quarta-feira, dezembro 29, 2010

debate pouco alegre

Sigo com tédio moderado o debate entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. Na verdade, a ornamentação destes debates televisivos também não ajuda para uma clarividência que se deve exigir numa campanha eleitoral.
Não é, de fato, difícil o emprego de Presidente da República, tirando alguns fins de semana preenchidos com convites folclóricos. O candidato Manuel Alegre e o candidato Cavaco Silva (gosto destas imparciais designações) não trazem nada de novo ao país. Brilhar, brilhar, só mesmo no minutito final no qual os candidatos se viram para as câmaras, ou melhor, para os putativos portugueses que os acompanham, e estrebucham o discursozito político afincadamente elaborado pelos seus assessores. Interessante será seguir agora os comentadores destrinçadores de imagéticas políticas esvoaçadas.

adenda: a ilusão desta campanha (e das outras presidencialistas) pode ser aferida numa frase de Cavaco Silva, a respeito dos pobres, desempregados, pensionistas, etc.: "para esses não pode faltar dinheiro". Se tivermos em conta os cortes nos diversos subsídios sociais e que o Presidente da República promulgou (ainda hoje a notícia do dia diz respeito ao pagamento das taxas moderadoras por todos os que ganham mais do miserável salário mínimo), este tipo de declarações confere ao cargo uma inocuidade preocupante.

terça-feira, dezembro 21, 2010

magistratura ativa

Cavaco Silva não foge à regra da projeção de um segundo mandato presidencial mais ativo. O que antigamente era cooperação estratégica passa agora para o menos português suave magistratura ativa. Deu já um atabalhoado sinal ao afirmar que estaria atento ao projeto-lei que altera, principalmente ao nível do financiamento (não é nisto que agora tudo desemboca?), a cooperação do Ministério da Educação com algumas escolas privadas. Antes, porém - e por que ainda não nos situamos temporalmente no segundo mandato -, originou mais um daqueles casos prodigiosos, reveladores do seu mainstream político: a lei do financiamento (não é nisto que tudo, hoje, desemboca?) dos partidos e campanhas eleitorais. Cavaco promulgou a lei e de imediato passou a combatê-la (curiosa ética cavaquista: a lei pode potenciar a lavagem de dinheiro, segundo as suas próprias e escritas palavras). Já assim acontera antes, com a promulgação da lei que enquadra, legitimadamente, o casamento entre homossexuais.
Veremos o que o futuro nos aguarda, nesta índole ativista do presidente.

domingo, dezembro 19, 2010

a campanha

As ideias sobre a presente pré-campanha (e a futura campanha) presidencial estão desde há muito formatadas. Todas elas vão ao encontro de uma caraterística preconceituosa da classe jornalística. O desinteresse é a nota dominante nesta gente. De uma maneira geral, os candidatos são avaliados pela espuma vaporosa das suas palavras e não pelas ideias que criticam ou que apresentam. Ou porque Fernando Nobre se apresentou exageradamente delicado para com Cavaco Silva (o último candidato a tratar grosseiramente um presidente em exercício - Basílio Horta - obteve um resultado miserável, de acordo, aliás, com a miserabilidade da sua campanha), ou porque Francisco Lopes é uma cassete comunista (esta ainda pega), ou ainda porque Manuel Alegre se agarra ao seu milhão de votos de 2006, ou porque Defensor Moura não tem ideias (crítica que é, na verdade, garantida para todos), ou ainda porque Cavaco Silva se limita a deixar escorrer, em percurso digressionista, o seu vazio ideotemático.
Eu sei que as preocupações dos portugueses nesta altura não se prendem muito com eleições, sejam presidenciais ou outras quaisquer. No entanto, seria bom que a imprensa fosse capaz de, desta vez, remar um pouco contra a maré cada vez mais afetada que teima grassar, resolutamente, na sociedade portuguesa.

cavaco e os sem abrigo

Cavaco Silva continua a sua senda demagógica a pouco mais de um mês de uma campanha eleitoral que se avizinha, apesar de tudo, fácil para a sua reeleição. Agora foi a vez dos sem abrigo, aparecendo (o verbo poderia ser outro, é verdade) num festivo casamento de alguém que foi ou ainda é um sem abrigo. As suas palavras foram ao encontro da ocasião: combate à pobreza, etc. Tudo muito encenado, tudo muito teátrico, à boa maneira de José Sócrates.

o (des)apoio de joão césar das neves

João César das Neves não apoia Cavaco Silva, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na última campanha presidencial, a cuja comissão de honra do candidato fez orgulhosamente parte. No entanto, César das Neves acrescenta que Cavaco é, de longe, o melhor dos candidatos.
É a primeira vez que vejo um candidato ser desapoiado tão pouco convincentemente. O setor católico social-democrata fica, assim, mais esclarecido sobre o seu sentido de voto.

cavaco

Cavaco tem, afinal, uma ficha na PIDE. Em 1967, preencheu um pequeno e obrigatório boletim para que lhe fosse permitido o acesso a certos documentos secretos da NATO. O opúsculo é daqueles que cheira a burocracia ditatorial. Nota-se, por parte do mais ou menos jovem Cavaco, uma formalidade igualmente burocrática no seu preenchimento. Daí que quando escreve, numa das alíneas, que se sente "integrado no atual regime político", podemos acreditar, sem qualquer esforço, que seria muito mais um ato de rigidez reflexiva do que uma mera inevitabilidade casuística. Por conseguinte, trazer à baila da campanha eleitoral achegas tão inócuas como estas parece-me pouco acertado. Até porque o 25 de abril - ou quem passou anos a lutar por ele - deve ser encarado como um movimento de génese generosa, longe de paternidades excessivamente dilatadas no tempo. Mas uma coisa é a diacronia política e outras (fazendo, embora, parte desta) são as campanhas eleitorais. Os exemplos desvirtuosos são vários. O próprio Mário Soares parece que não resistiu de apontar as virtualidades da monogamia casamenteira, dirigindo-se, obviamente, ao então seu principal rival Sá Carneiro, em situação concubinal com Snu Abecassis. Como também é seu timbre, mais tarde (muito mais tarde, quando tudo se decidira já) veio esboçar uma valorosa e arrependida mea culpa (passou-se o mesmo em relação a Freitas do Amaral, autorecriminando-se, já no alto do seu pedestal presidencial, por haver sido, na famosa campanha presidencial dos divisos 138692 votos, por vezes demasiado cruel nos ataques ao seu opositor).
Mas voltemos então a Cavaco e ao detestável boletim. O que é então pertinente naquilo? Nada mais nada menos que o insignificante campo das observações. Qualquer cidadão com alguma consciência social (Cavaco era então um ambicioso investigador universitário), não podendo prescindir da análise minuciosa desses documentos, preencheria o odioso panfleto da forma mais simplória possível, entregando-o depois aos insipientes serviços da ditadura, no caso concreto, da PIDE. Procedendo deste modo, Cavaco estaria, de certa forma, a lutar contra o statuo quo, isto é, contra o regime político (mesmo rabiscando que se encontra nele integrado). Mas o agora recandidato a presidente preferiu pincelar a coisa acrescentando, naquela delicada alínea das observâncias (não obrigatória, portanto), que não se dava com a segunda mulher do sogro.
Para mim, estas três linhas opinativas (as únicas de caráter desobrigatório) do candidato revelam muito mais da sua essência política e social do que o próprio documento. A sua justificação para isto, expressa na última semana, vem igualmente ao encontro deste ponto de vista: "não sei o que é que o regime pensava de mim nessa altura, mas tendo-me mandado para Moçambique 10 dias depois de casar, quando ainda estava em viagem de núpcias, e estando eu no terceiro ano do curso, não me tendo deixado terminar o curso, eu e a minha mulher com certeza que não pensavamos bem do regime". Sinceramente, já o vi em melhores dias. Uma vez, por exemplo, respondeu de forma admirável a uma provocação, quando lhe perguntaram onde estava em abril de 74. Disse simplesmente que se encontrava na Fonte Luminosa, a ouvir Mário Soares e outros democratas a discursarem.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

consumo a aumentar

O valor das compras e levantamentos multibancos aumentou este ano relativamente ao mesmo período do ano passado. Só nas duas semanas de dezembro, a variação foi de 7,3%. A venda de telemóveis nos primeiros 9 meses do ano foi de 4,5 milhões (!) (nos mesmos meses do ano passado, venderam-se 4,1 milhões). A Conferação de Vendas (curioso nome) considerou, recatadamente, "interessantes" os números.
Explicações: segundo os cientistas que tratam destas coisas, tudo isto se deve a uma antecipação das compras por causa do aumento do IVA logo em janeiro e também - pasme-se - a uma espécie de último relaxamento antes da crise que se avizinha.
Tudo isto é, de fato, verdadeiramente interessante.

luís amado e os voos cia

Foi interessante ver Luís Amado explicar hoje os rasantes voos da CIA sobre território português. O nosso representante máximo no estrangeiro, homem costumadamente pesado nas palavras e de compleição cuidada, ficou hoje singularmente decomposto com as perguntas efetuadas pelos jornalistas que o aguardavam à saída de um qualquer encontro. Justificou-se com uma espécie de grau zero argumentativo, claudicando amiudadas vezes nas justificações que pairavam obstinadamente na sua cabeça. Fiquei esclarecidíssimo. Melhor do que ele, só José Sócrates.

eurobond

O economiquês continua a sua senda. O tempo, agora, é de eurobonds. Sorridente, ouvimos José Sócrates, lá em Bruxelas, na terra dos eurobonds, fazer-nos descomplexadamemnte acreditar que desde há muito defende esta receita contratual entre estados membros. Parece que a Alemanha, a menos eurobondista do grupo, não quer encarrilhar nesta vereda.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

escorreitamente

Tem-se multiplicado em Portugal uma espécie de altruísmo sinalético do tipo dai de comer a quem não tem. Vemos inclusivamente um (o) Presidente da República apadrinhar uma iniciativa de um grupo de restaurantes que fazem das sobras refeições para os carenciados. É este tipo de portugalidade que eu não gosto. Cavaco espelha-o bem.

voos cia autorizados

A ser verdade a autorização em segredo dos voos da CIA com prisioneiros para Guantánamo, os dois devem apresentar de imediato a demissão (e, consequentemente, o Governo) ao Presidente da República. A mentira não deve, de fato, ser congénita no discurso político.

jardim 2

A questão em torno dos subsídios regionais açorianos em resposta aos cortes nacionais é mais de forma do que de conteúdo. Foi interessante verificar que, vendo César a aproveitar um pequeno apontamento televisivo continental, as semelhanças com Jardim são muitas. Em primeiro lugar, esta gente engorda muito. Depois, são os tiques. No Jardim da Madeira existe, todavia, a vantagem da patente. No dos Açores nota-se muito mais a anfratuosidade do discurso: um nos Açores e um outro no Continente. Alguns tolos comentadores já esboçaram voos nacionais para este. Seriam demasiados rasos.

terça-feira, dezembro 14, 2010

o portugal errático

Vejo ali na televisão António Barreto criticar, com razão, as opções de Portugal enquanto país de há 20 ou 25 anos atrás. Viviamos então envolvidos e mergulhados na onda europeia de uma espécie de refundação nacional, onde as prioridades se centravam no que era novo: autoestradas e subsídios da CEE. Deixávamos para trás importantes setores estruturais da nossa vida enquanto nação: a agricultura, o mar, as pescas. Lembro-me desses tempos. E o que me recordo é que andávamos todos embevecidos com os novos caminhos que os automóveis, impingidos cada vez mais veementemente em suaves prestações, breve e celeremente percorreriam.
Pena foi que estes visionários do passado não tivessem projetado esgares luminosos para o futuro. O futuro que, afinal, chegou neste presente.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

propagandisticamente

José Sócrates, o melhor vendedor de ilusões que o país teve a chefiar um Governo (e houve-os mais ou menos às carradas), debate no Parlamento sobre os resultados do último PISA (2009). Portugal ficou, nestes testes, pouco abaixo da média dos países intervenientes. Sócrates salienta os resultados notáveis, os quais marcam uma época no país, um antes e um depois, segundo as suas próprias e extraordinárias palavras.
Neste sentido, importa relevar o seguinte: foi a primeira vez que Portugal atingiu, de facto, estes desígnios. Daí que se afigure notavelmente incipiente este alarido à volta do programa PISA. Aliás, este exemplo adequa-se na perfeição ao que foi e continua a ser o paradigma do sistema educativo em Portugal: tudo muito avulsivo, tudo muito sincrónico, tudo muito pouco projetivo. Neste sentido, ainda havemos de ver alguma luminária proclamar Maria de Lurdes Rodrigues como o melhor ministro da educação do Portugal democrático.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

crise na justiça

É tragicamente curioso verificarmos o desenfreado mutismo do ministro Alberto Martins relativamente ao caos provocado pelas torrentosas demissões de um Secretário de Estado, de um diretor-geral da Administração, de um subdiretor-geral e de uma direção em bloco, ou seja, tudo pessoas que acompanhavam bem de perto toda a estrutura emanada pelo ministério, a qual, presumo, se enquadaria ainda no mais globalizante programa do Governo para a área.
Mas de programas governamentais estamos já há muito conversados. Na verdade, ninguém sabe muito bem, hoje me dia, o que isso é, apesar de, em áreas tão melindrosas e importantes como a Justiça, a Educação ou a Saúde, não deveria haver crise alguma que se sobrepusesse ao que fora previamente apresentado e outorgado pelos cidadãos eleitores.
Alberto Martins estará certamente à espera (como, aliás, muitos outros seus pares) que abril ou maio cheguem depressa para se ver livre da prisão em que José Sócrates o meteu.

