sexta-feira, julho 26, 2013

novos governos

Desde que o louco D. Sebastião resolveu vingar como mata-mouros real em Alcácer-Quibir, forçados fomos a esperar por alguém saído dum frondoso nevoeiro que nos empurrasse para a abastança. Entretanto, tivemos vários D. Sebastiões. Cavaco, por exemplo, continua a ser, para muitos, um deles. O sr. Borges, outro, agora merecidamente desaparecido. O último parece ser Pires de Lima. E ele parece que gosta do cargo real. Ao contrário da maioria da opinião publicada (começa a cansar ler os jornais), não consigo entrar na onda. Nem simpatizo, nem antipatizo. É, simplesmente, mais um para quem o ser um ex-ministro lhe fará, decerto, muito jeito.

adenda: quanto à introdução em cima do joelho do experimentadíssimo Rui Machete, agora elevado a senador da República, tenho somente a acrescentar o seguinte: quem passou e foi pago por um cargo tão importante como o de presidente do Conselho Superior da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), a dona do Banco Português de Negócios (BPN), "onde o Estado português injetou a fundo perdido cerca de 4 mil milhões de euros" (Público) não pode exercer quaisquer funções num estado republicano. Não é por acaso que estes senhores eliminam esta experiência nos seus currículos profissionais.

segunda-feira, julho 22, 2013

os bons exemplos portugueses, segundo cavaco

Cavaco é expectável. E é mais um para o clube dos irrevogáveis. De facto, o que há uma semana implicava eleições antecipadas para junho, depois da saída da troika, para se "iniciar um novo ciclo político", virou agora em nada: o Governo cumprirá a legislatura. Ou seja: eclipsou-se a razão que o Presidente da República tinha dado por indeclinável para a realização de eleições legislativas. A dúvida consistiria, por isso, em saber se as eleições antecipadas por Cavaco há oito dias seriam ainda mais antecipadas, isto é, se convocaria eleições já para setembro.
Mas Cavaco Silva é Cavaco Silva. A sua arrumadinha cabeça está já planando no justo descanso do guerreiro, com mais um dever cumprido, mais um alto serviço prestado à pátria e, já agora, a ele próprio. Engana-se redondamente se pensa que depende dele a convocação de eleições. Em democracia ninguém governa contra o povo. E o povo português, por costume hodierno demasiado apático, pode começar a não achar piada a esta baixa política.
Cavaco Silva, na sua alocução ao país, não resistiu em confrontar exemplos de outros países europeus. Salientou mesmo que "75% dos países de média dimensão, como Portugal, são governados com base em entendimentos políticos". É verdade. Mas também é verdade que não existe nenhum país cujo Governo se mantenha em funções com a demissão dos dois exclusivos ministros de Estado.

