terça-feira, outubro 27, 2009

o lobo ibérico, outra vez

A Quercus decidiu formalizar mais uma queixa à União Europeia para que trave a construção de um Parque Eólico do Douro Sul. Tudo por que, segundo estes ambientalistas, o empreendimento põe em causa a vivência dos animais. É bom recordar que por causa destas queixinhas foram gastos largos milhões de euros na construção dum viaduto na A24. Até ao momento, ainda não foram detectados vestígios de lobo algum. Este facto torna-se exasperadamente anedótico quando verificamos que, mesmo ao lado do viaduto, se plantaram trabalhosas pedreiras.
Ora, se tivermos em conta que a causa do declínio do Lobo Ibérico se deve, essencialmente, à sua perseguição directa e ao extermínio das suas presas selvagens, não nos custará admitir que uns postes eólicos em cima de um monte não serão preponderantes para o regular funcionamento da vida destes animais.

sacerdócio

Li uns parágrafos que prefiguram alguns traços distintivos daqueles que aspiram a uma vida sacerdotal. Assim, no documento intitulado "Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio", de 2008, encontramos este tipo de "razões": "estabilidade clara da identidade masculina", "a capacidade de integrar a sua sexualidade no todo da pessoa". Para além disso, parece que nestas orientações não cabem aqueles que sofrem de graves carências físicas, os adolescentes criados fora do convívio dos pais, os emigrados de terra em terra e também aqueles com têm o infortúnio de terem parentes alcoólicos ou dementes. Estes últimos devem ser minuciosamente avaliados, pois nunca se sabe o que pode resultar desta tenebrosa conjugação de factores somáticos. E assim prega Frei Tomás...

segunda-feira, outubro 26, 2009

um representante da república na madeira

Na espuma dos nossos dias, há notícias que o não são pelas mais prosaicas razões. Este fim-de-semana deparei-me com uma que se liga ao Representante da República para a Região Autónoma da Madeira. Fui ver os alicerces constitucionais deste cargo e reparei que faz justiça ao provérbio que dita que "o que nasce torto tarde ou nunca se endireita". Vejamos: fundado pela Lei Constitucional nº 1/2004, de 24 de Julho, no âmbito da sexta revisão constitucional, só quatro anos mais tarde se consagrou, de modo definitivo, na Constituição da República, com a publicação da Lei nº 30/2008, de 10 de Julho. Torna-se, pois, fácil entender que todo este hiato temporal foi caracterizado por uma enormíssima indefinição de competências, algumas das quais vinham já do primeiro desenho constitucional (em democracia) que criara a figura de Ministro da República para as Regiões Autónomas. Convém notar, no entanto, que o âmbito competencial deste cargo lhe confere uma importância que não se adequa à prática política. Na verdade, não me ocorre ter alguma vez ouvido o Juiz Conselheiro Monteiro Diniz pronunciar-se sobre qualquer decreto legislativo regional, seja sob a forma de uma fiscalização preventiva ou mesmo através do veto político. Assim, temos na Madeira (e presumo também na Região Autónoma dos Açores) um Representante da República que pouco mais faz do que... representar a República, seja lá o que isso possa circunscrever.
Mas é precisamente aqui que a notícia emerge. Monteiro Diniz confessou sentir-se de "mãos atadas" e que nada pode fazer perante certos despautérios oriundos, por exemplo, da práxis política madeirense, designadamente da Assembleia Regional, reconhecendo, deste modo, que não tem competências para actuar, pois este é um cargo solitário circunscrito a uma magistratura de influência. Acrescenta ainda, para sublinhar o seu desconforto, que já por duas vezes pediu para abandonar o cargo e que está fora de questão continuar após 2011, data em que termina o seu mandato.
Todavia, o nosso representante na ilha compensa a míngua operacional através de pretensas análises sociopolíticas madeirenses. Assim, começa por afirmar que é o sistema autonómico que não permite uma actuação arbitral na ilha, o que, a ser verdade, é de facto extraordinário (estranho ainda mais não se ter ouvido aquando do veto de Cavaco Silva relativamente ao Estatuto Político dos Açores, o qual preconizou uma situação político-administrativa análoga à da Madeira), visto que se trata de um reconhecimento da inocuidade do cargo que ele próprio ocupa. Vai, porém, mais longe e culpa, desprendidamente, o povo madeirense, que tem dado sucessivas maiorias absolutas ao PSD: "o problema é o eleitorado da Madeira, que deu maiorias absolutas a um partido durante estes anos todos, esse é o problema". Pela minha parte, anoto simplesmente que Monteiro Diniz deve estar mesmo fartinho de andar por lá sem fazer nenhum. É que ouvir o representante da República (por inerência representa o próprio Presidente da República) criticar de modo tão explícito o alicerce de qualquer regime democrático que é o voto do povo, estranha-se e dificilmente se entranha. Se não andássemos distraídos pela espuma dos dias, Monteiro Diniz teria sido já convidado a regressar... à pátria.