domingo, dezembro 05, 2010

desregulações mentais

A marca de café Lavazza pagou 1,2 milhões de euros à atriz Julia Roberts para esta abrir esplenderosamente a sua boquinha e revelar a sua alva dentição. Dizem que nem precisou de se deslocar a Itália, visto que se encontrava em filmagens neste país. Daí que este trabalhinho tenha sido efetuado num dos intervalos da rodagem do filme.
Na minha humilde perspetiva, estas situações contratuais - vergonhosas - fazem também parte da chamada desregulação dos mercados. Há-as às centenas, aos milhares, com atrizes, atores, jogadores disto e daquilo, os quais sendo todos extraordinariamente bem pagos no que aos salários diz respeito, ainda penicam uns trocos a espevitadas marcas de produtos comerciais altamente globalizadas. Estas, por sua vez, tentarão sempre aproveitar-se dos incautos cidadãos (a necessidade da escola, da educação!...quão imprescindíveis!...) sempre dispostos a despender essas depenadas migalhas.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

hipocrisia política

Francisco Assis jogou aparentemente alto e excessivo com a chantagem da sua demissão de líder da bancada do grupo parlamentar do Partido Socialista, caso a maioria dos seus correligionários partidários votasse a favor da proposta do PCP, a qual preconizava a antecipação para este ano dos dividendos distribuídos pelas grandes empresas. Jogou, pois, elevado e parece que ganhou. Mas são estas pequenas vitórias da baixa política, fruto de táticas pessoais visando outras ramificações futuras, que fragilizam.
Ao mesmo tempo que Francisco Assis remetia a sua demissão para os colegas, afirmava (embora já convicto da sua vitória) que compreendia as declarações de voto por parte de alguns dos deputados socialistas. São pressupostos justificativos contraditórios e disparatados. É que não se pode ou não deve manifestar este sintoma de anuência a posteriori. Se verdadeiramente compreendesse deixava o barco correr ao sabor dos votos livres dos deputados.
A juntar a todo este circo de final de regime foram as declarações de Sócrates e Teixeira dos Santos, ao remeterem a decisão das empresas em antecipar a distribuição dos dividendos para este ano, para o domínio da moral e da ética. Como sabemos, moral e ética é coisa que sobeja nesta gente. Sempre quero ver onde parará esta dicotomia moralizadora quando se discutir a alteração para 500 euros do salário mínimo nacional. Ou (outro exemplo) a vinculação extraordinária dos professores com mais dez anos de serviço.

luís amado e os voos da cia

A situação é claríssima: Luís Amado afirmou que se demitiria se se provasse que aviões da CIA transportando prisioneiros passaram no espaço aéreo português. Sinceramente, estou em crer que não era caso para tanto empolgamento por parte do ministro dos negócios estrangeiros (os Estados Unidos passaram em todo o lado com aviões de Guantanamo). Ficou provado que isso, efetivamente, aconteceu. Não obstante, o Governo vem obstaculizar a situação com cenários que mais não fazem do que lançar poeiras de confusão analítica para cima dos portugueses incautos. Na verdade, esta não-opção de Luís Amado é simplesmente mais uma machadada no pouco crédito que este Governo tem junto dos portugueses. Por outro lado, o ministro da justiça revelou uma manifesta falta de noção do tempo certo para bater com a porta, preferindo optar pela protelação de mais uma situação entre muitas outras que trilharam este mesmo caminho.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

emprego, desemprego, demagogia

José Sócrates afirmou, desavergonhadamente, que discute somente política e não politiquice. Tudo a propósito das questões levantadas pelos jornalistas sobre uma eventual remodelação governamental (e isso não é politiquice, com toda a certeza, mas entendo por que, na sua cabeça, este assunto não valha um caracol). De seguida, ainda nesse efemeramente curto espaço temporal de glória mediática, o primeiro-ministro saiu-se, desassombrado, com um registo que merece anotação: o que interessa é devolver aos portugueses os seus empregos! Presumo que naquele ténue entendimento declarações deste tipo, as quais atingem direta ou indiretamente centenas de milhares de pessoas, não sejam consideradas de politiquice.
Politiquice é tudo aquilo que se diz e sabe-se que não se cumpre. É o que se encontra mais próximo da demagogia.

terça-feira, novembro 30, 2010

cavaco com novo fôlego

Uma das notas extraordinárias da política diz respeito às metamorfoses, sejam elas impostas ou oriundas de um processo francamente interiorizado. Cavaco é talvez o político no ativo com maior predominância decisória. Foi primeiro-ministro num tempo muito especial - o das chamadas vacas gordas -, num tempo em que nos contentávamos com o estatuto de bom aluno dos ditames de Bruxelas; é Presidente da República e foi ainda, há já muitos anos, um irrelevante ministro das finanças. Tem, portanto, uma enormíssima quota-parte de culpa relativamente ao estado a que isto chegou.
Estamos em campanha eleitoral e com ela o regabofe demagógico. Cavaco, o político que não gosta de o parecer, desavergonha-se perante os portugueses e esbofeteia-os com coisas como esta: Portugal deve voltar a ser um "país respeitado e credível na cena internacional", adiantando que não ser este um "tempo de experimentalismos, aventuras ou fantasias". Por isso, diz ainda o candidato que se for eleito será um presidente ativo e dinâmico mas (mas... mas...) simultaneamente prudente. Mais: "um presidente da República não é responsável pela governação do país, mas também não é uma figura meramente decorativa ou simbólica. É, desde logo, o garante da independência nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições". Advoga ainda que tem ideias claras e realistas para o país e que não estará ao servilo de ideologia alguma.
Ficámos, pois, entendidos, senhor presidente da República. Mas eu não acredito em si.

segunda-feira, novembro 29, 2010

a comissão de inquérito já não existe

Henrique Granadeiro, presidente da PT, recusa entregar ao Parlamento o relatório final da auditoria feita a Rui Pedro Soares e a Paulo Penedos no âmbito do processo TVI. O motivo de tal procedimento, devidamente enquadrado na lei, como não podia deixar de ser, é daqueles que diz tudo desta gente: a comissão de inquérito já não existe! Henrique Granadeiro não consegue atingir que esta comissão de inquérito parlamentar só existiu porque havia sido avalizada pelo Parlamento, genuíno órgão de fiscalização. E uma comissão de inquérito é precisamente isso: uma fiscalização a posteriori que tem uma existência limitada no tempo. Não será, todavia, por acaso que junto da denominação comissão de inquérito se ajuntou o adjetivo parlamentar.

os quadros e os mitos ou os mitos dos quadros

Em Portugal existiu sempre uma áurea ligada aos quadros empresariais. Então se tiver o adjetivo superior colado, fica tudo dito. Tirar o cursozinho, ser doutor foi tradicionalmente o ponto de chegada de muitas famílias portuguesas. Daí até aos quadros é um pequeno passo. Ouvi mesmo há tempos um suposto quadro exibir, perante as câmaras de televisão, um adrede e inolvidável pedantismo, ao sugerir que os elevados ordenados dos quadros superiores têm uma explicação simplista, a qual se liga à suposta exiguidade dos mesmos.
Nesta linha de sentido, o Governo, compaginado envergonhadamente com o Partido Social-Democrata, decidiu abrir uma obscena exceção aos cortes salariais previstos no âmbito da execução do Orçamento Geral do Estado. As exceções são alguns quadros de algumas empresas públicas, os quais vendo-se assim tão desprotegidos nos seus 10% de corte salarial, poderiam mudar-se para uma empresa privada. Lembrei-me logo de alguns destes quadros como Armando Vara, Rui Pedro Soares, Mira Amaral, Ferreira do Amaral, ou outras centenas de nomes que, durante décadas de política neoliberal, ora a cargo do PSD, ora por interposto Partido Socialista, têm feito do Estado (direta ou indiretamente) uma espécie de fazedores de quadros. Desde logo, um ponto notoriamente comum: carreirismo partidário, isto é, a política como mero instrumento propulsionador de ávidas personalidades em busca de sonhos eventualmente desenhados, em muitos deles, imberbemente.
O que verdadeiramente me choca, no meio de todo este desnorte político, é este olhar sobredimensionado para esta gente. Pela minha parte, qualquer destes quadros deve sair se assim o entender. Não só por fazer parte de uma ambição legítima, mas também por que, nas dezenas de milhares de desempregados muito qualificados, haverá quem, possivelmente, os supere. Não em experiência, infelizmente.

sábado, novembro 27, 2010

apoios à reeleição de cavaco

Paulo Portas e Belmiro de Azevedo são dois diligentes apoiantes de Cavaco Silva. Nada teria de extraordinário se não houvesse, por exemplo, em Belmiro de Azevedo, um verboso passado recente (e quiçá um futuro igualmente fresco), no qual apelidou o chefe de estado de ditador. Convém notar que não é qualificativo que assente bem em qualquer presidente da república da União Europeia, muito menos num país que teve, até há pouco tempo, um regime contrário à democracia.
Mas o que efetivamente importa relevar neste arrimo tão notável são os argumentos utilizados. Sinceramente, fico sem saber se existe aqui alguma espécie de ironia quando ambos advogam, por exemplo, a ímpar preparação, conhecimentos e sabedoria em matéria de finanças públicas de Cavaco Silva.
Na verdade, o extraordinário autopanegírico de Cavaco Silva aquando da sua apresentação como candidato presidencial obteve eco: onde estaríamos nós sem Cavaco?...

quarta-feira, novembro 24, 2010

números da greve

A única coisa certa nisto da greve tem a ver com a disparidade dos números: para o Governo, vinte e tal por cento; para os sindicatos, três milhões de adesões. E ainda se diz que a matemática é ciência certa.

greves gerais, cavaco, sócrates

Verdadeiramente interessante foi ver imagens já com 22 anos, precisamente no tempo da última greve geral que juntou as duas centrais sindicais. Vi e ouvi Cavaco Silva e pensei que Sócrates tem de fato muitas parecenças com com o atual presidente da República (calma, senhores cavaquistas useiros, ainda havemos de ver Sócrates, dentro de dez anos mais coisa menos coisa, quando concorrer para o tacho de Belém, com discursos copy paste dos de Cavaco presidente). Dizia então o espantado Cavaco Silva que aquilo não era greve geral digna desse nome. Sócrates, neste momento, não poderia afirmar um disparate destes.

a crise e a Irlanda e o FMI

Com o dedo do FMI, a Irlanda prepara-se para despedir qualquer coisa como 24 mil e tal funcionários públicos. Ou seja, a maneira mais fácil de resolver situações pretensamente incontornáveis. Quer dizer que estes milhares de pessoas vão patrioticamente ajudar o seu país a solucionar um grave problema de défice orçamental. Provavelmente, os senhores do FMI e do Governo irlandês (assim como os seus homólogos portugueses) pensam que estas pessoas poderão resolver as suas iminentes precaridades existenciais talvez numa próxima vida.
Olho para o primeiro-ministro irlandês e não consigo deixar de ver Teixeira dos Santos.

domingo, novembro 21, 2010

josé sócrates

A cimeira da Nato foi um êxito organizativo. Somos, portanto, capazes destas coisas. Meia dúzia de energúmenos basicamente europeus não chegaram sequer para a polícia suspirar por uns não sei quantos blindados que-eram-para-a-cimeira-mas-que-afinal-deixaram-de-ser-e-já-não-interessam-porque-a-cimeira-não-era-sobre-blindados-mas-sim-sobre-a-NATO.
Sempre tive a ideia que José Sócrates é muito melhor vendedor do que primeiro-ministro. Uma espécie de relações públicas de um Portugal auspicioso.

metas europeias

A pobreza. O desemprego. A exclusão social. A pobreza, o desemprego e a exclusão social. Andamos nisto, na Europa barrosista (e não barrosã, o que seria, talvez, melhor), há já não sei quanto tempo. Foi fixada, por exemplo, para o ano de 2010 uma taxa de emprego de 70% numa Europa a 27. Obviamente, não se cumpriu. Mas os cada vez mais inócuos barrosos europeus não desistem e traçam novos paradigmas quantificáveis: urge tirar pelo menos 20 milhões de pessoas da zona de risco da pobreza e exclusão social e empregar 75% da população europeia até 2020. Nada, pois, que não se faça facilmente no papel e nos discursos televisivos.
Vivemos, efetivamente, num tempo em que vislumbrar miragens se torna quase um vício. E de miragem em miragem, Barroso e companhia aguentam-se nos pódios a que deleitosamente se sujeitaram. Depois deles virão outros e depois outros. Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, parece ser cada vez menos verdade. Pode ser que algum dia a democracia europeia seja bem melhor apurada. Nos sonhos de Durão Barroso, 2010 implicará a cadeira que pertence agora a Cavaco.