domingo, julho 21, 2013

crise e salvação ou salvação e crise

Sabemos que o acordo não vingou. Sabemos que se iniciou de imediato o habitual passa-culpas. Sabemos que o comentário político continuou na venal senda que o tem caraterizado (haja pelo menos alguém que passe ao lado da crise!...). Afinal, o que não sabemos? De facto, parece não existir nada que não saibamos. As teorias são diversas e têm contribuído, de certo modo, para o deslindar da situação presente. Da história económica à política, passando pela social e das mentalidades, anotando costumes e conjeturas personalísticas, tudo tem sido repassado nos jornais, televisões e rádios.
A democracia é também sinónimo de pactos, sejam eles partidários ou sociais. Daí que a proposta do presidente tivesse sido considerada uma mais-valia para o arranjo político-partidário que fomentaria uma verdadeira salvação nacional. Se tivermos em conta os quarenta anos da nossa democracia, por exemplo, não podemos deixar de considerar válida esta asserção. Ainda há dois anos, com a assinatura do famoso memorando, se criou um pacto entre a troika portuguesa e a troika estrangeira e antes se havia criado, embora não escrito, um outro pacto entre a direita e a esquerda mais esquerdista no sentido de não-aceitação do PEC 4, com o consequente derrube do Governo, derrube esse que conduziria, como se hoje claramente se sabe, à intervenção estrangeira, sob a forma de resgaste (sabemos também que tudo seria diferente, mais próximo da situação de Espanha ou Itália, que não foram miseravelmente intervencionadas, se não houvesse tido lugar essa convergência de interesses partidários, poupando-nos também à mais mentirosa campanha eleitoral da história democrática portuguesa por parte do partido vencedor). Acontece que, inteiramente por culpa da incompetência e de algum deslumbramento do Governo, ocasionada pelas magnânimas influências de Vítor Gaspar e de António Borges na tenebricosa cabecinha de Passos Coelho, o que foi acordo tripartido deixava paulatinamente de o ser, quando o PS e Seguro eram remetidos para a parte do problema e nunca para a que configurava a solução. O próprio CDS, parceiro in limine do PSD, foi muitas vezes empurrado para esse lado da contenda, atestada com a perlocutória paciência de Paulo Portas. Assim, foi o PSD quem se demarcou daquilo que era um acordo de regime (ou de salvação nacional) ao ir mais além do que a troika delineava (é o nosso programa de Governo, queremos ir mais além do que a troika, diziam, então embasbacados).
Depois de incontáveis meses de uma governança presidencial abnóxia, eis que surge Cavaco Silva, à sua boa maneira, travestido de o garante de um certo equilíbrio mental da nação, visto que a Constituição, esse documento ao qual jurou fidelidade e tantas vezes chamado à contenda, há muito que deixou de ser lido à letra. Mas Cavaco equivocou-se, mais uma vez, na sua leitura dos sinais, principalmente aquele que, por ora, mais contava: o reconhecimento da sua própria imagem política enquanto presidente da República capaz de congregar forças advindas. Façamos a leitura doutra maneira: tivéssemos nós um sólido Presidente da República e, naturalmente, esta sua salvífica aspiração jamais deixaria de ser ouvida e executada. Como sabemos, ficou só pela audição e levada a cabo por mero exercício de cálculo político-partidário.
E agora? É a pergunta que todo o povo ainda não divorciado destes atores políticos coloca. Agora, senhor Presidente, só mesmo eleições antecipadas para setembro. E basta uma razão: em vez de salvação nacional, o melhor é mesmo uma catarse nacional. E esta só acontecerá com eleições antecipadas. Ao contrário do que Passos Coelho afirma, eleições não são sinónimo de incerteza. Na verdade, qualquer forma de eleição, nesta quadratura social, configura antes uma sinonímia mais próxima da certeza: a certeza de que é ao povo que compete decidir qual o caminho a seguir. O resto são meras interpretações. E destas temo-las aos montes.

sábado, julho 20, 2013

não há salvação

Salvação foi o vocábulo mais ouvido nos últimos oito dias. Culpa do Presidente da República. Como os jornais, em geral, adoram alimentar folhetins (definitivamente não entendo o que fazem os repórteres das televisões e rádios à porta dos lugares aonde se irá realizar uma reunião, quando, invariavelmente - e com pré-aviso -, a resposta é um não vou dizer nada até ao fim das negociações), há que, simplesmente, lamentavelmente, inventar. E foi de invenções atrás de invenções que nos alimentaram esta semana. Mas eis que hoje, solenemente, pela voz de Seguro, surge a notícia, a não-invenção, portanto: não há acordo.
De imediato, iniciou-se outra narrativa ficcionada, outra invenção: o Governo irá até ao fim da legislatura e o Presidente irá aceitar a remodelação proposta por Passos Coelho, depois do ex-irrevogável Portas se ter demitido. Ninguém sequer pensou que a proposta de um acordo de salvação nacional por parte de Cavaco surge precisamente quando essa remodelação é apresentada, não tendo sequer o Presidente se referido a ela. Por outro lado, Cavaco Silva foi claríssimo ao alinhavar um novo ciclo eleitoral depois do abandono da Troika do nosso país. Mas nada disso conta para esta gente: importa inventar, inventar, emergir com novas narrativas. Estamos em crise.

