Passamos três anos a discutir números: défices, desemprego, juros, fiscalidade, etc. Paulatinamente, passamos a acreditar nos números, fossem ou não contraditórios e repescados. Acontece que uma sociedade não é feita de números. À medida que os variadíssimos filosofemas aritméticos grassavam na comunicação social cada vez mais especializada, a nação, enquanto existência coletiva com vista ao seu aperfeiçoamento cívico e cultural, ia definhando e - salvo raras vozes por vezes apresentadas por essa mesma especialização económica como pitorescas - caindo numa espécie de apoplexia generalizada.
Assim, parece que ainda não compreendemos que o nosso maior défice atual não é o do qeu a generalidade dos economistas proclama. É, antes, o do pensamento, o de termos a capacidade de nos olharmos criticamente, de termos a noção do que fomos e do que somos, sem qualquer espécie de nacionalismo entupido. Augusto Fuschini escrevia, nos finais de oitocentos, que vivíamos um período de passividade generalizada, de cobardia e de indiferença, do encantamento perante o uso da palavra ornamental sem conteúdo. Nesse período da monarquia constitucional, dois partidos partilhavam o poder entre si, a esfera pública denegria-se, os cidadãos não estudavam e não tinham cultura cívica.
Hoje, porém, tudo deveria ser diferente. Desapareceram os analfabetos, estudamos mais e somos mais civilizados. Acontece que tudo isso não basta. Elegemos quem não merece. Somos escandalosamente enganados e continuamos a acreditar. Vivemos uma ditadura de quase meio século que, de certa forma, nos formatou. Somos um povo inerte, triste, por muito que nos digam o contrário. Não somos capazes de pensar porque a escola não nos ensinou a pensar. Recebemos dos nossos pais os seus hebetismos, os quais haviam sido animicamente transmitidos pelos nossos avós. Os nossos filhos, a tal geração mais preparada de sempre, têm de sair do país e os que por cá ficam são céleres a imiscuir-se nessa onda apática. Anuímos, simplificadamente, às mais disparatadas decisões políticas que, inexoravelmente, interferem na nossa vida e não conseguimos esboçar uma reação de protesto real porque vamos apressadamente a correr para uma qualquer rede social organizar um "meet".
E a pairar por lá, o mais inapto Presidente da República da nossa história democrática entretém-se no seu facebook, oferecendo-nos uma extraordinária prova de vida aparecendo, meticulosamente, ao vivo e a cores, nas três televisões que nos pastoreiam.
Somos um povo enfraquecido e vendido. Não temos já a noção do país e da pátria e do que é ser português. E também não sabemos o que é ser europeu. Sei que a culpa não é só deste Governo. Mas que é esta a sua "cultura", disso não tenho grandes dúvidas.
domingo, setembro 14, 2014
quinta-feira, setembro 11, 2014
a rescisão de paulo bento
Parece-me que, como aqui foi afirmado, rabular a incompetência da seleção na equipa médica foi uma ideia incompreensível. Como muito bem disse Henrique Jones, não seria necessário esperar pelo jogo com a Albânia para se concluir que o mal não residia nos médicos. Agora iniciar-se-ão dois processos, inexoráveis e paralelos: a beatificação de Bento (grande homem, grande caráter) e a vasca de nomes posteriormente lançados sem apelo nem agravo para a praça pública. Os compungentes comentadores ajudarão, natural e filauciosamente, à festa.
quarta-feira, setembro 10, 2014
o comissário moedas
Eu não consigo entrar na abnóxia mas facúndia discussão à volta do novel comissário Carlos Moedas. Como cidadão da União Europeia, estou-me perfeitamente nas tintas sobre se existe algum português na equipa de Jean-Claude Juncker. Provavelmente, há-os aos montes, em Bruxelas, desde motoristas a empregadas de limpeza. Carlos Moedas é só mais um que vai fazer qualquer coisita pela sua vida. Tal como outros antes dele fizeram, a começar, desde logo, pelo deslizante Barroso. Uns são de luxo, outros mais normalizados; outros ainda forçados. O que os une: trabalham fora de Portugal. Chamemos-lhes emigrantes, até por conveniência denominativa.
