segunda-feira, janeiro 31, 2011

o prós e contras da educação

O que sai dali, daquela cabecinha da ministra é pouco mais que nada. É o eloquente paradigma das vacuidades argumentativa e expositiva. A refundação educativa - aquilo que não está em jogo no debate - passa quase exclusivamente por ilusórios e excessivos pormenores que mais não são do que meros danos (ou ganhos, consoante o ponto de vista) colaterais.

domingo, janeiro 30, 2011

conselho nacional do ps e o porta-voz

O Conselho Nacional do Partido Socialista reuniu hoje com uma ordem de trabalhos que passava, inevitavelmente, pela análise dos resultados presidenciais. O porta-voz do partido, que antigamente era Vitalino Canas e agora se chama Fernando Medina, salientou, sabiamente, aquilo que estava já escrito há muito, não sei se nas estrelas, se na cabeça de José Sócrates desde a vencida noite eleitoral: o povo, na sua venturosa sapiência e serenidade, optou pela estabilidade e condenou exemplarmente as mudanças na ordem política nacional. O que aí vem, adiantou, exemplarmente, o porta-voz, não se compadece com resoluções disjuntadas. O povo tem, portanto, como se sabe, sempre razão nestas coisas.
O que é deveras interessante nestas reuniões reside precisamente na total ausência de problematização, essência primeira de respostas lógicas e frutuosas. É que o que foi concluído na reunião da Comissão Nacional do Partido Socialista - órgão composto por dezenas de individualidades - foi, ipsis verbis, o que dissera, porventura ainda a quente, Sócrates na noite eleitoral. Faz, pois, todo o sentido questionarmos a real vocação de um órgão de debate interno dentro de um partido político, se ele não faz mais do que papaguear o que por sua vez havia papagueado o seu líder, por muito carismático que este seja, por muito inebriante seja também o diáfano manto da fantasia do poder. O que realmente podemos aferir destas infelizes e inócuas reuniões, é tão só o péssimo serviço que esta gente presta à causa democrática, para além, obviamente, de não entenderem a urgência de uma mudança neste pastoso modus faciendi da política partidária nacional.
Para além disto tudo, ouvindo e acreditando nesta tese da estabilidade, sou levado a concluir que, afinal, o PS e Sócrates votaram em Cavaco Silva. E as razões são óbvias.

Adenda: ouvi também hoje Francisco Assis afirmar que o governo não irá ser um destabilizador político e social. Que eu saiba, Assis não faz parte do Conselho de Ministros.

sábado, janeiro 29, 2011

sócrates, santos silva e a hipocrisia politicamente acostumada

Cúmulo da hipocrisia 1: ter ouvido hoje José Sócrates dizer que o grande projeto para Portugal é a aposta na educação. E afirmou-o assim, desavergonhada e libertinamente: "aqui está o grande projeto nacional. Esta época vai ficar marcada pela aposta na educação".
Cúmulo da hipocrisia 2: ter lido no Sol que Santos Silva, o ministro da defesa, afirmou, desassombrado, que o governo sempre teve as melhores relações com o presidente da República e, para além disso, teve mesmo a honra e o orgulho de com ele trabalhar. Di-lo assim: "a cooperação tem sido excelente, as relações são as institucionalmente corretas e adequadas e o país tem beneficiado muito desse bom relacionamento".

sexta-feira, janeiro 28, 2011

a não demissão do ministro e os votos que não chegaram a ser

É também nestas coisas que se afere a qualidade da democracia de um país. Nas últimas eleições presidenciais, milhares de cidadãos não puderam votar. Tudo por existir incongruências entre o local de voto e o simplificado cartão de cidadão. O voto é, em democracia, a única arma democrática que o cidadão comum possui para alterar o estado das coisas. É, digamos, a vertente sacra da democracia. O ministro que tutela estas coisas, o sr. Pereira da Administração Interna, adiantou desde logo que jamais equacionou demitir-se do seu cargo. Com gente assim não vamos a lado nenhum. Será que os últimos demissionários honrados da política foram Guterres, Jorge Coelho e António Vitorino?

