segunda-feira, julho 06, 2009

o fenómeno ronaldo

Já houve outro fenómeno chamado Ronaldo, mas este nunca adquiriu uma projecção comunicacional tão afincada quanto o Ronaldo português. Este é, obviamente, um produto do marketing, o mesmo marketing que elaborou, por exemplo, o casal Beckam. Tive, no entanto, esperança que um dos telejornais portugueses não abrisse a edição com a notícia Ronaldo. Afinal, hoje dois polícias foram traiçoeiramente alvejados num bairro da Amadora, estando um deles entre a vida e a morte. Do mesmo modo, o Presidente da República vetou uma importante alteração à lei do Segredo de Estado, aprovada pelos dois principais partidos portugueses, na qual o chefe de Estado critica, primordialmente, a possibilidade da nova comissão parlamentar "poder determinar a desclassificação de quaisquer informações ou documentos sujeitos ao segredo de Estado". Era, pois, uma oportunidade magnífica de Portugal se afirmar pela ideia, pela razão, ao não abrir telejornais com a apresentação dum jogador de futebol, mesmo que esse seja português. Isso sim seria uma notícia que elevava o país. Mas esta minha utópica pretensão começou-se a desconstruir quando ouvi o extraordinário embaixador de Portugal em Espanha, realçando o seu orgulho e, também orgulhosamente, debitar uma quantidade enormíssima de imbecilidades, em que a última foi o de relevar que estaria, sim senhor, no Estádio Santiago de Barnabéu como - note-se - embaixador de Portugal. Penso que não é para isso que lhe pagamos e o Presidente da República teria aqui uma útil e pedagógica palavra a dizer.
O que na realidade me choca é a capacidade do ser humano para este tipo de coisas. A paixão é, de facto, impetuosa. Aquelas centenas de milhares de pessoas que esperaram horas a fio e que encheram as bancadas do estádio do Real Madrid são movidas pelo mesmo sentido de irracionalidade (ou, se quisermos, de fé) com que outras, em amplitudes diferentes, rastejam durante horas no chão frio e esmaltado do Santuário de Fátima. Pouco ou nada as distinguem, embora seja mais representada, na manifestação religiosa, uma componente introspectiva naturalmente maior e, portanto, mais profunda.
No caso de Cristiano Ronaldo, ninguém é capaz de parar para pensar numa coisa tão simples quanto isto: por que razão não somos nós, selecção de futebol, capaz de ganhar à Albânia e a outros países que não são duma primeira linha do futebol mundial? Ou estarmos com sérias hipóteses de não sermos apurados para o mundial de futebol? Onde cabe, nestas duas perguntas, o fenómeno Ronaldo? Ainda por cima não se pode dizer, com acontecia com Maradona, que a equipa é de segunda. Na verdade, Portugal tem, na selecção, jogadores que jogam nas principais equipas da Europa. Um jogador como o que foi hoje sumptuosamente apresentado no Santiago Bernabéu deveria ter qualidades suficientes para levar a selecção não só a ganhar a Malta, como também o campeonato do mundo de futebol. Mas eu presumo que sei por que razão isso não acontece. E volto, pois, ao princípio. Cristiano Ronaldo é o produto de um inteligente marketing desportivo, um boneco que se vende muito bem. E foi o boneco que o presidente do Real Madrid comprou, o jogador vem depois.

(publicado no jornal Público, em 10/07/09)

1 comentário:

Anónimo disse...

Concordo José. Como é possível Portugal ter óptimos jogadores (tal como os pintam) e, ainda, o melhor jogador do mundo e mesmo assim estamos em risco de não nos apurarmos para o Mundial. O Ronaldo, como disse, não passa de um boneco cujo papel ele parece ainda não ter compreendido, pois julga-se mesmo o melhor do mundo. Notem bem: o melhor jogador do mundo. Ainda não vi um jogo que fosse onde o Ronaldo tivesse sobressaído dos restantes a jogar à bola.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

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