sexta-feira, outubro 24, 2014

o sr. Horta Osório




Horta Osório é mais um daqueles portugueses que "singraram lá fora" e que, por isso, são respeitadíssimos cá dentro. Conseguintemente, tem, habitualmente, aquilo que se costuma apelidar de uma boa imprensa. É mais um que ostenta o inevitável e decerto merecido penduricalho presidencial. Possui, de certo modo, uma determinada aura sebastiânica o que, no fundo, acaba por ser bom para o país, apesar deste lote de intocáveis promessas ter produzido mais desalentos do que realidades concretamente positivas. Curiosamente, o sr. Horta Osório tem sempre fugido, convenientemente, de uma certa opiniaticidade política. Não foi, todavia, o que hoje aconteceu, numa conferência realizada em Lisboa, na qual o presidente executivo do Lloyds Banking Group reatou a teoria neoliberal da austeridade como único remédio para a crise. Retorquiu ainda com o estafado argumento de que os portugueses não podem viver acima das suas possibilidades. Pois não, nem os portugueses, nem ninguém, acrescento, timidamente.
Lembro-me, nestas ocasiões duma frase de Paul Valery sobre a estupidez da guerra. É a seguinte: "A guerra é um massacre de homens que não se conhecem em benefício de outros que se conhecem mas não se massacram.” Deixo a pairar nestes fios tentaculares uma simples questão: por que razão estes senhores que ganham milhões expelem este tipo de axiomas, como se conhecessem a verdadeira realidade das vidas das pessoas que, em vez dos milhões, auferem tostões?

o machete

Rui Machete é um desastre como ministro do que quer que seja, como foi enquanto presidente da Fundação Luso-Americana, como eventualmente fora como ocupante de qualquer cargo de interesse público (não confundir com partidário). O episódio da entrevista à rádio pública de Angola, na qual revelou, episodicamente, uma espécie de relato apaziguador das investigações feitas em Portugal sobre personalidades angolanas, constituiu um irrevogável ato de estupidez. O homem não foi despedido, pediu desculpas e o Governo prosseguiu a sua credível senda de nos proporcionar uma avaliação cada vez mais negativa da política e da República. O caso agora em apreço, em que o sr. Rui Machete diz duas ou três costumeiras banalidades, entre as quais tem a "ousadia" de pronunciar o denominativo estado islâmico, acompanhando-o de duas ou três referências a pobres portugueses com vontade de regressar a torrão pátrio, não me parece coisa de grande monta. A não ser que o desbocado homem tenha, off the record, teorizado as suas habituais necedades. Daí que não vejo razão para tanto alarmismo nem sequer para despedir o homem. É minha convicção que, no atual estado da arte governativa, o melhor é deixar apodrecer. O tempo da monda já passou.

segunda-feira, outubro 20, 2014

pt going down

A história é parca e comum nestas bandas lusas. Um gestor, promessa patrícia por entre os que navegam no tal arco da governabilidade que Paulo Portas tanto gosta de aludir, destruiu uma empresa bandeira nacional, assentadamente coadjuvado, é certo, pelos tais do arco. O gestor saiu da empresa sem, promissoramente, abdicar de negociar a compensação dessa definitiva e lacrimejante saída. Ficou com cinco milhões no bolso e um penduricalho que ganhou não sei por qual dos presidentes da República pelos relevantes serviços prestados à pátria.

nuno crato, o viajante

Pode parecer um fait divers impregnado de oportunos laivos demagógicos, se olharmos para a atualidade educativa, a notícia que saiu nos jornais sobre as viagens de Nuno Crato. No entanto, não se consegue vislumbrar razões para, por exemplo, o ministro ausentar-se para um encontro, em Milão, sobre telecomunicações, quando os professores viviam uma dilacerante angústia decorrente do miserável processo de colocação destes profissionais; ou quando, em plena sétima avaliação da troika, com vista a novos cortes na educação, o sr. Crato andasse, durante três semanas (!), por terras americanas do sul.
A meu ver, esta atitude é reveladora da postura do sr. Nuno Crato, a qual se pode caraterizar de irresponsável, incompetente e, verdadeiramente, demagógica. É que se tivermos em conta o discurso acrimonioso que o catapultou para o relevantíssimo cargo que atualmente ainda ocupa (mesmo que só do ponto de vista formal), no qual visava os gastos supérfluos com a reabilitação das escolas (não havia necessidade de tantos luxos, invocava, subliminarmente), assim como o estafado teor comunicacional do rigor nas contas e no processo educativo em geral, este posicionamento... enfim... viajante do sr. Crato não é mais do que a revelação definitiva do grau zero político que este Governo enlaçou.
E assim vivemos, e assim somos governados.