o congresso e o ps e o país

Um novo congresso socialista nascerá brevemente. De novo, ouvir-se-ão novos amanhãs que, desbragadamente, cantarão. Ainda bem. O que irá estar mal será a indagação da incapacidade deste PS (realisticamente: qualquer partido em Portugal) de se autoregenerar estando ainda montado no poder, mesmo que este não passe de meras e fátuas aparências. A tão proclamada qualidade da democracia mede-se também por estas coisas.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

recados do ministro

O sr. Silva Pereira deu hoje o mote numa entrevista à Renascença: Cavaco Silva foi reeleito com a menor percentagem de participação de sempre e que no atual contexto político, o presidente tem de ter uma atitude de preservação da estabilidade. Deste modo, o ministro da presidência definiu, desde já, o que espera para 2011: a dissolução, via presidência, da Assembleia da República. Tudo em nome, claro, duma profícua e enobrecida vitimização. E, sendo Sócrates como é, mais uma campanhazita negra não deixava de dar um jeitaço. O problema é que Cavaco Silva também é doutorado (tirando a respeitosa cátedra de finanças públicas, obviamente, coisa de que o primeiro não se pode engrandecer) em efabulações negregosas.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

fenprof

Há um sindicato que confude o trigo com o joio, o remédio com a cura. Chama-se FENPROF. Feito de pessoas trabalhadoras, contestatárias na sua essência personalista, a FENPROF pensa que é disto que se faz um verdadeiro sindicato das coisas da educação. Engana-se redondamente.

a estabilidade

Igualmente interessante foi o discurso airoso de Sócrates na ventosa noite eleitoral. Disse o primeiro-ministro que os portugueses foram claros: optaram, na sua sabedoria popular, pela estabilidade, que é como quem diz: eu também sou um dos anunciadores (e fazedores) da estabilidade no nosso amado país. Faltou somente afirmar, descomplexado, que votou em Cavaco. Tudo em nome da tal estabilidade.

o cavaquinho

Cavaco não foi mais do que um cavaquinho na sua noite vitoriosa. Tornar a repetir os remoques da campanha (a sua famigerada expressão "vil baixeza" fez, no seu ressabiado entendimento, um opinante percurso), não engradeceu o político, o homem e, muito menos, o presidente da República. Estamos, assim, condenados, durante o próximo lustro, a mais destas coisas. Estou propenso a crer que o verdadeiro Cavaco Silva, isto é, aquele que encarna uma certa rasa portugalidade (rasa no seu sentido mais epistemológico), surgirá, inevitavelmente, em pleno no seu próximo consulado presidencialista.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

o que vai mudar?

A pergunta ocorreu-me ao ver um debate na RTP. Foi o comentador do PCP que a colocou. Tem, a meu ver, razão de ser. De entre os cenários pós-presidenciais, o mais provável é a vitória de Cavaco Silva. Irá Cavaco ser, do ponto de vista da sua ação política, diferente do que foi o seu primeiro mandato? Fará sentido a sua autoproclamada metamorfose para uma magistratura ativa (de intervenção?). Será isso que é isso que desejam os seus eleitores? Será também isso o anseio de Passos Coelho?
Apenas uma nota final: a conversa do professor Cavaco Silva como brilhante economista enjoa (temos um homem na presidência que é um brilhante economista, professor de finanças, diz-se, por aí, amiúde, como se o povo português andasse desesperado à procura de brilhantes economistas. Destes há-os para aí aos montes...)
Outra pequena anotação: Mário Soares presidente disse um dia que só tinha percebido uma qualquer questão económica quando viu o Peres Metello explicá-la com simplicidade na televisão. Era Cavaco primeiro-ministro. Outros tempos!...

quarta-feira, janeiro 19, 2011

os candidatos do regime

As repisadas declarações de Cavaco Silva que anunciam um estado de sítio se não for ele o eleito para o leme da nação (o caos... o caos...), ou os custos monetários de uma segunda volta, ou ainda a impreparação dos adversários (o caos, outra vez...) têm um interessante paralelo perlocutório quando Manuel Alegre afirma, garbosamente, que o que está em causa no próximo domingo é a democracia ("luta de vida ou de morte para a democracia", ou seja: o caos...).
Estamos perante duas formas de fazer ou viver a política que me parecem esgotadas ou, quando muito, a breve prazo inoperantes. Neste sentido, tem aparente razão Francisco Lopes quando advoga que tanto Manuel Alegre como Cavaco Silva têm um similar percurso "de décadas que comprometeram o país". Acontece que o candidato comunista não será propriamente uma roupagem nova da nossa política. Do mesmo modo, ele também encarna o tipo de candidato do regime.

