quinta-feira, novembro 27, 2014

a pós-detenção de sócrates

José Sócrates já começou a falar. A este propósito, fazem todo o sentido as palavras de Miguel Sousa Tavares sobre o objetivo da clausura do ex-primeiro-ministro: tinham medo que ele se defendesse na praça pública. Sabendo como é Sócrates, estou em crer que o "animal feroz" não se vai deixar intimidar. Pela minha parte, espero que não. Independentemente do resultado final (inocência ou culpabilidade), o que se passou não deve ser deixado no limbo processual. A justiça, através do ministério público, começou mal.
Uma outra questão que gostaria de anotar tem a ver com a nossa escatológica tendência para os homens providenciais. O juiz Carlos Alexandre não é, seguramente, um deles.

terça-feira, novembro 25, 2014

a detenção de socrates e a justiça

Ontem José Sócrates foi preventivamente preso , aguardando, por isso, julgamento na cadeia de Évora. Os crimes que lhe são apontados são graves: corrupção, branqueamento de capitais e lavagem de dinheiro. O que me importa, no entanto, destacar aqui não tem a ver com a suposta culpa ou inocência do agora detido. Qualquer um de nós, sendo acusado do que quer que seja, afigura-se como inocente até prova em contrário. É um princípio sagrado de um estado de direito democrático. Acontece que todo o processo relativamete a este caso, desde a detenção na manga do avião, até a este processo mediático de interrogatório, enviabiliza determinantemente a presunção da inocência e até, se formos imparciais, a presunção da competência do juíz de instrução. Vivemos um período conturbado, com forte inclinação para um tipo de justicialismo popular e radical. Os exemplos recentes são, infelizmente, notórios, desde os quatro dias de interrogatório a um suspeito sobre o caso dos vistos gold, até às aparentementes excessivas penas de dezassete anos de prisão a um sucateiro e de cinco anos a outros arguidos do mesmo processo, passando pela estranheza da inevitável mediatização de outras detenções de inúmeras personalidades públicas.
O povo gosta destas coisas. Até que enfim, dizem. Infelizmente, não se percebem que este não é o caminho que leva Portugal para os cumes civilizacionais. Estou triste. Triste porque acho tudo excessivo; triste porque via (e vejo, até prova em contrário) em Sócrates um patriota; triste porque acredito nas pessoas; finalmente, triste porque gostaria de acreditar na justiça do meu país.

domingo, novembro 23, 2014

a detenção de sócrates

Não há, de facto, nesta altura (nem em outra, presumo), muito a dizer sobre a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Somente se deve constatar a presunção: da inocência, de um lado; da competência e imparcialidade, do outro. Daí que o modus operandi da polícia, ao deter Sócrates à saída do avião, me seja tenuemente indiferente. Mas o mesmo já não posso afirmar relativamente aos jornais e comentadores de algumas televisões. Sócrates está a ser vítima, neste aspeto, de um linchamento público inadmissível e deplorável num país que se julga civilizado. Porém, o mal não reside nas patetices destes senhores e destas senhoras, coitados. Onde se encontra o enviesamento noticioso é quem supostamente deveria tutelar, deontologicamente, esta gente. Falo, por exemplo, na ERC, Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Neste caso, a designação diz tudo: ou é reguladora ou não é. Tem é que se definir.

segunda-feira, novembro 10, 2014

as críticas de cavaco

Cavaco Silva expandiu hoje uma séria crítica relativamente ao estado comatoso da que foi, outrora, uma empresa de orgulho nacional. Referiu-se aos acionistas e gestores da PT no seguinte modo: "o que é que andaram a fazer os acionistas e os gestores desta empresa"? Sinceramente, eu, cidadão anónimo deste país que se chama Portugal, não sei responder com relevância à questão do presidente, a qual penso não se resumir a mera retórica política. Mas esperava que o Presidente da República do meu país não tivesse sequer o ensejo de a formular como, de resto, vimos e ouvimos nos canais televisivos.
Santana Lopes teve, há alguns anos, após uma expetável derrota eleitoral, uma das suas célebres tiradas conceituais: vou andar por aí. Ora, o que este périplo cavaquista na Presidência da República potenciou foi precisamente um presidente que se limitou a andar por aí, seja através das estonteantes metáforas dos vislumbrados sorrisos dos focinhos das vacas açorianas ou simplesmente num sentido único de escrever, ele próprio, a história sociopolítica contemporânea, onde o lugar de protagonista cabe, naturalmente, ao ex-primeiro ministro e atual Presidente da República.
Infelizmente para ele, a história remetê-lo-á para umas poucas e insignificantes linhas de alguém que teve tudo para fazer muito, mas que fez muito pouco em prol de Portugal.

quarta-feira, novembro 05, 2014

merkel diz: portugal tem licenciados a mais

Diz e há que arrepiar caminho, portanto... Mas não... desta vez Nuno Crato, Ministro da Educação, retorquiu e, timidamente, salientou que não concorda com a chanceler da Europa, perdão, da Alemanha. Claro que a opinião de Crato vale o que vale nos dias de hoje e não é certo que tivesse sido honesto nesta sua derivação opiniática. Mas o que se torna efetivamente relevante, nas palavras de Merkel, é a leviandade com que temos sido, nos últimos três anos, orientados através dos ditakts duma União Europeia que mais não foi (não é) do que uma transversalidade alemã. A realidade é outra em Portugal e esta é uma verdade límpida e simples (segundo os dados mais recentes do Eurostat, relativos a 2013, Portugal tem 17,6% de licenciados, enquanto a Alemanha regista uma percentagem de 25,1%, ficando em 25,3% no conjunto dos 28 países da União Europeia).
Para além disso, é preciso conhecer o país humano e não o país das folhas de cálculo. E era isto que se esperaria dos representantes nacionais eleitos pelo povo. No fundo, com o paradigma de uma União Europeia alargadíssima, torna-se cada vez mais pertinente o reforço em prol das vidas das pessoas. Daí que não deveria a sr.ª Merkel enviar este tipo de recados para o espaço europeu. Felizmente, estou propenso a crer que a sua voz se torna, paulatinamente, mais fraca e inaudível. Mas para isso é preciso que os líderes de Portugal e Espanha (os países visados) ajam com mais independência e denodo e menos como meros representantes da política alemã nos seus países.

segunda-feira, novembro 03, 2014

barroso condecorado

José Manuel Durão Barroso foi, naturalmente, condecorado pelo Presidente da República. E a condecoração não foi parca na forma e no conteúdo. Barroso foi agraciado com o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique, uma distinção reservadíssima para chefes de Estado estrangeiros e a pessoas com feitos de natureza extraordinária e especial relevância para Portugal. O discurso do agraciado e do agraciador foram paupérrimos e provincianos. Cavaco afirmou, negligentemente, que a homenagem era "justíssima", visto que estávamos perante o português que exerceu o cargo internacional mais elevado alguma vez exercido por um nacional. Adiantou ainda que "Portugal muito beneficiou pelo facto de termos à frente da União Europeia um português, conhecedor da realidade portuguesa, conhecedor do mundo, e com o prestígio de Durão Barroso". E acrescentou, desavergonhadamente, que ele próprio pôde "testemunhar quanto Portugal beneficiou da ação" de Durão Barroso à frente da Comissão (...) [e] "fê-lo com elevada competência, com sabedoria e dedicação ao projeto europeu, prestigiou Portugal e muito ajudou Portugal.
Já com a condecoração pendurada ao pescoço, o ex-presidente da Comissão Europeia agradeceu salientando que estava "sem palavras" e que a homenagem que Cavaco Silva lhe prestava é uma forma de reconhecimento do país. A comprovar que, afinal, a história não o esquecerá, disse, concludentemente, que a sua decisão de 2004 fora, afinal, a correta.
Durão Barroso é um aproveitador, como salientou Miguel Veiga em entrevista ao jornal Expresso. Não é o único, evidentemente. Infelizmente, este qualificativo tem servido como um fator identitário da nossa avilanada classe política. Como aproveitador que é - e dos melhores - aproveitou bem o que  a política lhe concedeu. Mas, para mal dos seus pecados, o seu feito mais notável, nas suas expetáveis linhas biográficas, ficará sempre aquele em que decidiu abandonar o cargo de primeiro-ministro do seu país para ser Presidente da Comissão Europeia.
Na verdade, Cavaco Silva, na sua enviesada leitura dos factos, até consegue expandir uma razoável verdade, visto que outros portugueses jamais alcançariam tão elevados cargos, pela simples razão que, nas mesmas circunstâncias, jamais os aceitariam.

quarta-feira, outubro 29, 2014

a comissão machete de inquérito

Rui Machete acabou por desafiar o Parlamento sobre as suas declarações a respeito de portugueses que pululam no chamado Estado Islâmico. Venha daí, pois, a Comissão de Inquérito, desafia o ministro. A oposição, impulsionadora burilenta da reunião, tem depois estes paradoxos: a reunião será realizada de portas abertas. Mas... afinal... já não entendo nada... A matéria em análise da comissão de inquérito prende-se, sobretudo, com matéria muito sensível para a vida dos portugueses que por lá andam e que deram já ensejos de regressar à pátria-mãe. Logo, este mesmo propósito deveria ser a razão primeira para a comissão se realizar com as portas não só fechadas mas trancadíssimas. Afinal, estamos ou não estamos preocupados com esses incautos jovens? Por outro lado, tudo isto poderá até vir a ser útil para os futuros jovens que pretendem adquirir um protagonismo néscio com incursões deste tipo. A partir de agora, sabem que em Portugal existe um departamento de contrainformação poderoso. Não estão, pois, seguros por lá... Portugal pode até ser, neste ingular caso caseiro, um ponto de partida para este tipo de migração. Machete e companhia não dormem.