domingo, outubro 25, 2009

o reaccionário vasco pulido valente

Chego atrasado à polémica do texto de Vasco Puilido Valente da última sexta-feira no Público. Li-o e custou-me acreditar no que os meus olhos percorriam. O homem fala em conceitos como berço, educação, escolaridade, semianalfabeto, inveja, dotes de nascença, mediocridade, tudo para caracterizar denegridamente José Saramago.
Mesmo que tentemos ler este escrito infeliz e estúpido à luz duma variável polissemia, o que o senhor doutor de Oxford nos proporciona não é mais do que uma visão paroquiana de alguém que é incapaz de sair dum casulo feito de teias rancorosas e umbilicais. Para isso, não era preciso tanto estudo, sr. doutor.

sexta-feira, outubro 23, 2009

7º lugar do douro

A vasta região do Douro é, desde há muito - permitam-me o lugar comum - uma espécie de diamante em bruto. A National Geographic Society consagrou-lhe o sétimo lugar de um total de 133 destinos turísticos sustentáveis. É uma boa notícia para a região e para o país, num momento em que o grande desígnio nacional se encontra virado para auto-estradas, comboios TGV's e um retumbante aeroporto.
Sempre me entristeci que um país fisicamente tão pequeno como Portugal conseguisse alargar para além do regime despótico de Salazar e Marcelo Caetano uma divisão tão arreigada entre litoral e interior. O que é deveras insólito é este tipo de pensamento único que, na nossa contemporaneidade democrática, nasceu com os governos de Cavaco Silva: a de que é através das estradas que o desenvolvimento no interior do país se propaga. Podem ajudar, mas não bastam. E o que se me afigura deveras extraordinário é que não vejo qualquer desígnio nacional para o pós-autoestradas. Construam-se e depois logo se vê. Ocorre-me, repentinamente, os famosos estádios de futebol para o Euro 2004 (e vem aí o mundial): um verdadeiro exemplo.

quinta-feira, outubro 22, 2009

votos para a nova ministra


Isabel Alçada tem na resposta pronta deste miúdo tudo aquilo que desejavelmente terá já assimilado. Com efeito, a última resposta que a ex-Ministra da Educação pensava ouvir acerca da "escola nova" era esta.

quarta-feira, outubro 21, 2009

o psd e saramago

O PSD, este partido que anda agora à procura duma identidade que se perdeu algures num passado recente, convive, definitivamente, mal com José Saramago. Por ser o escritor comunista, evidentemente, não por exprimir hipotéticas heresias. Aliás, este tipo de reacção crítica, que se inaugurou com um tal Sousa Lara - que foi em tempos Secretário de Estado da Cultura (penso que era esta a nomenclatura) - e que agora teve um seguidor num obscuro eurodeputado, acaba por alongar, ainda mais, o fosso com o chamado país real. Propor a mudança de nacionalidade ao escritor só pode vir de alguém que não consegue esgrimir argumentos. Saramago limitou-se a constatar um facto: A Bíblia, enquanto obra civilizacional fundamental, contém preceitos imagéticos escabrosos. Agora se todos esses mandamentos devem ser lidos à luz da metáfora, a qual é sempre sujeita a um reestruturamento do texto, isso é já outra história.
Por mim, fico feliz por o tal-deputado-que-não-sei-quem é não fazer parte dos novis deputados da Assembleia da República. Afinal, em Estrasburgo também fazem falta estes dignos representantes da nossa casta fundamentalista.