o futuro défice da educação

Gostaria que os candidatos do arco do poder - Alegre e Cavaco - me repondessem a uma simples e honesta questão: de que modo é que o sistema educativo irá funcionar, no próximo ano letivo, com um corte de 800 (leram bem: 800) milhões de euros?

segunda-feira, janeiro 17, 2011

mau serviço

Revela-se importante esclarecermos que presidente queremos para o país e não andarmos de cinco em cinco anos a discutir o mesmo. Soares era acusado, por parte dos cavaquistas, de intervir em excesso, isto é, de opinar critica e sistematicamente. Santos Silva vem agora tentar reduzir os poderes do presidente Cavaco, remetendo-o para aquilo que Soares nunca foi nem nunca aceitou ser. Tudo porque quem está no governo é o PS. Se por acaso tivéssemos um governo PSD, o discurso seria necessariamente outro. E são estas coisas que toldam o raciocínio político não só dos agentes mas também dos pacientes.

desemprego - o pior já passou

Vi de relance o título em qualquer sítio: já passou o pior relativamente ao desemprego. Logo de imediato, vislumbrei que esta estatística mental só poderia ter saído duma cabecinha costumeira nestas enormidades: Walter Lemos. Não me enganei.

domingo, janeiro 16, 2011

a alegre campanha

Como é hábito nestas coisas, os jornais e comentadores construíram a ideia de que a campanha eleitoral tem sido caraterizada por uma inocuidade de assuntos e de visões futuristas. Devem ter razão. No entanto, eu não encontro grandes diferenças para outras campanhas presidenciais. É certo que há já um vencedor antecipado (mais uma efabulação mediática); é também acertado que Alegre tem sido, desde o seu impulso iniciático, um desastre, um fuzil poético no meio das dívidas, dos défices, dos pec's e restantes desorçamentações, das reduções salariais, das obrigações do tesouro, dos leilões, dos juros, dos "credit default swaps"; e que Francisco Lopes é o costumeiro candidato comunista sem nada para dizer que se afigure novidade; e também que Fernando Nobre desiludiu imergindo na sua surpreendente vaidade. Temos, portanto, variegados esboços analíticos, paradoxalmente convergentes nas suas individualidades.
O resultado desta salsada não vai ser dos melhores. O vencedor Cavaco sai fragilizado por ter sido, pela primeira vez na sua longa carreira política, confrontado com a sua própria incapacidade e também com a nulidade do cargo que ocupa. A par disto, Cavaco Silva não é, afinal - tem-se vindo extraordinariamente a provar -, o tal que se encontra por cima da podridão partidária. Pelo contrário, ou por incapacidade de análise, ou por (o que é bem pior) se julgar efetivamente acima da choldra política, o atual presidente da República viveu embrulhado em algumas negociatas pouco recomendáveis. É assim uma espécie de segundo nascimento, que ele, curiosamente, avençou nesta campanha eleitoral.
Do mesmo modo, Cavaco perde pela simples razão que vai ser, provavelmente, o presidente da República reeleito com menor percentagem de votantes em confronto direto com o segundo classificado. Mas mesmo que isto não aconteça, o mito Cavaco Silva enquanto alter ego de uma certa portugalidade acabou, definitivamente.

terça-feira, janeiro 11, 2011

esperteza saloia

Estamos nós fartos de luminárias. Na verdade, a nossa democracia tem proporcionado variadíssimas ramificações deste espécime. Seria esgotante enumerá-los aqui neste pequeno espaço, mas posso adiantar, como, digamos, personagem-tipo, o sempre conveniente Ferreira do Amaral, que afoitamente negociou, quando liderava o Ministério das Obras Públicas, o contrato da travessia de todas as pontes a jusante de Vila Franca de Xira à Lusoponte, para depois presidir à… Lusoponte.
Neste paradigma, o governo da República não conseguiu arranjar mais ninguém para presidir à coisa BPN para além de um tal Francisco Bandeira, o qual, em comissão de inquérito, responde, assim, desavergonhadamente, quando questionado por um deputado do CDS-PP (João Almeida) se auferia mais algum ordenado para além do cargo que ocupa como vice-presidente da CGD. O homem respondeu então que não, senhor, não auferia mais nada. Acontece que agora conseguiu uma acumulaçãozita (uns parcos 63 mil euros) através da presidência do banco recentemente nacionalizado. Responde à pacóvio: não há nenhuma correção a fazer porque "à data [da comissão de inquérito] não recebia" mais nenhum vencimento, para além daquele inerente ao seu trabalho na CGD. E não é que o homem tem razão