sexta-feira, outubro 24, 2014

o sr. Horta Osório




Horta Osório é mais um daqueles portugueses que "singraram lá fora" e que, por isso, são respeitadíssimos cá dentro. Conseguintemente, tem, habitualmente, aquilo que se costuma apelidar de uma boa imprensa. É mais um que ostenta o inevitável e decerto merecido penduricalho presidencial. Possui, de certo modo, uma determinada aura sebastiânica o que, no fundo, acaba por ser bom para o país, apesar deste lote de intocáveis promessas ter produzido mais desalentos do que realidades concretamente positivas. Curiosamente, o sr. Horta Osório tem sempre fugido, convenientemente, de uma certa opiniaticidade política. Não foi, todavia, o que hoje aconteceu, numa conferência realizada em Lisboa, na qual o presidente executivo do Lloyds Banking Group reatou a teoria neoliberal da austeridade como único remédio para a crise. Retorquiu ainda com o estafado argumento de que os portugueses não podem viver acima das suas possibilidades. Pois não, nem os portugueses, nem ninguém, acrescento, timidamente.
Lembro-me, nestas ocasiões duma frase de Paul Valery sobre a estupidez da guerra. É a seguinte: "A guerra é um massacre de homens que não se conhecem em benefício de outros que se conhecem mas não se massacram.” Deixo a pairar nestes fios tentaculares uma simples questão: por que razão estes senhores que ganham milhões expelem este tipo de axiomas, como se conhecessem a verdadeira realidade das vidas das pessoas que, em vez dos milhões, auferem tostões?

o machete

Rui Machete é um desastre como ministro do que quer que seja, como foi enquanto presidente da Fundação Luso-Americana, como eventualmente fora como ocupante de qualquer cargo de interesse público (não confundir com partidário). O episódio da entrevista à rádio pública de Angola, na qual revelou, episodicamente, uma espécie de relato apaziguador das investigações feitas em Portugal sobre personalidades angolanas, constituiu um irrevogável ato de estupidez. O homem não foi despedido, pediu desculpas e o Governo prosseguiu a sua credível senda de nos proporcionar uma avaliação cada vez mais negativa da política e da República. O caso agora em apreço, em que o sr. Rui Machete diz duas ou três costumeiras banalidades, entre as quais tem a "ousadia" de pronunciar o denominativo estado islâmico, acompanhando-o de duas ou três referências a pobres portugueses com vontade de regressar a torrão pátrio, não me parece coisa de grande monta. A não ser que o desbocado homem tenha, off the record, teorizado as suas habituais necedades. Daí que não vejo razão para tanto alarmismo nem sequer para despedir o homem. É minha convicção que, no atual estado da arte governativa, o melhor é deixar apodrecer. O tempo da monda já passou.

segunda-feira, outubro 20, 2014

pt going down

A história é parca e comum nestas bandas lusas. Um gestor, promessa patrícia por entre os que navegam no tal arco da governabilidade que Paulo Portas tanto gosta de aludir, destruiu uma empresa bandeira nacional, assentadamente coadjuvado, é certo, pelos tais do arco. O gestor saiu da empresa sem, promissoramente, abdicar de negociar a compensação dessa definitiva e lacrimejante saída. Ficou com cinco milhões no bolso e um penduricalho que ganhou não sei por qual dos presidentes da República pelos relevantes serviços prestados à pátria.

nuno crato, o viajante

Pode parecer um fait divers impregnado de oportunos laivos demagógicos, se olharmos para a atualidade educativa, a notícia que saiu nos jornais sobre as viagens de Nuno Crato. No entanto, não se consegue vislumbrar razões para, por exemplo, o ministro ausentar-se para um encontro, em Milão, sobre telecomunicações, quando os professores viviam uma dilacerante angústia decorrente do miserável processo de colocação destes profissionais; ou quando, em plena sétima avaliação da troika, com vista a novos cortes na educação, o sr. Crato andasse, durante três semanas (!), por terras americanas do sul.
A meu ver, esta atitude é reveladora da postura do sr. Nuno Crato, a qual se pode caraterizar de irresponsável, incompetente e, verdadeiramente, demagógica. É que se tivermos em conta o discurso acrimonioso que o catapultou para o relevantíssimo cargo que atualmente ainda ocupa (mesmo que só do ponto de vista formal), no qual visava os gastos supérfluos com a reabilitação das escolas (não havia necessidade de tantos luxos, invocava, subliminarmente), assim como o estafado teor comunicacional do rigor nas contas e no processo educativo em geral, este posicionamento... enfim... viajante do sr. Crato não é mais do que a revelação definitiva do grau zero político que este Governo enlaçou.
E assim vivemos, e assim somos governados.

terça-feira, outubro 14, 2014

a falsa questão da descentralização dos concursos dos professores

Os professores contratos vivem todos os anos uma angústia exasperante. Por um lado, querem à força emprateleirá-los quando serviram anos a fio um sistema que nunca os favoreceu, antes pelo contrário. Depois, vende a comunicação social em peso, tenebrosamente orientada pelos especialistas da educação (muitos especialistas, neste país), o paradigma da descentralização das escolas, em particular no que diz respeito à colocação dos professores. Ouvem-se, a este propósito, disparates tão sáfaros ao ponto de se afirmar que a culpa é da centralização do ministério, que tudo quer controlar, complementando a supina tese com os estafados exemplos da Inglaterra e dos países nórdicos, em geral, cujos concursos são estruturados tendo em conta uma forte componente municipalista.
Bastaria que estes senhores tivessem conhecimento dos concursos que correm para a contratação dos professores para, desvigoradamente, reconhecerem que o único concurso que correu bem foi precisamente aquele em que é feito pelo exclusivo critério da graduação profissional, isto é, o que é mais centralizado. Bastaria de seguida drapejarem pelos imaginativos critérios das escolas para perceberem que muitos diretores não são capazes de honrarem o cargo que ocupam. Por fim, bastaria tão somente entenderem que a verdadeira autonomia das escolas passa por muitas mais coisas - e bem mais importantes - do que a colocação dos professores.
Colocando os professores pelo critério da graduação profissional sobraria mais tempo às escolas para se reinventarem na sua autonomia. Com efeito, desde cargas horárias a currículos e áreas disciplinares, passando pelos regulamentos internos (alguns verdeiros hinos à ilegibilidade), orientações disciplinares e vocação da própria escola enquanto ethos comunitário e educativo, tem a escola uma grande margem de manobra para exercer e aprofundar a sua vocação - endémica e saudável - de autonomia.
As escolas não são empresas. Neste sentido, orientar o recrutamento dos professores à medida das sinaléticas "patronais", qual empresa de ensino privado, não me parece que seja o melhor caminho para que cada vez mais escolas de ensino público possam existir enquanto espaços de verdadeira cidadania e de justiça.

o governo e o seu não-programa

Parece-me de entendimento fácil. Este é o pior Governo dos últimos anos, senão mesmo o pior da democracia. Deste modo, impõe-se, objetivamente, uma questão: por que razão, sendo ele assim tão mau, durou tanto tempo, uma legislatura? A resposta, a meu ver, é simples e abarca duas vertentes. A primeira tem a ver com a idiossincrasia do povo português, o qual não é potencialmente adepto de mudanças. É, neste sentido, conservador. Afinal, foram 48 anos de formatação mental e ideológica. As mudanças das mentalidades demoram gerações, apesar de Portugal se ter alterado profundamente nos últimos 40 anos.
A segunda razão liga-se à completa ausência de um programa de Governo, de uma ideia para Portugal enquanto país, de uma ideia de pátria, portanto.
Simplificando: enquanto o Governo se pôde reger pelo memorando da Troika, a coisa andou. A partir do momento em que este deixou de existir, o Governo patinou, continuando o seu inexorável caminho para um final inglório. No fundo, o que devia ter passado pela cabeça de Passos e Maria Luís (julgo que Portas é uma mera personagem sobrevalorizada pela imprensa, sem grande importância no interior do Governo), no dia a seguir à ida da Troika, foi e agora o que fazemos, sem o precioso caderno de encargos? A resposta a esta pergunta é óbvia e notória. Sentimo-la.

quarta-feira, outubro 08, 2014

manter-se-ão, "jamais", em francês, diz crato

Nuno Crato, ouvido há instantes no Parlamento afirmou que, na sua última vinda à Assembleia da República, havia referido que os professores prejudicados pelo erro concursal mantêm-se e não manter-se-ão, afastando, assim, qualquer ausência deontológica no exercício de tão importante cargo republicano. Com isso, Crato tentou passar aos portugueses, por intermédio dos seus representantes, um atestado de menoridade mental. Como se provou, os deputados, apesar de se situarem um pouco afastados dos verdadeiros problemas que estes concursos em simultâneo acarretam, não são pessoas destituídas de inteligência e bom senso. No meio desta inexorável vergonha, o único garante de alguma polidez moralizante seria o Presidente da República. Desgraçadamente, Cavaco Silva não se rege pelas agendas dos outros, antes pelos superiores interesses do país. Com efeito, há muitas botas que não batem com a perdigota.

o demissionário ou o demitido crato?

