terça-feira, dezembro 15, 2009

o verdadeiro monstro

Foi já há algum tempo (em política o que parece é, deixa de se para tornar a sê-lo) que Cavaco Silva, então um putativo candidato presidencial (já em evidente preparação da sua candidatura) apelidou de monstro a despesa pública preconizada por um Orçamento de Estado de um executivo de António Guterres. Hoje, o monstro – esse monstro – deixou de ser ouvido. Talvez em silêncio ainda se consiga escutá-lo.
Vivemos num período de alta crispação política. No Parlamento – casa da democracia, do povo – não há praticamente sessão parlamentar em que não assistamos a um gotejar de ódios acumulados durante quatro anos de uma inapropriada maioria absoluta. Os deputados – os nossos representantes (desajustados representantes?...) – revelam aí a confiança que devemos neles depositar: em vez da criação de vontades, num período crítico da nossa história, optam por uma digladiação verbal cheia, com já referi, de acumulações pestilentas. Os jornais, as televisões e rádios agradecem. Na primeira audição da Comissão Parlamentar de Saúde, uma deputada do PSD chamou palhaço a um deputado do PS. Este respondeu-lhe com uma qualquer pacovice relacionado com o berço, a linha de Cascais, etc., sublinhando que os apartes, mesmo que insistentes, fazem parte da vida de um deputado. Nessa mesma Comissão, a Ministra da Saúde coloca as mãos na cabeça – o que lhe ficou muito mal – num sinal claro de suposta impaciência. O mesmo deputado do Partido Socialista, saindo da sua obscuridade política, teve depois direito, já num outro registo, a discorrer filosoficamente, como uma espécie de comentador político televisivo dos trabalhos parlamentares, afirmando (mais uma vez) o óbvio, isto é, o que tem vindo a ser constantemente martelado na imprensa: que o PSD deseja criar uma situação de instabilidade política que conduza à inevitável ingovernabilidade e à consequente queda do executivo. É surpreendente este tese. Se existe partido desinteressado, neste momento, em eleições, é o PSD, visto que vive um período de completo desnorte, podendo mesmo (e não é descabido este raciocínio) desaparecer enquanto força de alternância democrática. Os partidos, quando não se justificam, aglutinam-se em outros ou, simplesmente, desaparecem.
Andamos, pois, nisto. Contudo, há um outro país, um país que existe fora destes pitorescos episódios parlamentares. Esta semana um jornal nacional deu conta que Portugal destrói empregos ao dobro do ritmo da União Europeia. Por conseguinte, o referencial dos dois dígitos de desempregados foi já ultrapassado, em Portugal. Com efeito, o número de desempregados no nosso país representa já 10, 2% da população activa (561 mil portugueses sem emprego). Sabendo que estes números são indicadores oficiais e que andam a par com muitos empregos precaríssimos e desempregados que já nem constam nesta panóplia estatística, o desemprego em Portugal assume já verdadeiramente contornes de uma monstruosidade política e social. Desgraçadamente, este país parece interessar menos do que a desajustada retórica parlamentar. No entanto, é precisamente para este país, das pessoas carenciadas, sem a possibilidade de edificar um plano coerente de vida, que a Assembleia da República deve definitivamente olhar. E sublinho Assembleia da República, pois não importa que a resolução (ou atenuação) provenha do governo, do partido A ou B ou mesmo de uma conjugação de forças. O país político não deve deixar de olhar com objectividade para estes números, os quais, mais do que números, são, na verdade, pessoas. Muitas delas sem possibilidade de arranjar novos empregos. Muitas delas na faixa etária dos 25 anos (18, 9 por cento), com formação académica capaz.
Eu quero simplesmente que o meu país não seja um país de exclusão social. O desemprego, esse monstro que teima em grassar paulatinamente na nossa sociedade, é o principal factor de uma sociedade moralmente afectada. Os deputados, nossos dignos representantes, não podem passar ao lado disto.

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