quinta-feira, janeiro 29, 2009

o relatório da ocde

Enquanto o país anda entretido com o dúbio e alarmante espectáculo em torno do empreendimento Freeport, um outro caso de manifesta gravidade passou muito ao lado da opinião publicada. Trata-se de um putativo relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), no qual esta instituição internacional terá elogiado as presumíveis reformas educativas do governo. Este, como é seu timbre e tique, iniciou logo uma campanha de informação propagandística, com comunicados vários e coloridos para toda a comunicação social. E o que diz então a nota do governo? "Somente" o seguinte: "O primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, assistem amanhã, segunda-feira, dia 26 de Janeiro, à apresentação da avaliação feita pela OCDE das reformas realizadas no 1.º ciclo do Ensino Básico".
Esta "avaliação" (com as devidas aspas) da OCDE aprimora-se ao ponto de julgar que "as reformas [do governo] tiveram um grande apoio em todo o país e irão atrair um crescente interesse internacional" (encontra-se também a aparição de umas ténues e perceptivas críticas quando refere o aconselhamento para um paradigma prático mais visível, no âmbito do aplauso geral e laudatório que constituiu a escola a tempo inteiro no primeiro ciclo de estudos).
Ora, nada disto seria preocupante se não revelasse, por parte do governo e deste ministério da educação, uma ligeira inclinação para a esquizofrenia mediática. É que, afinal, o relatório da OCDE não é da OCDE. A própria organização já desmentiu qualquer vínculo com o documento. Trata-se apenas, como ingloriamente teve que sublinhar José Sócrates no último debate parlamentar, de um estudo que "segue de perto a metodologia e abordagem da OCDE”, mas que foi feito por – note-se o esmero titubeante – “peritos internacionais independentes” (convém também sublinhar que o âmbito geográfico de análise do estudo tem muito de – mais uma vez – estratégia política, ao remeter a investigação para sete autarquias maioritariamente socialistas e apenas dez escolas). Acontece que esse estudo levantado por "peritos internacionais” que seguem de perto os ditames metodológicos da OCDE, parece não passar de um análise encomendada pelo governo em que nada de relevante diz no que concerne a uma verdadeira aferição qualitativa do ensino durante estes quatro anos de Maria de Lurdes Rodrigues. A questão é, portanto, sintomatológica: por que razão o governo encenará estes verdadeiros golpes de teatro? É aqui que me lembro da atávica frase da Ministra da Educação, aquela de perder os professores, mas ganhar a população, ou seja, a opinião pública. E, muitas vezes (demais), também a publicada.

terça-feira, janeiro 27, 2009

yes, we can (versão do seixal)

Anda para aí um candidato a presidente de Câmara pelo PSD (penso que é do Seixal) que não arranjou melhor slogan de apresentação do que o prolongado "Sim, nós podemos". O interessante é a sua honestidade: "trata-se de marketing político". O PSD anda, de facto, com reais problemas na apuração dos seus candidatos autárquicos.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

o "domingo desportivo" e o serviço público de televisão

Vale a pena ver o programa "Domingo Desportivo" na RTP1. Dá aos domingos e é suposto ser uma pósvisão da jornada da liga desse fim de semana. Nada mais errado. Na verdade, chega a ser confrangedor ver o serviço público de televisão ao serviço dos três maiores clubes de Portugal. Parece que não, mas o retrato provinciano do nosso futebol, impulsionado pela televisão e pela extraordinária casta que dá pelo nome de comentador desportivo, é um espelho fidedigno da nossa sociedade.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

pcp

Más notícias para o PCP: Júlia Vale e mais três sindicalistas da FENPROF enviaram uma carta ao PCP anunciando a desmilitancia partidária. Muita ingerência do partido nos sindicatos é a principal razão desta tomada de posição. A sindicalista sublinhou que está "desde os 11 anos de idade, presume-se como militante. A má notícia reside precisamente neste ponto: quem é que está desde os onze anos num partido? Dito de outra maneira: que partido aceita alguém com onze anos de idade? Os partidos são clubes de futebol? É legal?

