sábado, julho 04, 2009

o que pode fazer um ex-ministro

Alcançou-se irresponsavelmente a convicção de que, em Portugal, melhor do que ser ministro é tornar-se um ex-ministro. No caso de Manuel Pinho, este matiz veio, mais uma vez, clarificadoramente, ao de cima. O comendador Berardo, glória do coleccionismo português, apelou, através das televisões, para que Manuel Pinho aceitasse o cargo de administrador da sua fundação. É um grande conhecedor de arte, afiançou Berardo. Pois... se o diz, é porque o deve, realmente, ser. No entanto, esqueceu-se de afirmar o seguinte: para além disso, é um ex-ministro. Nada de novo, tendo em conta a promiscuidade que existe há muito entre o Estado e outros empregos (são de empregos que se trata, mesmo que, eufemisticamente, esta palavra nunca seja abertamente exposta). Os nomes abundam e são transversais aos partidos do arco governativo: Joaquim Ferreira do Amaral, Dias Loureiro, Armando Vara, Fernando Gomes, Mexia, e muitos, muitos outros que até se dão ao luxo de acumular o lugar de deputado da nação com cargos nos sectores público e privado. Vitalino Canas, por exemplo, digno porta-voz do PS, entretanto despedido dessas funções, acumulava, carismaticamente, esse cargo com o de provedor das empresas de trabalho temporário. Foi até apelidado, por um jornal, de "rei na actividade de consultoria", pois eram (ou continuam a ser) cinco o número de consultadorias que aglomerava (ou aglomera). A tão convenientemente apregoada ética republicana merecia mais do que este tipo de conduta sôfrega por parte desta classe política. Na verdade, fazendo deste tipo de conduta o estado normal da nação, tudo se vira de pernas para o ar, tendo em conta que a política, no seu postulado mais merecedor, deve personificar o mais exemplar desapego pessoal a determinados tipos de cargos. Dito de outro modo, os políticos devem orgulhosamente servir o país e não servirem-se deste para proveito próprio. Por isso é que nunca entendi, por exemplo, a fuga de Durão Barroso para Bruxelas, ou até mesmo a troca de António Costa de Ministro da Administração Interna para candidato (e certíssimo ganhador de eleições) a Presidente da Câmara de Lisboa.
Um outro ponto que gostaria de alinhavar a respeito da demissão de Manuel Pinho, tem a ver com a rapidez com que José Sócrates decretou a sua substituição (e também, valha a verdade, a sua demissão). Uma vez mais, estão, a meu ver, equivocados a maioria dos comentadores encartados das televisões e jornais. Faz-me lembrar o que li um dia da pena de António Barreto a respeito duma qualquer maratona de ministros que entrou até altas horas da madrugada. Dizia então o sociólogo que não quer ministros que decidam assim, cansados e com sono. Seria, pois, preferível que se deitassem cedo e, depois de uma noite repousante, retomassem, porventura com ideias clarificadas, a reunião. De facto, com esta decisão relâmpago do primeiro-ministro, passa-se mais ou menos o mesmo. Para quê a pressa? Acaso demonstrou alguma capacidade de resolução (sei que muitos se apressaram a enaltecer o regresso do velho Sócrates, aquele que não tem medo, o que, porventura, até seria essa a ideia que o próprio desejava)? Pelo contrário, José Sócrates provou que é um líder em contra-ciclo e que só uma espécie de milagre o poderá levar, de novo, a uma vitória nas duas eleições que se aproximam. Na realidade, Sócrates revelaria maior sapiência se adiasse a decisão da demissão do ministro – e, principalmente, a sua substituição –, para depois de uma reunião com os seus conselheiros. É para isso que eles servem, não é?

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