quinta-feira, abril 23, 2009

a escolaridade obrigatória (2)

Para o meu caro leitor anónimo, o que eu quis dizer com um "amplo e prolongado debate" foi tão-somente o seguinte: chega de medidas avulsas. Esta medida - positiva no seu enquadramento idealista - necessita, primeiro, de alterações no espectro curricular. A ideia do leitor anónimo encerra, já em si, esse paradigma. Estamos, pois de acordo.

a escolaridade obrigatória

A questão da escolaridade obrigatória até ao 12º ano não está, em si mesma, mal. O que de facto se deve interrogativamete esboçar diz respeito à oportunidade de tal medida, nesta altura de eleições sucessivas. Mais uma vez, é uma medida avulsa para a educação, sem sabermos que resultados concretos – para além do que é óbvio, isto é, a afirmação orgulhosa duma escolaridade obrigatória de doze anos –, esta medida proporcionará, do ponto de vista duma efectiva reestruturação dos currículos de todos os níveis de ensino. Com efeito, o alargamento da escolaridade obrigatória até ao último ano que precede a universidade deveria ser antecedida de um amplo e prolongado debate sobre o ensino.

terça-feira, abril 21, 2009

o navio que não serve

Vi agora uma comissão de trabalhadores do estaleiro de Viana do Castelo a insurgir-se contra a não-aceitação do navio que a empresa projectou para o Governo Regional dos Açores. Ao que parece, e a crer nas palavras dos trabalhadores, o que motivou esta atitude do governo de Carlos César foi o incumprimento de um dos pontos contratualizados, o qual se liga à velocidade de ponta do barco. Ou seja: o navio não consegue atingir os trinta e tal quilómetros por hora. Em vez disso, fica dois ou três quilómetros por hora abaixo do contratualizado. Afirmam eles, justamente indignados e com visível orgulho no trabalho que desenvolveram, que todo o navio foi projectado tendo em conta a especificidade daquele mar e dos portos açorianos. Neste sentido, sublinham a capacidade excepcional de "manobragem" da embarcação. Não quer, pois, saber, Carlos César. Dois ou três quilómetros por hora fazem, na cabeça deste açoriano, uma grande diferença (as viagens entre as ilhas, com este barco, não durariam mais do que vinte minutos). Para estes senhores, a crise é uma palavra vã. Repito: dois ou três quilómetros por hora é a fronteira que separa a devolução (e a introdução de um inevitável regime de escassez financeira na empresa, o que poderá ter consequências desastrosas para a vida dos trabalhadores) dos trinta e tal milhões de euros e a entrega do navio ao Governo Regional dos Açores.
Gostei de ver e ouvir a ufania com que os trabalhadores falaram da embarcação. "É uma maravilha de navio", disseram, repetidamente.

paridade e autenticidade

O debate de último Prós e Contras da RTP trouxe à discussão um ponto importante, o qual foi levantado pelo CDS-PP, que é a questão da paridade e da autenticidade da lista do PS às eleições europeias. O articulado do CDS pode resumir-se ao seguinte: Elisa Ferreira e Edite Estrela são, simultaneamente, candidatas a autarquias (Porto e Sintra, respectivamente) e a deputadas ao Parlamento Europeu. Ora, para além do que parece, desde logo, de uma plena elementaridade racional – a de concorrerem a dois lugares – o que poderá constituir uma espécie de corrupção legalizada (concorrem sabendo que não vão cumprir um dos lugares, ou, se quisermos colocar as coisas noutro diapasão, parece que o importante aqui é tratar da vidinha pessoal, do tipo, se não for eleita presidente de Câmara, sempre fico com um belíssimo ordenado como deputada), este tipo de artimanha defrauda por completo a chamada lei da paridade, que, pela primeira vez, é obrigatória na lista de deputados dos diversos partidos concorrentes. Daí que não podemos deixar de dar razão a Vital Moreira, que, na sua inexplicável e suposta candura, disse: "querem mais autenticidade do que dizerem que vão candidatar-se às duas eleições? Isso é transparência e autenticidade".
Pois é: transparência, autenticidade e logro político.

(publicado no jornal Público, em 28/04/2009)

domingo, abril 19, 2009

Portugal modernaço


Esta é uma imagem do Portugal modernaço. Ao lado de um painel luminoso, no centro de uma cidade algarvia, coabita, desavergonhadamente, uma casa a cair de podridão. Quando se aposta de forma insistente e orgulhosa nas melhores formas de sair da crise, e quando estas recaiem, essencialmente, em investimento público (imediato), dever-se-ia olhar para este tipo de intervenções.