até já

Mais uma vez, lembrei-me do Pacheco Pereira, na sua análise crítica à comunicação social, relativamente à apologia duma imagem exaltada de José Sócrates. Foi quando ouvi o seguinte na Antena 1, a respeito do possível encerramento da fábrica Qimonda, em Vila do Conde: "o primeiro-ministro está a fazer tudo para evitar a falência, até já ligou à chanceler alemã" (o sublinhado é meu). Ora, torna-se por demais evidente que o reforço semântico dado pela expressão "até já" se relaciona com uma putativa e desesperante luta do primeiro-ministro para evitar o encerramento da unidade fabril. É, pois, uma luta hercúlea. Mas temos que confiar no inaudito esforço de José Sócrates, que até já falou com Angela Merkel.

oportunismo e demagogia

Na política, oportunismo e demagogia andam muitas vezes de braço dado. A maioria socialista chumbou, com se esperava, a proposta do CDS visando a suspensão da avaliação dos professores. O primeiro-ministro não demorou muito para rematar o seguinte: " vi agora alguns elementos do PS a votar com o CDS e não gostei". Não sei se algum deputado tremeu. É normal, pois o período que segue, na vida interna dos partidos, tem muito a ver com a constituição das listas de deputados. Mas Sócrates, com a sua habitual aura de líder incontestado (construção demasiado pacífica do PS) ainda atinou no seguinte: "acho lamentável que no país a única instituição que quer a avaliação seja o Governo". Ora, como se revela óbvio, é totalmente falso que seja assim. Chama-se, pois, a isto, demagogia. E da mais barata.

terça-feira, janeiro 20, 2009

o presidente obama

Acabei agora de ouvir na CNN uma crítica ao discurso de Obama. Dizia então o comentador que foi o primeiro discurso presidencial em que não se ouviu uma frase sonante, daquelas que ficam gravadas na memória ao longo dos tempos. É verdade! Mas o que torna o discurso do novo presidente dos Estados Unidos um discurso extraordinário para uma tomada de posse (com um registo enfático, objectivo, acutilante...) é precisamente a ausência. Não a ausência conteudística, mas a ausência duma retórica ufuna, precisamente aquela que carrega um sem-número de frases feitas. Por isso é que aquele início, com as duas gafes seguidas de Obama e com a mão timidamente levantada, foi talvez a marca mais visível desta sua tomada de posse. E ainda bem.

o provável futuro presidente

Começo a dar razão a Pacheco Pereira no que diz respeito à mansidão da comunicação social sobre a política do país. Ouvi na Antena 1 a seguinte e extraordinária apresentação de Pedro Passos Coelho, aquando da sua participação no colóquio promovido pela revista Economist: "Pedro Passos Coelho, visto como o provável futuro presidente do PSD". Chama-se a isto futurologia. Mas também se enquadram, na perfeição, outros nomes.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

o sentido de credibilidade de mário lino

Mário Lino outra vez!... O Ministro das Obras Públicas acusa directamente Ferreira Leite nestes termos: se antigamente era a favor do TGV, por que carga de água é, agora, contra?!...
Ó sr. Ministro, só por muita ingenuidade é que o sr. pode dizer uma coisa destas!... Então não foi o senhor que disse que o aeroporto lá para o sul de Lisboa "jamais"? E quanto tempo passou para que a sua opinião mudasse? Dois?... Três meses? Relativamente a Manuela Ferreira Leite, estamos a falar de seis anos!... E o sr. quer comparar os tempos?!... Uma crise equiparada à de 1929 é o que estamos a viver agora!... Por isso, sr. ministro, seria bom que não desbocasse tanto! Aliás, quando o sr. abre a boca, José Sócrates deve tremer. É que as eleições estão cada vez mais perto. Por isso, a ordem será "jamais" para os disparates...

quinta-feira, janeiro 15, 2009

A Grande Entrevista

- E foi a entrevista com a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite. Para a semana, estarei em Manchester para uma nova Grande Entrevista, desta vez com Cristiano Ronaldo.
Judite de Sousa despede-se, assim, com um sorriso no olhar, de Manuel Ferreira Leite.

