terça-feira, outubro 14, 2014

a falsa questão da descentralização dos concursos dos professores

Os professores contratos vivem todos os anos uma angústia exasperante. Por um lado, querem à força emprateleirá-los quando serviram anos a fio um sistema que nunca os favoreceu, antes pelo contrário. Depois, vende a comunicação social em peso, tenebrosamente orientada pelos especialistas da educação (muitos especialistas, neste país), o paradigma da descentralização das escolas, em particular no que diz respeito à colocação dos professores. Ouvem-se, a este propósito, disparates tão sáfaros ao ponto de se afirmar que a culpa é da centralização do ministério, que tudo quer controlar, complementando a supina tese com os estafados exemplos da Inglaterra e dos países nórdicos, em geral, cujos concursos são estruturados tendo em conta uma forte componente municipalista.
Bastaria que estes senhores tivessem conhecimento dos concursos que correm para a contratação dos professores para, desvigoradamente, reconhecerem que o único concurso que correu bem foi precisamente aquele em que é feito pelo exclusivo critério da graduação profissional, isto é, o que é mais centralizado. Bastaria de seguida drapejarem pelos imaginativos critérios das escolas para perceberem que muitos diretores não são capazes de honrarem o cargo que ocupam. Por fim, bastaria tão somente entenderem que a verdadeira autonomia das escolas passa por muitas mais coisas - e bem mais importantes - do que a colocação dos professores.
Colocando os professores pelo critério da graduação profissional sobraria mais tempo às escolas para se reinventarem na sua autonomia. Com efeito, desde cargas horárias a currículos e áreas disciplinares, passando pelos regulamentos internos (alguns verdeiros hinos à ilegibilidade), orientações disciplinares e vocação da própria escola enquanto ethos comunitário e educativo, tem a escola uma grande margem de manobra para exercer e aprofundar a sua vocação - endémica e saudável - de autonomia.
As escolas não são empresas. Neste sentido, orientar o recrutamento dos professores à medida das sinaléticas "patronais", qual empresa de ensino privado, não me parece que seja o melhor caminho para que cada vez mais escolas de ensino público possam existir enquanto espaços de verdadeira cidadania e de justiça.

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