terça-feira, fevereiro 28, 2012

recomendações

O relatório Going for Growth, de 2012, da OCDE, traz variadíssimas recomendações a Portugal, todas, aliás, de grau muito pouco surpreendente. No que se refere ao mundo do trabalho, gostaria de salientar apenas uma: o estendidíssimo alargamento, ao nível da proteção do emprego, entre os trabalhadores vinculados e os trabalhadores a prazo fixo. Um outro dado inolvidável diz respeito à distribuição dos rendimentos entre os trabalhadores portugueses. Nada que não se saiba há já longos anos. Somos, assim, dos países da OCDE com maiores índices de desigualdade salarial. Quando é que haverá coragem para se modificar estes dados? Não será por aí que o impulso para a verdadeira modernização, para a real saída da crise, se encaminhará?

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

alguém acredita?

Até posso acreditar na vontade, mas o mesmo já não acontece com a probabilidade. Afirmar que Portugal se encontra no pico da recessão e que daqui para a frente será tudo a subir no sentido de um progressivo afastamento desse cume, não só me parece implausível como também onírico. É que conhecer a classe média portuguesa através de números não é a mesma coisa do que a conhecer de facto, no seu respirar quotidiano. Por conseguinte, não me parece que a ausência dos subsídios de férias e de Natal seja um bom remédio para nos tirar de qualquer recessão económica. Mas esses senhores de Bruxelas (é de lá que partem estas previsões e não do nosso extraordinário ministro das finanças) lá fizeram, decerto, bem as contas. E dois e dois continuam a ser quatro, para alguns.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

detenção em algeciras

Andarei decerto distraído, mas ainda não percebi a relevância das copiosas notícias dos nossos telejornais a respeito da detenção, em Algeciras, de Sara Norte. Ando às voltas e não sei quem é Sara Norte. Proponho um documentário, em simultâneo e em horário nobre, sobre a vida (e obra) de Sara Norte.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

regulamento de contratação de professores

O ministério da educação continua na sua senda vertiginosa de uma plausível reforma curricular. Entrementes, virou-se para a contratação de professores. Justifica-se com a agilização dos concursos. Uma das propostas não me deixou alheio. Trata-se da equiparação, para efeitos de concurso, dos professores do privado com os do ensino público. Ambos prestam um serviço de educação pública, adianta alguém ministrável.
Pois muito bem. Deve então o ministério da educação, na sua douta e desassossegada demanda justiceira, começar por integrar no quadro aqueles professores do ensino público que laboram há muitos e estafados anos num regime de exclusividade contratual. É que os professores do ensino privado, ao fim de três anos, entram automaticamente nos quadros da escola. Se queremos ser sérios, senhores, não basta parecê-lo.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

isabel jonet premiada

Em 2007, escrevi isto. Hoje, após ler a notícia de que Isabel Jonet foi distinguida, pela Seleções Reader's Digest, com o prémio Personalidade Europeia do Ano, a impressão mantém-se. Entre o orgulho de pertença e a emoção desalentada intrínseca à justificação do próprio prémio, gostaria que o mesmo não tivesse existido. E termino como em 2007: estou certo que Isabel Jonet concordará comigo.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

gente que não se conhece

De vez em quando, a frase de Paul Valéry sobre a guerra - "a guerra é um massacre entre gente que não se conhece, para proveito de pessoas que se conhecem, mas não se massacram" - assoma-se-me descomplexadamente, como se forçasse uma qualquer entrada desautorizada. Estes rompantes desassossegos são, obviamente, mais frequentes quando a temática versa a própria guerra. No entanto, penso que esta frase pode ser ajustada tendo em conta a aparentemente irresolúvel crise económica e financeira que passamos. Deste modo, poderíamos escrever que gente que não se conhece é arrebanhada pelas ações decretadas por gente que se conhece, mas que não arrebanha. Numa palavra, pois já vai longa a noite: é fácil prescrever, quando se vive (bem) acima da média do comum dos mortais, sofríveis remédios para uma suposta cura.

