco?

terça-feira, abril 03, 2012

a suspensão permanente dos cortes

A Comissão Europeia, pela voz do senhor Peter Weiss, da direção-geral de Assuntos Económicos e Monetários e membro da missão de ajuda externa para Portugal, já avisou que os cortes relativos aos 13º e 14º meses dos funcionários públicos e pensionistas poderão assumir um caráter permanente. Percorri de imediato o calendário e verifiquei que o primeiro de abril já havia passado. Peter Weiss deve conhecer a realidade do país, tal como a conhecem Gaspar e Passos e também o Álvaro. Conseguintemente, considerará normalíssimo a dissipação da tradicional classe média portuguesa, a qual se afigurava já manifestamente remediada, tendo em conta padrões de outros países. O escopo de outrora inverte-se, agora. Antigamente, importava tirar da pobreza cerca de 20% da população. Atualmente, interessa encostar à base piramidal da sociedade o maior número de portugueses. E a equação é simples, óbvia, cristalina: quantos mais forem os excluídos, mais serão aqueles que sairão, dentro de dois ou três anos, do limbo social. E a receita, tão estoicamente assentada pelos portugueses, deu, afinal, frutos. Gaspar e Passos e este Weiss tinham, luminosamente, razão.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...