domingo, fevereiro 21, 2010

sinais

Vêm paulatinamente à superfície do nosso status social casos e mais casos que, na eventualidade de não resultarem judicialmente em nada, ao menos dão a conhecer um pouco da forma como se cozinham, na "alta política" (devidamente grafada por aspas), as estratégias, os compadrios, as destemperanças. O caso "Face Oculta" é, a este propósito, paradigmático.
Li uma das entrevistas dum senhor chamado Rui Pedro Soares, ex-administrador da PT, nomeado pelo Governo, através do pressuposto normativo da Golden Share do Estado nessa empresa. Obviamente que esta tão inócua existência pública do Sr. Rui Soares não passaria disso mesmo: um pássaro a migrar para os calores trópicos durante os nossos invernos descontentes. Acontece que é difícil a atenuação do deslumbramento para alguém que diz, orgulhoso, que entrou aos quinze anos para a Juventude Socialista (um problema, esta gente) e que, questionado pela sua ascensão meteórica, afirma que se está "a fugir-se a avaliação dos quatro anos em que fui administrador da PT SGPS", e também que, no reinado PSD, ente 2001 e 2004, triplicou o seu salário na PT.
Ora, é precisamente neste ponto que convém ficarmos alerta. Estas personagens - verdadeiros tipos sociais - não merecem o dinheiro que ganham. Simplesmente por que ainda não tiveram tempo de o demonstrar. Como escreve Henrique Monteiro no Expresso, um técnico superior da Função Pública no topo da carreira levaria mais de 20 anos a ganhar o mesmo que Rui Pedro Soares num ano." Deste modo, as certezas, quanto aos favores políticos, de alguém que contribuiu, modestamente (Rui Soares dixit), na eleição do primeiro-ministro, desenvolvem-se de forma inexorável. As crises podem ser benéficas, na medida em que revelam a expressão dos países e das suas gentes. Neste sentido, as catarses advindas nestes momentos mais difíceis poderão, efectivamente, ser a única salvação nacional. Daí que seja salutar sabermos que estes senhores andam, sorrateiramente, a viajar para Milão com um contrato no bolso de 350 mil euros com Luís Figo (um amigo, mais um) e ainda afirmam, deleitados, que é um número inferior ao que o ex-futebolista costuma cobrar pela imagem (um caso de sentido patriotismo, portanto). Do mesmo modo, é também interessante sabermos que as encenações de Figo com "Sócrates 2009", juntos, numa esplanada do Parque Expo, poderão ser o resultado de mais uma qualquer contratualização (é a imagem, estúpido...) laboral.
Daí que a recente candidatura de Fernando Nobre, presidente e fundador da AMI, poderá constituir, no nosso triste espectro político e social, uma lufada de ar fresco. Aparentemente, Fernando Nobre será, de forma objectiva, o candidato da cidadania, isto é, um verdadeiro candidato apartidário. Por isso, estou em crer que é de todo precipitado a contabilidade eleitoral em que já se embrenharam parte dos jornalistas e comentadores, na qual preconizam um eleitorado de esquerda dividido e a subsequente vitória de Cavaco Silva logo na primeira volta. O actual presidente da República agradece, pois, o serviço prestado por estes valorosos e intuitivos opinion makers. Só que nos devemos questionar por que razão é que Fernando Nobre dividirá apenas o eleitorado de esquerda. Acaso os valores éticos e morais que o norteiam não se enquadram com os valores sociais da igreja? Não demonstrou já ser uma personalidade que não contrapõe qualquer enquadramento partidário nas suas tomadas de posição político-sociais (a este propósito, convém notar que já objectivamente avalizou candidatos que vão da esquerda à direita parlamentar, nas diversas eleições nacionais, autárquicas e europeias)? No entanto, para os nossos jornalistas, tudo está, já, definido: Alegre, coitado, está perdido.
Pela minha parte, gostei de ler a entrevista do candidato ao Expresso, quando afirmou, peremptório, que "as pensões mínimas deveriam ser de 500 euros, e as reformas máximas de 5 mil euros" (não é populismo, como alguns já começaram, maldizentemente, a desenhar). É, de facto, um sintomático ponto de partida. Do mesmo modo, salientou que não deveriam ser as grandes obras públicas o impulsionador primeiro da saída da crise. Em sua substituição, os investimentos mais pequenos, como a requalificação urbana e a recuperação do património revelar-se-iam bem mais coerentes e proveitosos (ideia já defendida aqui algumas vezes). Na verdade, ouço sistematicamente na comunicação social a promoção do aeroporto da Portela. Na mesma óptica, as auto-estradas parecem-me mais que suficientes, ao contrário da melhoria de algumas estradas nacionais.
Por isso, a candidatura de Fernando Nobre poderá ser uma espécie de surgimento nacional. Não, obviamente, pela índole sebastianista, que não é, aliás, séria. Mas antes pela oportunidade de, talvez pela primeira vez numa campanha eleitoral para o mais alto cargo institucional da nação, ouvirmos alguém falar a língua de todos nós, seja ateu ou cristão, muçulmano ou católico, de direita ou de esquerda. Alguém em quem, verdadeiramente, os partidos não se revejam.

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