Passos Coelho teve hoje tempo para bocejar, à saída de uma de uma cerimónia na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (fundação que já teve como dirigentes emblemas tão capazes como Rui Machete e Lurdes Rodrigues, provavelmente o próximo será Crato) uma graçola. Disse que o ministro Crato voltará para a sua universidade, mas não agora.Todos nós já sabemos que o sr. Crato é, neste momento, qualquer coisa parecida com um ministro. Do mesmo modo, entendemos rapidamente que a próxima remodelação governamental sairá da forja em seu devido tempo, "não agora".
Convém lembrar ao sr. Passos Coelho que o tempo não está para estes ajustamentos metafóricos. Convém lembrar que os ministros demitem-se por razões bem mais superiores do que o interesse eleitoral do partido. A sua permanência no Governo da República ultrapassa todos os limites da decência política. Dito de outra maneira: a não demissão imediata de Nuno Crato é uma forma de deseducação para a política e para a cidadania. Um perfeito desinvestimento educativo.

segunda-feira, outubro 06, 2014

crato e portas

Navegam ambos nas mesmas águas, ou passaram a navegá-las quando entraram com variantes do qualificativo irrevogável. Começou o ministro dos negócios estrangeiros, há pouco mais de um ano, como sobejamente se sabe. Agora é o ministro da educação que, no Parlamento, afirmou que nenhum professor sairia prejudicado com a anedota em que se tornou o concurso de professores (anedota que não tem exclusividade deste ano, pois desde que se inventaram as teip's e os contratos de autonomia tem sido um regabofe que somente os ministros e secretários de estado e alguns diretores e alguns professores não veem, ou não querem ver...) e que a recém-nomeada diretora dos concursos revogou (sim, a palavra do ministro, no Parlamento, foi, deslumbrante e miseravelmente, também revogada...).
Portas saiu e entrou pelo seu próprio pé, ou pelos pés de Passos Coelho ou pelos de ambos.
Pelo contrário, do sr. Nuno Crato nada se sabe. Presumo que Passos Coelho estará mais preocupado com a sua versão de "que se lixem as eleições" e, tecnoformicamente, clareará uma remodelação lá para fevereiro ou março, quando a novidade Costa se estiver a esvanecer.
Crato é, portanto, um não ministro. Anda lá e ninguém, drasticamente, lhe liga patavina.

sábado, outubro 04, 2014

a república das bananas

A propósito do último post, importa questionarmo-nos, em nome da República e da saúde da nossa democracia, sobre como é possível um ministro que garantiu, no Parlamento, a respeito dos erros grosseiros dos concursos dos professores, que nenhum professor seria prejudicado e que, passadas três semanas, o que se passou foi o oposto daquilo que proferiu, como é possível, dizia, esse ministro continuar como ministro? Será que ainda ninguém viu a cloaca em que estamos metidos com este Governo? O presidente Cavaco não vislumbra o superior interesse nacional, como ele costuma, telegenicamente,  mencionar?

sexta-feira, outubro 03, 2014

concurso de professores: anedotário nacional

Li quando devia ler o manifesto anti-Dantas com que Almada presenteou Júlio Dantas, então um proeminente vulto da nossa praça sociocultural. Ao ver o que se passa com o nosso Nuno Crato, é do manifesto que me lembro. Pim para o Crato, portanto.
Resumindo, visto que não me apetece, por ora, alargar a minha revolta: uma democracia onde não existe ética e decoro por parte de quem tem obrigação de os ter é uma democracia ferida, embusteira. Assumindo o argumento de que o número dos professores abrangidos por esta extraordinária revogação da primeira bolsa de contratação de escola é reduzido, o Ministério da Educação  revela do que se ocupa o cocuruto destas pessoas. A este propósito, vi um professor afirmar, perante as televisões: nós não somos números: somos vidas.
Perceberá esta gente (Crato e secretários de estado e Cavaco Silva) o sentido da frase?

quinta-feira, outubro 02, 2014

frança recusa austeridade

Esta notícia, veiculada hoje pelos órgãos de comunicação social europeus, traz à colação mais do que o seu significado imediato. Na verdade, o que se deve revelar, pelas palavras finais do ministro das finanças francês, Michel Sapin, quando afirma que a França recusa a austeridade e que, por isso, não cumprirá, em 2015, os limites para o défice público fixados pela União Europeia (3% do PIB), mas antes em 2017, o que se deve relevar, dizia, é, lastimavelmente, uma construção europeia baseada em dois blocos distintos. De um lado, encontram-se os países mandantes, que conseguem ter voz; do outro, os países mandados, que são, por inerência circunstanciada, potencialmente mudos. Exemplo disso é, não só a atitude cumpridora da França perante os seus cidadãos, como também o ponto de vista autoritário da Alemanha, que se apresentou, célere, com uma posição contra, deixando adivinhar que será uma voz proeminente nas discussões, em Bruxelas.
Apesar de sermos um país pequeno e insignificante para a macroeconomia europeia, não devemos seguir o caminho da subtração mental que este Governo tem optado. As diversas vozes, na União, devem ser equitativas. As ideias - as grandes ideias - não saem somente de países grandes e economicamente relevantes. Conseguintemente, é através delas que os pequenos se tornam grandes e os grandes, pequenos. A história tem-nos ensinado muita coisa a este respeito.

domingo, setembro 28, 2014

a vitória de costa

Em primeiríssimo lugar, penso que a vitória de António Costa significa o princípio do fim deste Governo, liderado por Passos e Portas. Ou seja: Costa está agora em muito melhores condições para abranger um eleitorado que extravasa o próprio PS , situando-se aquele ora mais à direita, ora mais à esquerda, incluindo-se aqui putativos candidatos independentes e antissistema como, por exemplo, Marinho e Pinto. Tem, pois, sorte António Costa de só aparecer agora e não levar com a surpresa do ex-bastonário da Ordem dos Advogados nas lides eleitorais (este raciocínio vai ao encontro de um dos principais argumentos de António José Seguro decorrente da sua campanha: por que razão não apareceu Costa há um ano ou dois?). Neste sentido, é melhor candidato a primeiro-ministro do que Seguro.
Dito isto, vejo as festanças na televisão, assim como as declarações de responsáveis do partido e há um não sei quê de supina incongruência nas respetivas atitudes e afirmações. De onde se espera ajustamento e ordem, derrama-se fel. Espero, sinceramente, que tudo isto seja fruto de um esgar natural de três longos e penosos e acrimoniosos meses. O importante é, sem dúvida, derrotar a troika Passos, Portas e Cavaco.

sexta-feira, setembro 26, 2014

suspeitas políticas

Segui razoavelmente o debate quinzenal no Parlamento. O assunto, como não podia ter deixado de ser, rondou as suspeitas que recaem sobre Passos Coelho aquando da sua passagem pela Tecnoforma ou - o que vai dar mais ou menos ao mesmo, embora a retórica política do primeiro-ministro e compagnons de route nos queiram intuir do contrário - do Centro Português para a Cooperação, uma ONG umbilicalmente ligada à empresa que tinha como lema a "inovação, a excelência, o compromisso" (Tecnoforma). Devo dizer que o argumentário do primeiro-ministro, natural e antecipadamente visto e revisto pela sua equipa, não me convenceu. É que ficamos, afinal, sem saber, quanto e com que periodicidade é que Passos Coelho recebeu das chamadas despesas de representação, as quais não me parecem ter, geográfica e substancialmente, extravasado, se tivermos em conta as vezes que foram reiteradas, pelo próprio, as cidades de Bruxelas e Porto e também, isoladamente, Cabo Verde.