quarta-feira, novembro 17, 2010

angela merkel reeleita com 90, 4% dos votos

Quando se fala em líderes ou ausência deles dentro do panorama europeu, aparecem-nos repentinamente resultados deste tipo: Angela Merkel reeleita presidente da União Democrata Cristã (CDU), com 90,4% dos votos, no congresso do principal partido do governo. Parece que ficou aquém das expetativas: no congresso anterior havia ganho com uma margem ainda maior, a roçar os 96%. Se tivermos em conta que a Alemanha é o centro efetivo de uma Europa desorientada, este tipo de resultados não revelam, por parte dos nossos... como direi... quase vizinhos alemães, nada de inteligente. Na verdade, a União não carece somente de líderes, mas também de interesse.

terça-feira, novembro 16, 2010

emprego desce em outubro

Este Walter Lemos é, de fato, um governante sui generis. Estavamos habituado a vê-lo na sua secretária do ministério da educação e mudaram-no para uma outra, a do emprego. O traço comum que liga as duas é o disparate.
Há algum tempo atrás bradou que o desemprego estava a descer em Portugal, tipo teoria do oásis de outros tempos, ou a saída da crise de outro tempo mais recente. Hoje, com o indicador dos centros de emprego a aligeirarem os números do desemprego, tratou logo de clarificar que é a primeira vez em 20 nos que o desemprego desce em outubro. Ficamos, claro, todos contentes. Sempre é mais qualquer coisa para as estatísticas. Qualquer dia, Lemos lembra-se de dizer que é a primeira vez desde que existem estatísticas que o desemprego desce entre o meio-dia e as cinco da tarde no mês de dezembro.

quinta-feira, novembro 11, 2010

os cortes e as escolas e a educação sexual

Notícia esclarecedora da ministra Alçada hoje no Parlamento: a educação sexual nas escolas não será afetada devido aos cortes orçamentais do ministério da educação. Haverá menos professores, turmas mais largas, menos auxiliares, menos psicólogos, menos apoios sociais, menos muita coisa... Mas a educação sexual é coisa tipo desígnio educativo nacional. Valha-nos então isto. Magalhães e educação sexual.

quarta-feira, novembro 10, 2010

o problema cultural do país

Vejo na televisão que os suíços, um país de dimensão reduzida e sem grandes recursos naturais, como nós, limitam em 1700 euros as reformas. Para além disso, não é permita a acumulação de reformas. Ora em Portugal, país de doutores, muito dificilmente se chegaria a um estádio constitucional destes. Não se trata aqui de perspetivar uma sociedade sem classes, onde não há ricos nem pobres. Nada disso. O tempo do enriquecimento (legítimo) não deve ser o tempo da reforma. Para isso, houve um outro tempo, o da idade ativa laboral, onde as pessoas tiveram a oportunidade de construir um presente olhando para o futuro. O tempo da reforma deve, pois, ser o tempo do conforto merecido, situado sempre entre o presente e, claro, o passado. E é neste passado - o do trabalho - que a diferença se faz. Nunca no presente da reforma.

só dois blindados para a cimeira da nato

Não sei se o FMI aprovaria a compra de cinco blindados anti-motim para a PSP, quando a GNR brada a todo o gás que possui carripanas com as mesmas especificidades interventivas, ainda para mais quando uma das justificações do ministro Rui Pereira para este desembolso de 1,2 milhões de euros é demasiadamente simplória: a última vez que a PSP recebeu material foi em 2004, aquando do Europeu de futebol. O facto de das cinco viaturas só chegarem duas a tempo da cimeira da Nato é coisa de somenos importância para o ministro. Portugal ficará, assim, bem equipado para cobrir os mais variados eventos de decorrentes ameaças. O parque automóvel português não é, afinal, tão desprezível quanto, sistematicamente, se faz crer. Que o digam as garagens das forças de segurança.

segunda-feira, novembro 08, 2010

não há despedimentos nos contratados das forças armadas

Santos Silva, o proeminente e errante ministro da defesa nacional, descobriu uma maneira de dourar a pílula: despede 3000 contratados das forças armadas e diz, assim lacónico e imprudente, que "não há despedimentos no regime de contrato". Provavelmente terá razão o astuto ministro. Só tenho uma simples e metódica dúvida: haverá, na cabeça de Santos Silva, desempregados contratados?

quinta-feira, novembro 04, 2010

a aprovação do orçamento

A aprovação do Orçamento de Estado para 2011 não gerou, como incredulamente se esperava, uma onda de alívio nos mercados financeiros internacionais. Na verdade, a difícil conjuntura económico-financeira em que nos encontramos segue um rumo inexorável e aparentemente irresolúvel com estratégias artificiais como as que foram escrevinhadas pelo Governo, com o estranho apoio do maior partido da oposição (é delirantemente irónico vermos as críticas que o PSD esboça a um orçamento que teve o seu prévio visionamento e posterior beneplácito). Hoje, por exemplo, é notícia o aumento dos juros das obrigações do tesouro a 10 anos, os quais bateram um novo recorde, desta vez de 6,4%, muito perto, portanto, do limiar equacionado pelo ministro das finanças a partir do qual admite solicitar a ajuda do Fundo Monetário Internacional que Sócrates, soubemo-lo ontem, implacavelmente rejeita. Teixeira dos Santos vai mesmo mais longe na nossa tremedeira socioeconómica ao afirmar que o Orçamento de estado é a última cartada para convencer os mercados internacionais (não sei se proferiu estas palavras antes ou depois da teoria do fingimento proposta por Manuela Ferreira Leite). Estes, ávidos, agradecem.
Neste âmbito, começam a emergir novas perspetivas dialéticas, baseadas num novo e interessante pressuposto psicoeconómicosocial: é ingenuidade pensar que a simples aprovação do Orçamento de Estado ajudava a resolver os problemas do país.
Que chatice!...

quarta-feira, novembro 03, 2010

as declarações de manuela ferreriaa leite

Não sei onde José Sócrates alicerçou o entendimento relativamente às declarações de Manuela Ferreira Leite sobre o Orçamento de Estado. Na verdade, a ex-líder social-democrata não podia ter sido mais crítica quanto ao modus faciendi político do executivo, alicerçado, ao longo destes anos, mas principalmente nos últimos seis ou sete meses, num total enovelamento de conceitos, estratégias, previsões e definições. Daí que o principal elogio de Sócrates ao discurso de Ferreira Leite se tenha baseado na preocupação que esta afirmou no sentido de manter, externamente, um clima de ausência de crise política. Numa palavra: fingimento. E é isto que Sócrates faz melhor.

domingo, outubro 31, 2010

mais cavaco

Vamos ter mais Cavaco Silva no caldeirão político do Natal e também, segundo todas as previsões e por vontade do povo todo soberano, no próximo lustro. O presidente apresentou-se ao país enquanto candidato e depressa foi apelidado de mestre na tática política quando ordenou que os gastos da sua campanha não ultrapassassem metade do máximo que a lei permite. Obviamente que a mestria se situa algures entre a mediatização inerente ao cargo presidencial (não pode, de fato, deixar de ser presidente) e a sua efetiva pouca inclinação para a fotogenia, filmogenia, e outras coisas afins. No entanto, a astúcia de Cavaco quedou-se naquilo que de pior o candidato domina: a demagogia. Na verdade, toda a intenção comunicativa de Cavaco Silva foi ao encontro daquele centrão amorfo que não é carne nem peixe e vê em Cavaco aquilo que o próprio construiu mas que nunca provou ser.
A par de tudo isto, Cavaco Silva emergiu-se. Prometeu tudo o que já antes prometera, agora com um acréscimo de atividade, uma "magistratura ativa", como o próprio sublinhou. Esqueceu-se, todavia, de definir o que isso é, no quadro constitucional que nos rege. Deixou também no ar a extraordinária e quase humorística interrogação, a qual presumo ser formulada retoricamente: "em que situação se encontraria o país sem a ação intensa e ponderada, muitas vezes discreta [!], que desenvolvi ao longo do meu mandato? (...) O que teria acontecido sem os alertas que lancei?"
Ainda discursivamente emparelhado, não pude deixar de me lembrar das queixas de Mário Soares presidente da República, quando o Governo era chefiado maioritariamente por Cavaco Silva. Afirmava então Soares que quando lhe fechavam uma porta, saltava pela janela. Tudo a propósito da sua pouca utilização pelo Governo enquanto chefe de Estado, principalmente quando o assubto era política externa. Pois agora é a vez de Cavaco Silva dizer o mesmo, embora num registo tradicionalmente mais dubitativo e frívolo: "sei que podia ter sido mais bem aproveitada [a sua magistratura] pelos diferentes poderes do Estado".
O povo é, pois, soberano. Escolherá, decerto, o presidente de todos os portugueses. O que nos espera, pelo menos nos próxinmos meses, não é a crise. É simples e desgraçadamete a emoção duma campanha eleitoral. Tudo terminará em Janeiro e Cavaco entrará, de novo, num singular estado de graça.

quarta-feira, outubro 27, 2010

mau sinal para os mercados

Rompe-se o diálogo sobre a aprovação do Orçamento de Estado para 2011 e logo surgem, catastroficamente, as primeiras reações. "É um mau sinal para os mercados", afirmam, pressurosos, vários agentes políticos. Começa a encher esta gente.

os visionários economistas

A candidatura de Cavaco Silva foi um estranho exercício de autopanegírico. Na verdade, o atual presidente da República não é capaz de sair do mesmo. Doutor em finanças, rígido na postura e encravado na verve, Cavaco construiu, na torre de marfim da presidência, aquilo que melhor se adapta à sua imagem de marca: o afastamento dos enredos político-partidários e um capital de confiança que, não sendo nunca posto à prova, também não corre o risco de se desgastar. Voltamos, pois, à atmosfera eleitoral de há cinco anos: votem em mim porque o que aí vem exige um homem das finanças. Acontece que é preciso muito mais do que isso para se entender o mundo em que vivemos.

terça-feira, outubro 26, 2010

salários dos magistrados

Isto das crises acaba muitas vezes por trazer ao lume da fogueira da massa comunicacional curiosidades de variadíssima ordem como, por exemplo, o que hoje saiu a respeito da soldada dos juízes em fim de carreira. É certo que já estão em fim de carreira. Mas ficarmos à frente de países como a Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, Áustria relativamente ao rácio com os salários médios brutos nacionais é sintomático da sociedade que temos, ou melhor, da que não fomos capazes de construir no rescaldo da revolução de abril ocorrida no último quartel do século passado.
Do mesmo modo, a revista Sábado dá também conta dos gastos absolutamente sumptuosos do gabinete de José Sócrates. Para que raio quer o homem tantos motoristas, tantas secretárias, tantos carros, tanto tudo? Batemos muita gente nestes particulares. Zapatero, por exemplo, ganha substancialmente menos do que o "su homólogo portugués". Nada que não saibamos desde há muito. Só é pena que estas contas não possam ser feitas quando se fala em classes médias ou ordenados mínimos. Aí os rácios cantam de outra maneira.

domingo, outubro 24, 2010

o culto das personalidades e o expresso

Custa-me muito entender certa prosa beata do semanário Expresso em torno de certos políticos. Há cerca de um ano e meio, deparei-me com uma reportagem alongada sobre Sócrates, numa vil tentativa de criação extemporânea de um culto de personalidade socratina. Este sábado, coube a vez de Cavaco Silva, numa suposta entrevista de quinze dias. A repórter parece que acompanhou o Presidente nos corredores do palácio de Belém - certos corredores, pois noutros não teve permissão para pôr lá os pés, como várias vezes sublinhou, pretensamente afetada, a jornalista -, e fez disso uma grande entrevista. Grande em extensão, obviamente, porque o adjetivo fica muito aquém se remetermos este exercício jornalístico para a vertente qualitativa. Poderia citar aqui muitos exemplos, desde o rigor cavaquista até ao acompanhamento de sua mulher, Maria. Mas não me apetece voltar àquilo.

sábado, outubro 23, 2010

ongoing, comissão de inquérito e um certo deputado

Há oito meses, Agostinho Branquinho era um relator proeminente da Comissão de Inquérito Parlamentar designado pelo PSD, a qual procurava perscrutar a influência do Governo na tentativa de compra de parte da TVI pela Ongoing. Hoje, Agostinho Branquinho é já um ex-deputado porque foi convidado para um também proeminente emprego na Ongoing Brasil. Obviamente que o venerável ex-deputado foi célere a asseverar que esta sua transição para o universo empresarial não poderia ter sido mais límpida e transparente. É evidente que não... Chama-se a isto bloco central de interesses e não é nada de que não estejamos habituados. Tudo na perfeita legalidade e transparência.
E é esta a (des)moral da história.

quinta-feira, outubro 21, 2010

isabel alçada e os assuntos de mercearia (2)