domingo, fevereiro 12, 2012

o cândido vasco

Vasco Graça Moura não esperava tanta polémica em torno da seu prepotente gesto em mandar retirar dos computadores do Centro Cultural de Belém o programa que verte, automaticamente, a grafia portuguesa para o que se designou apelidar de nova ortografia. Parece-me no mínimo ridículo esta afirmação. É evidente que Graça Moura estava ciente do que originaria. E também é claro que lhe assiste um direito de lutar por esta causa, a qual é, aliás, muito distinta e importante. Daí que também não encarrilhe com aqueles que lhe apontam dedos acusatórios de não obediência a normativos governamentais. Vasco Graça Moura usa simplesmente as armas que tem ao dispor e usa-as muito bem, ainda para mais quando se começam cada vez a ouvir, com maior empreendimento, de toda os cantos da lusofonia, vozes que esgrimam válidos e diferenciadores argumentos sobre esta decisão luso-brasileira.
Há tempos, o primeiro-ministro convidou, toscamente, os professores a emigrar. Nesta perspetiva, revela-se muito interessante a seguinte constatação: das várias áreas curriculares do ensino básico e secundário, uma das que se manifesta de maior incongruência relativamente a outros países lusófonos como, por exemplo, o Brasil, é precisamente o ensino da Língua Portuguesa. Ou seja: é muito mais fácil um professor de química, de inglês ou de matemática lecionar numa escola brasileira do que um seu colega de língua portuguesa. Afinal, há muito mais a fazer quando se pensa na preservação e incrementação no mundo da língua portuguesa. Neste sentido, a recentíssima reforma curricular na área do ensino da língua materna (os chamados novos programas para o ensino básico e secundário) é uma perfeitíssima inutilidade, tendo em conta, precisamente, a uniformização do ensino da língua portuguesa.

nem tanto ao mar, nem tanto à terra

O que não devia passar de um fait divers absolutametne inócuo, tornou-se assunto de interesse político. Uma conversa de intervalo entre o ministro Gaspar e o seu homólogo alemão só tem interesse num país cujos jornalistas funcionam espelharmente, retratando, de certo modo, a miséria grasnante. Daí que a paranóia patriótica do Bloco de Esquerda tenha a correspondência apropriada no desestruturante discurso de Relvas (desestruturante na medida em que se afasta vertiginosamente da realidade). Ou seja: nem o lusitano Gaspar se humilhou (foi, simplesmente, educado), nem o germânico Schaeuble disse nada de jeito.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

os bancos e a publicidade milionária

Não deixa de ser curioso que os bancos com maiores prejuízos no exercício de 2011 tivessem sido aqueles que apostaram em autênticas estrelas do firmamento desportivo: Millennium, com o inevitável Mourinho; BES, com o inevitável Ronaldo; CGD, com o inevitável Benfica. É certo que se pode sempre conjeturar que sem estas dispendiosas imagens de marca, as coisas correriam muito pior. Pessoalmente, duvido muito deste raciocínio.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

entrevista à josé gomes ferreira

Ouvi e vi a estafada entrevista de José Gomes Ferreira ao ministro da economia, Álvaro Santos Pereira. E o que se ressalvou de todo aquele monocordíssimo linguajar foi uma desconsolada sintomatologia de grau zero. Dois ou três desconcertados vocábulos a pairar naquela bafienta sala (o que estava no cimo da lareira eram sinos de natal?!...): reformas estruturais, brevemente e não há alternativa. Nada, pois. Estou mesmo propenso a crer que o próprio Álvaro não faz a mínima ideia de todo este seu teor discursivo. Diz o que tem de dizer e pronto. Tudo se resume a um efémero manual governativo. E as pessoas, essas, não cabem nas páginas do livro. O desígnio inicia-se e finaliza-se numa obstinação, numa congeminação troikana virada crença por este conjunto de pessoas mandadas. Cada vez mais o ser humano, na sua dignidade, não existe. Não há alternativa, diriam o Álvaro, o Passos, o Gaspar.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