Adenda: entretanto, vi e ouvi o advogado da empresa (que pensava falida) Tecnoforma, com olhar abertamente ameaçador, a disparar contra todos: o jornalista António Cerejo, do Público, comentadores (alguns) e um membro do Governo. Quanto ao que interessa, isto é, o valor recebido por Passos Coelho, remete a sua dilucidada resposta para um não me lembro e também para as declarações do primeiro-ministro no Parlamento.

quinta-feira, setembro 25, 2014

passos coelho e a pgr

Não entendo a esperteza do Passos Coelho em pedir à Procuradoria-Geral da República que investigue eventuais ilegalidades processuais que dizem respeito à sua ligação com a empresa Tecnoforma. Como salientou Mota Amaral, bateu na porta errada, visto que qualquer ato passível de crime fiscal havia já, naturalmente, prescrito. Toda este imbróglio em que se encontra metido Passos Coelho é, no mínimo nebuloso e não se apaga com declarações avulsivas que amanhã, possivelmente, vamos ver por parte da empresa.

subida do salário mínimo: sempre é melhor que nada

É dos argumentos mais repugnantes que ouço para justificar o aumento em 18 euros do salário mínimo, o que equivale a cerca de 50 cêntimos diários: sempre é melhor que nada. A questão, não se prende, obviamente, com o "sempre é melhor que nada", mas antes com a dignidade das pessoas que recebem o salário mínimo. Já o escrevi e hoje tive oportunidade de ouvir, num fórum televisivo, um pedreiro usar o mesmo argumentário: pago 300 euros de renda de casa, 70 de eletricidade e gás, vinte de água, [não sei quanto] de passe social... gostava de ver o sr. primeiro-ministro governar-se com o salário mínimo.
Ou seja: não se pode gizar o valor do salário mínimo a régua e esquadro. Este tem de dar para viver com dignidade. É um dos pontos estruturantes de um país que se deseja civilizado.
Ainda a este propósito, a triste coincidência de andarmos a discutir uns eventuais 150 mil euros que o sr. Passos Coelho não se recorda de ter recebido, nos idos anos 90, pelo trabalho prestado na Tecnoforma. Não tenho dúvidas que o pedreiro que ouvi na televisão se recorda dos 150 euros que eventualmente tenha recebido por um trabalhinho de há quinze anos atrás. Somos ou não somos um país de desagradáveis assimetrias?

terça-feira, setembro 23, 2014

antónio seguro e antónio costa - tomo iii

Achei este terceiro debate muito pouco esclarecedor e enfadonho. Penso que foi um exagero a repetição deste formato nas três televisões. Para além disso, estou propenso a crer que este último debate, mais do que massificar os simpatizantes e militantes do PS no voto dia 28, teve o efeito contrário, ou seja, desconciliou aqueles que de alguma forma já haviam decidido votar no próximo domingo.

segunda-feira, setembro 22, 2014

a salsicha de passos coelho

À parte da insólita expressão "salsicha educativa" proferida por Passos Coelho na cerimónia de abertura do ano letivo no Conselho Nacional de Educação, todo o discurso do primeiro-ministro é perfeitamente enquadrável num ignóbil teor proto-reacionário. Na sua cabeça, prevalece e cimenta-se a ideia de que antigamente é que era e que as várias reformas educativas ao longo destes anos (leia-se, pós-25 de abril) mais não trouxeram do que  a deterioração da qualidade do ensino. Está, pois, muito enganado o senhor primeiro-ministro. Bastaria, simplesmente, olharmos para o número de jovens que estudam para concluir o contrário, ou seja, a massificação traz (ou pode trazer) também qualidade. O que a abertura da escola a todos não pode assegurar é ministros competentes. E, infelizmente, o que de mais visível estes três penosos anos trouxeram à educação foi precisamente uma postura negativista sobre um avanço civilizacional que a escola pública representa ao possibilitar um alargamento de um leque de entradas educativas, independentemente das variáveis financeiras e etárias de cada cidadão. Obviamente, para pessoas como Passos Coelho, a escola pública deve situar-se a milhas deste desígnio de formação integral

domingo, setembro 21, 2014

três horas de tony carreira

Olho para a programação de hoje da RTP1 e vejo que na grelha estão plasmados três programas sobre o cantor Tony Carreira, totalizando três horas de emissão. Não tenho absolutamente nada contra o Tony Carreira, mas não posso deixar de anotar o desplante dos editores de programação da televisão pública ao carregarem, desta maneira, uma noite de domingo. Parece coisa pouca, mas, infelizmente, não é.

casais docentes desempregados

Em agosto, aumentou o número de desempregados, face ao mês anterior. Destes, cresceu igualmente o número de casais desempregados. Parece-me óbvio que estes dados encontram-se diretamente ligados à classe docente que, invariavelmente, entram nesta altura do ano num lamentável limbo interrogativo. Acontece que muitos docentes são casados com outros docentes. Acontece também que grande parte deles não são propriamente pós-adolescentes: têm filhos e contas para pagar.
Quando se discute o panorama dos jovens desempregados, seria bom que houvesse, por parte de quem tem responsabilidades, um olhar construtivo sobre estes números. Por exemplo, não consigo entender, no que aos docentes diz respeito, por que razão não se vincula automaticamente quem tem um certo número de anos de serviço (sem as pantominas dos anos e horários completos) e uma certa idade. Por exemplo, dez anos de serviço e quarenta de idade.
Demasiado simples? Penso que será, para aquelas cabecinhas da 5 de outubro.

quinta-feira, setembro 18, 2014

o referendo escocês

Por regra, sou a favor dos movimentos independentistas. Na verdade, não vislumbro qualquer problema se uma região, nimbada de valores próprios de uma nação, decidir consultar o seu povo sobre uma efetiva independência. Desde que essa vontade não se encontre alicerçada em radicalismos vários (terroristas, sobretudo, religiosos ou outros), a solução para a formação de um novo país, com autonomia plena, afigura-se-me perfeitamente plausível. Penso, por exemplo, em Portugal que, tal com a Catalunha, podia neste momento estar a braços com movimentos referendários similares.
O que eu já não vejo tão bem é a objetiva inerência de uma atormentada União Europeia em todo este processo escocês. Faz-me lembrar a experiência do referendo na Irlanda sobre o Tratado de Lisboa, que teve de ser repetido para que o não se metamorfoseasse em sim.

o arranque, no parlamento, do ano letivo

O debate sobre o arranque do ano letivo no Parlamento serviu para ouvir o desgastadíssimo e lamentável Crato assumir os erros respeitante à bolsa de contratação de escolas. Como salientou Luís Fazenda, do Bloco, à terceira foi de vez. Lacónico no início do debate, sempre pensei que não sairia jamais Nuno Crato desse registo cobarde. Enganei-me, apesar de pensar que foi mais por obrigação do que por humildade democrática a sua alteração comportamental. Os erros vão, pois, ser corrigidos. Do mal o menos. De qualquer modo, penso que se torna imprescindível a demissão do ministro. Para que não achemos normal um ministro ser espremido ao ponto de se perder toda a dignidade do voto que os eleitores, indiretamente, lhe outorgaram.

 adenda: quero anotar, simplificadamente, o seguinte: a FNE, estes dias, deve ter perdido centenas, senão milhares de associados

quarta-feira, setembro 17, 2014

o absolutamente extraordinário sr. Crato

Eu vi hoje, em direto no Telejornal, o Sr. Crato, que é ministro da educação, a enviesadamente explicar o descalabro do concurso de professores na sua variante bolsa de escolas (é importante dar conta deste facto - variante - porque ocorrem, neste momento, três variantes de concursos de professores, a saber, contratação inicial, bolsa de escolas e oferta de escolas). E o que eu vi foi demasiadamente confrangedor. Tive até um vago e rapidíssimo sentimento enternecedor sobre o estertor oriundo da sua prestação televisiva. Mas Crato foi igual a si próprio, isto é, de um hebetismo total, de quem não consegue perceber o que está em causa. E o que está em causa, para além do óbvio (a vida de milhares de professores e a total inaptidão desta equipa do ministério da educação) é a própria descredibilização da política. Se o Sr. Crato tivesse um pingo de decência política, simplesmente demitia-se. De preferência, sem pedir conselho ao Sr. Portas.

onde para a ética republicana?

A inércia social aqui anotada arrasta-se a este extraordinário Governo. Em nome da ética republicana, dois ministros deveriam estar já demitidos ou demissionários: o Sr. Crato e Paula Teixeira da Cruz. Sabemos o que se passou há um ano com o Sr. Portas: alargou, politicamente, o campo semântico da palavra irrevogável. Nada de anormal se passa com esta gente. No fundo, é baralhar e dar de novo. Onde para Cavaco? Onde para a República?
Convém lembrar o que aconteceu com ministros socialistas a respeito, por exemplo, da queda da ponte de Entre os Rios, ou com António Vitorino e o seu monte alentejano. Poderíamos concluir que estamos perante personalidades individuais e, portanto, diferentes. Nada mais errado. Todas estas situações partem duma idiossincrasia que tem vindo a grassar, de forma propositada, neste novo partido social democrata, onde a ética republicana e a consequente causa pública ou serviço público são meras expressões vácuas e disparatadas.