o debate parlamentar

Ouvi ontem partes do debate parlamentar. O tema proposto pelo Governo foi a saúde. Confesso que ouvi, mas tive dificuldades de entendimento. Do que falavam aquelas pessoas? Ataques rasteiros, truquezitos disciplinados, risinhos, dedos apontados, o passado, confrontos pessoais... tudo isto se passa no Parlamento. Paulo Portas contabilizou as perguntas que Sócrates não respondeu nas suas visitas quinzenais ao Parlamento. Por sua vez, Sócrates acusa o líder do CDS-PP de lhe questionar sobre coisas do tipo o preço do pão (não foi este exactamente o exemplo, mas serve perfeitamente para ilustração). Logo Sócrates, que é especialista em levar, qual um mágico que retira um coelho da cartola, esta espécie de número: um lançamento de uma obra pública, a redução do preço disto e daquilo... Mas o que realmente fica, no meio do foguetório em que se transformou o plenário, é a inocuidade, o vazio. Não sei se o problema é meu. Estou em crer que não. Mas não ouvi - do que pude ouvir - nada de jeito. E a culpa é de José Sócrates. É, sem dúvida, o primeiro-ministro mais habilidoso da nossa imberbe democracia. Não tem a retórica guterrista (Vasco Pulido Valente apelidou-o, injustamente, de "picareta falante"), mas possuiu um outro tipo de retórica, precisamente aquela que se fabrica para os meios de comunicação social. Mais nada.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

as meninas e os meninos do marketing telefónico

José António Saraiva escreveu uma excelente crónica no último Tabu sobre o labirinto (é assim que se titula o escrito) que constitui uma chamada para a linha de apoio ao cliente de uma qualquer operadora telefónica. Na verdade, o que esta gente faz no outro lado da linha é extraordinariamente confrangedor, pois trata-se de mero marketing, o qual não passa de uma inócua simpatia comunicativa. Para além disso, o sermos obrigados a engolir grandes pedaços de publicidade enquanto, desesperadamente, esperamos pela passagem a uma hipotética e desejada solução não sei se não constituirá um qualquer ilícito de mercado, tendo em conta os superiores interesses do consumidor.
Com efeito, toda esta situação nos conduz à formulação da seguinte questão? A formação destes operadores resume-se aos níveis de excelência – que efectivamente conseguem atingir – no que diz respeito à simpatia e à amabilidade? Seria melhor que não fosse assim e que alcançassem a resolução atempada dos diversos problemas dos clientes. É que não basta abrir pacoviamente a boca – como muitas empresas o fazem – quando afirmam que a formação é uma realidade da empresa, sem ter em linha de conta que essa mesma formação não vai ao encontro das necessidades dos clientes.

terça-feira, janeiro 13, 2009

a dúvida de mário soares

Ao contrário do título do Sol on line que dá como garantia uma hipotética confissão de Mário Soares sobre a vantagem de uma nova maioria absoluta PS em 2009, o que realmente o ex-presidente profere não é mais do que as suas dúvidas sobre se o PS merece ou não essa maioria. A meu ver, não merece. E, estou certo que na cabeça do ex-presidente da república também não a merecerá. Na verdade, ao admitir que uma maioria absoluta do PS pode contribuir para uma estabilidade governativa, Soares não diz mais que o óbvio. Mas, como também ele sublinha, os tempos estão a mudar. Neste sentido, a nossa maturidade democrática vai também evoluindo. Daí que ter ou não ter um governo de maioria parlamentar pode ser, no próximo ano, irrelevante. Provavelmente, estaríamos com melhores respostas para a crise económica se tivéssemos um governo minoritário que conjugasse esforços no sentido de uma efectiva reunião de consensos partidários. Obama percebeu isso, ao formar uma espécie de governo de coligação entre democratas (obviamente) e republicanos. E já que virá das américas a salvação (como veio a depressão), não será de todo despiciente olharmos para este tipo de exemplos. Aliás, se também tivermos em conta outras realidades (muito ao gosto de Sócrates, diga-se de passagem), o milagre educativo finlandês deve muito a um sistema de "coligações de vontades", naturalmente independentes de maiorias ou minorias.