Isabel Alçada ficou conhecida como coautora de livros infantis, numa séria decalcada dos romances juvenis de Enid Blyton. Foi depois convidada para ocupar a liderança de uma coisa chamada Plano Nacional de Leitura, que mais não é do que uma lista de títulos que as escolas absorvem com a indicação “para pôr os meninos a ler”. Chegou, assim, a ministra da educação. Diferente na postura (bem mais sorridente e simpática) da sua antecessora (um desastre, outro), depressa ganhou a afeição da comunicação social e também alguma anuência dos sindicatos.
Foi neste pressuposto de mudança que prometeu, em janeiro, a vinculação de professores contratados há mais de dez anos. Esta semana, porém, salientou que só acordará "naquilo que não colidir com o Orçamento do Estado" e que, por isso, inviabilizará essa promessa, tratando estes professores como mera mercadoria (como se de uma auto-estrada se tratasse, por exemplo).
Ora quem assim funciona não merece ocupar certos lugares. Isabel Alçada provou que não tem capacidade política para negociar no interior do Executivo. Por isso, o mínimo que devia fazer era pedir a demissão ao primeiro-ministro (ou ao ministro das finanças). Decididamente, a cabecinha desta gente carece de democracia.

como se ajuda a processar o homem providencial

Já aqui foi motivo de reflexão o nosso pendor sebastianino. Com o desenvolvimento da série Orçamento 2011 notamos que a personagem herói/vilão, duplamente agente da ação (criador e salvador da coisa causada) se tem vindo paulatinamente a desenvolver na nossa praça pública, singularmente impulsionado por pessoas (figurantes ou até mesmo personagens muito secundárias mas que costumam ter uma voz proeminente no burgo) aparentemente desconvitas. Hoje, por exemplo, li que o presidente da Unicer, António Pires de Lima, ex-dirigente do CDS-PP, acha que "o mais lógico para um partido da oposição é declarar a viabilização do Orçamento sem entrar numa negociação específica, que pode servir de pretexto para o Governo abandonar funções".
Confesso que me a custa entender este tipo de argumentos. Não vejo onde estará o problema com a demissão deste executivo.

quarta-feira, outubro 20, 2010

são seis os pressupostos

O que me parece é que por estes seis apêndices condicionais não seria necessário tanto barulho. Ainda para mais se tivermos em conta que metade deles são de uma anedotice política de bradar aos céus. Imagino o trabalhão que o grupo de conselheiros políticos (os experts da coisa) de Pedro Passos Coelho tiveram para inventar tão pressurosos pressupostos como a verdade nas contas orçamentais (!), a agência independente para as contas públicas (com o acordante Banco de Portugal, o qual, pelos vistos, não tem capacidade para fiscalizar as contas públicas) e a suspensão das grandes obras (não estavam já equilibradamente suspensivas?). Um verdadeiro grau zero político.

orçamentos

Gosto de seguir as declarações avulsivas desta gente a respeito da novela orçamental que se tem vindo a desenvolver nos últimos dias, com os nossos maiores e menores atores políticos. Miguel Relvas, o extraordinariamente tonitruante secretário-geral do PSD, veio hoje (ontem) com isto: "com ou sem Orçamento, este Governo não tem condições para continuar a governar e já não é parte do futuro para o qual temos de olhar". Mas afinal em que é que ficamos? Será isto uma cena do próximo episódio? A preparação de um clímax? Uma mensagem subliminar? Um simples bocejo? Ninguém sabe. Sorte tem o sr. Relvas em não ter decifradores semióticos assim espalhados pela comunicação social. Se se chamasse Cavaco Silva...

segunda-feira, outubro 18, 2010

as aparências

Li somente o título. E afigura-se esclarecedor para os "mercados externos". Num tempo de pruridos e puritanismos discursivos, a citação de Teixeira dos Santos que titula a primeira página do Público de ontem põe de parte qualquer teoria das aparências para o exterior. O nosso responsável maior das finanças (Cavaco vive lá no Olimpo) disse simplesmente isto: "não vejo por onde ir se os mercados exigirem mais". É, sem dúvida, uma bela frase veiculadora de um ânimo francamente exportável.

quinta-feira, outubro 14, 2010

alegre critica passos

Concordo com as críticas de Manuel Alegre quando aponta a sua verve ao líder do PSD por ter recebido ontem os quatro presidentes da banca. São, efetivamente, pessoas sem legitimidade alguma (a não ser aquela que lhes advém da própria cidadania individual) e que se arrogam no direito de se imiscuirem em assuntos essencialmente políticos.
No entanto, a ferocidade das críticas do ex-deputado ao encontro e também ao Presidente da República ("se fosse presidente da República, neste momento não permitiria que o grande capital e os grandes banqueiros andassem a exercer um papel de pressão, mediação ou moderação relativamente a uma decisão política que tem de ser tomada pelos órgãos políticos democraticamente eleitos no local próprio, que é a Assembleia da República", anotou Alegre, o que me leva a perguntar de que modo é que o faria...) não passa de pura retórica eleitoral. Na verdade, Passos Coelho não fez mais nem menos do que José Sócrates já fez em outras ocasiões semelhantes. Aliás, este gente, estruturalmente espelhentos, pela-se por este tipo de encontros. Com efeito, não é todos os dias que temos à nossa porta, com profundo sentido de Estado, parte da agiotagem nacional. Sempre é mais um sinal ao maiusculizado mercado.

quarta-feira, outubro 13, 2010

pcp

A nota de imprensa do Partido Comunista Português relativamente à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo é simplesmente anedótica. O partido tem tantas paredes de vidro sobrepostas que a opacidade revela-se uma inevitabilidade. Com que PCP contamos? Com o da oposição parlamentar portuguesa ou com aquele que defende literalmente regimes tipo Coreia do Norte? É que estes dois PC's são incompatíveis. Levado a sério este último PC, o argumento de Alberto João Jardim, no qual é defendida de forma igualmente objetiva a ilegalização deste partido, não é de todo descabido. Numa leitura constitucional unívoca, este PC (o último, o tal da Coreia) não anda muito longe do fascismo. Daí que, para bem de todos - do partido, dos militantes e do país -, o Comité Central do Partido Comunista deveria, de uma vez por todas, esclarecer.

terça-feira, outubro 12, 2010

agarrem-me se não...

"Se não estivéssemos em vésperas de eleições presidenciais, o que hoje se estava a discutir em Portugal não era se deixávamos passar o orçamento ou se o chumbávamos. Era a apresentação de uma moção de censura a este Governo".
As minhas ténues esperanças de um chumbo ao Orçamento de Estado por parte do maior partido da oposição ficaram hoje esclarecidas, com a infantilidade da declaração/argumento do sr. dr. Passos Coelho. O homem anda inexoravelmente perdido e porventura mal aconselhado.

domingo, outubro 10, 2010

referência de segurança, diz santana

É por estas e por outras que Santana Lopes ocupa um lugar especial na configuração político-partidária portuguesa. Quando ainda há pouquíssimas meses atacava subliminar e objetivamente Cavaco Silva, ao ponto de defender uma alternativa pela direita nas eleições presidenciais, vem agora afirmar, convitamente, que o atual presidente é um referencial de segurança. Se não tivéssemos habituados a volte-faces identitários por parte dos nossos políticos (o governo que nos governa é um exemplar exemplo desta idiossincrasia), estranhávamos. Como a coisa é regulada por este tipo matricial, enranhamos, naturalmente.

sábado, outubro 09, 2010

o desgastado teixeira dos santos

Diz Teixeira dos Santos em entrevista ao Expresso: "A questão que se coloca agora não é a de saber se as medidas deviam ter sido tomadas há mais tempo ou não mas perceber qual vai ser a nossa atitude perante estas medidas". Pois é. Foi este mesmo pragmatismo (o de ganhar eleições primeiro) que o faz afirmar agora, desassombradamente, que o que lá vai, lá vai. O importante, agora, é a nossa atitude. Acerta, portanto, pois a dele já sabemos qual foi. Ou ficamos a saber.

a falsa questão do orçamento

Aprova-se; não se aprova?... Dá-se mais uma volta e retornamos a esta bifurcação retórica. A maioria corre atrás do politicamente correto: pois com certeza que sim que se deve aprovar o Orçamento de Estado; o país não pode viver de duodécimos; que pensará de nós aquela gente de Bruxelas; entramos numa crise política; o Presidente não pode fazer nada, visto que se encontra numa espécie de coartação constitucional; e por aí fora.
Custa-me este letargo. Custa-me que os responsáveis primeiros por esta situação ainda se arroguem numa espécie de somos nós a salvação (a teoria do caos do tempo de Cavaco ministro deu frutos e ainda pesponta). A equação é, pois, simples. Pelo menos deveria sê-la, se tivéssemos clarividência e desassombramentos.
O último Governo de Sócrates, com uma confortável e prometedora maioria parlamentar, não foi capaz de nos tornar melhores e mais prósperos, enquanto país. Falhou, por isso. Ao invés, preferiu maquilhar todos os percalços e conjeturas de crise. O resultado é o que se vê.
O Governo moldou-se a José Sócrates. Este sempre soube, todavia, uma coisa importante: é imperioso a construção de uma imagem de homem providencial. Tivemo-los na nossa história recente: desde os mitos da República à imagem de Sidónio Pais enquanto presidente-rei, passando, obviamente, por Salazar e desaguando em Cavaco. Todos foram salvadores, verdadeiros impulsionadores da nossa úlcera sebastianina. O atual primeiro-ministro alicerçou tentacularmente esta imagem, rodeando-se de homens decerto academicamente resolutos, mas fracos na alma. Basta olhar para eles. O que vemos em Santos Silva, por exemplo, para além de um espécie de ateador de fogos parlamentares? E no Silva Pereira, uma espécie de pajem travestido de braço direito? E os Laurentinos? E os Albertos Martins? E o próprio Teixeira dos Santos (todos os ministros das finanças são considerados os que encaram a coisa, a res publica, de forma mais gravemente comprometedora)? E as senhoras da Educação? O que tem esta gente para mostrar ao país? Nada. Não têm nada, absolutamente nada. Esgotaram já o nada que eventualmente possuíam. Ainda assim, José Sócrates conseguiu o feito de secar o que poderia ainda florescer à sua volta.
O que importa, agora, é protegê-lo. Afinal, ainda poderemos vir a precisar dele, numa insignificante manhã de nevoeiro.

quinta-feira, outubro 07, 2010

as compras da anacom e a resposta à mexia

A ANACOM foi às compras para comemorar o seu aniversário. Como não se comemoram duas décadas de existência todos os dias (na verdade, só uma vez na vida, tal como os 21 ou 22 anos), os responsáveis pela entidade reguladora das comunicações postais e comunicações eletrónicas andaram por aí, loucos, a alugar tendas, a estufar bancos de viaturas em pele bancos de viaturas (parece que isto foi no natal, numa festita que custou 30 mil euros), a exibir vídeos humorísticos, a encomendar penduricalhos, entre outras utilidades inseparáveis daquilo que se pretende com a passagem do décimo nono para o vigésimo ano de vida. Questionada pelos jornalistas, a ANACOM ou um dos seus representantes mais eruditos,desenhou uma resposta à Mexia, afirmando que apenas atua na legalidade e que faz compras transparentes de acordo com o código das compras públicas a distribuir.
António Sérgio afirmava em 1916 que o mal do país reside mais nas elites do que propriamente na (in)capacidade da nação. Não sei se esta gente que assim responde numa altura destas é elite. O que sei é que deveria simplesmente estar calado. E desocupar o lugar.

alemanha: o contraste

A locomotiva económica da Europa anda em contraciclo. O próprio ministro da economia alemão, Rainer Bruederle, defende um aumento substancial dos salários. Portugal afastar-se-á, em 2011, deste paradigma. Seremos cada vez mais uma jangada de pedra.

quarta-feira, outubro 06, 2010

previsões fmi

As previsões do FMI para 2010 são tenebrosas. Espera-nos uma recessão, com uma queda do produto interno bruto e um aumento do desemprego, este na ordem dos 12%. Isto é, atenua-se as finanças e agrava-se a economia. Ora como é na economia que as pessoas se inserem, fácil é entender que estaremos, no próximo ano, a viver pior, cada vez pior.
Entretanto, o PSD critica o orçamento e o Presidente Cavaco Silva aspira a eternos e pouco saudáveis consensos. Em tempos de firmações comemorativas revolucionárias, será este o tempo de novos voos. Tenho mágoa em verificar que Portugal não possui ninguém no ativo capaz de rasgar lucidamente uma realidade cada vez mais enlodada.
No nosso descalabro paulatino, temos metido todos na cabeça que somos pequenos, dez milhões, etc. Essa atitude é, desde logo, um sinal de fraqueza da nossa parte, um sinal de irremitente desgraça.

futebol português

Vi posteriormente um comentador futebolístico abandonar um programa em direto. Julgo saber a razão: insurgia-se contra o colega comentador do lado (afeto ao Benfica) por este ter, mais uma vez, avocado o caso das escutas e do apito dourado, agora com supostas novas conversas gravadas que estão, novamente, no espaço voyeur da internet. Teve razão Rui Moreira, o tal comentador futebolístico que não é só comentador futebolístico.
O povo desportivo futeboleiro gosta disto: casos vezes casos. Basta olharmos para os ditos programas do género que abundam nas televisões portuguesas, com com caros convidados, e rapidamente verificamos que continuam a alimentar o grunhido da sociedade portuguesa.

