quinta-feira, abril 16, 2009

visitas de estudo em escolas públicas

Sabemos que os professores andam num rebuliço avaliativo. Daí que se apresentem, actualmente nas escolas, diversas formas de acolhimento de estratégias com um único fito: mostrar (possivelmente à comunidade escolar) que se é um professor dinâmico, com intervenções em actividades várias (cortejo de carnaval, dia dos namorados, projectos electrão, dias disto e daquilo, visitas de estudo, etc.). Ou seja: mostrar trabalho, mesmo que este pouco ou nada tenha a ver com a sala de aula, lugar privilegiado de qualquer relação pedagógico-didáctica. É precisamente nas visitas de estudo que quero, por ora, situar-me. Observo um exemplo: uma visita de estudo à Serra da Estrela que engloba todos os alunos (e não são muitos) do sexto ano de escolaridade (10-12 anos de idade). O meio socioeconómico é de pobreza. Muitos meninos e meninas desta faixa etária fazem mesmo a única refeição decente durante o dia na cantina da escola. Todos eles querem ir à Serra da Estrela, claro. Há lá ainda neve e muitos nunca viram esse manto branco. Só em livros e na televisão. Acontece que essa viagem, organizada pela professora de Religião Moral e Católica (!) da Escola, está estruturada como se de uma agência de viagens se tratasse. Os alunos - todos - têm de pagar 80 euros. O processo de exclusão social e económica destas crianças e dos seus encarregados de educação começa logo no momento em que um papel é distribuído aos alunos para que estes, por sua vez, os dêem aos pais ou encarregados de educação para que estes assinem a respectiva autorização. Pergunto: como é possível uma escola pública introduzir, dentro da sua comunidade, tal situação? Respondem-me, cândida e vagamente, que os alunos que usufruem dos escalões A e B serão reembolsados total ou parcialmente. Não sei se será essa a realidade. Penso mesmo que não. De qualquer modo, não me parece que estes alunos tenham encarregados de educação que possam disponibilizar cerca de 100 euros para uma viagem à Serra da Estrela.
A escola pública é um lugar, por definição, proporcionador de igualdades e de liberdades. Por isso mesmo, este tipo de actividades, estruturadas desta maneira, deveria ser, simplesmente proibida. É que não consigo vislumbrar nenhum aspecto positivo, nem para os que vão (que não têm culpa nenhuma nisto), nem muito menos para os que ficam. Antes pelo contrário, nos que vão, gera-se um processo gradativo de dessensibilização que nunca deveria ser desenvolvido num espaço escolar; os que não vão, ficam certamente revoltados pelo facto não só de não irem, mas, principalmente, por não poderem ir. Ainda para mais quando não fizeram nada para que isso acontecesse. Num Portugal que se quer civilizado e moderno (e, já agora, europeu), jamais um aluno deverá deixar de ir a uma visita de estudo por dificuldades económicas. Tão simples como isso.

(publicado no jornal Público, em 17/04/2009)

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