(publicado no jornal Sol, em 17/01/2009)

o fenómeno ronaldo

Não é que não goste de Cristiano Ronaldo. Nem muito menos me considero hipersensitivo relativamente ao futebol. O que realmente me espanta é a dimensão a que isto chegou. Ronaldo ganhou o discrepante prémio de melhor jogador do mundo. Parabéns. Há mais alguma coisa a fazer?...

domingo, janeiro 11, 2009

a rtp e o serviço público

Um directo no telejornal da RTP para inserir uma peça sobre um exclusivo: nada mais do que os preparativos da gala para o melhor jogador do mundo. Definitivamente, a RTP não pode ir embalada naquilo que as televisões privadas pacoviamente consomem. E um directo no principal serviço noticioso descrevendo a sala, o cocktail, o jantar, os convidados, quem vai, quem não vai, etc., não deixa de constituir um mau serviço que a televisão do Estado presta ao país. Infelizmente, estamos habituados.

os não-indícios de pinto monteiro

Parece que temos um problema quanto aos procuradores gerais da República. Antes de Pinto Monteiro, apareceu Souto Moura, o de "olhos de gato constipado", segundo o epíteto de Eduardo Prado Coelho, que, cada vez que o motorista lhe abria a porta, abria também a boca do ocupante de trás, ao informar os ávidos jornalistas que o esperavam de uma qualquer novidade escaldante dos vários processos judiciais em curso (envelope 9, Casa Pia, etc.). Apareceu Pinto Monteiro, o que não deixou de constituir, a princípio, uma agradável surpresa, até porque não seria uma tarefa problemática substituir Souto Moura, após anos a fio na corda bamba presidencialista (não fosse Jorge Sampaio um presidente na linha de Cavaco Silva e teríamos, decerto, Souto Moura precocemente afastado do cargo que ocupava).
Mas Pinto Monteiro não se entende muito bem. Ou melhor: não se sabe muito bem que caminho aspira para a justiça portuguesa. Lembra-me muitas vezes aquele ministro da agricultura de António Guterres (penso que o seu nome é Gomes da Silva), o qual, num belo dia, decidiu entrar para o anedotário nacional, ao sair apressadamente do seu gabinete para fazer parte duma manifestação contra a política agrícola que decorria à frente do... ministério da agricultura. Com efeito, Pinto Monteiro também nos presenteia com certos dislates comunicacionais estranhíssimos, como aquele em que o próprio assumiu publicamente que suspeitava que o seu telemóvel estivesse sob escuta da polícia, porque ouvia, amiudadas vezes, barulhos desconformes enquanto falava. Outros exemplos poderiam ser considerados, os quais resultam, como ponto de convergência, num sentimento de insegurança para os cidadãos cada vez mais premente.
Com o caso ultimamente relatado na imprensa de uma suposta fraude envolvendo um ministro português (do tempo de António Guterres), relacionado com o chamado "caso Freeport", Pinto Monteiro apressa-se, desde logo, a afirmar que, até ao momento não existem indícios do envolvimento de qualquer ministro português, nem do actual nem de anteriores governos, em eventuais crimes de corrupção no âmbito deste processo.
Como se sabe, foi uma investigação das autoridades judiciais do Reino Unido que despoletou uma eventual onda criminal relacionado com o licenciamento da construção do espaço comercial de Alcochete, em que são elencados vários suspeitos, desde autarcas, os inevitáveis construtores, advogados, acabando no referido ministro. Tudo feito, segundo o semanário Sol, através das tradicionais "luvas" e dos não menos acostumados "off shores", expressões tão prodigiosamente seguidas do neoliberalismo e do capitalismo que nos conduziram ao abismo económico-financeiro em que agora nos encontramos.
Por tudo isto, estranha-se (mas não se consegue entranhar) que Pinto Monteiro proclame que não existem indícios. O senhor Procurador-Geral da República deveria saber que este tipo de informações já constitui um indício. Na verdade, não estamos a falar de notícias de jornais (o que já seria relevante). O que está aqui em causa é uma investigação judicial que foi noticiada pela imprensa. Sem colocar em causa, obviamente, a presunção de inocência a que qualquer cidadão tem direito, o senhor Pinto Monteiro deveria, antes de mais, agir em conformidade com outras situações por ele abraçadas como quando, por exemplo, pediu à Ministra da Educação para não minimizar a violência nas escolas, ao ponto de afiançar que vai preocupar-se com "cada caso de um miúdo que dê um pontapé num professor ou lhe risque o carro [por não querer que se viva] um sentimento de impunidade nas escolas [e que] quanto à escola, ao nível penal, deve existir tolerância zero".
Convém, portanto, que Pinto Monteiro seja mais coerente nas suas tomadas de posições públicas. Tudo para que alguém que tem como função primeira lutar contra certas anomalias da justiça em prol dos cidadãos, não se torne, ele próprio, uma mera irregularidade.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes em 15/01/2009)

