domingo, setembro 14, 2014

a inércia

Passamos três anos a discutir números: défices, desemprego, juros, fiscalidade, etc. Paulatinamente, passamos a acreditar nos números, fossem ou não contraditórios e repescados. Acontece que uma sociedade não é feita de números. À medida que os variadíssimos filosofemas aritméticos grassavam na comunicação social cada vez mais especializada, a nação, enquanto existência coletiva com vista ao seu aperfeiçoamento cívico e cultural, ia definhando e - salvo raras vozes por vezes apresentadas por essa mesma especialização económica como pitorescas - caindo numa espécie de apoplexia generalizada.
Assim, parece que ainda não compreendemos que o nosso maior défice atual não é o do qeu a generalidade dos economistas proclama. É, antes, o do pensamento, o de termos a capacidade de nos olharmos criticamente, de termos a noção do que fomos e do que somos, sem qualquer espécie de nacionalismo entupido. Augusto Fuschini escrevia, nos finais de oitocentos, que vivíamos um período de passividade generalizada, de cobardia e de indiferença, do encantamento perante o uso da palavra ornamental sem conteúdo. Nesse período da monarquia constitucional, dois partidos partilhavam o poder entre si, a esfera pública denegria-se, os cidadãos não estudavam e não tinham cultura cívica.
Hoje, porém, tudo deveria ser diferente. Desapareceram os analfabetos, estudamos mais e somos mais civilizados. Acontece que tudo isso não basta. Elegemos quem não merece. Somos escandalosamente enganados e continuamos a acreditar. Vivemos uma ditadura de quase meio século que, de certa forma, nos formatou. Somos um povo inerte, triste, por muito que nos digam o contrário. Não somos capazes de pensar porque a escola não nos ensinou a pensar. Recebemos dos nossos pais os seus hebetismos, os quais haviam sido animicamente transmitidos pelos nossos avós. Os nossos filhos, a tal geração mais preparada de sempre, têm de sair do país e os que por cá ficam são céleres a imiscuir-se nessa onda apática. Anuímos, simplificadamente, às mais disparatadas decisões políticas que, inexoravelmente,  interferem na nossa vida e não conseguimos esboçar uma reação de protesto real porque vamos apressadamente a correr para uma qualquer rede social organizar um "meet".
E a pairar por lá, o mais inapto Presidente da República da nossa história democrática entretém-se no seu facebook, oferecendo-nos uma extraordinária prova de vida aparecendo, meticulosamente, ao vivo e a cores, nas três televisões que nos pastoreiam.
Somos um povo enfraquecido e vendido. Não temos já a noção do país e da pátria e do que é ser português. E também não sabemos o que é ser europeu. Sei que a culpa não é só deste Governo. Mas que é esta a sua "cultura", disso não tenho grandes dúvidas.

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vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

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