quarta-feira, julho 17, 2013

salvação

Sinto-me atenuadamente sufocado com esta conversa da salvação nacional levada a cargo pelos - vejam só - os imparáveis Seguro, Passos e Portas. Os jornais, é claro, babam-se com tanta reunião e com tanta não-informação. Entretanto, iniciou-se, logo desde a tentativa de conluio do Presidente Cavaco, nesses órgãos de informação e (des)formação que são as televisões, invocar os benefícios de um acordo entre o famoso arco do poder. De entre estes, a troika encima a pirâmide, vêm depois os famosos parceiros europeus e, sub-repticiamente, a Alemanha. O povo português não entra, determinantemente, nestas conjunturas políticas.
O acordo é, obviamente, possível. Aliás, o difícil é não o conseguir, dada a similitude entre a gente que compõe o grupelho. Estamos, afinal, para todos os efeitos (para o bom e para o mau, mas, principalmente, para o mau), no reino do centrão.
Deixamos de falar no país real. Estou mesmo propenso a crer que ninguém lá das negociações salvíficas saberá o que isso é. Lembro-me, logo numa das primeiras aparições de Passos Coelho no Parlamento, há dois anos, Jerónimo ter acusado o primeiro-ministro de não saber o que era a vida. A resposta veio pronta e constitui, de certo modo, um paradigma de uma geração política, formada no âmago de juventudes partidárias, verdadeiras fabriquetas de moldes humanos, envelhecidos à pressa: sei, senhor deputado, sem muito bem o que é a vida. Seria bom se todos soubéssemos o que era a vida, segundo Passos Coelho.

quinta-feira, julho 11, 2013

governo de perdição

O que até aqui foi um Governo de gestão (sempre o foi, não nos queiram iludir), transformou-se agora num Governo de perdição. O sr. Hélder Rosalino, Secretário de Estado da Administração Pública, afirmou hoje que a requalificação não implica despedimento, contrariando o que ele próprio dissera há tempos: "eu não assumiria isso [a requalificação como antecâmera do despedimento] como uma crítica, assumiria isso como uma realidade objetiva". Desta vez, advoga que "não é uma lei para despedir (...) é uma mudança de paradigma".
Um outro membro do Governo, o sr. Aguiar-Branco, Ministro da Defesa, é uma espécie de coro grego do executivo, com repuxadas tiradas moralizantes. Quando abre a boca é para isto: "o Governo fala sempre a verdade (a propósito das anotadas contradições da atual ministra das Finanças relativamente à mal explicada ingerência nos contratos swap), ou "o que conduz sempre o Governo no seu todo e o primeiro-ministro em particular é o interesse nacional" (a propósito da atual crise). Será que ninguém diz ao sr. Aguiar-Branco que já estamos noutra?

ainda a declaração de cavaco

Quando anda meio mundo a tentar decifrar a mensagem do presidente, arrematando conjeturas atrás de complicadas fórmulas personalísticas, ainda ninguém tocou no que seria o resultado mais óbvio, estivéssemos nós perante outros protagonistas políticos: a demissão de Passos Coelho ou de Paulo Portas ou dos dois. Na verdade, o Presidente da República não aceitou, irrevogavelmente, o desenho governativo proposto pelos dois representantes dos partidos da maioria. Perante esta ingerência de Cavaco, a qual, note-se, é de todo aceitável, visto que foram os outros dois que forçaram o presidente a isso, empurrando o país para o agravamento da crise política, o resultado poderá passar por eleições ainda mais antecipadas. O que o Presidente, afinal, não queria.

