segunda-feira, agosto 31, 2009

a esquerda desiludida

O último artigo de opinião do sociólogo Boaventura Sousa Santos na revista Visão vem ao encontro de muitos eleitores que se acham agora órfãos duma esquerda que se dizia moderada, numa primeira instância, para se auto-proclamar, depois, de moderna. Reflecte então o autor sobre o eleitor de esquerda que, dentro de semanas, irá colocar a sua cruzinha no boletim de voto. Começa por afirmar que, eleitoralmente, Portugal é de esquerda. É, desde logo, uma opinião que se pode considerar, no mínimo, controversa. Neste sentido, a eleição de Cavaco Silva – o primeiro presidente da República que não advém de uma área sociopolítica de centro-esquerda – veio, de certo modo, acabar com o mito dum eleitorado maioritariamente de esquerda. As pessoas, agora, tendem a pensar mais pelas suas cabeças do que por ideologia partidária, apesar de haver ainda muita boa gente que olha para o partido político como se de um clube de futebol se tratasse. Na realidade, torna-se muitas vezes de difícil delineação sabermos, dentro dos principais partidos portugueses, quem é que é mais de esquerda e quem é que se situa mais à direita. Não é, por exemplo, por se defender acerrimamente um novo enquadramento legal para as uniões de facto que se pode afirmar que o PS é mais esquerda que o PSD. Do mesmo modo, se analisarmos comparativamente o programa dos dois principais partidos, facilmente nos deparamos com orientações difíceis de enquadrar no plano ideológico. Basta um exemplo: o PSD propõe, no seu desenho programático, a extensão do período de concessão do subsídio de desemprego, enquanto que a esquerda moderna socrática se fica unicamente por uma posição de reforço dos mecanismos de inserção profissional para desempregados não subsidiados. Não estarão, aqui, trocadas as sementes ideológicas? Ou mesmo o fim das taxas moderadoras para internamento e cirurgia propostas pelo PSD não será mais esquerda do que a sua aplicação? Ouvindo Paulo Portas, por vezes, não estarão, muitos eleitores tradicionalmente de esquerda, de acordo? Neste caso, a doutrina social da igreja, convenientemente orientadora do discurso de Portas, pode ser subscrita facilmente pelo PCP ou Bloco de Esquerda.
Daí que haja muitos órfãos políticos. Daí a pergunta de muita gente: em quem votar? É, desde logo, um belíssimo ponto de partida. Quer simplesmente dizer que o chamado centrão político se está alargando cada vez mais, chegando mesmo às pontas, sejam estas de esquerda ou direita. Quer também dizer que já não há uma fidelização religiosa do voto. Ainda bem.
Por isso, Boaventura Sousa Santos seleccionou, no seu artigo, dois votantes de esquerda: o relutante-desiludido e o relutante-esperançado. No entanto, desenvolve a sua perspectiva teorética num sentido unívoco: ambos continuam a votar PS. Mesmo que o primeiro se sinta, agora, desiludido com a incapacidade demonstrada por uma maioria de esquerda em edificar bandeiras políticas verdadeiramente socialistas, as quais vão ao encontro duma perspectiva essencialmente garantista do Estado no que diz respeito ao emprego, desigualdades, educação, saúde, etc., e o segundo se encontre ainda numa postura de esperança num governo que, mesmo com minoria, faça o que não fez com uma maioria parlamentar. Na minha perspectiva, todo esta base racional teria alguma razão de ser se o Partido Socialista, no seu último congresso, fosse suficientemente arrojado e apresentasse um novo candidato a primeiro-ministro. Aliás, é um erro decorrente dos partidos que estão no poder a ideia de que não devem refutar, do ponto de vista político, o chefe. Quem corajosamente o faz é, muitas vezes, achincalhado por aqueles que mais não fazem do que tratar da sua própria vidinha. Lembro-me, por exemplo, de Manuel Maria Carrilho quando praticamente o não deixaram discursar no congresso do partido em 2001, assobiando-o. O longo consulado de Cavaco foi também paradigmático nesse sentido, quando, ao longo de duas maiorias absolutas, foi secando, directa ou indirectamente, tudo o que pudesse germinar no interior do seu partido. O resultado ainda hoje se patenteia no interior do PSD. As vitalidades dos partidos são amplamente demonstradas principalmente enquanto estão no poder. Mas é sempre o contrário o que se passa. O poder acomoda. O poder inflama e enforma muitas almas bem intencionadas. Por isso, não sei se haverá muitos relutantes-esperançados socialistas. E os relutantes-desiludidos serão mais desiludidos que relutantes.

2 comentários:

Anónimo disse...

OLá!
Parabéns pela análise e pelo texto.
Continue atento...
Você é uma das provas que não existe a mulher mais bonita do mundo, nem o melhor jogador de futebol. Em qualquer aldeola se pode encontrar um fedelho capaz de meter umas bolachas melhores que as do Ronaldo. No seu blog encontram-se textos e análises que não vejo nos "melhores" comentadores da nossa praça. Se alguns deles passassem por aqui mudariam de profissão com vergonha.
Cumprimentos,
SA

beatriz de sosa disse...

esta opinião (texto) merece ser lida,relida e estudada por todos aqueles que querem ser alguem na vida. muito obrigado por tudo o que tem feito, os seus textos são magnificos

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...