magistrados com fome

Cavaco Silva tem razão. Há limites para os sacrifícios dos portugueses, ele próprio incluído. Os parcos rendimentos do Presidente da República mal chegam para as despesas. Não anda só neste incomensurável trilho deficitário. Maria José Morgado, coordenadora do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, referiu hoje que existem magistrados a passar fome.
Retenho-me uns segundos nesta incompreensível asserção e depressa chego à conclusão de que se entranha na cabeça de muita gente - pessoas de determinados estratos sociais e profissionais -, de que existem portugueses de primeira e de segunda condição.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

o piegas

Carece obviamente de explicação a grande reflexão de hoje do nosso primeiro-ministro sobre os portugueses, para que estes apelem à "transformação de velhas estruturas e velhos comportamentos muito preguiçosos" e que sejam "mais exigentes" e "menos piegas".
Provavelmente, ele quereria dizer: temos de ser mais alemães.

sábado, fevereiro 04, 2012

passos não gosta do carnaval

Esta fobia contra tudo que engloba descanso e apaziguamento de alma também cansa. Ficamos a saber que Passos Coelho não gosta do Carnaval. Eu também não. Aliás, eu não gosto do exacerbamento pagão como também não gosto do seu correspondente religioso. Acontece que estas coisas não se medem por gostos pessoais. "Ninguém perceberia em Portugal", adianta Passos, "que numa altura em que nos estamos a propor acabar com feriados como o 5 de outubro, o 1º de dezembro ou até feriados religiosos, que o Governo pensasse sequer em dar tolerância de ponto, institucionalizando, a partir de agora, o Carnaval como feriado." Noto esta vertigem para o prosaico popularucho ao enfatizar o "ou até feriados religiosos".
Fico simplesmente desalentado que esta gente não entenda que nem todos usufruem as suas deleitosas (deleitosas, sim senhor, deixem-se de volutuosas bagatelas discursivas) existências e que os feriados constituem, para o comum dos trabalhadores (sabem quanto é o ordenado médio em Portugal, não sabem? E o mínimo? E o número de horas semanais de trabalho? E o número de feriados por ano? Parece que, afinal, só estamos, desgraçadamente, à frente nas primeira e segunda opções) uma afortunada oportunidade de revitalizar a alma. Com ou sem folias carnavalescas.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

mário crespo e a demissão da direção de informação da RDP

Teve azar Mário Crespo. No momento em que apresentava o ministro Relvas num excerto da entrevista de ontem a Maria Flor Pedroso, na qual o ministro, com ar decidido e cândido, mandava a jornalista perguntar ao seu diretor de informação por que razão o jornalista Pedro Rosa Mendes fora despedido, nesse momento, dizia, onde só faltava a áurea a encimar o cocuruto de Relvas, surgia a nota de rodapé: última hora: direção de informação das rádio do grupo RTP demite-se em bloco.

mortes no estádio

Carradas de críticos com opiniões, especialistas do mundo árabe e afins discorrem sobre os acontecimentos de ontem num estádio de futebol, no Egito. Todos confluem em águas resultantes da tormenta verificada há um ano, a qual resultou na queda do regime do ditador Mubarak. É, digamos, a análise do imediatismo lógico.
O futebol tem-se erigido como uma espécie de um mundo à parte. Pacheco Pereira tem escrito, com muita razoabilidade, sobre o tema. Basta vermos as imagens televisivas em redor de alguns encontros de futebol protagonizadas por elementos das claques dos clubes para verificarmos que, por muito menos, muita gente se encontra nos calabouços. Daí que essa ostentação de superioridade moral exposta nas televisões e rádios sobre o acontecimento de ontem seja de todo infundada. E a razão é simples: o adepto fanático do Al Ahli ou do Al Masri é o mesmo que povoa as bancadas dos estádios portugueses: jovens e menos jovens afetados por um crescendo de impunidade judicial, ao abrigo das cores e da defesa de causas clubísticas. Por conseguinte, esta batalha campal podia muito bem ter lugar num qualquer campo de futebol da civilizada Europa. Há tempos vi parte de um estádio a arder...

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...