É, com efeito, um dos males de Portugal e destes governantes a ausência perversa de uma ecologia urbana. O que se tem vindo a passar, a este nível, é verdadeiramente criminoso. Em nome do modernaço, cidades perderam identidade. O que era, deixou de ser. É um inventário que ainda está por fazer. Todavia, como em muitas coisas - como esta casa, por exemplo - chegar-se-á tarde de mais.

sexta-feira, abril 17, 2009

nacionalismo e patriotismo

Mais do que uma mera divergência resultante do (des)apoio a Durão Barroso para um novo mandato à frente da Comissão Europeia, o que verdadeiramente sobressai desta contradição entre Sócrates e Mário Soares tem a ver, sobretudo, com dois modos distintos de estar na política. Obviamente que outros factores relevantes devem ser considerados, como, por exemplo, a espessura ideológica e cultural de cada um. Para o primeiro, é o pragmatismo que conta; para o segundo, são os princípios. E aqui não podemos deixar de relacionar esta atitude de Sócrates (que ele erradamente apelidou de patriótica, como tão bem demonstrou Soares) com a crise que presentemente atravessamos. Ora, sabendo que todo este momento histórico tem por base uma forte componente funcionalista e liberal, em que praticamente deixou de contar, no concerto das relações internacionais (e também nacionais), princípios éticos e morais, os quais deveriam colocar, acima de qualquer globalização de mercado, o ser humano em toda a sua plenitude social (direitos e deveres), José Sócrates, ao apoiar, assim, Durão Barroso (o tal que renegou o nobre - e patriótico, sem ironia - exercício de chefiar um governo no seu país para ir para Bruxelas tratar da sua vidinha), demonstra que nada aprendeu com o terramoto socio-económico que se verificou nos últimos meses. Para ele, continua, portanto, a contar o pragmatismo, o funcionalismo político, o qual se pode resumir numa das expressões mais célebres que a actual conjuntura produziu: "porreiro, pá!"

(esboço do artigo publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes, em 23/04/2009)

quinta-feira, abril 16, 2009

educação: as novas propostas

É sempre curioso verificar a atitude titubeante deste ministério da educação. Diz agora que recua em algumas propostas caso os sindicatos parem com o clima de contestação. Propõe-se até criar um novo escalão para os professores que se encontram no topo da carreira. Ao mesmo tempo, retiram (ou alteram) a limitação de vagas para professor titular (com sinceridade, ainda não consegui perceber o que acrescenta, para as escolas e para a educação, um professor titular). Diz ainda Jorge Pedreira, deslumbrado e desafiador, que até podem ir mais longe. Ora, sabendo que não se encontram no topo da carreira os reais problemas da classe docente, não se percebe a invenção de mais um escalão. Claro que do ponto de vista negocial faz sentido, ainda para mais quando se conhece a apetência dos sindicatos para este tipo de escalonamento profissional.

(publicado no jornal Público, em 18/04/2009)

visitas de estudo em escolas públicas

Sabemos que os professores andam num rebuliço avaliativo. Daí que se apresentem, actualmente nas escolas, diversas formas de acolhimento de estratégias com um único fito: mostrar (possivelmente à comunidade escolar) que se é um professor dinâmico, com intervenções em actividades várias (cortejo de carnaval, dia dos namorados, projectos electrão, dias disto e daquilo, visitas de estudo, etc.). Ou seja: mostrar trabalho, mesmo que este pouco ou nada tenha a ver com a sala de aula, lugar privilegiado de qualquer relação pedagógico-didáctica. É precisamente nas visitas de estudo que quero, por ora, situar-me. Observo um exemplo: uma visita de estudo à Serra da Estrela que engloba todos os alunos (e não são muitos) do sexto ano de escolaridade (10-12 anos de idade). O meio socioeconómico é de pobreza. Muitos meninos e meninas desta faixa etária fazem mesmo a única refeição decente durante o dia na cantina da escola. Todos eles querem ir à Serra da Estrela, claro. Há lá ainda neve e muitos nunca viram esse manto branco. Só em livros e na televisão. Acontece que essa viagem, organizada pela professora de Religião Moral e Católica (!) da Escola, está estruturada como se de uma agência de viagens se tratasse. Os alunos - todos - têm de pagar 80 euros. O processo de exclusão social e económica destas crianças e dos seus encarregados de educação começa logo no momento em que um papel é distribuído aos alunos para que estes, por sua vez, os dêem aos pais ou encarregados de educação para que estes assinem a respectiva autorização. Pergunto: como é possível uma escola pública introduzir, dentro da sua comunidade, tal situação? Respondem-me, cândida e vagamente, que os alunos que usufruem dos escalões A e B serão reembolsados total ou parcialmente. Não sei se será essa a realidade. Penso mesmo que não. De qualquer modo, não me parece que estes alunos tenham encarregados de educação que possam disponibilizar cerca de 100 euros para uma viagem à Serra da Estrela.
A escola pública é um lugar, por definição, proporcionador de igualdades e de liberdades. Por isso mesmo, este tipo de actividades, estruturadas desta maneira, deveria ser, simplesmente proibida. É que não consigo vislumbrar nenhum aspecto positivo, nem para os que vão (que não têm culpa nenhuma nisto), nem muito menos para os que ficam. Antes pelo contrário, nos que vão, gera-se um processo gradativo de dessensibilização que nunca deveria ser desenvolvido num espaço escolar; os que não vão, ficam certamente revoltados pelo facto não só de não irem, mas, principalmente, por não poderem ir. Ainda para mais quando não fizeram nada para que isso acontecesse. Num Portugal que se quer civilizado e moderno (e, já agora, europeu), jamais um aluno deverá deixar de ir a uma visita de estudo por dificuldades económicas. Tão simples como isso.