terça-feira, outubro 20, 2009

outra vez um campeonato de futebol

Estamos novamente com novo desígnio nacional. é uma forma de União Ibérica esta ideia de ligação futebolística com Espanha na organização de um campeonato do mundo para a próxima década. Entretanto, a guerra dos estádios já se iniciou, com o recém-eleito presidente da Câmara de Faro a reclamar uns joguitos lá na terra. Como o estádio do Algarve só tem capacidade para 30 mil pessoas, parece que este facto não é argumento suficiente para impedir a aspiração de Macário Correia: afinal, só será necessário acrescentar mais vinte mil cadeirinhas. E depois logo se vê o que fazer. Isto é cíclico. E doentio...

segunda-feira, outubro 19, 2009

e o encontro de deus pinheiro consigo próprio

Mas não se fica por Carvalho da Silva e António Costa este tipo peculiar de encarar politicamente o país e os eleitores (ver post anterior). João de Deus Pinheiro, outro vetusto líder político, aproveitou uma pequenina aragem que Manuel Ferreira Leite lhe proporcionou para sair da sua longa hibernação. Andou, por isso, alegremente junto da líder durante grande parte da campanha eleitoral, pelo menos quando os momentos televisivos remetiam para uma certa solenidade. Afinal, Deus Pinheiro foi uma figura de proa do cavaquismo (Ministro da Educação e dos Negócios Estrangeiros), Comissário Europeu, e outras coisas mais. E como não se pode desaproveitar certas cabeças luminárias, aceitou o convite para liderar uma lista distrital de deputados à Assembleia da República, na esperança legítima de ver o seu nome proposto para Presidente do Parlamento ou, no mínimo, para um qualquer poiso ministerial.
Mas Manuela Ferreira Leite e o PSD perderam as eleições. Por conseguinte, Deus Pinheiro, que chegou a pedir a maioria absoluta (que chatice seria governar sem maioria), teve de se contentar com um lugarzito de deputado. Aguentou-se meia-hora. Assinou e renunciou ao mandato.
Comecei a julgar que Manuela Ferreira Leite perderia as eleições quando aceitou a integração de António Preto na lista de deputados, isto é, quando a sua imagem de credibilidade, a sua apregoadíssima e tenaz luta pela verdade se começou a esmorecer. Depois, quando vi Deus Pinheiro várias vezes a seu lado, marcando uma presença vazia, inócua e, por isso, prejudicial à candidata, tive a certeza dessa derrota. Não me enganei.
Não sei se Manuela Ferreira Leite se sente ultrajada. Estou propenso a crer que muitos eleitores que acreditaram no seu projecto, nas suas palavras, não se sentirão, agora, lá muito bem. E a culpa é também dela.

o encontro casual de carvalho com costa

Afinal, Carvalho da Silva, vetusto líder da maior central sindical do país, uma das vacas sagradas da esquerda, encontrou-se com António Costa, antes das eleições autárquicas. Não por mera casualidade, como ambos juraram a pés juntos, mas por que Carvalho da Silva preparara meticulosamente o encontro no Martinho da Arcada.
Confesso que me estou nas tintas para o mal-estar comunista. O que eu não gostei foi o de me terem feito passar por parvo. Simplesmente por que acreditei na casualidade desse oportuno esbarramento citadino. Afinal, Lisboa não é assim uma cidade tão grande. Mas mais do que a minha ingenuidade (provavelmente fui o único), o número apresentado por estes senhores não é mais do que uma peculiar forma de perscrutar a política. É que por muitas palavras elevadas que se inventem, as eleições são sempre um aperto que vale bem um numerozito destes. Não é assim, senhores Carvalho da Silva e António Costa?