domingo, setembro 14, 2014

a inércia

Passamos três anos a discutir números: défices, desemprego, juros, fiscalidade, etc. Paulatinamente, passamos a acreditar nos números, fossem ou não contraditórios e repescados. Acontece que uma sociedade não é feita de números. À medida que os variadíssimos filosofemas aritméticos grassavam na comunicação social cada vez mais especializada, a nação, enquanto existência coletiva com vista ao seu aperfeiçoamento cívico e cultural, ia definhando e - salvo raras vozes por vezes apresentadas por essa mesma especialização económica como pitorescas - caindo numa espécie de apoplexia generalizada.
Assim, parece que ainda não compreendemos que o nosso maior défice atual não é o do qeu a generalidade dos economistas proclama. É, antes, o do pensamento, o de termos a capacidade de nos olharmos criticamente, de termos a noção do que fomos e do que somos, sem qualquer espécie de nacionalismo entupido. Augusto Fuschini escrevia, nos finais de oitocentos, que vivíamos um período de passividade generalizada, de cobardia e de indiferença, do encantamento perante o uso da palavra ornamental sem conteúdo. Nesse período da monarquia constitucional, dois partidos partilhavam o poder entre si, a esfera pública denegria-se, os cidadãos não estudavam e não tinham cultura cívica.
Hoje, porém, tudo deveria ser diferente. Desapareceram os analfabetos, estudamos mais e somos mais civilizados. Acontece que tudo isso não basta. Elegemos quem não merece. Somos escandalosamente enganados e continuamos a acreditar. Vivemos uma ditadura de quase meio século que, de certa forma, nos formatou. Somos um povo inerte, triste, por muito que nos digam o contrário. Não somos capazes de pensar porque a escola não nos ensinou a pensar. Recebemos dos nossos pais os seus hebetismos, os quais haviam sido animicamente transmitidos pelos nossos avós. Os nossos filhos, a tal geração mais preparada de sempre, têm de sair do país e os que por cá ficam são céleres a imiscuir-se nessa onda apática. Anuímos, simplificadamente, às mais disparatadas decisões políticas que, inexoravelmente,  interferem na nossa vida e não conseguimos esboçar uma reação de protesto real porque vamos apressadamente a correr para uma qualquer rede social organizar um "meet".
E a pairar por lá, o mais inapto Presidente da República da nossa história democrática entretém-se no seu facebook, oferecendo-nos uma extraordinária prova de vida aparecendo, meticulosamente, ao vivo e a cores, nas três televisões que nos pastoreiam.
Somos um povo enfraquecido e vendido. Não temos já a noção do país e da pátria e do que é ser português. E também não sabemos o que é ser europeu. Sei que a culpa não é só deste Governo. Mas que é esta a sua "cultura", disso não tenho grandes dúvidas.

quinta-feira, setembro 11, 2014

a rescisão de paulo bento

Parece-me que, como aqui foi afirmado, rabular a incompetência da seleção na equipa médica foi uma ideia incompreensível. Como muito bem disse Henrique Jones, não seria necessário esperar pelo jogo com a Albânia para se concluir que o mal não residia nos médicos. Agora iniciar-se-ão dois processos, inexoráveis e paralelos: a beatificação de Bento (grande homem, grande caráter) e a vasca de nomes posteriormente lançados sem apelo nem agravo para a praça pública. Os compungentes comentadores ajudarão, natural e filauciosamente, à festa.

quarta-feira, setembro 10, 2014

o comissário moedas

Eu não consigo entrar na abnóxia mas facúndia discussão à volta do novel comissário Carlos Moedas. Como cidadão da União Europeia, estou-me perfeitamente nas tintas sobre se existe algum português na equipa de Jean-Claude Juncker. Provavelmente, há-os aos montes, em Bruxelas, desde motoristas a empregadas de limpeza. Carlos Moedas é só mais um que vai fazer qualquer coisita pela sua vida. Tal como outros antes dele fizeram, a começar, desde logo, pelo deslizante Barroso. Uns são de luxo, outros mais normalizados; outros ainda forçados. O que os une: trabalham fora de Portugal. Chamemos-lhes emigrantes, até por conveniência denominativa.
Adrede, por que raio se discute nas televisões o (excelente, diz o unanimismo) perfil de Carlos Moedas para a pasta da Investigação, Inovação e Ciência e não se perde um minuto com, por exemplo, Pierre Moscovici, ex-ministro das Finanças de Paris e futuro comissário económico europeu? Ou com o obliquamente extremado Jyrki Katainen, o finlandês que assumirá o cargo de vice-presidente para coordenar todos os principais temas ligados à economia, emprego, investimento e crescimento?

costa e seguro - tomo II

O segunda debate foi melhor do que o primeiro porque os adversários tiveram uma atitude politicamente mais assertiva. Penso, no entanto, que fazem ambos mal se teimarem no enfoque do politicamente diferente, designadamente quando se fala de programas. A diferença deve residir no combate que vem a seguir, isto é, nas legislativas, afirmando-se o PS como uma alternativa a este estado de degradação social que o Governo de Passos e Portas e Gaspar e Maria Luís teima em aprofundar.
Costa foi mais claro do que Seguro. Neste sentido, a questão das alianças com outros partidos, sejam elas de que teor forem, revelou-se pertinente. Fiquei lamentavelmente sem saber com o que contar se Seguro for primeiro-ministro. O homem não se alia com o PSD/CDS, nem com os partidos à esquerda do PS. Não se alia, portanto, com ninguém. E então se não tiver maioria absoluta, como parece que ninguém alcançará?

antónio seguro e antónio costa

Segui o debate dos dois socialistas. Não temi a tão afamada e prognosticada cisão interna pós-eleições. Vi um debate normal com dois políticos que aspiram um dia chegar a primeiro-ministro. Ao contrário do que muito boa gente afirma, os dois sinalagmáticos contendores não são assim tão díspares. Nem esperava, aliás, que o fossem. Afinal, são ambos socialistas ou, pelo menos, militantes destacados. Daí que seja muito difícil encontrar sublinhados antagonismos programáticos. E ainda bem. Há, a meu ver, um só aspeto que trairá Seguro: o seu afastamento, a sua crítica oposicionista e gladiada aos anos de Sócrates. Eu, que não sou militante socialista, prefiro de longe Sócrates a Passos Coelho. Bastar-me-ia uma simples razão: há, em José Sócrates, um cariz mais patriótico relativamente às obrigadas relações externas, situando-se estas dentro ou fora da União Europeia. Com Passos Coelho e companhia, Portugal deixou de ter voz e transformou-se num Zé Ninguém. Como diria provavelmente Eduardo Lourenço, Portugal deixou de ter pátria. E esta anulação é, obviamente, o pior que pode acontecer a países com a dimensão de Portugal. Deixar, assim, de contar para o asserto das nações.
Daí que tenha ficado hebeticamente perplexo quando vi António Costa fugir a sete pés do consulado governativo do anterior líder do partido. Seria, aliás, uma boa pergunta de Judite de Sousa: em qual dos candidatos votariam Seguro e Costa, numa hipotética eleição: Sócrates ou Passos? Poderiam, naturalmente, votar também em branco. Ou nem lá pôr os pés.

sexta-feira, setembro 05, 2014

o ministério dos diretores escolares

Vivem-se uns dias normalizados no reino da educação. Setembro iniciou-se e, com ele, os professores protestam, os encarregados de educação agonizam, os funcionários não docentes titubeiam, os computadores e respetivas luminárias que fazem e desfazem o haurido concurso de professores empancam... Tudo, portanto, muito parecido com o que se passou em setembro do precedente ano. E há dois anos a coisa foi também assim, mais ou menos.
Tudo isto desagua inexoravelmente num ciclotímico qualificativo: incompetência. Se, conseguintemente, a quisermos nominalizar (a incompetência), não é difícil: Nuno Crato. Não tenhamos dúvidas: a educação está pior hoje do que estava há três anos: menos professores, megagrupamentos, turmas mais numerosas, carga horária disciplinar mal concebida, irregularidades várias, indignidades profissionais (por exemplo, obrigarem os professores contratados a abandonar a escola depois da última reunião do ano), cortes nas áreas sociais, etc.
Com efeito, a absoluta e comprovadíssima incompetência de Nuno Crato é muito interessante e com muito potencial crítico. No entanto, não devemos tubular o nosso ponto de vista. Adrede, uma questão se impõe, inevitável e acrimoniosa, no meio de tudo isto: onde param os diretores das escolas? Amocham para, junto aos seus subordinados (professores, leia-se), andarem com palmadinhas nas costas e afirmarem que isto está cada vez pior, que a autonomia é uma treta, que o ministério não deixa fazer isto e aquilo, que exige mais isto, que não entende o que é uma escola...? Já alguém viu uma tomada de posição por parte da associação dos diretores? Afinal, gostam ou não gostam? Concordam ou não concordam? Será que ainda ninguém percebeu que a verdadeira mudança de rumo na educação só se pode dar com atitudes de rutura por parte de quem tem maiores responsabilidades administrativas? São ou não são, afinal, os diretores representantes diretos do ministério da educação nas escolas?

quinta-feira, setembro 04, 2014

o governo empancado

Para gáudio dos profetas das desgraças lusitanas, existem irrevogáveis citius do Governo que teimam em, sistematicamente, empancar. Dou dois exemplos recentes: os programas informáticos do ministério da educação e da justiça.
Na verdade, não se entende como é que é possível fazer, relativamente ao panorama concursal dos professores, pior de ano para ano. A culpa, obviamente, é sempre do sistema informático. De fora fica a incompetência.
Quanto à apelidada reforma judiciária, confesso que ainda não a entendi. Vejo simplesmente, na televisão, esbaforidos funcionários, de caixotes literalmente às costas, os quais presumo que contenham milhares de processos. De seguida, compreendo duas ou três coisas: encerram tribunais onde dizem que não há necessidade de existirem; os funcionários têm de se mudar para instalações provisórias para, dentro de um ano ou dois, voltarem a carguejar outros caixotes em direção aos mapas judiciários definitivos; não consigo vislumbrar, para além da extraordinária ministra, alguém satisfeito; e, finalmente, o inexorável empancamento do portal CITIUS.
Portugal é um país cansado. Se existe, de facto, um aspeto no qual o Governo atingiu os seus propósitos, diz precisamente respeito ao nível anímico dos portugueses. Este encontra-se, lamentavelmente, pelas ruas da amargura. Não fora isso e esta equipa de Passos Coelho já tinha ido pregar para outros citius.

