sábado, janeiro 16, 2010

alegre outra vez

O reboliço presidencial inicia-se assim com as declarações de disponibilidade de Manuel Alegre, seja lá o que essa disponibilidade, efectivamente, representa. Os jogos de palavras, as interpretações exaustivas, o apoio paranóico dos partidos, as reacções, os outros disponíveis (ausentes, presentes), tudo serão, a partir de agora, escrutinados. Noto, desde logo, que Manuel Alegre iniciou esta sua pre-pre-campanha com três extorsões. Uma, aliás, devidamente assumida. Diz esta respeito à reivindicação do seu "grande amigo" Jorge Sampaio de que há mais vida para além do défice. Alegre substituiu o défice pelo orçamento e chutou para a frente. Depois, pegou naquilo que constituiu, em certa medida, um leit motiv de Soares na última campanha presidencial, quando acusava Cavaco de não passar de um tecnocrata, de um razoável economista sem grande entendimento das ciências sociais e humanas. Ou como falta, sobretudo, mundo ao nosso Presidente da República. Diz Alegre que não será um presidente de estatísticas e que será "pela pedagogia do gesto, da palavra" que orientará a sua acção a partir do palácio de Belém. Ora é precisamente aqui que reside a sua terceira empalmação. É que toda a gente se lembra do candidato Cavaco Silva enaltecer a palavra do presidente como forma suprema de orientação presidencial.
Entretanto, o Bloco de Esquerda espreitou esta janela de oportunidade para se adiantar no apoio a Alegre. Este, aparentemente, não se demarcou deste manhoso suporte eleitoral, o que não joga a seu favor. Na verdade, o que leva o Bloco a sustentar a candidatura do ex-deputado socialista é, sobretudo, uma vontade de afirmação eleitoral num espaço em que pouco ou nada riscaria. É que os fios com que se tece uma eleição presidencial são diferentes dos de uma legislativa. A desastrosa experiência autárquica, que por pouco fez esquecer o excelente resultado nas legislativas, originou indubitáveis mossas no partido de Francisco Louçã. Por outro lado, os apoios partidários numa eleição marcadamente unipessoal são sempre presentes envenenados. Em Portugal, um Presidente da República tem a área de acção demasiadamente bem definida, para podermos desenvolver qualquer episódico programa presidencial. Por conseguinte, o que estará sempre presente na eleição para o mais alto cargo da nação terá sempre mais a ver com o estilo individual, com aquilo que às vezes ajuda a transportar de forma clarificadora uma mensagem, do que com qualquer ideologia político-partidária. Acaso a visão mais esquerdista de Alegre ajudaria Sócrates a ultrapassar os impasses existenciais da última maioria absoluta? A resposta é negativa. Daí que tudo gravite à volta de meia dúzia de palavras, as quais farão inexoravelmente parte do glossário presidencial. De facto, vocábulos como árbitro, palavra, pedagogia, respeito, independência, não-ingerência, farão parte integrante e quase exclusiva da visão programática dos candidatos. Acreditem que não vamos sair disso.

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vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

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