domingo, março 29, 2009

falar claro

Gostei de ver e ouvir Lula da Silva, presidente do Brasil, dirigir-se para o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e para o vice-presidente dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, com a seguinte metáfora ferroviária: "locomotivas têm mais responsabilidades que os vagões". Com efeito, dirigindo-se para estes dois líderes ocidentais, com fortes responsabilidades no que o mundo se tornou neste princípio de século, e em português (o que deve ser também considerado de uma grande relevância), Lula da Silva apontou objectivamente o dedo para o modelo de certo modo isolacionista (ou mesmo imperialista) que os Estados Unidos, coadjuvados pelo Reino Unido de Tony Blair, levaram a cabo no Ocidente. O resultado foi, portanto, o que se está a verificar em todo o mundo, com a falência completa de um sistema pretensamente liberal de matriz social. Assim, a importância deste discurso do presidente brasileiro - que correu o mundo - vai ao encontro do que se exige de um líder de um qualquer país sem pretensões hegemónicas. De facto, a ideia, a palavra, tão apregoada em eleições eleitorais, não passa disso mesmo: vãs promessas eleitorais. Alguém viu, por exemplo, Cavaco Silva ou José Sócrates falar assim, tão desassombradamente, em cimeiras internacionais? A resposta só pode ser um rotundo advérbio de negação. Acontece que nos acostumámos consumir um tipo de registo discursivo dos nossos líderes, o qual se liga exclusivamente com uma perspectiva interna. Somos o país que somos, dirão alguns, sem peso no teatro das nações. Nada mais falso. Em primeiro lugar, os países, tal como os homens, não se devem medir aos palmos. Depois, a nossa força deve residir precisamente na palavra, na ideia. Foi, aliás, esta força interior que fez com que Vítor Hugo, em carta ao jornalista do Diário de Notícias Eduardo Coelho, em 1867, elogiasse o povo português pelo pioneirismo demonstrado na abolição da pena de morte. E não foram parcas as suas palavras laudatórias: "Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos". Daí que os políticos que nos regem devam assumir, sem complexos de inferioridade, o que de peito aberto divulgam cá dentro, principalmente em períodos eleitorais. Quando ouvi Lula da Silva falar desse modo em português, senti-me muito mais orgulhosamente português do que quando vejo os nossos legítimos representantes discursar, vaidosa e propagandisticamente, nos mais diversos fóruns internacionais. E se me permitem um conselho, devem, em primeiro lugar, começar pela língua. Só assim é que entendemos que ela é, de facto, a nossa pátria.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes, em 02/04/2009)

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