quarta-feira, abril 06, 2011

desigualdades nacionais

Vem a propósito do que aí vem, com a entrada do FMI em Portugal. Existe, no país, uma espécie de estruturação que é feita a régua e esquadro. Hoje, os noticiários contaram, quase como nota de rodapé, que o posto de correios de Torre Dona Chama encerrará num brevíssimo espaço temporal (simplex). Vi o pesar de muitos locais, alguns choros, muita indignação. "Não votaremos nas próximas eleições", ouviam-se lamuriosos tons de revolta, a maior parte gastos pelo tempo.
Na verdade, a origem da tendência dissemelhante do país encontra-se algures no tempo da nossa empreitada marítima, quando o rei não soube estruturar o território homogeneamente, aliciando mão de obra masculina para as grandes cidades marítimas (o mercantilismo reinante exigia também empregos qualificados ligados aos deves e haveres do próprio Estado, empregos que não podiam ser deslocalizados para fora da orla marítima: o futuro, o plano tecnológico de então, era o mar, os barcos, o comércio, as rotas... A agricultura começou, então, tal como agora, a volver-se num parente pobre do progresso). Desde aí, Portugal, país geograficamente reduzido (daí o paradoxo), nunca soube inverter uma situação gritante de desigualdade cada vez mais crescente a todos os níveis, acabando por ser, no início do século XXI, o país europeu com maiores índices de desigualdades.
Lastimavelmente, o Governo não consegue entender o país e, por conseguinte, é assustadoramente incapaz de perceber o interior. Na verdade, pode arquitetar de forma exemplar uma determinada narrativa aritmética, do quanto poupa ao encerrar um posto de correios ou um centro de saúde. O que não consegue é entrar na cabeça das pessoas para quem um atendimento personalizado ali perto, onde se paga a água e a luz, onde se levanta a parca reforma esticada para um demasiado longo mês, faz toda a diferença do mundo. Volto a Guterres na crítica a Cavaco Silva: os portugueses não são números.

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vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

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