quarta-feira, julho 10, 2013

a desempenada declaração de cavaco

Cavaco Silva surpreendeu com a declaração das oito e meia. E a surpresa veio pelo desassossego que a mensagem provocou. O Presidente falou do risco de eleições e exemplificou com o que se passou nos últimos dias, com a instabilidade dos inevitáveis (irrevogáveis) mercados, como se estes fossem particularmente distinguidos pelo seu elevado grau de estabilidade, tendo, especialmente, em conta os últimos três ou quatro anos. Salientou que, com eleições, teríamos um Governo de gestão durante dois meses e o Orçamento Geral do Estado para 2014 entraria somente em vigor lá para março, como se os últimos Orçamentos tivessem sido caraterizados pela sua capacidade de irrevogabilidade. Há também os empréstimos contraídos que vencem em 2014 (ainda bem). Avisou para a possível suspensão das transferências das parcelas da troika, como se um ato eleitoral num país com uma democracia plena e, portanto, civilizada, constituísse um subsequente problema. Anotou também que os sinais de recuperação económica iriam, decerto, regredir, assim como seria mau para o desemprego.
Passou para as consequências políticas da decisão (e é elucidativo que tivesse começado pelas económicas), as quais se podem resumir em dois pontos: as eleições trariam um forte clima de tensão e crispação e uma dificultada formação de um Governo sólido.
Por isso, Cavaco Silva decidiu juntar os três partidos que assinaram o memorando, como se este ainda tivesse em vigor, como se o PS, PSD e CDS-PP não se tivessem demarcado já do documento, aquele por não concordar com os vários descomedimentos dos partidos da maioria e estes pela razão oposta (ir para além da troika, esgoelava há dois anos Passos Coelho, com o beneplácito tático de Portas).
De qualquer modo, não vejo de todo que foi tudo mau na mensagem: Cavaco não aceitou os infantis joguetes de bastidores de Portas e Passos.
Ficamos também a saber que, apesar da recuperação da economia e do desagravamento de desemprego, vivemos uma situação de emergência nacional, que requer um desempanado Governo de salvação nacional. É talvez este o nosso destino, o de viver no interior de aparentemente irrevogáveis paradoxos discursivos.

o irrevogável portas

Paulo Portas continua a sua caminhada rumo a qualquer coisa que apareça. Hoje, no Parlamento, falou de estabilidade governativa. E havemos de ouvi-lo muito mais, com aquele seu ar de orgulhoso conservador, de fina têmpera portuguesa. Paulo Portas é chacota política. Pior: a palavra caráter deixou de lhe encobrir qualquer veleidade discursiva. Conhecíamo-lo no episódio da fotocópias tirada a fugir, agachou-se agora a coberto do seu grau de irrevogabilidade.

tontearias do presidente da silly season

Já sabemos que as pessoas são livres de disparatar, mesmo que o disparate esteja integrado no cerimonial das audiências solicitadas pelo Presidente da República. O sr. Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), apresentou magnificamente a Cavaco a sua teoria, a qual, suponho, é doidamente seguida pelos seus confrades CTP. Diz então Calheiros que eleições lá para outubro é mau. E porquê? Razão simples, singela: afasta os turistas, visto que estes escolherão um país com maior estabilidade.
O sr. Calheiros (nome apropriado para assinar por baixo a frase) estava a falar a sério. Presumo que ele passe mais do seu precioso tempo em Burkina Faso do que em Portugal. Espanta-me que Cavaco Silva convoque estes energéticos Calheiros para uma audição em Belém.

