sexta-feira, maio 07, 2010

a fome e as presidenciais e mário soares

Há momentos que nos incrustam a alma, que se apegam a nós como decisores de algo: um amor, um olhar, um qualquer sentido. Mário Soares é pródigo, como grande político que é, na transmissão de um devir colectivo e popular. Basta lê-lo. Ou - melhor ainda - simplesmente ouvi-lo. Retive dois desses momentos, duas anotações que escutei de Soares em que o seu interlocutor ou ouvinte era precisamente o povo.
A primeira foi quando ganhou as suas primeiras presidenciais e proclamou, no alto da sua sede de candidatura, ao Saldanha que a sua vitória era a da tolerância, a da liberdade. Duas simples anotações, duas simples ideias podem configurar toda uma vida. E estou convencido que são precisamente a tolerância e a liberdade o leit motiv político do ex-presidente. Já durante o exercício do seu primeiro mandato, aquando de uma visita que não sei precisar, o presidente era arrastado por uma pequena multidão. Olhando para uma criança, Soares pára a comitiva e ordena de imediato a um dos seus assessores que vá com o miúdo a uma sapataria para lhe comprar uns sapatos. Não era admissível, segundo o próprio, que uma criança do seu país, em final do século XX, andasse com os pés descalços.
Quero com este pequeníssimo apontamento chegar à actualidade. E esta aponta desgraçadamente para um estado de regressão social. O ex-presidente e ex-candidato presidencial derrotado salientou ontem que o PS não deve posicionar as eleições presidenciais de 2011 como uma prioridade, pois existem outros assuntos mais prementes que devem preocupar os responsáveis deste país. Um deles é a fome.
A fome! Há portugueses a passarem fome! E passar fome é não ter de comer, é ir para a escola sem qualquer alimento ingerido, é a vergonha. Não sei quem é que o Partido Socialista elegerá como "seu" candidato presidencial, se Alegre ou Nobre. Mas o que eu sei é que os presentes candidatos deveriam ter as mesmíssimas preocupações de Mário Soares. De facto, ninguém em Portugal deveria passar fome. Mesmo que andem calçados.

nota: não sou, no entanto, tão ingénuo ao ponto de não ligar esta "despreocupação" de Soares relativamente às presidenciais a uma espécie de birra. Eu sei que o apoio (inevitável, presumo, segundo as cabecinhas bem-pensantes daquela gente e da maioria dos jornalistas) do PS a Alegre configura uma segunda derrota (ou o arrastar da de há quatro anos) para o histórico líder socialista. Mas o que é verdadeiramente importante é que um ex-presidente da República, apoiante (desproporcionado, a meu ver) de Sócrates, apareça com um registo discursivo antitético face ao que é erigido pelo Governo. A fome, assim sentenciada por um ex-presidente, deveria merecer, por parte dos nossos jornalistas, um melhor e mais profícuo acompanhamento. Simplesmente porque ninguém, no despontar do século XXI, deveria passar fome em Portugal.

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