segunda-feira, dezembro 07, 2009

alegre e cavaco

Estou propenso a crer que, dentro de meio ano, teremos um combate eleitoral presidencial entre Manuel Alegre e Cavaco Silva. Creio ainda que Cavaco será o primeiro presidente da República pós-democracia não eleito para um segundo mandato. E a culpa cabe-lhe inteirinha. Na verdade, Cavaco Silva tem revelado, ao longo deste três anos, uma inaptidão que chega a ser confrangedora. Julgo que o cargo de Presidente da República, em Portugal, não é particularmente difícil exercê-lo. Basta vermos os altos níveis de popularidade que todos os ocupantes do Palácio de Belém têm atingido para percebermos isso. O lugar, de constitucional referência, não se adequa a grandes desgastes. No nosso imaginário colectivo existe ainda uma figura qualquer reinante, pairando por cima da nação, protector. Foi assim que nos mantivemos prisioneiros de uma longa ditadura de 48 anos. E à falta desse tópico referencial, elegemos Salazar, num estúpido concurso de televisão, como a personalidade portuguesa maior de todos os tempos.
Voltemos a 2011: Cavaco e Alegre. Este iniciou há dias um percurso que o levará a ser o escolhido pelos seus continuados e entusiastas apoiantes. Por muita reticência metafísica que componha, o caminho é já o de não retorno. O seu primeiro passo nesse sentido aconteceu quando não aceitou as rogativas do primeiro-ministro para continuar com o seu velho assento parlamentar. De facto, o balizamento temporal até às eleições impunha que não se criasse muitas ondas fricativas com o seu partido de sempre. Dito de outro modo: Alegre ficaria muito mal na fotografia se se enquadrasse de forma natural na agora tão proclamada coligação negativa, isto é, o ajuntamento da oposição partidária na Assembleia da República. Não haveria, pois, lugar para um apoio seguro do PS. Fora do parlamento, o seu espaço de manobra cresce de forma mais assumida, criando desde logo uma imagética de independência tentacularmente adequada. Assim, basta a Manuel Alegre não entrar naquilo que o seu putativo adversário é escorreito – e que tem a ver com uma saturada atmosfera de tabus presidencialistas – para que o seu caminho se reflicta de forma afirmativa. Nos dias que correm, o falar claro, sem rodeios semânticos, é um bem cada vez mais precioso e que Cavaco Silva, notoriamente, não usufrui. Basta olharmos para os inúmeros exercícios de análise discursivo-comunicacionais que a nossa imprensa edifica aquando de qualquer intervenção pública do presidente. De facto, revela-se cada vez mais difícil a Cavaco Silva esboçar um fio de rumo coerente. Fala de estabilidade e age de forma oposta, como se viu na recente polémica das escutas a Belém. O referencial de estabilidade, imposta pela constituição, é coisa que não se vislumbra, nem com muito esforço de análise. Não o ouvimos acerca de nada e, quando isso não acontece, as banalidades são mais que muitas. Um equívoco, portanto. Neste sentido, não é de todo insciente efectuarmos um hipotético exercício político e pensarmos o quanto o país teria ganho se Cavaco Silva não tivesse sido o vencedor das eleições de há três anos atrás. Soares teria sido, estou certo, um presidente muito mais jovial e “atrevido” do que Cavaco. Agora, Manuel Alegre tem a hipótese de relegar o actual presidente da República para um segundo lugar, apesar de sustentar ainda alguns anti-corpos dentro do PS. Mesmo Mário Soares, que tem vindo a ter um desempenho crítico algo confuso em relação à orientação do socialismo moderno José Sócrates, não tem muito por onde escolher senão apoiá-lo. E por parte da perigosamente desagregada família social-democrata haverá muito boa gente que colocará a sua cruzinha à frente do candidato ao lado, visto que o apoio incondicional de outrora foi um tiro que saiu, de certa forma, pela culatra. Aliás, nunca compreendi muito bem o empenho pseudo-programático e material dos partidos para com os seus pretensamente candidatos. A eleição presidencial é inteiramente unipessoal. Daí que não deveria caber, aqui, disputas partidárias. A única razão por que teimosamente existem deve-se a um mero exercício de confronto partidário tradicional: ganhou desta vez o PSD e na próxima vamos ver se é o PS que alcança o voto da maioria. Por isso, enquanto andarmos entretidos neste mastigar aparentemente incessante da nossa vida política, em que dois partidos muito iguais se digladiam de forma um tanto pitoresca (basta analisar o último debate quinzenal do primeiro-ministro com os deputados da nação para verificarmos que, mais do que uma conversa política, o que ali se debateu foi apreciações de carácter), não conseguiremos arredarmo-nos do nível de desenvolvimento que ainda usufruímos. Assim, o que poderia constituir uma efectiva mais-valia para o país, a situação de maioria relativa que se desenha actualmente no Parlamento, tem-se revelado cada vez mais impossível de gerir. Daí que o papel do Presidente da República adquira, neste contexto, uma importância acrescida. Mas não é este pressuposto que, infelizmente, contemplamos.

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vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

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