terça-feira, outubro 05, 2010

república: as comemorações

Segui as comemorações do centésimo aniversário da República e estou em crer que não havia razão plausível que justificasse a presença de Sócrates enquanto conferencista de serviço. Cavaco Silva, enquanto chefe de Estado, era o suficiente para representar a República. Ainda para mais quando sabemos de antemão o que sai da cabecinha do primeiro-ministro quando se apanha a jeito nestas ocasiões assim tão solenemente televisivas. E o próprio Costa, com aquele discurso de não-sei-de-quê, também se dispensava.

domingo, outubro 03, 2010

pacotes

Numa tonitruante e assustadora espiral de descontrole político, José Sócrates desdobra-se em entrevistas televisivas quando se deveria antes preocupar, por exemplo, em debater seriamente os problemas da atual crise política (existe uma crise política, não usurpem esta realidade, senhores comentadores políticos). Aliás, uma sociedade que aceita como natural este tipo de comunicação propagandística, não vive, de todo, uma existência saudável. Sócrates tem-se revelado igual a ele próprio: compulsivo. Ele parte do princípio que uma verdade será mais verdadeira quanto as vezes que for propagandeada, isto é, vulgarizada.
O que ouvimos nestes últimos dias ao primeiro-ministro foi, no mínimo, desconcertante. Portugal, afinal, plantava-se como um país exequível, no caminho quase eterno da salvação. Na verdade, segundo Sócrates, tudo rolava: desde as receitas, que estavam "dentro do padrão de segurança" para 2010, passando pela extraordinária previsão de crescimento, a qual foi mesmo superada para o dobro (de 0,7% para 1% no final do ano). Pelo meio, ainda garantiu (a ele é que ninguém o cala!...) a oportunidade de proclamar o ritual vocabular da confiança: "a questão principal é de confiança. O que o país precisa são palavras de confiança", afiançava José Sócrates em resposta ao deputado Miguel Macedo na Assembleia da República, aquando do último debate quinzenal. De facto, num país de tolos, isto bastaria para a exequibilidade de um Governo, de um qualquer Governo. Acontece que Sócrates divulga essa sua crença desde sempre, principalmente desde que iniciou a saga dos PEC's. Os dislates foram já tantos desde esse tempo já tão inacessivelmente memoriável que teríamos de ter muita paciência para os determinar com equidade. De pacote em pacote, de preferência enrolando o aparentemente incauto Passos Coelho - obrigando-o mesmo a um inacreditável pedido de desculpas públicas escassos dia após ter sido eleito líder do seu partido - José Sócrates (escrevi por engano trocas-te, o José do Contrainformação...) tem levado a sua carta a Garcia.
Cavaco Silva, o presidente que percebe de finanças, principalmente quando este autopanegírico se revela muito útil em campanhas eleitorais (vamos ver se dentro de uns meses continua com este tipo de vestidura), tem sido, durante estes meses de PEC's, um mero espetador, seguramente atento. Por isso não entendo como é que o Presidente da República fez orelhas moucas à sua ex-ministra das finanças, Manuela Ferreira Leite, quando esta liderava o PSD, e se preocupa agora tanto com a suposta estabilidade governativa, condicionando - e muito - qualquer voto negativo ao Orçamento de Estado por parte do maior partido da oposição. Que eu saiba, a demissão de Sócrates (Cavaco não a pode, constitucionalmente, encetar e suspira, por isso, de alívio) não proclamaria um país em estado de sítio, nem de desgoverno permanente. Ao sugerir isso, o que se faz não é mais do que a entoação de exageradíssimas e imerecidas loas a José Sócrates na estratégica construção fictícia do homem certo no lugar certo. Por conseguinte, o nim parlamentar que tantos esperam por parte do PSD não é, para mim, tão certo quanto aparenta. Com efeito, não se pode discordar tanto e outorgar simultaneamente.
Num momento destes, são precisos verdadeiros políticos, daqueles que conseguem vislumbrar um país para além de dois ou três meses. Infelizmente, parece que estes são espécimes em vias de extinção. Os que por aí pairam, assemelham-se mais a encaminhamentos tentaculares em prol do deus-mercado do que a homens e mulheres com verdadeiro sentido republicano.

quinta-feira, setembro 30, 2010

o inconstante constâncio

Outro dos que se revelaram incapazes de ver para além do próprio umbigo ocupa agora o charmoso e interessante cargo de vice-governador do Banco Central Europeu. De Bruxelas, vai avisando que a situação orçamental portuguesa é "evidentemete séria". Anoto a anotação do advérbio. Para esta gente, tudo é evidente quando a tempestade acontece. Daí que continue no seu dialogismo surdo: a situação "exige medidas para que Portugal não fique sujeito a grande pressão dos mercados financeiros" e não comprometa "o crescimento para o futuro e consequentemente o futuro crescimento da economia".
Está bem, sr. Constâncio, está bem!...

o alegrete

Quando muitos, incluindo Manuela Ferreira Leite, andavam a pregar num deserto de ideias, os idealistas pingados ao serviço da nação apontavam os dedos acusadores a todos eles. O que é preciso, diziam, é energia positiva, sinergias várias, desdramatismos, não dizer mal, cuidado com o que sai para o exterior, etc. Pois agora a fatura do espiritualismo anti-fraturante assomou com olhos arregalados a uma janela que é tudo menos virtual. Não entendo somente uma coisa: como é possível o primeiro-ministro, após esta verificação dolorosa das suas contas públicas, não ter pedido ao presidente da República a demissão do Governo. E não me venham com a história da crise política. Esta faz parte da democracia, ao contrário da económica.

comentadores

Se existisse uma qualquer determinação legal em que, em nome do bom-senso, se proibisse a repetição de imagens futebolísticas em lances de eventual penalti ou que colocassem em causa os julgamentos dos árbitros, 95% dos comentadores desportivos iam para o olho-da-rua (por conseguinte, os extenuantes programas do género reduziriam claramente o tempo de antena, e as mesas redondas causadoras de férteis e interessantíssimos debates acabariam sem razão plausível de existência). Dedicar-se-iam, talvez, exclusivamente, ao comentário político.

sócrates, o corajoso moicano

Determinar agora uma aura de homem providente e corajoso a José Sócrates, em virtude das medidas de austeridade tomadas, revela-se notoriamente caricato e estúpido. O primeiro-ministro, entretido com nada durante meses, foi um dos últimos moicanos.

quarta-feira, setembro 29, 2010

cortes salariais

Um amigo, em conversa descontraída, dizia-me: "em Portugal, é considerado rico quem ganha 2000 euros por mês". Afirmava isto tendo em conta a previsão dos cortes salariais. Hoje o que se previa concretizou-se: ordenados acima dos 1500 euros sofrerão cortes salariais progressivos. Aparte de uma certa demagogia, quem aufere 1500 euros é realmente rico. É que se olha para baixo e o que se vê é muita gente a passar mal, muita gente com ordenados miseráveis.
Na verdade, em Portugal, como em outros países a caminho do desenvolvimento, é rico quem ganha 1500 euros por mês.

portugal no seu melhor

Haverá uma cimeira da Nato em Portugal, que é o mesmo que dizer em Lisboa e até o presidente dos Estados Unidos marcará presença. Obviamente que até novembro há que arranjar um carro antimotim porque a Polícia de Segurança Pública é a única da Europa que não possui tamanha preciosidade. A GNR tem, nas suas garagens, uma ou duas dezenas de veículos com caraterísticas similares. Não é a mesma coisa, afirmam, afoitos, os polícias. Os carros da GNR estão vocacionados para cenários de guerra, tipo Afeganistão, Bósnia e afins. Daí que cinco milhões a mais ou cinco milhões a menos no patriótico projeto dos carros antimotim é coisa de somenos. O que interessa é fazermos boa figura na cimeira de Lisboa.
Lembrei-me, a respeito destes disparates, das imagens que vi em direto aquando da visita do Papa ao Reino Unido. Um helicóptero pousou suavemente num campo de futebol (vislumbrei vários campos de treino, impecavelmente relvados, impecavelmente pedagógicos, impecavelmente didáticos e a diferença vê-se também nestas pequenas articulações...). Bento XVI seguiu de imediato para um carro que o transportou sobre uma curta estrada de terra batida. O meu pensamento seguiu quase automaticamente contornes maledicentes: se fosse em Portugal, aquela pequena estrada de terra batida, à saída destes verdejantes campos de treino, teria sido visceralmente asfaltada. Em nome do Papa, de Sócrates, e dum Portugal pequenino.

sábado, setembro 25, 2010

o diálogo e o tango

Passos e Sócrates parecem-se. O simples e aparentemente inócuo facto de se terem encontrado terça-feira, longe dos holofotes públicos, revela qualquer coisa da acreditação de uma imagem em contínuo crescendo de fabricação. Mais por parte de Passos, é certo. Acontece que Sócrates não é capaz de sair disso: mentiras e desmentiras. Aconteceu isso mesmo ontem quando o líder do PSD revelou que nunca mais reunirá com Sócrates sem testemunhas. Uma simples reunião e dois líderes de dois partidos alternativos (partidos que nos têm governado e que são, por isso mesmo, os principais responsáveis do atolamento em que isto se encontra) revelam uma curiosa simbiose política Dupond et Dupont. A pergunta que todos esboçam neste momento tem, portanto, uma resposta fácil: em nenhum dos dois!

(pergunta feita por não sei quantos milhões - seremos assim tantos? - de portugueses: em quem acreditar?)

quinta-feira, setembro 23, 2010

novo mundo

Neste novo velho mundo em que vivemos, Portugal tem já selecionador de futebol. Descansamos, pois, todos. Chama-se Paulo Bento e treinou, entre faixas etárias várias, a equipa senior do Sporting Clube de Portugal. Auferirá um ordenado mensal entre 60 a 70 mil euros. Parece que não é muito. Parece que o anterior treinador, tratado por todos por professor, ganhava muito mais (Paulo Bento reduz o vencimento para menos de um terço do que era açambarcado por Queiroz). Tudo parece por aqui. Mas existe em Portugal e também na União (desde que Barroso fez o discurso do estado da União me apraz apelidar assim a instituição) algo que não converge com o parece. São aqueles seres humanos que desenharam as suas vidas em projetos fixadamente académicos (a educação, a educação...) e que não conseguem arranjar emprego.
Não há emprego em Portugal! E há também demasiada gente com ordenados miseráveis. E não se veem no horizonte alternativas credíveis. Só jogatainas de bastidores, gatos e ratos obscuros que continuam a ter o seu umbigo como ponto de chegada. O pior é que nunca chegam a partir.

terça-feira, setembro 21, 2010

o país e cavaco

De repente, acordamos e o país afigura-se falido, à espera da mão protetora do Fundo Monetário Internacional. A dívida sobe, a receita decresce, os juros da dívida aumentam e a Europa reguladora olha para nós a caminho da Grécia moderna. Entretanto, Cavaco aflora sem rasgos de sagacidade o panorama, remetendo cada palavra audível para a meticulosidade duma campanha que se avizinha fácil de ganhar. Importa não perder a áurea sebastiânica do candidato. Cavaco ainda se encontra numa espécie de resguardo político. Há de acabar o segundo mandato e ficaremos ainda à espera do seu regresso.

erc

Um eminente conselheiro da Entidade Reguladora para a Comunicação Social demitiu-se, acusando o regulador de constituir um obstáculo à liberdade de imprensa. Na verdade, quando vejo na televisão pública, num determinado serviço noticioso, a primorosa informação de que Cristiano Ronaldo assinou mais um contrato publicitário com uma qualquer marca de roupa ou de perfumes, o que efetivamente se releva é que esta gente que regula a comunicação social só não é obstáculo a si próprio.

quinta-feira, setembro 16, 2010

isabel alçada e os assuntos de mercearia

Como é possível uma ministra da educação referir-se aos professores contratados do seguinte modo: "vamos ver se é possível abrir um concurso extraordinário". Esta senhora, com este tipo de discurso de dona de casa, não pode, não deve, aludir à vida dos professores como se estivesse a tratar qualquer assunto de mercearia. Os sindicatos, até agora, nada ripostaram.

federação portuguesa de futebol

Gilberto Madaíl foi a Madrid numa desesperada tentativa de contratação do treinador especial José Mourinho. Ao que parece, esta suplica tem a ver diretamente com a imperiosa necessidade de Portugal ganhar à Dinamarca e à Islândia. Esta gente, estes federativos, entretêm-se com estas coisas.

isabel alçada

Parece-me que a simpática ministra da educação anda por aí em busca de alguma reconfiguração idealista-normativa. Será sempre mais uma. Apareceu hoje um vídeo tristemente gravado para o you tube, no qual Isabel Alçada perspetiva toda a narrativa pedagógica inserta num apertado muro de um qualquer jardim de infância.