segunda-feira, janeiro 10, 2011

discursos socráticos

O discurso político consegue distender o seu longo braço semântico nas direções que mais lhe convém. José Sócrates é, neste ponto, um verdadeiro paradigma. Ouvindo-o há dias no Parlamento pensei para comigo em que país é que este indivíduo vive. Para o primeiro-ministro, Portugal sobe em todas vertentes quantificáveis de desenvolvimento, desde a educação (que jeitaço o último e singular PISA) à justiça, passando pelas exportações e acabando no malfadado défice. Só faltou falar na quantificação da variável emprego. Ou desemprego. Ouvindo-o, pensei nas razões destes cortes que têm atormentado milhares de famílias, milhares de eternos desempregados e outros tantos de eternos pobres. Eu sei que o discurso do desalento não ajuda. Mas Sócrates exagera nas suas esfumadas convições. Ouvindo-o, uma evidência se emerge: não é com este homem de estultas certezas que o país sairá do pântano (Guterres dixit num dia de nevoeiro autárquico) em que o meteram PS e PSD.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

uma campanha alegre

Olhei hoje para Manuel Alegre em plena ação de campanha e tive dificuldades em relacioná-lo com o Alegre que se apresentou no debate televisivo com Cavaco Silva. Aqui surgiu envergonhado, titubeante, invariavelmente dependente da projeção discursiva dos seus interlocutores.
Já se sabe qual a estratégia dos candidatos: Cavaco quer que tudo passe rápido e cada aparição é, para ele, uma maçada. Os outros, excetuando talvez Nobre (sonha ainda com alguma coisa, uma espécie de milagre multiplicativo), desejam encostar às cordas Cavaco Silva. E depressa descobriram (honra seja feita a Lopes e Moura) que o único e estreito e perigoso caminho é o BPN, esse banco que o governo, não se sabe bem por que razão, remeteu para uma custosa sobrevivência.
Cavaco deveria, de fato, ter de explicar os meandros das suas venais ações. Mas prefere esboçar um papel tipicamente seu, principalmente quando o tempo é de campanha eleitoral. O deixam-me trabalhar de outrora passa agora para uma campanha suja e desonesta. Já aqui disse que Sócrates tem a mesma escola de Cavaco Silva (escola no sentido de sobrevivência política). É que entre isto e a campanha negra do Freeport a distância é, realmente, muito curta.

domingo, janeiro 02, 2011

cortes salariais em tribunal

Ouvi outro dia por acaso uma conversa de circunstância entre duas pessoas, num hipermercado. Os dois insurgiam-se contra o agravamento do nível de vida em 2011. Um deles rematou a conversação com isto: "se é para o bem do país!..." Uma nação é feita destas coisas, em que o bem comum, o perfil identitário prevalece a sintomatologias corporativistas.
Vem isto a propósito da notícia que tem vindo a ser explanada na comunicação social sobre a alegada inconstitucionalidade dos cortes salarias que entram em vigor neste mês de janeiro. Os agentes desta empreitada são o sindicato dos juízes (serão eles a julgar, em tribunal, a proposta) e a inevitável FRENPOF. Os juízes dizem que os cortes salariais reduzem em muito os seus vencimentos; os professores não dizem nada (a FENPROF dever-se-ia preocupar com outras latitudes protestativas e muito menos com estas espécie de questiúnculas abortivas). Ora parece-me facilmente entendível que os salários mais elevados serão os que levarão cortes mais elevados. Chama-se a isto proporcionalidade. Somos o segundo país da Europa com um maior índice de desigualdade salarial. Por conseguinte, tudo que seja uma tentativa de reduzir essa diferença será sempre bem vinda. Infelizmente, há quem continue a pensar demasiado corporativamente e se pense ad finem instalado em pedestais teimosa e acauteladamente dourados.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...