sexta-feira, outubro 16, 2009

uma intervenção de pedro feijó

Pedro Feijó é um aluno do Liceu Camões (que comemorou hoje 100 anos) e fez hoje uma intervenção notável diante da ex-futura ministra, Lurdes Rodrigues e de Cavaco Silva. Acusou o ministério de ter sido responsável por uma verdadeira asfixia nas escolas públicas, ao, por exemplo, tirar "a representatividade e o poder aos estudantes e outras classes nos órgãos de gestão, dando-o a agentes exteriores à escola". Salientou ainda que o pior de tudo foi a atitude do ministério, ao desprezar "manifestações com milhares de estudantes" e "abaixo-assinados, incluindo um com dez mil assinaturas de estudantes, que pediram a revogação destas leis. Desprezou manifestações com várias dezenas de milhar de professores que lutavam pelos seus direitos, pelas suas escolas."
António Feijó está, pois, de parabéns pela coragem e perspicácia crítica demonstrada diante de Lurdes Rodrigues e de Cavaco Silva. Nunca é demais lembrar que esta ministra foi muito acarinhada, no início das suas pseudo-reformas educativas, pelo Presidente da República, apesar de, passadas as turbulências, se ter posto com um pezinho de fora. Como, aliás, convém a um presidente...

mário lino nos gatos

Acabei de ver Mário Lino num programa de humor. Fiquei com a sensação que ele não percebeu que aquilo era precisamente um programa de humor. Foi impressão minha, ou ele fala muito à José Sócrates? Não sei, mas aqueles trejeitos discursivos!... A dada altura, perdeu mesmo a cabeça: "um grande político português contemporâneo, José Sócrates, disse que..." Vamos ter saudades.

quarta-feira, outubro 14, 2009

isabel alçada

Ouvi um atrasado discurso de Isabel Alçada sobre a política educativa do governo PS, numa sessão do Partido Socialista ("Avançar Portugal") e fiquei espantado com o registo venal da futura Ministra da Educação. Não se ouviu uma única crítica, um único reparo. Elencou as medidas de Maria de Lurdes, uma a uma, como se tivesse a explicar as várias etapas do revistimento betuminoso de qualquer obra pública. Não lhe ouvi uma referência aos professores. Maus prenúncios.

a coerência de vasco graça moura

Vasco Graça Moura é um seriíssimo caso de personalidade dupla. O grande e apaziguado especialista em literatura dá lugar, na política, ao mais extravagante e irracional opinador. Cavaquista dos sete costados, passou a manuelista dos oito. Daí que o disparate seja a norma quando aborda temas políticos. Hoje, por exemplo, afirmou que Manuela Ferreira Leite deve manter-se na liderança do partido, pois "tem a legitimidade de ter sido eleita normalmente e tem um mandato que ainda não terminou". Quanto a José Sócrates, a receita é a oposta: é preciso que [o próximo governo] seja derrubado o mais depressa possível". Conclui-se, portanto, que, para Vasco Graça Moura, o governo recentemente indigitado por Cavaco Silva não conquistou, "normalmente", a vitória no dia 27 de setembro.

a alternativa

Manuela Ferreira Leite saiu há pouco do tradicional encontro com o primeiro-ministro após as eleições legislativas. O que dise aos jornalistas foi o óbvio: que o PSD irá ser uma oposição responsável e que o termo responsável aplica-se, neste contexto, dentro de uma perspectiva realista do país, isto é, não pedir o que se torna impossível de realizar na actual conjuntura e enquadrar a acção política do PSD tendo em conta que o seu partido é a verdadeira alternativa. Ora, parece que Ferreira Leite não percebeu ainda o actual estado das coisas. Neste momento, não se pode falar assim, com o artigo definido, quando se projecta uma alternativa. É que não existe a alternativa, mas alternativas. Nem o próprio PS é, na actualidade, a alternativa. O desenho parlamentar que saiu das eleições não se compagina com uma solução unipartidária. Por conseguinte, a regra, agora, é o regresso da política. E quem se advogar como alternativa vai, irrevogavelmente, para o abismo.