(publicado no jornal Público, em 17/04/2009)

quarta-feira, abril 15, 2009

as mordaças

Sempre mais do mesmo. É sempre uma questão de afirmação. De um lado, o candidato Paulo Rangel atiçando com o putativo autoritarismo do actual governo, afirmando que não se calará, mesmo que à força de mordaças invisíveis. Do outro lado, Vital Moreira a transportar o debate para as mordaças reais do Estado Novo. Uma pergunta: o que é que isso interessa?

terça-feira, abril 14, 2009

os cabeças de lista

O PSD foi, como se sabe, o último partido a apresentar o cabeça de lista para as eleições ao Parlamento Europeu. Como também se sabe, foram muitas as congeminações jornalísticas e partidárias sobre o assunto. Sinceramente, não me interessa nada sobre nenhum cabeça de lista de qualquer partido. O que eu gostaria de conhecer, com igual aparato mediático, são aqueles outros que se mantêm em lugares elegíveis e que, por isso mesmo, podem ir parar ao Parlamento Europeu sem nunca terem feito nada para isso. Nada, fora do partido, é claro.

uma esquerda estúpida

Ilda Figueiredo, cabeça de lista do PCP às eleições europeias, defende a luta do seu partido no sentido de eleger o terceiro deputado para o Parlamento Europeu. Nada mais natural e legítimo. Porém, questionada, reiteradamente, pelos jornalistas sobre um dos possíveis cenários pós eleitorais, ou seja, a eventual não eleição do terceiro deputado, a deputada responde, lacónica, que não quer sequer ouvir falar da hipótese de a coligação obter um resultado inferior aos três eurodeputados e que "quem vai decidir é o povo português". Adiante, confrontada pelo que disse há quatro ou cinco anos, quando afirmou que este seria o seu último mandato, Ilda Figueiredo respondeu que o importante são as eleições de 7 de Junho e que não se lembra de ter dito tal coisa (um disparate, presume-se nas suas palavras), mas que "a vida é assim, é uma dinâmica". Uma dinâmica! Curioso o uso deste vocábulo num partido como o PCP, que é, indubitavelmente, o partido mais preso a concepções passadistas. Na verdade, Ilda Figueiredo não podia ser menos dinâmica (no sentido psicologista do termo) com esta sua asserção, a qual denota uma concepção ideológico-discursiva ultrapassada.
O segundo exemplo que quero abordar diz respeito à extraordinária ideia de uma petição que defende uma "convergência de esquerda nas eleições para Lisboa", que não é mais do que uma frente anti-Santana Lopes. Parece que os inspiradores da coisa foram Jorge Sampaio e José Saramago. Sinceramente, não consigo entender a lógica de tal extravagante ideia, ainda para mais quando, a haver uma coligação, o candidato primeiro seria António Costa, que já provou que não tem jeitinho nenhum para autarca. Por que não Ruben de Carvalho, que já é, aliás, o candidato apurado pela CDU? Não entendem os promotores desta coligação estapafúrdia que com este tipo de iniciativas, só estão a dar mais força de vitória a Santana Lopes?
De qualquer modo, realça-se, nestes dois exemplos, que afinal não é só a direita portuguesa que anda em crise de identidade. Quanto a Ilda Figueiredo, estamos conversados. Em relação à petição, ela evoca o reconhecimento de uma não-aceitação natural em torno do actual presidente da Câmara de Lisboa. É que, se assim não fosse, não seriam necessários estes tipos de iniciativas.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes, em 16/04/2009)

domingo, abril 05, 2009

a visita de obama à europa

Acompanho com relativo distanciamento a visita de Obama à Europa. Daí que uma das coisas que me proporciona maior curiosidade tem a ver com o total apagamento da União Europeia. Alguém tem visto Durão Barroso, legítimo representante da instituição? Pelo contrário, o que se tem visto, com maior intensidade mediática, tem sido precisamente líderes dos respectivos países, sempre com os inevitáveis Sarkosy e Merkel à cabeça de uma suposta Europa unida. Será que foi para isto que Barroso mereceu, por parte desta gente, uma confiança renovada para um novo mandato?

quinta-feira, abril 02, 2009

(Vou fazer um intervalo aqui no blogue durante mais ou menos quinze dias. De qualquer modo, sempre que puder dar umas salpicadas, não vou deixar de o fazer. Até lá.)

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...