segunda-feira, julho 08, 2013

a discussão política em torno do novo governo

A discussão política em torno do novo Governo saído das exauridas conversações entre Portas e Passos tem desembocado, invariavelmente, no desenho do renovado leitmotiv político do mesmo. Deste modo, todos passam por cima do mais importante: a dignidade que a política deve possuir. Com este triste episódio, chegamos a um grau zero da dignidade política. Por conseguinte, jamais Paulo Portas poderia aceitar um retorno, independentemente das benesses oferecidas. Um pedido de demissão de um membro de qualquer Governo - com a agravante de se tratar aqui de um ministro de Estado - representa sempre um limite, o último recurso. Daí que ninguém o formule sem a devida ponderação. Neste sentido, a carta (ou missiva) que Paulo Portas escrevinhou foi, evidentemente, o resultado de uma longa e solitária maturação. Só assim se percebe a utilização de palavras carregadíssimas de um forte valor moral e ético, como o são, por exemplo, irrevogável, consciência, dissimulação. Na política a palavra deve valer muito. Cavaco Silva tem-no dito. Baseou, aliás, toda a sua campanha eleitoral - a primeira, principalmente - na pedagogia do valor da palavra.
Um dia, um ministro colocou uns corninhos em cima da sua cabeça e virou-se, estimuladamente, para um deputado do PCP. No dia seguinte, já não era ministro. Outro, dezasseis anos antes, contara, empolgadamente, uma infeliz anedota a respeito das mortes causadas pela contaminação por alumínio das águas que abastecia um centro de hemodiálise. Deixou de ser ministro do ambiente no próprio dia. Mais próximo de nós, José Sócrates pediu a exoneração do cargo de primeiro-ministro ao presidente da República pelo chumbo do PEC4. Cavaco aceitou. Estes três exemplos (podiam ser muitos mais) são reveladores que, no que toca à vertente edificativa da política, não vale tudo, pelo simples facto de que se pode perder tudo.
Por tudo isto, a atitude de Paulo Portas adquire, porém, um certo grau de pedagogia, a qual se insere, construtivamente, no campo da baixa política.

o outro assunto

É muito interessante presenciarmos o nascimento de comentadores, todos economicamente diplomadíssimos, convergentes na análise nua e crua dos dados económicos do país. Por exemplo, há dias ouvi José Gomes Ferreira, jornalista justamente considerado da SIC, analisar o desempenho de Gaspar do seguinte modo: nem tudo foi mau, muitas coisas foram até muito boas. Depois, espalhou dois ou três ponteiros estatísticos relativamente ao dinheiro em caixa, balança comercial e pouco mais. Perante isto, o seu interlocutor retorquiu-lhe: e os custos humanos? Resposta pronta de José Gomes Ferreira (e aqui coloco-a entre aspas): "isto é outra história".
Esta colateralidade do humano tornou-se, de facto, emergente na sábia voz desta gente. Infelizmente, é fundamentalmente este posicionamento que está errado. Basta olharmos, relançadíssimos, para a declaração Universal dos Direitos Humanos, nascida no pós-guerra, solenemente adotada e  proclamada, em 1948, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, ou mesmo para o fundamento do nascimento, em 1951, da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, ou, antes disso tudo, para o famoso discurso de Churchill, em Zurique, no rescaldo do pós-guerra, onde exorta os países europeus para a criação dos Estados Unidos da Europa. Deixo aqui apenas um pequeníssimo excerto desse discurso, no sentido de percebermos quão longe estamos destas vontades: "Se a Europa alguma vez se unisse na partilha da sua herança comum, não haveria limite para a felicidade, a prosperidade e a glória de que os seus trezentos ou quatrocentos milhões de pessoas gozariam. (...). Só assim poderão centenas de milhões de pessoas que mourejam recuperar as alegrias simples e as esperanças que fazem com que valha a penas viver a vida".
Estadistas que não olham para o ser humano como principal objeto do seu trabalho têm um nome: ditadores. Pelo menos, é isto que a história nos vem dizendo.