terça-feira, agosto 26, 2014

a competência dos futebóis nacionais

Segui a conferência de imprensa do presidente. Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, uma das entidades que tem o privilégio de ter todos os canais noticiosos em cima, ao mesmo tempo. O tema era o mundial visto por uma peneira mediática. Ora, uma das palavras que mais saiu do cocuruto do senhor presidente foi competência. "Não fomos competentes", afirmava, repetida e irrevogavelmente, Fernando Gomes. Por conseguinte, há que meter mãos à obra para que novos mundos surjam. Começamos por mudar onde os outros foram melhores do que nós, ou seja, dentro do futebol jogado? Nada disso. Cria-se uma coordenação qualquer, mais uma unidade de saúde e performance (seja lá o que isso for) e rolará de novo a bola, para gáudio das bandeirinhas penduradas nas varandas nacionais.
Segui, como disse, a conferência de imprensa. E vi também uma classe jornalística indesejavelmente amorfa e absolutamente inócua. Sinais dos tempos que correm.

quarta-feira, agosto 13, 2014

educação: o ministério do caos controlado

Maria de Lurdes Rodrigues teve, num belo dia, uma ideia genial: colocar nas paredes do Ministério da Educação o retrato de todos os ministros que o tutelaram. Este exemplo, exposto assim aqui com traços assumidamente caricaturais, é revelador da feição recidiva de praticamente todas as personagens que se encontram penduradas nas ditas paredes.
Sejamos francos: será assim tão difícil pôr o edifício educativo do Governo da República a funcionar? Não, não é. Ou melhor: é se todo o espaço natural e desejavelmente de diálogo se metamorfosear num lugar de desconstrução, filaucioso e conflituoso. E é isso, infelizmente, que tem sido o Ministério da Educação. Ao ponto de coisas tão simples como um calendário concursal de professores e respetivos procedimentos não serem, aprioristicamente, divulgados. Ou então, supinamente, eleger uma prova de avaliação de competências como o facho que norteará o filosofema educativo em Portugal, deixando comodamente de fora, nesta anagnórise, as dezenas de milhares de professores do quadro. Falando, de novo, a sério: se perguntarmos a um professor como será a sua vida profissional para o próximo ano letivo, a resposta mais vista será um absoluto e sintomático não sei, vamos ver o que aí vem.
O Ministério da Educação revela uma das características mais comummente consideradas em relação aos portugueses que é a improvisação, popularmente apelidado de desenrascanço. É, sem dúvida, este qualificativo (que até nem é de todo destituído, se falarmos do ponto de vista individual) o mais amplificado pelas diversas equipas que nos têm educativamente governado, com particular semblante para o atual inquilino do edifício da 5 de outubro, de seu nome Nuno Crato. Logo ele, que tinha um não sei quê de sedicioso, inconformado, o tal que queria implodir muita coisa. Nuno Crato é, porventura, o mais extraordinário falhanço na educação em Portugal dos últimos tempos. Bastaria uma palavra para o justificar: arrogância.

domingo, agosto 10, 2014

solução bes

Como afirmei aqui, é bom não entendermos patavina da alta economia e da alta finança. Por vezes, há que ouvir os olhares dos outros, perspetivas diferenciadas de ramos opostos do saber. Dei por mim a pensar, a propósito da trapalhada (penso que este qualificativo só não se aplica - lá está! - aos abluídos economistas comentadores da nossa praça, decorrente do cintilante fanal advindo do mais empreendedor gabinete da Comissão Europeia) da divisão do BES em mau e bom, ficando este a cargo de um Fundo de Resolução que terá injeções dos quatro bancos da nossa praça, impulsionado pelos contribuintes portugueses. A questão que coloco é, assim, simples: por que razão não se dividiu banco BES em quatro, bom e mau e se dividiu o mal pelas aldeias, como se faz, por exemplo, com certas partilhas testamentárias. Até se podia, na mesma, deixar o BES mau para a família, mas entregava-se, equitativamente, o bom aos outros bancos. Simples, não é? Talvez demasiado simples ara certas mentes mais elaboradas.

sexta-feira, agosto 08, 2014

a solução bes

Na verdade, a política é importante de mais para se deixar exclusivamente aos políticos, tal como a economia tem sido inexorável e exageradamente ampliada para estar somente a cargo dos economistas, os quais abundam como cogumelos no outono. Deste modo, diferentes olhares são sempre bem vindos e úteis. São, pelo menos, perspetivas e isso já pode constituir uma espécie de alavancagem, termo apropriado nestas andanças.
Temos vindo a usufruir de unárias narrativas neste avonde caso bes/novo banco: o bom e o mau da fita, a solução milagrosa para os contribuintes, a ausência de risco sistémico, reestruturação, etc. No entanto, há, no meio de tudo isto, um não sei quê de irreal, uma conferência de Berlim de 1884/85 ajustada à paróquia financeira portuguesa: tudo gizado a régua e esquadro, ficas tu com isto que eu fico com aquilo, como se não houvesse mais nada envolvido. Depois logo se vê e o que se há de ver é a irremediável culpa dos bandidos, os quais sabemos, desde o princípio, muito bem quem são, pois só podem ser estes e mais nenhuns.
É, portanto, assim, que o caso bes/novo banco tem sido tratado. Não me venham com as diferenças relativamente ao bpn. Não sei, sinceramente, se no final irá haver grandes diferenças. A começar, desde logo, pelos despedimentos, esses colaterais danos do sistema. Pensando bem, se considerarmos os dez mil trabalhadores do BES, irá ser bem pior. Mas quem é que realmente se interessa por isso?

segunda-feira, agosto 04, 2014

o bes, o bom e o mau, o lobo e o cordeirinho

É bom não perceber da elaboradíssima economia, dessa que tem inundado, telejornalística e diariamente, as estações de televisão. Apesar disso, há algo nessa história do banco mau e do banco bom (e que também é novo de nome) que não consigo engolir.
Por que razão existem estas sub-reptícias tendências nacionalizadoras. É que os 4900 mil milhões de euros serão depositados no fundo de resolução pelo Estado, que receberá, é certo, posteriormente, esse valor acrescido dos respetivos juros. Ora, este processo não deixa de ser uma nacionalização. E não vinha mal ao mundo se o senhor Carlos Costa, estafadíssimo, tivesse pronunciado a palavra nacionalização, ainda que fosse seguida, qualificativamente, de provisória.
Pessoalmente, não acredito na solução encontrada. Vejamos o que os mercados mandam. Não deixaria de ser interessante se o banco mau, gerido não sei por quem, tivesse melhores compradores do que o bom, administrado pelo inestimável Vítor Bento, que fica com o bife do lombo, como diria Jerónimo de Sousa. Vamos, então, esperar pelos mercados, lá para depois da silly season.

sábado, julho 26, 2014

a cplp

As siglas são, imediatamente, elucidativas: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Decifrando: uma comunidade que tem como fundamento de ligação a língua portuguesa. Com a língua, assomam-se outras variantes: a cultura, história, a economia... A política também, obviamente, mas esta aparece, apesar de tudo, a encimar todo o alicerce constitutivo da CPLP. Na verdade, foi através das vontades políticas que nasceu e se concretizou o projeto. Do mesmo modo, foi a política que permitiu que um país não linguisticamente português tivesse acesso de pleno direito a esta comunidade. Podemos contestar, mas não deixa de ser a constatação de um facto. A Guiné Equatorial entra na CPLP exclusivamente por razões económicas. É assim que atualmente os países se relacionam entre si: o primado do homo economicus face a tudo e a todos. Sobra, portanto, muito pouco para o resto. Mas neste resto podemos encontrar o simbólico.
Um Presidente da República é, essencialmente, um símbolo. Representa a bandeira nacional, esteio último quando tudo parece perdido. Neste sentido, parece pertinente a questão: que raio fazia Cavaco Silva em Timor? É que o mínimo que se pedia ao Presidente era a sua ausência, precisamente para não envergonhar o país. Não creio, por exemplo, que a ausência de Dilma Rousseff originasse qualquer espécie de incidente diplomático entre os diversos países que fazem parte da CPLP. Decididamente, Cavaco Silva está onde não deve estar e não está onde deve estar. A começar, desde logo, pelo próprio cargo que ocupa.

segunda-feira, julho 21, 2014

a prova do ministro

Crato é uma personagem tenebrosa. É daqueles - como muitos outros que têm surgido no palco político português - que foi instituído através de uma boa imprensa, a qual, por sua vez, foi alimentada por uma cátedra televisiva pretensamente respeitada. Sabemos o passado do homem, barrosamente cissíparo.
Nuno Crato é, neste momento, apenas uma anedota. Não irá longe como ministro e como ex-ministro - afinal, o lugar mais apetecível em Portugal - também não. Bastaria apenas uma singular razão: pessoas sem caráter, que jogam covardemente com a vida das pessoas, não podem, simplesmente, ser ministros de nada. Muitos menos da educação.
No meio destes infames episódios, espanta-me também o seguinte: por que razão os diretores das escolas nunca tomaram uma atitude verdadeiramente construtiva, a qual, nestas circunstâncias, passa, inevitavelmente, por uma irrevogável rotura com esta equipa ministerial. Na verdade, falta muita coisa às escolas e à educação em Portugal.