casa pia

Fiquei com mais dúvidas com a publicitação dos fundamentos do acórdão. O tribunal admite que aparecem pequenas (o adjetivo é primoroso) contradições nos depoimentos das vítimas. Todavia, justifica através duma tese duvidosa que apelidou de recuperação de memória (estarão, assim, as vítimas nesse processo dedutivo), que todo o depoimento processual dos queixosos não poderá ser encarado como uma reconstituição, mas como uma simples reconfiguração de uma realidade passada. Ora, se estamos perante uma reconfiguração, o pendor fatual tende a anular-se e sabemos que o tribunal alicerça-se, essencialmente, nesse pressuposto.
O exemplo da casa de Elvas pode ser considerado paradigmático. Diz o tribunal que as testemunhas abonatórias de Gertrudes Nunes, a dona da casa, apesar de afirmarem nunca terem visto os arguidos a entrar ou sair da casa da vizinha, os seus depoimentos não podem ser levados muito a sério, pois estas mesmas testemunhas revelaram desconhecer fatos da vida de Gertrudes como, por exemplo, a doença do marido ou o seu internamento, contrariando, assim, a alegada intimidade aventada pela arguida.
Tudo isto não é mais do que uma mera perspetiva de análise e o que verdadeiramente se releva é que vale muito pouco. Ou seja: esperava-se mais.

sexta-feira, setembro 10, 2010

o imperturbável judicativo

Sei que os juízes devem ser, por norma, inabaláveis na sua condição de julgadores, avessos a qualquer pressão mediática. De quaqluer modo, este sucessivo adiamento da entrega da fundamentação jurídica que levou à condenação dos arguidos do processo Casa Pia aparenta ser imobilidade mental em demasia. Queixam-se, os juízes, da inadequação do material...

terça-feira, setembro 07, 2010

estado da união

Durão Barroso, o fugitivo, fez o discurso do estado da União. Estado da quê?!...

o futuro da equipa

Só mesmo o Joaquim de Oliveira para afirmar, depois dos jogos contra a Noruega e Chipre, uma coisa assim: "temos futuro com esta equipa". Sigo as análises imediatas ao jogo, as teorias ajuntivas, as técnicas e a autoestima e as frustrações e penso que não existem realmente paliativos tão fortes como o futebol. Numa palavra: diversão.

segunda-feira, setembro 06, 2010

protagonismos

De repente, exclusivamente por culpa do titubeante Passos Coelho, José Sócrates surge como um paladino do Estado Social, quase siamês de um Manuel Alegre alegremente eleitoralista, quase uma cópia do estafado e resistente PCP. Enquanto isso, Cavaco lá vai tecendo com cautela a trama do tempo que chegará breve. Afinal, o país precisa de uma viragem à esquerda, a crer nas palavras do primeiro-ministro.

sábado, setembro 04, 2010

a campanha presidencial

Torna-se necessário entender uma coisa simples: um Presidente da República paira numa espécie de etéreo espaço político. A culpa não é só do figurino constitucional que origina esta partilha de poderes (semipresidencialismo). A sebastianicamente frívola mentalidade dos portugueses e dos órgãos de comunicação social alimentam fortemente este pressuposto. Daí que um Presidente da República, qualquer que ele seja, se tranfigure num espécime inexoravelmente sobredimensionado: um presidente-rei. Por isso, o desgastado argumento de que Cavaco Silva anda em pré-campanha eleitoral há já não sei quanto tempo (Manuel Alegre, Defensor Moura e, agora, Francisco Lopes) é revelador dum típico amorfismo normativo. O que é que eles queriam que Cavaco fizesse? O contrário de Eanes, Soares e Sampaio, os quais só disponibilizaram publicamente a sua decisão de recandidatura dois ou três meses antes do dia eleitoral? Que alterasse o seu modus faciendi? Se há coisa em que Cavaco Silva é, de fato, imutável, é na sua própria imutabilidade.

casa pia

Por que será que o falso final deste tenebroso processo judicial se espelha de implausível? Ao ver aquela juíza arrumar estranha e penosamente os papéis enquanto ouvia um dos advogados dos réus algo se projeta deslocadamente naquele insólito espaço físico. Não sei muito bem o quê, mas eu não gostava, enquanto réu condenado, que uma juíza ou juiz ouvisse o meu advogado ao mesmo tempo que limpava, atarefada, a secretária.
Por outro lado, há algumas questões que me sobressaltam: quem são as vítimas no meio disto tudo? Qual a razão que leva a instituição Casa Pia a sair incólume disto tudo?

quarta-feira, setembro 01, 2010

ministério da educação: os serviços

Deixo aqui uma amostragem do que é o Ministério da Educação. Outro dia vi um filme em que um polícia, encarregado de formar uma equipa altamente especializada (à boa maneira americana), referiu que não podia confiar num polícia que não comesse um bom cachorro quente (era vegetariano o preterido). Pois bem, com esta gente do ministério, com a cabeça cheia de siglas, passa-se o mesmo.
A educação é, em Portugal, uma gigante siglação, configurando infindáveis diretrizes. Perdemo-nos na visita à página da internet. Atentem:
CCAP, CCPFC, DGIDC, DGRHE, EME, GAVE, GEPE, GGF, IGE, SG, DREN, DREC, DRELVT, DREALENT, DREALG, ANQ, PNL, RBE, PRODEP, ANSOCLEO, JNE, CENOR, CNE.
Cada grupo destas simpáticas letras abrem mais uns não sei quantos links, cheios de decretos-leis e de portarias várias. Podem crer que há mentes (brilhantes) que reconhecem esta coisa de trás para a frente e de frente para trás.

terça-feira, agosto 31, 2010

a instabilidade presidencial

As eleições presidenciais que se avizinham serão uma amalgamação. Não saberemos quem é quem num contexto de crise política. Vejamos um dos argumentos de Alegre, pela boca de António Costa: Portugal não pode ter uma crise política, porém "tanto pode ocorrer com um desentendimento no Orçamento de Estado, como pelas más escolhas nas eleições presidenciais". Este raciocínio faz de Cavaco Silva aquilo que não é. Por sua vez, remete Alegre para aquilo que ele também não afigura ser. Por um lado, o atual Presidente da República é um homem de pouca coragem política, incapaz de rasgos visionários ou de leituras atentas da sociedade. As atarantadas comunicações ao país são, de certo modo, prova disso. Por outro lado, Manuel Alegre é um homem que, aparentemente, necessita de um certo protagonismo político, aquele que não teve ao longo da sua vida. Não é por acaso que foi no decorrer desta era socratiana que a sua voz de "a mim ninguém me cala" se fez mais audível. Existirão, portanto, nos próximos meses, palavreado e mentalismos vários. A mim, parecem-me poucos os candidatos.

sábado, agosto 28, 2010

estrada nacional 351

Inaugurar ums estrada nacional quando a mesma se encontra ativa há já dois meses é uma verdadeira redundância. José Sócrates fala, mais uma vez, das desigualdades ("reduzir as desigualdades": "eu sei bem a importância que esta obra tem para Proença e Oleiros", manifestou o primeiro-ministro para a imprensa). Sócrates já não consegue ir muito para além disto.

segunda-feira, agosto 23, 2010

a comunicação social e o futebol

Há pouco vi a TVI 24 infundir a classificação da primeira liga: depois dos três primeiros segui-se o oitavo (Sporting) para depois saltar para o antepenúltimo, o Benfica. Entre eles, o vazio, simbolizado com reticências. Se eu fosse adepto do Paços de Ferreira, por exemplo, sentir-me-ia injuriado.
Pensava que em Portugal havia uma coisa chamada ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação Social - cuja orientação primeira era a de levar a cabo uma fiscalização no sentido de se constituir em Portugal uma imprensa livre, democrática e equitativa. Pelos vistos, nada disto se passa.

domingo, agosto 22, 2010

última hora

O futebol é um espelho do país que somos. Quando um resultado de futebol preenche os telejornais televisivos, com notas de rodapé a piscar efusivamente a encarnado dando conta da derrota de um clube, isso quer dizer que as televisões - todas sem exceções - não merecem credibilidade alguma. A agravar tudo isto, a análise do resultado do jogo Nacional-Benfica, que os insulares ganharam, é verdadeiramente deplorável, vergonhosa, escandalosa. Não ouvi nem vi um único comentador enaltecer e analisar o jogo do Nacional. Nenhum deles disse que o Nacional foi melhor que o Benfica nisto e naquilo (aqueles termos técnicos que costumam demonstrar a probidade futebolística desta gente). A imparcialidade analítica revelada por estes idiotas deveria ser estudada nos cursos de jornalismo como exemplo maior de como se estrutura e edifica o mau jornalismo.

sábado, agosto 21, 2010

encerramento de escolas

Depressa se desfizeram os equívocos relacionados com o encerramento de duas escolas em Lisboa. António Costa, o presidente, remeteu logo um espumoso comunicado (será que interrompeu as férias?) para afirmar que em Lisboa não se encerravam escolas.
Esta resolução pseudopedagógica de extinguir as escolas com menos de 21 alunos (!) afigura-se de uma cobardia política extrema. Portugal, pequeno de dimensão, manifesta características próprias de países com áreas territoriais maiores e níveis de desenvolvimento menores (como, por exemplo, o Brasil) ao projetar, nos seus índices de desenvolvimento, realidades socioeconómicas distintas, com um interior cada vez mais amargurado e inexoravelmente perdido. Ao invés, o litoral apresenta-se como uma espécie de exportação permanente da imagem europeia do país. Não é por acaso que uma das prioridades do Governo, segundo a secretária de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, Fernanda do Carmo, é a revitalização do litoral, através da reabilitação da frente de mar, a recuperação ambiental da zona envolvente e a requalificação do aglomerado urbano. São estes tipos de emergências nacionais que têm vindo paulatina e irremediavelmente a configurar o país que somos.
Neste processo de fecho de escolas, o que verdadeiramente deveria ter sido feito, em nome duma coesão nacional e de um desenvolvimento sustentado, era impulsionar uma migração para o interior. Com o que foi decidido, através duma política de gabinete de régua e esquadro e em nome de ridículas bases pedagógicas, o país afunda-se cada vez mais. Por mais voltas que se deem, o verdadeiro progresso de Portugal passa em muito por uma homogeneidade territorial nos seus diferentes índices de desenvolvimento. É que não basta proclamar, pacoviamente, que existe agora uma autoestrada da justiça (a tal transmontana). É preciso mais do que isso, muito mais. Sobretudo coragem, que é o que tem faltado a muitos governantes.

terça-feira, agosto 17, 2010

a reentré no pontal

A boçalidade de Mendes Bota, o chefe algarvio do PSD, foi delirantemente anedótica na apresentação de Passos Coelho. Como é que esta gente consegue, politicamente, chegar onde chega é que eu, verdadeiramente, não entendo.

segunda-feira, agosto 16, 2010

futebol: o regresso

Estamos de novo na onda futeboleira da primeira liga portuguesa. Com ela vem a turba de comentadores encartados, os quais passam sessenta inconclusivos minutos a discutir se foi ou não mão na bola, se agrediu ou não o jogador, se o jogador tinha ou não intenção, e outras coisas assim. Neste momento estou a ver a imbecilidade de um ex-ministro de Santana Lopes, um tal Rui Gomes da Silva. Num país como o nosso, cada vez mais triste país, é, de fato, um conforto ter passado por um qualquer ministério, mesmo que o mesmo não tivesse emergido como uma espécie de empalhamento público. Aliás, é a empalhar que esta gente se faz.

sexta-feira, agosto 13, 2010

cavaco e sócrates apagam fogos

Vi na televisão o chefe do Governo e o Presidente da República em reunião no comando central da proteção civil, presumo que em Lisboa (onde deveria ser?) (os monitores de computadores compenetradamente eretos, como também não podia deixar de ser). À saída, ambos prestaram declarações (à entrada, Sócrates esperava Cavaco com um cumprimento institucional). Ambos se declararam mais descansados. Ambos irão retomar as suas férias, lá de onde hoje debandaram.

uma verdadinha

António Arnaud: "Com o PS na oposição o SNS está mais bem defendido. Porque o PS na oposição é de esquerda".
A atmosfera gorgolejante dos partidos políticos portugueses adequa-se a este tipo de comentários. Havemos de ver um dia, num novo ciclo (expressão politicamente correta), o PCP congratular-se com o retorno do PS ao poder, para, enfim, facultar ao país a emersão de uns ventos de esquerda, ainda que ténues.