domingo, julho 07, 2013

a razão das eleições antecipadas

Não vale a pena insistirmos mais no retumbante momento político a que assistimos nestes últimos dias. O tempo encarregar-se-á de recolocar na sua trama a importância do mesmo. Tenho para mim que os políticos, de uma forma geral, subestimam o povo que os elegem. Muitas vezes estas contas saem-lhe alteradas. Mas também é verdade que, por vezes, isso não se passa e que o aforismo de que o povo tem a memória curta se mostra perfeitamente enlaçado.
Existe, portanto, outro Governo na República Portuguesa, embora o primeiro-ministro seja o mesmo. Com isto - e ajuntando a carta de Gaspar - há também uma assunção do fracasso da ação governativa destes dois anos. Na verdade, tanto Portas como Gaspar - adversários internos do conselho de ministros - convergem nessa análise derrotista. Conseguintemente, o paradigma narrativo de agora é novo e revolucionário, se tivermos obviamente em conta o que se finou. O tempo - anotem bem, dizia Gaspar - é de investimento, isto é, de recolocação da economia no lugar cimeiro do executivo. Por isso, Portas e Coelho reuniram horas a fio e desenharam uma nova orgânica de Governo. O titular das finanças, por exemplo, outrora a cargo do todo-poderoso Gaspar, passa agora para uma espécie de Barreto Xavier, o extraordinariamente visível secretário de estado da cultura. Maria Luís Albuquerque já demonstrou que se encaixa admiravelmente neste papel ao aceitar, simpática e descontraidamente, todo este rebuliço em redor da sua nomeação. Neste propósito, o mínimo sentido de Estado impunha que apresentasse, desde logo, a sua demissão ao primeiro-ministro.
Pelo contrário, Paulo Portas, outrora cirurgicamente desligado do núcleo duro governativo, mas dando sempre conta, aos jornalistas, do seu papel opositivo, é agora o novo Gaspar elevado a vice-primeiro-ministro, alegremente encarregado da economia, das negociações com a troika, da reforma do Estado, e de mais outras coisas de somenos importância. Grande Portas, que conseguiu ampliar a semântica do adjetivo irrevogável!
Perante isto, é legítimo considerar que a única opção acordável com o próprio regime democrático seja a antecipação das eleições legislativas. Com elas, os partidos terão a oportunidade de apresentar aos portugueses o seu modus operandi relativamente a uma série de construções relacionais com outras instituições, designadamente com a desgraçada troika. Mais do que isso, mostrarão qual o grau de consideração que o povo lhes merece. A este propósito, basta olharmos para a agora inenarrável campanha eleitoral de Passos Coelho de há dois anos para facilmente descortinarmos a elevada estima e consideração que tem pelo povo.
Nesta fotografia fica igualmente muito bem Paulo Portas.

sexta-feira, julho 05, 2013

governam os mercados

Os mercados sentem-se bem assim, elevados a Júpiter, vivendo no Olimpo. Por um lado, Gaspar sai do Governo, num assomo único de humildade no reconhecimento do falhanço. Por outro, Paulo Portas escreve uma missiva reconhecendo a obtusidade governativa, da qual foi conivente durante dois anos. E o resultado de tudo isto é a extraordinária queda das nossas empresas na bolsa e a subida dos juros da dívida pública. Mas eis que Portas e Passos se reúnem. Bendita hora, gloriosa reunião: os mercados respondem: a bolsa dispara 3% e os juros da dívida pública a 10 anos estacionam nos 7%. Fico, assim, perplexo, na minha incredulidade: não foi isto que aconteceu na outra semana? Não é isto, este sobe e desce que vem acontecendo de há muito tempo para cá? Não são, afinal, os mercados, isto? Onde está aqui a singularidade?

quinta-feira, julho 04, 2013

ainda o discurso

Pois, ainda o discurso de Passos Coelho. Uma frase, uma apenas para nos deslumbrarmos com a pertinência ilocutória da coisa: "Não me demito, não me peçam para abandonar o meu país."
Pelo que julgo saber (até porque o ouvi e vi na solenidade televisiva), Passos Coelho sugeriu precisamente o abandono do país a muitos dos seus concidadãos. Por isso não entendo esta teimosia em permanecer na sua zona de conforto.

adenda: não resisto a mais uma tirada: "coligação que goza do apoio da maioria do povo" (para além de Coelho, só mesmo o Presidente da República pensará o mesmo).

adenda 2: acabo aqui: "o país está primeiro".

quarta-feira, julho 03, 2013

o discurso

A apresentada razão de Passos Coelho, ontem, perante milhões de telespetadores, foi porventura a peça política mais idiota que eu já ouvi em toda a minha vida. Aquilo não tem, verdadeiramente, ponta por onde se lhe pegue. Cavaco Silva já nos brindou, nos últimos largos tempos, com panoramas silogísticos deste teor. Estão, pois, bem um para o outro.