terça-feira, junho 24, 2014

Lição aprendida

Na pasmaceira futebolística que vivemos, é confortante ouvirmos o nosso Presidente da República explicar-se ao seu homólogo alemão que "Portugal aprendeu a lição dos últimos anos" sem, no entanto, referir, concretamente, a quais ou a quantos anos se refere.
Cavaco Silva engana-se, pois não aprendemos lição alguma. Ou melhor: a aprendizagem não seguiu o rumo argumentativo do Presidente. Se, simplesmente, quisermos definir o que vai na cabeça das pessoas bastará uma infeliz síntese interrogativa: mas para que é que serviram estes três anos? Diga, senhor Presidente, para que é que realmente serviram? É que para quem sabemo-lo já há algum tempo.

quarta-feira, junho 18, 2014

eminências pardas

Temo-los aos montes, estas personagens que se movem na sombra, radicalizados no centrão político, bajulados pelos seus correligionários partidários da direita e da esquerda. Fazem parte, grosso modo, da provável área profissional liberal mais lucrativa, que são os escritórios de advogados. O senhor Proença de Carvalho pode ser considerado, nesta ótica, um paradigma. Infelizmente para ele, o seu nome aparece, desta vez, ligado a um despedimento coletivo do grupo Controlinveste, no qual ele ocupa o pomposo e presumo lucrativo lugar de presidente do conselho de administração. Diz o advogado que estes despedimentos - 160 no total - são indispensáveis para que o grupo possa crescer sustentadamente.
Não conheço o grupo com pormenor. Reconheço que os tempos não estão de sabor para este tipo de negócio. No entanto, o que me sustenta nesta minha análise, tem a ver, tão-somente, com a decisão fácil e hipócrita à qual esta gente, por norma, adere. Para isto, não é necessário ter Proenças de Carvalho, mesmo que de eminências pardas se trate.
Uma última nota, curiosa e demonstrativa. Proença de Carvalho faz parte de um programa radiofónico na TSF intitulado, sintomática e abusivamente, "Senadores da República". É, no mínimo, desconcertante nos tempos que correm que o presidente do grupo seja, ele próprio, um dos protagonistas de um programa de rádio desse mesmo grupo.

sexta-feira, junho 06, 2014

o ps, seguro e costa

António José Seguro não se pode queixar: aquela descida do elevador do hotel, logo após a derrota do PS nas legislativas, merecia, agora, este golpe de António Costa. No fundo, estas personagens, embora clamem novéis auras processuais, estão irremediavelmente impregnados de estafadas retóricas e especialíssimos truques de vão de escada, quando, se acaso, não existe elevador.
António Costa tem, indubitavelmente, melhor imprensa. Pelo contrário, Seguro carece da simpatia jornalística, ou melhor, dos comentadores políticos, os quais estão cada vez mais parecidos com os seus congéneres da bola, quando não são eles mesmos atabalhoados espécimes heteronímicos.
O líder do PS é muito parecido a Passos Coelho, diz-se. Infelizmente, estou propenso a crer que assim é. Ambos foram líderes juvenis, vêm do lixo das jotas e cresceram com o sonho de alcançar, um dia, a liderança dos partidos. Por conseguinte, sendo a escola e perfis idênticos, não é presumível que se notassem verdadeiras mudanças na condução da política externa e interna
E Costa? Há dias, ouvi-o afirmar, contundente e abarrotado, que conhece bem o PS, pois é militante desde os 14 anos. Desde os 14 anos!?... Como é que alguém se pode orgulhar de ser militante de um partido aos 14 anos?! Então essa não é a idade para jogar à bola, andar de bicicleta, partir um vidrito por "acidente". Não! Esta gente nasceu para a política e, consequentemente, salvar Portugal, de preferência num brumoso dia. Ouvi também Costa, um militante de base (como gostam de se intitular) do partido socialista, a respeito da vergonhosa e degradante exploração dos arrendamentos no fim de semana da liga dos campeões, em Lisboa, que tudo não passava do normal funcionamento do mercado. Ora há expressões que, efetivamente, matam quem as profere. E afirmar que repugnantes indivíduos sem escrúpulos (tal com aqueles bancos de há três anos, lembram-se?) estão angelicamente a seguir a regra do normal funcionamento dos mercados é, no mínimo, desconcertante para quem quer ser chefe de um Governo socialista.
Uma outra acusação que fazem a António Costa diz respeito ao não cumprimento do seu mandato me Lisboa. Que eu saiba, esta situação não é nova nas suas incumbências ajuramentadas. Lembro-me, por exemplo, de ter largado o cargo de ministro de Estado e da Administração Interna da República para se candidatar à presidência da respetiva Câmara Municipal.
Volto, pois, ao início: gente nova velha que só sabem fazer política assim. Vem aí outro, não tarda: chama-se Barroso, José Manuel.

segunda-feira, maio 26, 2014

as europeias

Para mim, a lição de maior premência que devemos retirar das eleições de ontem diz respeito à nossa falta de cultura cívica. Somos os melhor povo do mundo, segundo dizia o entendido Gaspar. Somos? Tenho sérias dúvidas que um povo que não se consegue erigir, através do voto, qualquer tipo de protesto, seja capaz de qualquer iniciativa. Olhem para os outros. Para o voto de verdadeiro protesto.

domingo, maio 25, 2014

europeias eleições

Depois de variadíssimas penosas campanhas eleitorais, os discursos despontaram na noite das eleições. E o que foi penoso nesses quinze dias, mais tortuoso se revelou na noite dos aplausos. Tudo previsível, sem chama, sem alma. Até o próprio Marinho Pinto, neste sentido, surpreendeu. Estou em crer que apanhou um dos maiores sustos da sua vida com esta maçada de ter de ir para Bruxelas, apesar de não ser político (ouviu-o afirmar este "cavaquisto" dogma), nem se identificar como um vitorioso.
Tudo, pois, no maior dos mundos atmosféricos: as derrotas podem ser aumentativas e as vitórias podem, similarmente, serem diminuídas. E depois há os empates, os quais são também ganhadores. Isto se compararmos com há quatro anos, ou há seis, ou há dez. Somos, realmente, sui generis. O povo e os políticos, pois estes parte do povo não são.

segunda-feira, maio 05, 2014

barroso...cavaco... passos... portas...

Um fala como presidente da República; outra divaga como presidente da República. Tudo em nome da recente fronteira patriótica que foi sumptuosamente ultrapassada, qual Adamastor, e que tem por nome "saída limpa". Graças a ela, ficamos a saber que o verdadeiro documento de estratégia orçamental que costuma ser o Orçamento de Estado foi, com igual sumptuosidade, vencido pelo esbranquiçado DEO. Por conseguinte, as campanhas eleitorais arrancaram com força.
Barroso, o sempre aritmético presidente da Comissão Europeia, anseia por uma menosprezada votação do seu PSD. Os seus doutos avisos surgirão assim por alguém que rasgará os nevoeiros bruxelenses para salvar, ou, pelo menos, guiar a saudosa pátria lusitana. Sem ele no altar do comissariado europeu, Portugal não sairia, com quase toda a certeza, limpo.
Por outro lado, Cavaco Silva, em campanha há vinte e tal anos, vai avisando eu bem avisei. Sem ele, lá no assento etéreo de Belém, Portugal não vingaria, dado praticamente certo, com a limpeza de uma saída.
Passos Coelho não sabe ainda muito bem o que fez, para além do que não fez. Foi corajoso. E a sua coragem, abnegação e sentido de Estado fizeram com que Portugal retomasse a glória passada. Os socialistas não podem, por isso, voltar ao poder. Votar neles é um regresso ao passado, ao endividamento, aos gastos... É, portanto, deitar por água abaixo o laborioso rigor dos orçamentos da Troika.
Sobra, assim, Paulo Portas. Simplesmente, o pretérito ministro da defesa e atual e irrevogavelmente vice-primeiro-ministro anda por aí, retomando frases feitas e não feitas, inventadas agora e amanhã. Sem ele, Portugal não sairia do atoleiro no qual o PS meteu o país e que o PSD, teimosamente, se afundava ainda mais. Sem ele, não existiria saída limpa. Disso podem ter a certeza.
E esta é a tubular e singela narrativa política para os próximos dois anos.