terça-feira, outubro 13, 2009

passos coelho concorre à liderança

Registo o sentido de honestidade de Passos Coelho, que aureolou hoje, com uma declaração aos órgãos de informação, a sua candidatura à liderança do PSD. Disse então Passos Coelho: "Posso dizer que, quando forem convocadas as eleições no PSD, terei oportunidade para apresentar a minha candidatura, que será normal dentro do trabalho que venho fazendo no PSD". Esta última parte da sua declaração é, pois, deliciosa: "o trabalho que venho fazendo no PSD..."

despedimentos na quimonda

Foi a primeira vez que vi regatear despedimentos. A administração da Quimonda baixou em cem o número de trabalhadores que vão para o desemprego. Agora, estão nos 500, mais coisa menos coisa. Ao princípio da tarde, eram 600. Vamos lá ver onde isto vai parar amanhã.

maitê proença

Parece que uma grande amiga de Miguel Sousa Tavares andou por aqui, meia desvairada, a mandar umas atordoadas ao nosso querido Portugal. Os telejornais nacionais fizeram do assunto coisa séria. Sinceramente, não vejo onde pára a notícia.

os animais e os homens

Mais uma amostra do furor legislativo: a proibição dos animais em circo e a sua reprodução (!). Por mim, nada contra. Os argumentos relativamente a esta medida são obviamente variáveis, consoante a posição e a sensibilidade de cada um. Podemos agrupá-los, sem grande esforço, em duas categorias: um excesso de intromissão do Estado na vida das empresas circenses e, por outro lado, uma marca civilizacional.
É meu entendimento que o intuito primeiro do legislador encontra-se, mais pausadamente, nesta última vertente. Neste sentido, o bem-estar dos animais prevalece sobre os instintos "voyeuristas" do ser humano. No entanto, importa ser coerente e atingir, com igual medida, as touradas, os "rodeos" (a suposta e gritada superioridade moral do Bloco de Esquerda tem aqui um extremo de hipocrisia política), as gaiolas caseiras dos passarinhos e passarões e, não menos importante, os jardins zoológicos. Neste propósito, revela-se de uma ironia trágica algumas tabuletas que titulam certas cercas animais nestes parques públicos, cujas informações orientam o visitante para uma amostra do modo de vida do bicharoco... no seu habitat natural. Por exemplo: animal que vive nas grandes planícies africanas, atinge velocidades superiores a 50 km/hora, e por aí adiante... Onde está, afinal, no meio disto tudo, a coerência?