a crise política

Convém não esquecer: antes da presente crise política havia já uma crise política. Por outras palavras: andamos a ser cabalmente enganados, com remessas de cinismo político no seu estado mais refinado. Ouvi vezes sem conta Paulo Portas, Passos Coelho, ministros e ministras, secretários de estado jurarem a pé juntos sobre a credibilidade e validação do executivo, o qual estaria mais fortalecido do que o próprio colosso de Rodes e do que toda a oposição junta. Afinal, era só fumaça.
Quero, porém, anotar um pormenor, não de somenos importância: somos donos e senhores do nosso destino coletivo. Com efeito, não houve necessidade de pedir a bênção à troika. Paulo Portas teria, só por esta razão, o meu apoio. Mas tem-no também pela principal razão invocada, que se encontra malogradamente ligada à ascensão da enfraquecida e gasparista Maria Luís Albuquerque de secretária de estado do tesouro a ministra das finanças, sem haver uma auscultação àquele que deveria ser o número dois do Governo, como hoje é inexoravelmente claríssimo (basta ver a definição de coligação em qualquer dicionário).
Para mal dos nossos pecados, vivemos uma conjugação de variadíssimos fatores humanos, os quais se resumem a uma palavra só: desgraça. António José Seguro é um ex-jota; Passos, idem. Quase almas siamesas, portanto. Podem estar preparados para tudo, mas não me parece que o estejam para governar. Estou em crer que não me parece sequer razoável, sob o ponto de vista legal, a entrada para estas organizações antes da maior idade. De qualquer modo, Seguro tem, obviamente, o benefício da dúvida, assim como o teve Passos. Vamos ver. Terceiro fator humano: Cavaco Silva, a pior desgraça que apareceu em Portugal, politicamente, desde a revolução de abril. Tudo isto teria sido evitado se o Presidente da República tivesse a capacidade de ler os sinais advindos da sociedade, do povo, que tão distante está do Palácio de Belém, a não ser que Cavaco considere como representantes do povo os prestigiadíssimos economistas que convidou para discutir (analisar, talvez) o estado do Estado.
Portugal não é a Grécia, Portugal não é a Irlanda, mas Portugal também não é a Alemanha. E ainda bem. Quando se exigia uma concertação de esforços, Cavaco escondia-se no seu minimalismo institucional. É defeito, é feitio, é incompetência.

terça-feira, julho 02, 2013

o extraordinário elogio de barroso a gaspar

O excelso presidente da Comissão Europeia veio a público panegiricar Gaspar. E fê-lo desta maneira: "Admiro muito qualquer pessoa que aceite ser ministro das Finanças de Portugal nas atuais circunstâncias, quer o dr. Vítor Gaspar, quer, agora, a dra. Maria Luís Albuquerque". É raro vermos, na verdade, este tipo de prova de humildade e de autocrítica, ainda para mais vindo de um político. Assim, convém não esquecer que Durão Barroso abandonou Portugal quando este "estava de tanga" e quando ele era, vejam só, primeiro-ministro. Podemos então formular o seguinte esforçado silogismo: Durão Barroso não admira os que fogem às responsabilidades perante o país. Durão Barroso descartou-se do país. Logo, Durão Barroso não admira Durão Barroso.
Posso, no entanto, com tudo isto, reformular o meu entendimento aristotélico face a este episódio de Gaspar, o qual se pode resumir ao seguinte: andamos no reino da mais perfeita hipocrisia política, a começar, desde logo, por onde não poderia existir: a presidência da república.

segunda-feira, julho 01, 2013

gaspar sai, gaspar saiu; passos em Belém

É a notícia do dia: Vítor Gaspar sai do Governo. Avizinha-se mais uma reunião extraordinária e mais uma bênção de Cavaco. A altura é a pior: as swaps e as aldrabices que daí sobrevieram. No entanto, se tiver consistência a notícia, só espero que ninguém se defenda no estafado argumento dos motivos de ordem pessoal. Gaspar, desde muito cedo me pareceu em desconformidade absoluta com o cargo que ocupa, sendo, portanto, um incompetente. No entanto, a aldrabice como forma de ganhar a vida nunca esteve na sua curta existência política. E isso já é um ponto a seu favor.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...