sábado, janeiro 10, 2009

a recessão

José Sócrates deu uma entrevista à SIC. Não a televisionei, mas li sobre o que dela disseram. A ideia, mais ou menos generalizada, é a de que o primeiro-ministro esteve bem e que os jornalistas, desta vez, foram demasiadamente agressivos e opinativos, contrastando, aliás, com a benevolência comunicativa com que Sócrates foi entrevistado há uns meses atrás (Ricardo Costa, que frisou, um dia, que trata o ministro por tu -? -, foi repetente). Com efeito, os jornalistas não devem ser uma coisa nem outra, isto é, a única preocupação que os devem nortear é a de neutralidade na informação que transmitem. Por conseguinte, as suas posturas profissionais não devem sugerir que estão a fazer oposição, como também não devem indiciar que são compagnons de route de quem quer que seja. Seria bom que assim fosse, para que os cidadãos pudessem ser cabalmente esclarecidos.
Também por isso, estranhei que praticamente toda a comunicação social fizesse eco da assumpção de José Sócrates relativamente à crise, pronunciando a palavrinha inoportuna e quase proibida "recessão". Afinal, o país está em recessão. Perdão, segundo o primeiro-ministro, "o cenário cada vez mais provável é o de entrarmos em recessão". Quer isto dizer, portanto, que ainda não estamos em recessão. Estranhamente, não foi preciso a máquina aparelhística do PS trabalhar muito para que a humildade extraordinária de Sócrates fizesse primeiras páginas dos jornais e das televisões. O embalo foi geral, mesmo na oposição, a qual, muitas vezes, fica atordoada e vai à boleia com os média.
Ora, o que toda a gente aplaude, eu vaio. E vaio por que me senti enganado ao longo de seis meses, quando havia promessas de crescimento ou, pelo menos, de um controlo da situação (ao ponto do governo não aceitar um orçamento rectificativo), quando, afinal, estamos já em recessão há mais de seis meses! De facto, segundo o Banco de Portugal, a economia portuguesa entrou em recessão técnica a partir da segunda metade de 2008, através da contracção do Produto Interno Bruto (PIB) por dois trimestres consecutivos, tendo mesmo registado um comportamento muito negativo nos últimos três meses do ano, com indicadores "muito negativos" que apontavam para uma evolução "fortemente negativa da economia" nesse período.
Ora, todo este ludíbrio é de somenos importância para a generalidade dos comentadores. Na verdade, José Sócrates já construiu uma plataforma imagética de tal eficiência que um simples gesto de humildade se transforme num acontecimento nacional.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

