quarta-feira, março 04, 2009

estrela da amadora e o exemplo do futebol português

O Estrela da Amadora é um clube que, muito provavelmente, deixará de existir a curto prazo. Os salários em atraso - que já contam sete meses - serão, portanto, o carrasco primeiro do clube. Puro engano.
Desde há muito tempo que reflicto no seguinte: Portugal, futebolisticamente falando, é um país provinciano. Um exemplo: cabe na cabeça de alguém com bom senso que os principais programas desportivos sejam quase em exclusivo dedicados à análise dos três grandes clubes portugueses? Os das televisões (SIC e TVI) vão ao ponto de desfrutarem de comentadores residentes que defendem, assumidamente, o Benfica, o Sporting ou o FCP. Do mesmo modo, a televisão pública, que deveria ter a obrigação profissional de dar o mesmo tempo de análise a qualquer jogo, embarca no mesmo trilho. Depois, temos os comentadores que são hilariantes. É só perder um pouco de tempo a ouvi-los e depressa chegamos à conclusão que muitas das opiniões expelidas são fruto de uma total ausência de racionalidade, isto é, motivadas em exclusivo pelo pulsar da "lógica" inflamada da paixão. Mas falam, conversam, discorrem, muitos monologam longos e cansativos minutos. Só vê quem quer, dirão alguns. E também é verdade. Acontece que o país - a grande massa social do país - vive há muito neste ambiente deprimente. Os jornais consumidos pelos portugueses são, na sua maioria, desportivos, ou melhor, futebolísticos (é só ver o espaço reduzido que cabe aos outros desportos). O que não há mal nenhum! Como também não é negativo os portugueses gostarem de futebol. Todavia, é precisamente pelo gozo que o futebol proporciona aos portugueses que deveria existir uma efectiva equidade no tratamento dos clubes. Se tal acontecesse, provavelmente algumas dezenas de milhares das centenas de milhares de habitantes da cidade da Amadora estariam, agora, a encher o respectivo estádio ou a pagar, orgulhosamente, quotas ao clube da terra, em vez de as endereçar para... um dos dois grandes de Lisboa (em menor número, naturalmente, ao outro grande, do Porto).
De facto, estou propenso a crer que o principal defeito do futebol português é este olhar provinciano para o fenómeno desportivo. Para mudar este paradigma seria preciso uma autêntica revolução na totalidade da imprensa, principalmente na rádio e na televisão. Provavelmente, demoraria anos. Mas tenho a certeza de que lá chegaríamos. Porém, esta transformação das mentalidades poderia ser abreviada se existisse uma proeminente entidade reguladora. E para isso bastaria que a actual entidade reguladora fizesse cumprir os seus propósitos normativos, nos quais se incluem, por exemplo, a "regulação e supervisão dos meios de comunicação social"; a certeza do direito à informação; a "independência face aos poderes político e económico"; "o confronto das diversas correntes de opinião, fiscalizando o cumprimento das normas aplicáveis aos órgãos de comunicação social e conteúdos difundidos e promovendo o regular e eficaz funcionamento do mercado em que se inserem", e também funcionar como um dos "garantes do respeito e protecção do público, em particular o mais jovem e sensível, dos direitos, liberdades e garantias pessoais e do rigor, isenção e transparência na área da comunicação social".
Afinal, não é preciso mais nada.

(publicado no Público, em 07/03/2009)

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