segunda-feira, outubro 12, 2009

um tópico europeu

Por vezes, basta muito pouco para escrever uma crónica. Neste caso, a segunda página do Expresso da última semana revelou-se suficientemente capaz de me entusiasmar. E o que relata, então, logo a abrir, o semanário de Pinto Balsemão? Nada mais, nada menos do que os rendimentos dos eurodeputados. O título é, desde logo, sugestivo: “Eurodeputados gastam mais 30 milhões em despesas”.
Como se sabe, o novo Estatuto do Deputado entrou em vigor a 15 de Julho e teve como principal inovação o pagamento ao quilómetro das viagens para casa, colocando um termo à disparidade de remuneração dos deputados consoante o país de origem. Deste modo, o que antigamente era guiado pelos respectivos parlamentos nacionais, passou agora a ser estruturado com um salário único de €7000 mensais (€5969 líquidos). No caso dos nossos felizes deputados, tiveram um acréscimo de €3444. A questão, todavia, não se estaca nesta simples homogeneização salarial inter pares. Se é certo que se exauriu o subsídio ao quilómetro das viagens para casa, é também certo que se criaram mais duas novas assistências salariais: uma nova versão do subsídio ao quilómetro e um outro de “tempo perdido” na viagem. Os eurodeputados, não sei se ironicamente (nunca se sabe), apelidaram-no já de “subsídio de transtorno”. Conseguintemente, a exponencial subida, relativamente à anterior legislatura na rubrica subsídios, situa-se nos €32 milhões. O interessante é que, no actual quadro parlamentar, há menos 49 deputados. Quer isto dizer que, apesar de menos, gastam mais (o orçamento do Parlamento Europeu foi o que mais subiu dentro das instituições europeias: €1590 milhões face a €1530 da última legislatura). Mas não se ficam por aqui as benesses: por cada dia de exaustivo trabalho em Bruxelas ou Estrasburgo (um exemplo da pesada e expansiva organização comunitária, com sessões plenárias mensais em Estrasburgo, sessões das comissões em Bruxelas e a sede do secretário-geral do Parlamento em Luxemburgo), cada deputado recebe €298, além do seu salário. Ainda segundo o jornal, os deputados auferem ainda, no item despesas de gabinete, €4200 e, como se não bastasse, reivindicam um aumento para o seus assistentes, de modo a garantir um trabalho de qualidade com a introdução esperada do Tratado de Lisboa.
É certo que este tipo de matérias exalta para uma oportuna demagogia. Pela minha parte, não é essa a minha intenção. Todavia, convém sublinhar o óbvio: numa altura de crise europeia e mundial, onde milhões de desempregados enxameiam os centros de emprego, onde cresce perversamente a pobreza, envergonhada ou declarada, a União Europeia patenteia uma capacidade notável para resolver as questiúnculas de mera organização salarial, através deste tipo de homogeneização comunitária. Por outro lado, essa estreita lucidez pragmática não é conduzida para uma resolução dos verdadeiros problemas dos cidadãos. Muito pelo contrário, as instituições europeias têm-se revelado, face à crise, de uma total e preocupante inoperância política, preferindo, muitos dos seus mais respeitados dirigentes nacionais, entreterem-se em agrupamentos que pomposamente são designados de G qualquer coisa. Será porventura na aprovação do Tratado de Lisboa que tudo isto começará a mudar. Pelo menos, é o que os mais optimistas esperam. Haverá, estou certo, novas reformas. Quanto mais não seja, para optimizar, ainda mais, a configuração salarial do Parlamento Europeu.

sábado, outubro 10, 2009

obama nobelizado

As opiniões são divergentes. Para uns, o prémio Nobel da Paz deste ano não podia estar mais bem entregue pelo que Obama representa na esperança duma paz mundial, na esperança do início de uma nova ordem mundial, a qual, para alguns destes, já se teria mesmo iniciado com a sua eleição. Para outros, o presidente dos Estados Unidos ainda não justificou tão responsável galardão. Afinal, só está ainda no poder há dez pequenos meses. No entanto, poderemos elevar uma terceira via de análise: a de que o prémio não é pelo que ele fez, mas pelo que se espera que venha a fazer. Neste sentido, estou em crer que Barack Hussein Obama, o quadragésimo quarto presidente dos Estados Unidos da América, preferiria que lá por Oslo o seu nome não tivesse sido, sequer, alvitrado.

segunda-feira, outubro 05, 2009

fim de ciclo

O ministro da agricultura, um dos que está de saída do executivo socrático, afirmou, em Bruxelas, que "quem ganhou as eleições foi o engenheiro Sócrates" e que este "tem toda a liberdade" para escolher o seu governo. É interessante verificarmos, nestes diversos ocasos ministeriais, as várias verdades la palissianas que, por norma, todos os ministros executam, principalmente aqueles que têm cartão de saída. Do mesmo modo, será igualmente curioso anotar os encómios de Sócrates a estes desadequados ministros. Pela minha parte, estou curioso relativamente a Maria de Lurdes Rodrigues, um dos algozes deste governo.

