domingo, abril 25, 2010

maioria parlamentar?

É recorrentemente obsessiva a lamúria: Portugal precisa de uma maioria parlamentar. Os chamados partidos do poder tentam invariavelmente alcançar esse mirífico e místico objectivo. Daí que nas campanhas eleitorais o partido que parte melhor colocado nas sondagens esboce sistematicamente o discurso demagógico do ou nós ou o caos. Na verdade, foi Cavaco Silva o introdutor desta sintomatologia apocalíptica, ainda que não passasse de mera retórica eleitoral. Mas é um facto indesmentível que o cheiro do poder maioritário, da tal maioria parlamentar, inebria os espíritos mais lúcidos. Esquecem no entanto que vale mais uma oposição responsável, construtora de um entendimento maioritário nacional (via Parlamento), do que qualquer Governo apoiado por um partido amorfo e submisso. Aparentemente, a metamorfose que o PSD se encontra a passar vai nesse sentido. O seu líder foi já claro nos seus intentos: não tem pressa de chegar ao poder. Do mesmo modo, pôs de lado (disse-o de forma objectiva) o chamado ataque de carácter, o qual não pretende senão descredibilizar o primeiro-ministro inserido numa perspectiva que raramente ultrapassa o pessoal (tenho-o, porém escrito: José Sócrates tem-se posto muito a jeito para estes tipos de investidas, ora através das do seu percurso político-profissional, ora mesmo através de um certo porreirismo nacional que leva a que, por exemplo, se efectuem exames universitários num domingo, ou mesmo através das suas já tradicionais afrontas aos órgãos de comunicação social que não partilham a sua visão avaliativa do executivo que lidera). De facto, os primeiros sinais de Passos Coelho são reveladores dessa sua postura. Apresentou já uma outra visão para o PEC (o plano B), a ideia um tanto romântica de um grupo de senadores da República (o Conselho Superior da República) com um fim específico de fiscalização dos cargos de nomeação política (e o Parlamento?), um reforço do Parlamento na nomeação de quem vai exercer cargos públicos, a separação das magistraturas judicial e do Ministério Público (retirando a esta o estatuto de órgão de soberania) e uma série de pontos de vista que tem sempre como base a visão dicotómica entre mais ou menos Estado, entre mais ou menos ingerência do Estado na regulamentação da economia e em sectores-chaves como a educação e a saúde. Neste ponto, não é, todavia, claro. Por vezes, Passos Coelho parece render-se a um a um liberalismo capitalista que desencadeou a crise que ainda passamos; outras vezes, parece não se conformar com o primado da economia sobre a política. Por isso, faz bem esperar pela sua oportunidade e não ter pressa em chegar ao poder. Mas, como nós sabemos, este inebria o mais lúcido dos espíritos. Vamos ver qual será o seu discurso quando as sondagens lhe confiarem uma aproximação virtual de uma maioria parlamentar.

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