o social revolucionário almerindo marques

Almerindo Marques, um vetusto gestor público que ganhou nome na RTP, desabrochou hoje (ou ontem) com uma tirada digna de registo. Insurge-se então Almerindo contra a demagogia que é prefigurada com os cortes nos prémios (prémios!...) dos gestores públicos. Fá-lo assim, livre e pateticamente:
é de um "populismo desbragado [pensar] que toda a gente que recebe mais que um salário mínimo é um parasita social (...) Isto é um mau serviço que se está a prestar ao país sobretudo quando há tantos outros problemas, pois aponta-se criticamente o dedo àqueles que "trabalham com empenho, dedicação e esforço para além do razoável". Continua, entusiasmado, o sr. Almerindo Marques: "a mim ninguém me manda trabalhar 12 horas por dia, mas trabalho-as. Aliás eu gostava de saber o que é isso de um bom salário. Há que fazer uma simples operação aritmética de divisão: salário dividido pelo número de horas de trabalho para fazer comparações". Depois apazigua, de certo modo, o lampejo revolucionário, reconhecendo que "existe uma tara de algum capitalismo especulativo que inventa génios onde não existem e que às vezes até fazem sindicatos de atribuição de prémios. É um abuso".
Confisco a questão que ele coloca sobre o que é um bom salário. Ele não sabe e eu também não o posso ajudar nessa sua demanda. No entanto, se mo permitir, posso facultar-lhe uma série de maus salários auferidos por trabalhadores da empresa que tão estoicamente (12 horas por dia, meu Deus!... E sem ser mandado!...) lidera. Pelo menos, fica a saber alguma coisa.

quarta-feira, agosto 11, 2010

a linguagem e o contexto

Há momentos, no telejornal da SIC, uma novel jornalista que cobria em direto um insistente incêndio em Sabugal, ela própria rodeada de labaredas por tudo quanto era lado, reportava o flagelo da seguinte forma: "o vento está a ajudar à festa". Lembrei-me de repente de Laurentino Dias e do caso Carlos Queiroz. Retomando os argumentos de Pinto da Costa: será que alguém ficou ofendido pelo registo pseudofestivaleiro da jornalista televisiva?...

o caso carlos queiroz

Pinto da Costa clarificou a coisa: ridículo. E tem razão. Todos sabemos que o que se está a passar com o atual selecionador nacional de futebol se encontra relacionado com os maus resultados obtidos no campeonato do mundo. Tivessem sido outros e não havia Laurentino Dias a esboçar receitas de maior ou menor gravidade dos "fatos ocorridos". E também sabemos que o contrato que liga Queiroz à Federação é, do mesmo modo, ridículo (os montantes e a duração). Assim, amanhou-se isto, à falta de melhor. Mas esta gente não contava com a reação do ex-adjunto de Alex Ferguson no Manchester United.
Lembro-me de que há tempos, era então António Oliveira o treinador, houve também uma situação de um certo pundonor exacerbado por parte de alguma imprensa, quando se descortinou, nos lábios do selecionador, no momento em que este esboçava as últimas diretrizes táticas ao jogador Dominguez (que se preparava para entrar em campo) qualquer coisa do género: "mostra a estes nazis como se joga" ou "vamos dar cabo destes nazis" (era a Áustria o adversário). Como Oliveira já havia caído em desgraça na imprensa desportiva, o episódio assemelha-se, nestes princípios, a este do Carlos Queiroz. Não sei se na altura o desbocado Laurentino Dias tutelava a área...

terça-feira, agosto 10, 2010

os incêndios e as pessoas

Gostam de ter umas arvorezinhas bem perto da vivenda. Não ouvem quando são chamados atenção para o perigo que pode advir desse fetiche. Depois, quando veem as labaredas lamber as paredes do castelo, apontam os queixumes para as câmaras de televisão, as quais, por esta altura do ano, alicerçam-se sobretudo nos disparates. O que mais me preocupa, no meio de tudo isto, é verificar que muitas destas pessoas que se organizam mentalmente desta forma são já o fruto da nova escola, isto é, foram inundados, na sua escolarização, com disciplinas como - repare-se - formação cívica, área de projeto e outras tais. A refletir...

a culpa

É já tempo dos partidos tradicionalmente oposicionistas não sacudirem a água do capote quando abordam as várias incongruências do país. Por exemplo, justiça: a culpa é do PS e do PSD que estiveram com a respetiva pasta durante estes trinta e tal anos de regime democrático. Acontece que há uma instituição chamada Parlamento, outra Presidência da República e ainda uma outra (oculta, mas porventura a maior de todas) denominada sociedade civil, a qual - essa sim - tem a responsabilidade maior através do voto democrático e sistemático. Daí que convém perspetivarmos todos nós uma tendência de cariz mais autocrítico sem, no entanto, deixar de relevar a responsabilidade de quem se julga (mal, deficiente) iluminado. Por norma, não simpatizo nem costumo votar em homens providentes. Dão sempre mau resultado. Para providenciais, bastaram Cavaco e Sócrates e os selecionadores de futebol.

sábado, agosto 07, 2010

o ex-presidente

Jorge Sampaio vem hoje ao Expresso refletir sobre as capacidades ou poderes ou grau de intervenção de um Presidente da República, tendo em conta a especificidade do sistema semipresidencialista português. Entre o sentido constitucional que advoga fundamentalmente o cumprimento (e o fazer cumprir) da Constituição enquanto garante do Estado de Direito em Portugal, Sampaio lá foi desabrochando um ou dois tópicos representativos da sua visão do mais alto cargo institucional (e político) do país.
Um deles diz respeito ao inexorável elo de ligação entre o Presidente e o povo. De fato, o cargo de Presidente da República é unipessoal, longe das querelas e campanhas partidárias. Daí que me custe compreender o fervor dos partidos políticos nas campanhas eleitorais para a Presidência da República. Não faz, a meu ver, sentido que um candidato sem programa de governo (não o pode, efetivamente, esgrimir por que não faz parte do seu desenho político) tenha (rogada, muitas vezes) a seu lado a "partidarite" aguda que acompanha invariavelmente uma eleição legislativa.
Nessa ligação umbilical com o povo há que percecionar os indícios que dele se soltam. Daí que muitas vezes o cariz humanista dum presidente se revele uma vantagem acrescida na aferição de uma certa mensagem algumas vezes mal aconselhada. Sampaio escreve mesmo, e com pertinência, que "esta permanente proximidade do Presidente com o país e os cidadãos é preciosa na hora em que, por exemplo, um diploma chega a Belém e lhe cabe decidir se o promulga, veta ou envia para apreciação preventiva para o Tribunal Constitucional". Parece-me evidente que assim seja. Não fora essa "proximidade" e bastaria o Tribunal Constitucional para esgrimir (e arbitrar) algumas quezílias próprias desta repartição de poderes, advindas com a revisão de 1982.
Acontece que no momento porventura mais problemático do seu mandato, Jorge Sampaio não foi de todo capaz de fazer a tal leitura dos indícios populares. Refiro-me, obviamente, à chantagem (parece-me que o termo, não é, pelo que atualmente se sabe, excessivo), iniciada pelo então primeiro-ministro Durão Barroso, sobre a imperiosa necessidade de Santana Lopes ser orientado para a sua substituição enquanto responsável máximo governativo, pois o país não poderia perder a luminosidade que resultaria da sua ida para Bruxelas. Jorge Sampaio fez, na altura, depois de ouvir muita gente, o contrário do que um bom presidente faria que era exprimir o seguinte a Durão Barroso: se quiser ir vá, mas tem a minha reprovação; consequentemente, convocarei eleições antecipadas. O povo seria então, mais uma vez, levado a escolher.
Parece que não, mas estas atitudes e escolhas, para além de revelarem a qualidade (Jorge Sampaio) e a probidade (Durão Barroso) das pessoas que ocupam os altos cargos institucionais, resultam também em estados amórficos, os quais podem ser iniciadores (ou exasperantes prolongamentos) de graves crises sociais.
O que estamos presentemente a viver em Portugal não é decerto resultado do exíguo consulado de Santana Lopes (o qual, no meio desta história, é o menos culpado). No entanto, numa altura que o país estava "de tanga" (Durão Barroso dixit), o pior que se aceitaria num Presidente da República era a sua conivência com situações claramente pantanosas (o pântano de Guterres também não anda lá muito longe deste cenário).
Por isso, é sempre muito mais doutrinalmente edificativo usufruir da áurea que se levanta quando se é um ex-Presidente da República.

quinta-feira, agosto 05, 2010

privatização do bpn e outros ativos (não tóxicos)

A reprivatização do BPN vem aparentemente provar que a sua nacionalização (2500 milhões de euros) de há dois anos foi tão errada como precipitada. Como, aliás, se afigura igualmente demasiado célere esta proposta de mercado do executivo. A pergunta de Nuno Melo de quem fica com a dívida do banco revela-se, neste cenário, pertinente.
Por outro lado, a onda de ativos (GALP, EDP, REN...) ainda na posse do Estado tem os dias contados. E assim se combate o défice.
E assim se ganham, muitas vezes, eleições. Esta é mais uma medida do oculto Bloco Central. Passos Coelho não faria melhor. Mas ainda havemos de ver este Partido Socialista combater, na oposição, a onda demasiado liberalizante do PSD.

o ministro salamaleque

Já me havia ocorrido sobre o paradeiro do nosso ministro da justiça, teoricamente a braços com o estranhamente inconclusivo caso "Freeport". Ei-lo hoje no Telejornal da RTP1.
Alberto Martins foi, segundo rezam as crónicas, um revolucionário combativo que teve a sorte de estar um dia em Coimbra num certo plenário de estudantes, o qual resultou - granjeando ainda mais a sua fortuna - na prisão efetiva de alguns estudantes esquerdistas (comunistas, como então se simplificava), entre os quais se encontrava o simpático ministro. Viveu longos e justos anos à sombra e à luz dessa sua força juvenil, recusando, de certo modo, o envelhecimento. Mas este acontece e, por vezes, da pior maneira. Principalmente quando se sai de um assento sempre confortável de oposição (democrática) para a responsabilidade de liderar uma das pastas governamentais mais complicadas e carentes de iniciativas reformadoras.
Vendo e ouvindo Alberto Martins no cargo superior de alguém que tutela e se responsabiliza pela justiça portuguesa, é verdadeiramente confrangedor. Sobretudo porque a sua preocupação com o nada, com o vazio, com o inconcreto, com o porte, com o verbo, sobrepõe-se inexorável e definitivamente com os reais problemas que a justiça atravessa. Não existe, por parte do ministro, um rasgo, uma ideia, uma solução. Para ele, vinga, aparentemente, a máxima de que o tempo tudo resolverá. A frase que repetiu na breve entrevista: "o sr. Procurador-Geral tem a confiança institucional do governo da República". É pouco para quem quer respostas e soluções e sobretudo para quem (e são muitos e com preponderância no sistema jurídico), diariamente, não se coíbe de criticar abertamente o regime da justiça portuguesa.

sábado, julho 31, 2010

os chumbos

Voltarei, decerto, a este tema, mas não queria deixar de realçar a minha perplexidade relativamente à matéria das não-reprovações escolares.
Numa altura em que o ministério da educação obriga as escolas a aumentar o número de alunos por turma, os mesmos teóricos da educação relativizam a importância da aquisição e aplicação de saberes por parte dos alunos, ao instituir a progressão obrigatória nas escolas. A bota não bate com a perdigota.

quinta-feira, julho 29, 2010

a mediatíssima e mirífica golden share da pt

O dado porventura mais curioso nesta coisa da venda da percentagem da VIVO à Telefónica é o drama em gente que se viveu durante o processo. Todos sabiam como ia acabar. Restava, pois, o teatro para que Sócrates, no final, expurgasse algumas semanas de definhamento. Antes ainda teve o Freeport. Venham mais.

segunda-feira, julho 26, 2010

antónio mexia

O homem andou à boleia, fez anúncios e foi carteiro, deu explicações de português e serviu bebidas num bar (o melhor hotel de Genebra, diz, com um sorriso comprometedor). É presidente da EDP e tem um ordenado que se bate com os dos seus congéneres mundiais. Utiliza abundantemente as variantes do verbo energizar, uma espécie de neologismo da empresa que lidera. Quanto às críticas suscitadas pelos seus 3,1 milhões auferidos em 2009 (salário e prémios - porquê prémios com ordenados destes, pergunto inocentemente) tem uma ideia, uma definitiva explicação: "inveja e preguiça". Quanto ao país que alegremente lhe proporciona a este e a outros do género estes devaneios salariais nem uma palavra. Esquecem-se estes senhores que o ordenado mínimo por aqui não chega aos 500 euros e muita desta gente trabalha no duro, porventura tantas horas como o sr. Mexia. Mas vamo-nos entretendo com estas entrevistas cor-de-rosa estranhamente a cargo do Expresso, nas quais ficamos a saber que o sr. Mexia ainda é conde mas que não liga a estas coisas dos títulos e que foi estudar para a Suíça porque "não tínhamos dinheiro" e que, em parêntesis reto, esta extraordinária jornalista, de seu nome Rosália Amorim, nos dá conta que os seus (dele) "olhos enchem-se de lágrimas e fica comovido, quebrando a imagem do líder de ferro", quando evoca a filha de doze anos. Esquece-se esta gente que os tais do ordenado mínimo também têm filhos de doze anos e que não dizem aos pais que, afinal, o que estes fazem é fácil, pois só têm de olhar para o ecrã de cotações e para as notícias da Reuters.