cavaco silva

Não será de todo desacertado afirmar que existe, no Presidente da República, uma tendência que configura uma certa inaptidão para a política. É certo que ele sempre se definiu como um não-político, apesar de se encontrar, há mais de vinte anos, no seu epicentro. Daí que Cavaco – o homem político – possa ser considerado um paradoxo. Vejamos: foi ele o primeiro político que alcançou uma maioria absoluta, chegando mesmo, depois da primeira, à segunda. Isto depois de um estranho partido da década de oitenta – o PRD –, abençoado por Ramalho Eanes, ter destituído, com uma moção de censura, o governo minoritário social-democrata, liderado precisamente pelo actual Presidente da República. Depois disso, foi ganhador absoluto das eleições presidenciais (dez anos passados da derrota com Jorge Sampaio na sua primeira tentativa presidencialista), muito por causa dum silêncio estratégico que delineou durante o consulado deste último, mas também (sobretudo?) por uma separação conflituosa entre uma esquerda que (dizem) é socialmente maioritária em Portugal.
Convém também lembrar que Cavaco Silva apareceu na política num célebre congresso do PSD, ocorrido na Figueira da Foz, quando, segundo o próprio, o objectivo primeiro na sua deslocação à cidade, era fazer a rodagem ao carro acabadinho de comprar. Começou, portanto, a desenhar-se o sebastiânico homem do leme. Obviamente que este episódio, pitoresco, ficou nos anais políticos como uma não-verdade. Seria lá possível um homem, estranhamente desconhecido, sem biografia (Soares dixit), arrecadar assim um partido do marasmo que vivia num bloco central sufocante, sofrendo ainda um complexo de orfandade devido à morte do seu fundador, Francisco Sá Carneiro. No entanto, por vezes o homem político encontra-se terminantemente condicionado pelos acontecimentos que não consegue dominar. E a rodagem ao seu Citroën foi, neste propósito, um acaso providencial e libertador para Cavaco que viu, sem contar, a sua moção ser aprovada e aclamada maioritariamente no congresso.
Cavaco Silva é, pois, um fenómeno político. Não é, todavia, caso único na política portuguesa. Lembro-me, assim de repente, de mais dois: Nuno Abecassis que conseguiu duas maiorias absolutas em Lisboa precisamente pelo partido menos representativo eleitoralmente no círculo da capital, o então CDS; e João Jardim, cujas alarvices discursivas conseguem conservá-lo intocável há já trinta e tal anos.
Por conseguinte, quando Cavaco Silva tenta reagir politicamente à adversidade é, por norma, desastrado. Os exemplos são muitos, mas observo apenas dois: quando se dirigiu ao país na questão da possível inconstitucionalidade do Estatuto dos Açores (cheio de razão, diga-se desde já) e agora no episódio que configurou o chamado caso das escutas a Belém, o qual determinou uma singularíssima e infeliz intromissão do presidente nas duas campanhas eleitorais, na legislativa directamente e, nas autárquicas, com uma consequente desvalorização das mesmas. O sentido de estado do nosso presidente – o que, por norma, é de todos os portugueses – deve ser, pois revisto. Por ele, ou pelos seus assessores.

ausência de cavaco silva no 5 de outubro

Há uma terrível e fatal ironia quando Cavaco Silva defendeu que não discursará no Terreiro do Paço para não ser acusado de interferência nas eleições autárquicas. Esqueceu-se, porém, que ao convocar aquela transmissão solene e acusatória ao país, em horário de abertura dos telejornais, relegou estas eleições para um plano secundaríssimo. É que ele sempre disse que falaria ao país depois das eleições. Referia-se, como se viu, às legislativas.

domingo, outubro 04, 2009

olimpiadas no rio

A propósito da recente aposta do Comité Olímpico Internacional em presentear o Brasil com a edição dos Jogos Olímpicos de 2016, um dos reponsáveis olímpicos cá do burgo, apressou-se de imediato a demonstrar o seu regozijo salientando que é sempre uma alegria que a língua portuguesa seja anfitriã da edição e que os laços entre os dois países facilitarão um intercâmbio de atletas, designadamente a possibilidade de estágios na cidade brasileira. Foi logo a primeira coisa que este senhor pensou: uns estagiozitos no Rio.

tratado de lisboa

Temos, finalmente, o Tratado de Lisboa aprovado. Durão Barroso, o nosso orgulhoso comissário, já se pronunciou, agradecendo o empenho dos irlandeses. Tenho uma proposta a fazer: simplesmente ir à negra: quem ganhar à melhor de dois é, definitivamente, o vencedor: o sim ou o não.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...