terça-feira, abril 15, 2014

entrevista de passos coelho, primeiro-ministro: o que eu não sabia

Eu não sabia uma série de coisas e fiquei a saber, com a entrevista encenada que o primeiro-ministro deu a Gomes Ferreira, na SIC. Uma delas é que o país está melhor do que estava antes de 2011. Mas essa até dou de barato. O que realmente me impressionou foi saber que se tivéssemos cumprido o que preconizava o memorando, os portugueses teriam de fazer mais e maiores sacrifícios. Outra notícia diz respeito ao PEC 4: se tivesse singrado, os sacrifícios seriam, igualmente, mais e maiores.
Agora, o que eu já sabia: Passos Coelho não tem decência política. Não vai embora, nem que a vaca tussa, o que quer dizer que Passos Coelho não liga patavina a eleições. Outros já saíram porque perderam eleições autárquicas. O problema é deles, repisou Coelho, seguindo Assunção Esteves. O primeiro-ministro tem um mandato legislativo. E são nas eleições legislativas que responderá. O que existe entremeio, é problemas deles, dos portugueses, claro. Esqueceu-se de dizer, todavia, que O seu mandato legislativo deve-se, sobretudo, a um conjunto de mentiras eleitoralistas, ou melhor, de inverdades, sempre fica mais politicamente correto.

sexta-feira, março 28, 2014

ouvir em silêncio

Artur Jorge, ex-selecionador de futebol, campeão europeu pelo FCP, disse um dia que desligava o som da televisão durante um jogo de futebol para não ouvir as necedades dos comentadores de serviço. Pois anda a passar-se mais ou menos o mesmo comigo. Desligo, prazenteiramente, o som. Depois, é ouvi-los papaguear ondulantemente a bocarra, sorrisos e promessas. Sei que anda por aí o alvor de um mundo melhor, novos amanhãs que cantarão. Sei que Portugal é um país de rosas com alguns espinhos e que estamos a sair da crise. Gosto de desligar o som da televisão e ver, simplesmente, Passos Coelho, Portas, Maduro e Seguro. Por mim, caladinhos é que eles estão bem.
Entretanto, não desligo para as minhas caminhadas diárias, as ruas e os caixotes do lixo, aquele olhar intrínseco e haurido das pessoas. Se os ouvisse, era bem capaz de acreditar.

dois milhões

Somos dois milhões a menos. O número é redondo e tem a ver com os recentes dados (ainda provisórios) do INE sobre a pobreza. A questão é, pois, muito séria e deixou de ser conjuntural. Estes dois milhões são pobres e sê-lo-ão para toda a vida. Para alguns, a vida está já no seu outono, para outros, no seu início; para outros ainda, com muitos sonhos e aspirações. No entanto, um traço comum os une: o irremediável e impositivo apego à pobreza.
De dois milhões sobram oito milhões. Estes, embora mais pobres, vão dando para encher as estatísticas positivas do Governo: uns carritos ali, uns défices acolá, um retomar de qualquer coisa mais além. No polo oposto, estão os mais ricos, agora ainda mais ricos. Estes também vão ajudando para os famigerados sinais positivos da economia. Portugal está na moda e recomenda-se. Somos um país estupidamente Gold.
Entretanto, somos dois milhões a menos.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

os bancos e os clubes de futebol

Parece-me que os nossos bancos estão cada vez mais parecidos com os clubes de futebol: de ano para ano, vão acumulando milhões de euros de prejuízo. No entanto, o discurso mantém-se galhardamente otimista: as expetativas foram, mesmo em conjuntura macroeconómica negativa, superadas, tudo se encontra de acordo com as previsões, entre outros "diktats" absolutamente sui generis.
O que é certo é que os clubes de futebol têm sobrevivido e até a um bom nível. Quanto aos bancos, há de haver outras explicações e futuras imposições.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

mecenato comercial para comemorar o 25 de abril

Assunção Esteves surpreende pouco, mas, a bem da verdade, ultimamente não tem sido esse a sua posição. Há semanas, inventariou os custos da deslocação de Eusébio para o Panteão Nacional (Eusébio ou qualquer outro, obviamente). Hoje, tomou posição sobre as comemorações dos 40 anos do 25 de abril. Assunção Esteves lançou, então, a ideia de abrir a porta ao mecenato, através da ornamentação de uma chaimite com cravos vermelhos, ao sabor da extraordinária artista plástica, Joana Vasconcelos.
Estou propenso a crer que a Presidente da Assembleia da República tomou à letra as palavras de Passos Coelho, o primeiro-ministro que salvou Portugal da crise, quando este afirmou que agora (finalmente, presumo) estamos a viver de acordo com as nossas possibilidades (as palavras não foram exatamente estas, mas a ideia mantém-se).
O 25 de abril é um momento histórico, todos o sabemos, como o é (como foi?) o 10 de outubro, por exemplo, ou o 1 de dezembro (outro exemplo). As comemorações não são menos dignas se não existirem os demais penduricalhos que, anualmente, revemos. Ou se não houver chaimites enterradas em cravos plastificados. Por mim, basta o povo sair (novamente) à rua.

terça-feira, janeiro 21, 2014

coadoção pelos jotas

A democracia tem destas coisas. Uma delas são os partidos. Alicerce de qualquer regime democrático, os partidos políticos portugueses vivem ainda no passado. E o passado, neste caso, chama-se juventudes partidárias. Não me quero alongar na razão de ser destas quotas de jovens nos diretivos partidários, os quais fazem com que muitos destes rapazes e raparigas sejam respeitados deputados da nação. Presumo que para se ser democrático, o partido tem de ter a juventude institucionalizada. Destas géneses orientadoras dos partidos políticos saem depois estas ideias extraordinárias. Na última semana tivemos duas: o atraso na escolaridade obrigatória para nove anos e o referendo à coadoção por casais do mesmo sexo. Confesso a minha estranheza anacrónica. Que raio de lembranças esta rapaziada extravasou! Não terão nada mais útil com que se entreter? Não saberão eles que estão, com estes acordares, a determinar o futuro de muitas pessoas?
Ando em fase de propostas. Aqui vai mais uma: para se elaborar projetos de resoluçaõ deste teor, relacionados, determinantemente, com uma consciencialização social, proponho que as mesmas não sejam feitas e/ou apresentadas pelas juventudes partidárias ou pelos deputados que as representam. Assim, já não poderia o partido sénior esconder-se por detrás destas luminárias. E poupava-nos algumas chatices.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

proposta singela

Humildemente, proponho que o tal dia de não sei quantos de junho (ou será julho ou mesmo maio?) seja solenemente consagrado como feriado nacional. 1640 já lá vai e já não é descanso semanal, o mesmo para 5 de outubro. Resta, então, o mais glorioso dos nossos dias, levado a cabo pelos Nunos Álvares hodiernos, comandados estes pelo mor Portas. Nesse dia, gritaremos todos, nesta finisterra europeia, que escorraçamos a troika, não a pontapé, mas em esperteza. Somos, assim, o mais interessante povo europeu, o melhor do mundo, diz Gaspar que já por lá anda a fisgar um qualquer outro plano de resgate financeiro.
Resta-nos homenagear os vivos, nós que nem esse hábito temos. Os vivos, os heróis populares do nosso imaginário, os que buscam, desaprazidos, os caixotes do lixo urbano, os que migalham nas cantinas escolares, os que emigram, os que suicidam (esses não, já estão mortos), os velhos pensionistas que refazem a aritmética derradeira, os precaríssimos e os que, de precários nada têm porque desempregados estão e, finalmente, dentro destes, os 45% que jamais arranjarão um emprego na sua vida.
A esses portugueses, os sacrificados pela pátria, os verdadeiros patriotas, presto aqui a minha homenagem. E não é em nome do governo porque eu não sou ministro.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

paulo portas, o presidente

O Sr. Pires de Lima, distinto ministro da economia, milagreiro do reino, lançou para a agenda mediática, a ideia: Paulo Portas daria um belíssimo Presidente da República! As premissas disto fundamentam-se nas qualidades do homem: experiência, esperteza e outras coisas do género. Por mim, nada a dizer. O grau zero em que se encontra tal cargo (o mais alto institucional da nação, por acaso) garantem-se que, a partir daqui, só pode melhorar. É um pouco como o estado da economia do país: agora só pode iniciar-se uma tímida ascensão. Entre mortos e feridos, alguém há de salvar-se.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

o panteão de eusébio

É praticamente impossível não gostar de Eusébio. Neste sentido, só alguém muito desavindo com a vida e com Portugal é que não ficou emocionalmente tocado com o seu desaparecimento. Como sempre, as pessoas aderiram à chamada das televisões. O direto funerário foi, de certo modo, uma festa para os media televisivos. De máquina em punho, todos paravam para fotografar o morto, com a família a seu lado. Cá fora, eram entrevistados singular e coletivamente os mais pintados dos cidadãos, fossem eles do tempo do Eusébio ou, pelo contrário, nunca haverem balbuciado, alguma vez, o seu nome. Posto isto, o Panteão Nacional era uma inevitabilidade. Eusébio da Silva Ferreira, moçambicano e português, futebolista de primeira água, cidadão ameno, tesouro de um Portugal passado (e é isso que ainda ninguém desenvolveu: esta nossa pretensão teimosamente saudosista do salazarismo enquanto tempo de pseudo-apaziguamento social) irá repousar eternamente junto dos nossos mais ilustres cidadãos, daqueles que nos ajudaram a definir enquanto povo e nação.
Posto isto, Cristiano Ronaldo, português igualmente reconhecido no seu ramo e ameno cidadão, é o único português vivo que sabe que o seu destino será o Panteão, o nacional.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...