sábado, julho 24, 2010

a revisão constitucional

Passos Coelho deu o mote: pelo menos, esta proposta de revisão da Lei Fundamental veio clarificar e separar as águas: de ora em diante, não se dirá mais que PS e PSD são duas faces da mesma moeda. Tem, pois, razão neste pressuposto o líder social democrata. Acontece que esta proposta pode igualmente originar uma oxigenação no governo, através, precisamente, do enroscamento do PSD à direita liberalizadora. Neste sentido, até Paulo Portas já entendeu que o caminho não é substituir o socialismo pelo liberalismo.
Num raciocínio simples: ou vamos para eleições antecipadas dentro de um ano, ou então corre Passos Coelho o risco de perder umas eleições à partida fáceis de ganhar.

comércio liberalizado

A proposta governamental de permitir a abertura do comércio das 6 da manhã até à meia noite parece-me ajustada, se tivermos em conta que a atividade comercial é também a prestação de um serviço. Só tenho pena que esta visão liberalizadora não se estenda aos chamados serviços públicos.
Alargando o horário de trabalho destes serviços até à meia-noite (os quais teriam de ser projetados por turnos, obviamente), criar-se-iam novos empregos e os cidadãos teriam um balizamento temporal mais abrangente para tratar da sua vidinha. O princípio é o mesmo.

quarta-feira, julho 21, 2010

revisão constitucional

Um dos esperados argumentos socialistas relativamente à proposta de revisão constitucional social-democrata diz respeito ao timing. Silva Pereira, um dos mais notáveis porta-vozes socráticos foi claríssimo e duro, porventura demasiado enclavinhado: "querer debater candidaturas presidenciais ao mesmo tempo que se discute, e altera, a duração do mandato e a extensão dos poderes do Presidente que está para ser eleito é uma ideia absolutamente estapafúrdia, que não há memória de alguma vez ter sido proposta por um líder político irresponsável". Não tem razão neste ponto. A meu ver, faz todo o sentido os candidatos a presidente da República, que juram solenemente fazer cumprir a Constituição, tenham oportunidade de se demarcarem ou emparelharem nas diferentes visões constitucionais. Passos Coelho demonstrou, não sei se por ingenuidade política ou se por autenticidade, que quer de fato alterar o status quo político que se tem planado na sociedade portuguesa ao longo destes anos. É, neste sentido, diferente dos demais líderes. O retorque de Silva Pereira é revelador desta sintomatologia demasiado calculista, artificial.
Eu não concordo com as propostas que são já conhecidas do grupo de estudos do PSD que tem a cargo este anteprojeto de revisão constitucional. No entanto, penso que a política partidária não deve estar refém de quaisquer eleições ou mesmo de crises económicas. Aliás, estas propostas são também (pelo menos assim deveriam ser encaradas) formas de agrupar pontos de vista (ainda que discordantes) para que o país consiga ultrapassar este já demasiado longo lamaçal social que costuma ser apelidado de crise que vem de fora.

terça-feira, julho 20, 2010

ribery e benzema acusados

Vi na televisão a notícia, seguidas de esclarecedoras imagens: dois futebolistas franceses - Ribery e Benzema - foram acusados pela justiça francesa de recorrerem ao serviço de uma prostituta menor de idade. A notícia, como referi, veio com imagens. E estas valem mais que mil palavras: a menina em causa, Zahia de seu nome, num programa de televisão num desenvolvimento erótico explícito.
Este caso deveria, antes de tudo, servir para regulamementar a utilização de menores de idade em programas de televisão, principalmente quando o que está em causa é uma tónica claramente libidinosa. Aquela rapariga, naquele programa, em bikini, dançando e esfregando-se, não tinha dezasseis anos. Em casa, no quarto dela, com amigas, poderia tê-los; na televisão, não.

dois para o tango

São efetivamente necessários dois para dançar o tango. Sócrates disse-o outro dia e tem razão. Passos Coelho precisa agora do seu par para um inusitado e inesperado passe doble que se chama revisão constitucional. Um ponto a favor do líder do PSD: está a mostrar, antes das eleições, ao que vem. E o que se espera de Passos Coelho é precisamente a cartilha neoliberal em todo o seu esplendor. Este anteprojeto chega ao pormenor hilariante de dizer quase o mesmo (não vislumbro outro entendimento depois de ouvir Passos Coelho no jornal da SIC) por outras palavras, como é o caso da substituição dos despedimentos por justa causa pela expressão porventura mais abrangente de "razão atendível". Um outro aspeto interessante no ante-texto social-democrata diz respeito à gratuitidade de certos serviços prestados pelo Estado na saúde e educação.
Esta gente convive mal com a palavra gratuitidade (defendem uma espécie de scut´s nestas áreas). Pela minha parte, estou mais inclinado a seguir a opinião do bastonário da Ordem dos Médicos, o qual defende a eliminação do advérbio tendencialmente para projetar o gratuitos subsequente. De fato, a educação (na sua escolaridade obrigatória) e a saúde devem ser asseguradas, numa visão claramente solidária, pelo Estado, isto é, por todos nós.

quinta-feira, julho 15, 2010

estado da nação

Sócrates retrata uma nação de números e tem aparentemente razão nas contas. Acontece que toda esta aritmética se encontra estruturada numa debilidade triste, como triste é o país que tem um primeiro-ministro que se vangloria com um limiar da pobreza na ordem dos 18%.

segunda-feira, julho 05, 2010

ronaldo foi pai

Cristiano Ronaldo é pai de uma criança do sexo masculino. Ao que parece, o petiz nasceu em pleno mundial africano. Duas notas relativamente ao assunto:
A primeira tem a ver com a tese de alguns psicólogos (desportivos, presumo) que defendem tenazmente a relação direta da novel paternidade do jogador com o fraco rendimento enquanto jogador profissional de futebol patenteado em África do Sul. Obviamente, a tese acompanha (ou o contrário, provavelmente) umas não sei quantas emoções recalcadas, frustrações muitas vezes cabalmente exteriorizadas, como o cuspir para a câmara de filmar e o "perguntem ao Queiroz" e outras coisas que os senhores que estudam a coisa conseguem insolitamente vislumbrar.
O segundo apontamento acompanha a suposta e sistematicamente plangente ausência de privacidade dos jogadores e outras espécies de celebridades mediáticas. Afinal, quando esta gente quer manter-se afastado dos holofotes da fama, consegue esse mesmo fito...

quinta-feira, julho 01, 2010

golden-shares e afins

Na hora de contar euros, não há absolutamente sentido algum patriótico. O capital, dizem, não tem pátria. Vivemos, como todos nós sabemos, uma crise financeiro-económica muito grande, a qual parece ainda longe de se harmonizar. É também de entendimento comum que foi a desregularização dos mercados o principal impulsionador da crise. Dito de forma simples: o apagamento cada vez mais notório do dedo Estatal fez com que a “economia de casino” corroborasse o enriquecimento febril de muita gente, especuladores financeiros à cabeça. Neste sentido, passada a tormenta inicial, pensou-se que o mundo iria entrar numa espécie de nova ordem financeira e mundial. E é verdade que este pressuposto teve o seu zénite com a surpreendente eleição de Obama e a sua própria consequência prática, em que a reviravolta que foi alvo o sistema de saúde americano, alargado a todos através do apoio financeiro do Estado, pode ser considerada o paradigma deste novo mundo pretensamente florescente.
Assim, podemos todos afirmar alegremente que se aprende sempre alguma coisa com as crises financeiras. Ou talvez não.
A telefónica quer, como se sabe, comprar a participação da Portugal Telecom na operadora de celulares VIVO. 7, 15 mil milhões de euros, isto é, cerca de 90% da capitalização bolsista da empresa portuguesa. Números que deixam doidos qualquer um, mesmo que este qualquer um seja Ricardo Salgado, o maior acionista da PT. Segundo o presidente do BES, o dinheiro da venda serviria para capitalizar a empresa e investir, sobretudo no Brasil. Curioso raciocínio: investir no Brasil... A mim, parco em bolsa, parece-me que com a concretização do negócio verificar-se-á um desinvestimento efetivo na nossa distante ex-colónia (meti aqui propositada e ironicamente esta semântica colonialista por ter lido, através da imprensa portuguesa, o disparate do Financial Times, acusando o Estado português de ter ainda complexos de colonizador). E o raciocínio é simples: ficamos com o graveto, mas limitados a um mercado cada vez mais estreito.
Posso até colidir aqui comparativamente um exemplo futebolístico: os nossos clubes compram jogadores mais ou menos baratos; alcançam mais-valias com as vendas a ligas de maior e melhor dimensão mas, paulatinamente, empurram o campeonato nacional para um fundo cada vez mais desinteressante e internacionalmente pouco apetecível e credível.
Daí que concorde com a posição do Estado português na utilização das suas "ações douradas". Curiosa e oportuna é a justificação do PSD através do seu porta-voz Miguel Relvas, indiciador do que será um Governo chefiado por Pedro Passos Coelho, num afã obstinadamente neoliberal: "não teríamos utilizado a golden share, apesar de reconhecer que o negócio não era bom para a PT". Traduzindo: deixávamos o mercado funcionar e enriquecíamos ainda mais o grande capital (o salivante argumento de Ricardo Salgado é, nessa perspetiva, notório).
Pelos vistos, a União Europeia, através da sua comissão chefiada pelo nosso mais famoso desertor político (um percurso político notável a este nível), é da opinião que o Estado deve deixar funcionar o mercado e, consequentemente, não deve possuir este tipo de força acionista. Não creio que seja este o caminho diretor que melhor se adequa a uma Europa cada vez mais interveniente do ponto de vista financeiro, precisamente porque o mercado necessita de uma regulação racional e independente, a qual só pode ser conferida pelo Estado em quantidades obviamente equilibradas.
Não queria deixar de apontar uma nota final. Os acionistas da PT sabiam, desde sempre, da golden share estatal. Não sei se muitos destes acionistas, pequenos ou grandes, que clamam a venda da VIVO, têm participações nos recentemente bancos falidos. É que não me parece ter ouvido qualquer desenvolvimento crítico sobre a nacionalização do BPN. E intervenção estatal maior do que uma nacionalização sinceramente não conheço.

quarta-feira, junho 30, 2010

chicoespertismo

Atrasado, mas entra aqui ainda a tempo: primeira página do Expresso: "Ex-assessor do Governo vende chips para SCUT". Depois vem o enredo. E a conclusão que se tira é que nós, enquanto nação governada por algumas luminárias, estamos cavadamente mergulhados neste tipo de espertezas. Tudo dentro dos postulados da legalidade vigente, obviamente.

selecção de futebol

Não gosto de endeusamentos. No caso de Cristiano Ronaldo, ele também não tem culpa no que à volta dele se gerou. Daí que a pressão de ser capitão da selecção, de ser o jogador mais bem pago do mundo (1 euro por segundo de nível salarial) tornou-se o maior calvário para o jogador. Tudo isto aliado a um treinador confrangedoramente mediano, deu no que deu: uma equipa vazia, despersonalizada.

sábado, junho 19, 2010

morte de saramago

Dos primeiros pensamentos que me ocorreu quando soube do falecimento de José Saramago foi que esta bem poderia esperar mais uns tempos. Saramago, na sua vertente polemizada, ainda fazia muita falta à sociedade portuguesa. Pela coragem, pela clareza, pelo ideário, pela inércia da própria sociedade.

domingo, junho 13, 2010

o amadureciento precoce dos pré-adolescentes

Ontem passou nos telejornais um estudo orientado por um (ou mais?) psicólogo(s) o qual deduzia que as crianças na entrada da pré-adolescência adquirem, nos dias que correm, um sentido de maturidade muito mais evidente que as gerações precedentes. O motivo de tal conclusão relaciona-se, exclusivamente (foi este o meu entendimento), com a apetência destas criancinhas para a chamada tecnologia.
Permitam-me, caros psicólogos, discordar. Quando muito, estas criancinhas ganharão mais à-vontade no trabalho com jogos e computadores e afins. O que tem isto a ver com amadurecimento? O que dirão estes investigadores sobre aquelas crianças que, aos doze anos, em vez de facebooks e messenger's, têm na mão uma enxada que usam nos intervalos escolares?

sábado, junho 12, 2010

o hotel da seleção

Ouvi hoje na televisão a cretinice transmitida por um dos responsáveis da seleção de futebol na África do Sul a respeito dos custos do hotel. Parece que o local onde a comitiva se encontra hospedada é um dos mais caros, de entre todas as seleções. A explicação desse responsável foi esta: a qualidade e os custos da hospedagem estão de acordo com a nossa posição no ranking da FIFA. Para esta gente não existem país, défice, dívida pública, pec, subida de impostos, cortes sociais, desemprego, nível de vida.
Para este magote futebolístico, acarinhado como verdadeiro herói pelo povo, o país começa e acaba no jogo e nos proventos excelsos que dele tiram. A seleção da Dinamarca, por exemplo, que até ficou à nossa frente no grupo de apuramento, optou por uma estadia bem mais despretensiosa.
Seguindo o raciocínio deste responsável, os pergaminhos da nossa equipa, com o honroso terceiro lugar à partida, dar-nos-á para, no mínimo, mantermos esta posição.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...