terça-feira, outubro 14, 2014

a falsa questão da descentralização dos concursos dos professores

Os professores contratos vivem todos os anos uma angústia exasperante. Por um lado, querem à força emprateleirá-los quando serviram anos a fio um sistema que nunca os favoreceu, antes pelo contrário. Depois, vende a comunicação social em peso, tenebrosamente orientada pelos especialistas da educação (muitos especialistas, neste país), o paradigma da descentralização das escolas, em particular no que diz respeito à colocação dos professores. Ouvem-se, a este propósito, disparates tão sáfaros ao ponto de se afirmar que a culpa é da centralização do ministério, que tudo quer controlar, complementando a supina tese com os estafados exemplos da Inglaterra e dos países nórdicos, em geral, cujos concursos são estruturados tendo em conta uma forte componente municipalista.
Bastaria que estes senhores tivessem conhecimento dos concursos que correm para a contratação dos professores para, desvigoradamente, reconhecerem que o único concurso que correu bem foi precisamente aquele em que é feito pelo exclusivo critério da graduação profissional, isto é, o que é mais centralizado. Bastaria de seguida drapejarem pelos imaginativos critérios das escolas para perceberem que muitos diretores não são capazes de honrarem o cargo que ocupam. Por fim, bastaria tão somente entenderem que a verdadeira autonomia das escolas passa por muitas mais coisas - e bem mais importantes - do que a colocação dos professores.
Colocando os professores pelo critério da graduação profissional sobraria mais tempo às escolas para se reinventarem na sua autonomia. Com efeito, desde cargas horárias a currículos e áreas disciplinares, passando pelos regulamentos internos (alguns verdeiros hinos à ilegibilidade), orientações disciplinares e vocação da própria escola enquanto ethos comunitário e educativo, tem a escola uma grande margem de manobra para exercer e aprofundar a sua vocação - endémica e saudável - de autonomia.
As escolas não são empresas. Neste sentido, orientar o recrutamento dos professores à medida das sinaléticas "patronais", qual empresa de ensino privado, não me parece que seja o melhor caminho para que cada vez mais escolas de ensino público possam existir enquanto espaços de verdadeira cidadania e de justiça.

o governo e o seu não-programa

Parece-me de entendimento fácil. Este é o pior Governo dos últimos anos, senão mesmo o pior da democracia. Deste modo, impõe-se, objetivamente, uma questão: por que razão, sendo ele assim tão mau, durou tanto tempo, uma legislatura? A resposta, a meu ver, é simples e abarca duas vertentes. A primeira tem a ver com a idiossincrasia do povo português, o qual não é potencialmente adepto de mudanças. É, neste sentido, conservador. Afinal, foram 48 anos de formatação mental e ideológica. As mudanças das mentalidades demoram gerações, apesar de Portugal se ter alterado profundamente nos últimos 40 anos.
A segunda razão liga-se à completa ausência de um programa de Governo, de uma ideia para Portugal enquanto país, de uma ideia de pátria, portanto.
Simplificando: enquanto o Governo se pôde reger pelo memorando da Troika, a coisa andou. A partir do momento em que este deixou de existir, o Governo patinou, continuando o seu inexorável caminho para um final inglório. No fundo, o que devia ter passado pela cabeça de Passos e Maria Luís (julgo que Portas é uma mera personagem sobrevalorizada pela imprensa, sem grande importância no interior do Governo), no dia a seguir à ida da Troika, foi e agora o que fazemos, sem o precioso caderno de encargos? A resposta a esta pergunta é óbvia e notória. Sentimo-la.

quarta-feira, outubro 08, 2014

manter-se-ão, "jamais", em francês, diz crato

Nuno Crato, ouvido há instantes no Parlamento afirmou que, na sua última vinda à Assembleia da República, havia referido que os professores prejudicados pelo erro concursal mantêm-se e não manter-se-ão, afastando, assim, qualquer ausência deontológica no exercício de tão importante cargo republicano. Com isso, Crato tentou passar aos portugueses, por intermédio dos seus representantes, um atestado de menoridade mental. Como se provou, os deputados, apesar de se situarem um pouco afastados dos verdadeiros problemas que estes concursos em simultâneo acarretam, não são pessoas destituídas de inteligência e bom senso. No meio desta inexorável vergonha, o único garante de alguma polidez moralizante seria o Presidente da República. Desgraçadamente, Cavaco Silva não se rege pelas agendas dos outros, antes pelos superiores interesses do país. Com efeito, há muitas botas que não batem com a perdigota.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...


neste momento...