sábado, maio 09, 2009

a crise e o bairro da bela vista

Sei que a tensão social é grande e a crise tem costas largas. Sei também que vivemos uma época difícil, a qual, sublinhe-se desde já, não é de agora. Na verdade, entrámos no novo milénio com um conjunto de excluídos e pobres perfeitamente desadequados para uma sociedade que se quer evoluída. A título de exemplo, e de acordo com o professor Bruto da Costa (2008), 46% dos portugueses passaram pela pobreza entre 1995 e 2000. Do mesmo modo, muitos destes pobres viveram, neste quinquénio, situações de privação extremadas. Podemos observar este facto quando nos deparamos com as elevadas percentagens de agregados familiares sem condições habitacionais condignas (cozinha, banho, água corrente, aquecimento, mau estado de conservação, humidade nas paredes, janelas e chão apodrecido…). Curiosamente, o estudo de Bruto da Costa revela, neste campo da habitação, que mesmo entre os denominados “nunca pobres”, 50% não possuíam (e não se vislumbra que a sua situação se alterasse) uma casa adequadamente aquecida (uma boa explicação para a quantidade de pessoas que perambula nos centros comerciais) e 25% acusavam humidades nas paredes de casas.
Somos, pois, um povo habituado a viver em crise. Estivemos perto de uma bancarrota na década de 80 (o que originou um bom governo do chamado Bloco Central, liderado por um bom primeiro-ministro – facto injustamente esquecido – que se chama Mário Soares) e, daí para cá, fomos evoluindo para uma sociedade cada vez mais desigual, onde os ricos se tornaram cada vez mais ricos e os pobres se afundaram cada vez mais nos seus desafortunados quotidianos. Por isso é que, vencida a crise, é imperioso que se extingam, de forma clara, todas estas desvirtudes.
Porém, em tempo de campanha eleitoral, os partidos políticos tendem a optar por uma linha discursiva que vá ao encontro daquilo que o seu eleitorado espera ouvir. Foi o que aconteceu, há dias, com o PCP. Com efeito, justificar com a crise social que se vive os acontecimentos que abalaram o problemático bairro da Bela Vista, em Setúbal, onde grupos de bandos armados desatam aos tiros, é de uma enorme irresponsabilidade. Por muito de esquerda que se queira parecer, como acontece com Jerónimo de Sousa e o PCP, este procedimento não tem, infelizmente, uma resposta adequada do ponto de vista social ("não pensem que resolvem isto com batalhões de polícias", aferiu o líder do PCP). Pelo contrário (e também infelizmente), este tipo de comportamentos só se pode enquadrar no âmbito da criminalidade. E, quando assim é, a resposta policial não pode ser desigual. No bairro da Bela Vista vivem pessoas que merecem todo o nosso respeito. E estou propenso a crer que são precisamente estas pessoas que se levantam todas as manhãs para irem trabalhar e que levam os filhos às escolas que desejam, por parte da polícia, uma verdadeira protecção.
O protesto social é outra coisa.

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