a retórica de sócrates

É este tipo de paleio que encaixa mal num primeiro-ministro de um país civilizadamente normal.
A respeito dos programas de estágios profissionais no estrangeiro INOV-ART e INOV-MUNDOS (estes nomes... estes nomes...) José Sócrates taramelou isto:
"É isso que estamos aqui a fazer: dar mais oportunidades aos jovens no domínio da cultura e para que afirmem internacionalmente o nome de Portugal";
e mais isto:
"com estes dois programas damos um bom contributo para a melhoria da política externa, para a melhoria da política cultural e para que Portugal seja um país de oportunidades para os jovens";
e isto:
"[queremos] um país que dá a todos os seus cidadãos oportunidades para se realizarem, para serem felizes, para fazerem aquilo de que gostam" [para que] todos desenvolvam o seu potencial. É essa a nossa aspiração";
desejando que:
"[os jovens portugueses] se formem no desafio e na exigência da economia global e que alarguem os seus quadros mentais";
pois:
"Portugal só foi grande quando foi universal";
finalizando:
"dá-se um passo sem retorno para que jovens artistas em Portugal saibam que têm um país que olha para eles, que percebe a importância que eles têm".
Decididamente, é muito difícil não gostarmos de uma pessoa assim, ou melhor, não votarmos numa pessoa de tão longo alcance visionário!...

quinta-feira, janeiro 08, 2009

o voto contra de duas deputadas do ps (parte segunda)

Afinal, as senhoras deputadas não entendem muito bom as mensagens subliminares. Foi mesmo preciso a presença do ministro Santos Silva na Assembleia para a realidade nua e crua duma suposta coerência de princípios emergir do limbo destas cabecinhas. Repare-se no imbecilismo do argumento justificativo que uma destas senhoras (Eugénia Alho e Júlia Caré) protagonizou: "Sou a favor da suspensão da avaliação dos professores, mas não estou disponível para salvar a face do PSD. Vou assumir uma posição sem abdicar dos meus princípios".

o voto contra de duas deputadas do ps

Mesmo a jeito daquilo que escrevi em baixo relativamente à atitude fiscalizadora do parlamento. Eu explico: a respeito dos dois votos a favor do projecto do PSD sobre a suspensão da avaliação dos professores, protagonizadas por duas deputadas do PS, Alberto Martins (líder da bancada da maioria) frisou, circunspecto, o valor da "liberdade de opinião", adiantando, todavia, que esta atitude não deixa de constituir um claro "erro político". Não satisfeito, lembrou, candidamente, um outro aspecto: o da "responsabilidade individual".
Será que Eugénia Alho e Júlia Caré (Manuel Alegre, estranhamente - ou talvez não - absteve-se) - as duas inconvenientes deputadas - terão capacidade de entendimento de mensagens subliminares?!...

o desafio de manuela ferreira leite

Manuela Ferreira Leite fez bem em desafiar o primeiro-ministro para um debate público na televisão sobre a situação económica nacional e internacional; José Sócrates esteve mal ao ter delegado a resposta para Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares, ainda por cima com o argumento raquítico de que o debate se apresenta na Assembleia da República, que é o órgão de fiscalização política do executivo e da democracia". Acrescentou ainda, cinicamente, "que este mês, o primeiro-ministro terá debates nos dias 14 e 28. Debate com todos os partidos políticos e com os respectivos líderes. Não é uma responsabilidade do Governo o facto de a drª Manuela Ferreira Leite não ser deputada do PSD".
Deivia estar caladinho Santos Silva. O parlamento não é, nos dias de hoje, órgão de fiscalização. Nem da democracia nem de coisa alguma.

terça-feira, janeiro 06, 2009

o futebol português

Viajava e ouvia o relato do Trofense - Benfica. A equipa visitada ganhou por 2-0, como, aliás, todo o país sabe. O jogo acabou e seguiram-se as análises imbecis dos comentadores desportivos. Quem não conhecesse a realidade portuguesa, julgaria estar perante uma infame derrota nas competições europeias de um clube português. Com efeito, os senhores da bola passaram 45 minutos a analisar (!) as tácticas, os jogadores, o treinador, os treinos, o antes, o muito antes, o ano passado, o amanhã, o depois de amanhã... de um clube: o Benfica. O Trofense, coitado, nem a uma gota de afectação teve direito. O Benfica perdeu e a culpa é de todos menos do Trofense, que foi melhor.
Mais uma nota para os comentadores desportivos: vejam os outros campeonatos e digam um que seja mais competitivo do que o português.
Por último, para aqueles que aceitam com gáudio a redução de equipas no primeiro campeonato: o último (e um sério candidato à descida) ganhou ao primeiro (um sério candidato ao primeiro lugar).

