quarta-feira, março 04, 2009

terceira via

Custou-me 1 euro (benditas grandes superfícies) um livrito intitulado Terceira Via. Trata-se de um conjunto de artigos de personalidades da chamada esquerda moderna. Li a introdução. A apologia ao blairismo é por demais evidente. Estamos em 1999. Lêem-se coisas deste tipo: "A esquerda do futuro passa pouco pela capacidade de reorganizar o velho aparelho partidário e tudo pela capacidade de pensar o futuro". Ora, como nos finais do século passado e inícios do actual a União Europeia era governada maioritariamente por este novo olhar esquerdista (treze dos quinze estados membros eram de esquerda), não nos é custoso verificar que a perspectivação do futuro que apregoava não foi muito qualitativamente desenvolvido. Nesta perspectiva, é também dito que "Tony Blair tem um grupo de pessoas que o ajuda a pensar a esquerda do futuro" (!) e que "no mínimo, o assunto terá efeitos muito para além de um primeiro momento de hesitações, resistências, adesões e oposições pouco ou nada fundamentadas." Também se reflecte, na lógica panegírica ao blairismo, que "estar no poder não obriga a deixar as ideias numa gaveta que só se volta a abrir quando de novo se regressa à oposição. O poder permite suscitar novas sensibilidades, novos espaços, novas eficácias e novas responsabilidades. O poder deve ser pensado para fazer política e pensar a política."
Depois, surge o espaço português protagonizado por António Guterres. Aqui defende-se o Partido Socialista como o farol natural da Terceira Via, advogando que a mesma faz parte do código genético do partido, o qual, já com Mário Soares, lutou sempre contra qualquer tentativa de excessos, seja de igualitarismo esquerdista, seja de utilitarista liberalista.
De seguida, ainda nesta óptica introdutória, aparece isto, verdadeira preciosidade da retórica política: "Entre a sociedade de mercado e a sociedade do plano abre-se espaço a uma sociedade regulada, isto é, nem simplesmente administrada nem totalitariamente mercantilizada. Entre o rigoroso pragmatismo e o absolutismo dos valores abre-se espaço à convergência da ética com a política."
Convém salientar que para introdução, ainda por cima de três páginas e meia, é muito. Viro a folha. Aparece-me o primeiro artigo. É de Alberto Martins. Leio a primeira frase: "A regra de ouro da democracia apela ao debate contraditório, ao espírito crítico, ao incentivo da acção cívica esclarecida."
Alberto Martins?!... Aquele do PS?!... Líder parlamentar?!... Vou buscar o João Pinto, eterno capitão do FCP: "prognósticos só no fim!"

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vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

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