as previsões do banco de portugal

Se as putativas previsões de Inverno do Banco de Portugal estiverem certas, uma coisa se releva: o crescimento previsto para 2010 não conseguirá suplantar o crescimento negativo (estranho eufemismo), tanto no Produto Interno Bruto (0,8% para 0,3 em 2010), como também nas exportações (cairão 3,6% em 2009). Daí que no final de 2010 o país não estará melhor. Pelo contrário, dá três passos atrás e um para a frente. Aliás, já andamos às arrecuas desde há seis meses, com também salientaram, neste relatório de Inverno, os senhores do Banco de Portugal. Neste caso concreto, a máxima do João Pinto, materializou-se: "prognósticos só no final do jogo".

segunda-feira, janeiro 05, 2009

brincando à educação

É daquelas em que custa acreditar. O secretário de estado Jorge Pedreira revelou que o o ministério está a ponderar retirar a proposta sobre concursos de colocação de professores. Tudo porque os sindicatos (ainda) não desconvocaram a greve do dia 19 de Janeiro. Trata-se das bonificações decorrentes das classificações de Muito Bom e Excelente. Ou seja: o que antes contava para efeitos de concurso (os professores com estas classificações seriam bonificados) deixou de ter qualquer importância para, agora, se retomar o que antes o ministério da educação achou por bem desobrigar. É simplesmente mais um episódio lamentável desta estranhíssima equipa que tutela a educação do país. Não só é revelador da manifesta incapacidade estrutural destas personagens, como também nos ajuda a conhecer com maior domínio as intrigantes veredas das suas personalidades.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

a banca (acrescentamento)

Em relação ao último post de 2008, quero precisar o seguinte: as palavras que orientam a missiva do banco são as seguintes: "A partir de 1/02/2009 passarão a ser cobradas as seguintes comissões: 5 euros, acrescidos de 4% de imposto de selo, por cada dia que a conta à ordem se encontre em situação de descoberto acidental; comissão de 20 euros, acrescida de 4% de imposto de selo, por cada cheque pago sem que a conta à ordem esteja devidamente aprovisionada."
Ao ler estas palavras recordei a figurinha do presidente do BPI no programa Prós e Contras, quando notou que o seu banco respira uma saúde invejável, através, entre outras coisas, dos investimentos na banca angolana (eu penso que deve ser o oposto, como se viu com a aquisição de 9,69% das acções que o MillenniumBCP possuía do banco liderado por Fernando Ulrich, por Isabel dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos, presidente de Angola). Na verdade, não se compreende (e o governo aqui deveria ter uma palavra de afirmação, pois a alteração dos códigos de conduta éticos tem que passar de forma eficaz pelo Estado) como é que esta gente continua a sua senda de exploração dos mais fracos.
Tudo isto conduz-nos a uma infeliz reflexão, a qual passa pela evidência que, afinal, a tão desejada e proclamada mudança ética não passará de uma evidência entristecida, isto é, mais do mesmo.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

a ironia de vasco graça moura

Vasco Graça Moura resolveu terminar o ano com um artigo telegráfico publicado no DN, no qual expõe o falhanço deste governo. Falhanço esse que, segundo o escritor, se patenteia em toda a linha, desde a justiça, passando pela saúde e educação, índices de desenvolvimento e solidariedade, carga fiscal e investimento privado, finanças e economia, etc. Mas a ironia vem mesmo no final, quando diz: "É patente que este Governo não serve. Se não serve, há que substituí-lo o mais depressa possível. O PSD tem de garantir que isso vai acontecer. De resto, só o PSD tem condições para fazê-lo".
Será que, de Bruxelas, Vasco Graça Moura segue, com a dose de realidade necessária, o PSD?

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...