Adrede, por que raio se discute nas televisões o (excelente, diz o unanimismo) perfil de Carlos Moedas para a pasta da Investigação, Inovação e Ciência e não se perde um minuto com, por exemplo, Pierre Moscovici, ex-ministro das Finanças de Paris e futuro comissário económico europeu? Ou com o obliquamente extremado Jyrki Katainen, o finlandês que assumirá o cargo de vice-presidente para coordenar todos os principais temas ligados à economia, emprego, investimento e crescimento?
Adrede, por que raio se discute nas televisões o (excelente, diz o unanimismo) perfil de Carlos Moedas para a pasta da Investigação, Inovação e Ciência e não se perde um minuto com, por exemplo, Pierre Moscovici, ex-ministro das Finanças de Paris e futuro comissário económico europeu? Ou com o obliquamente extremado Jyrki Katainen, o finlandês que assumirá o cargo de vice-presidente para coordenar todos os principais temas ligados à economia, emprego, investimento e crescimento?
costa e seguro - tomo II
O segunda debate foi melhor do que o primeiro porque os adversários tiveram uma atitude politicamente mais assertiva. Penso, no entanto, que fazem ambos mal se teimarem no enfoque do politicamente diferente, designadamente quando se fala de programas. A diferença deve residir no combate que vem a seguir, isto é, nas legislativas, afirmando-se o PS como uma alternativa a este estado de degradação social que o Governo de Passos e Portas e Gaspar e Maria Luís teima em aprofundar.
Costa foi mais claro do que Seguro. Neste sentido, a questão das alianças com outros partidos, sejam elas de que teor forem, revelou-se pertinente. Fiquei lamentavelmente sem saber com o que contar se Seguro for primeiro-ministro. O homem não se alia com o PSD/CDS, nem com os partidos à esquerda do PS. Não se alia, portanto, com ninguém. E então se não tiver maioria absoluta, como parece que ninguém alcançará?
Costa foi mais claro do que Seguro. Neste sentido, a questão das alianças com outros partidos, sejam elas de que teor forem, revelou-se pertinente. Fiquei lamentavelmente sem saber com o que contar se Seguro for primeiro-ministro. O homem não se alia com o PSD/CDS, nem com os partidos à esquerda do PS. Não se alia, portanto, com ninguém. E então se não tiver maioria absoluta, como parece que ninguém alcançará?
antónio seguro e antónio costa
Segui o debate dos dois socialistas. Não temi a tão afamada e prognosticada cisão interna pós-eleições. Vi um debate normal com dois políticos que aspiram um dia chegar a primeiro-ministro. Ao contrário do que muito boa gente afirma, os dois sinalagmáticos contendores não são assim tão díspares. Nem esperava, aliás, que o fossem. Afinal, são ambos socialistas ou, pelo menos, militantes destacados. Daí que seja muito difícil encontrar sublinhados antagonismos programáticos. E ainda bem. Há, a meu ver, um só aspeto que trairá Seguro: o seu afastamento, a sua crítica oposicionista e gladiada aos anos de Sócrates. Eu, que não sou militante socialista, prefiro de longe Sócrates a Passos Coelho. Bastar-me-ia uma simples razão: há, em José Sócrates, um cariz mais patriótico relativamente às obrigadas relações externas, situando-se estas dentro ou fora da União Europeia. Com Passos Coelho e companhia, Portugal deixou de ter voz e transformou-se num Zé Ninguém. Como diria
provavelmente Eduardo Lourenço, Portugal deixou de ter pátria. E esta anulação
é, obviamente, o pior que pode acontecer a países com a dimensão de Portugal.
Deixar, assim, de contar para o asserto das nações.
Daí que tenha ficado hebeticamente perplexo quando vi António Costa fugir a sete pés do consulado governativo do anterior líder do partido. Seria, aliás, uma boa pergunta de Judite de Sousa: em qual dos candidatos votariam Seguro e Costa, numa hipotética eleição: Sócrates ou Passos? Poderiam, naturalmente, votar também em branco. Ou nem lá pôr os pés.
Daí que tenha ficado hebeticamente perplexo quando vi António Costa fugir a sete pés do consulado governativo do anterior líder do partido. Seria, aliás, uma boa pergunta de Judite de Sousa: em qual dos candidatos votariam Seguro e Costa, numa hipotética eleição: Sócrates ou Passos? Poderiam, naturalmente, votar também em branco. Ou nem lá pôr os pés.
sexta-feira, setembro 05, 2014
o ministério dos diretores escolares
Vivem-se uns dias normalizados no reino da educação. Setembro iniciou-se e, com ele, os professores protestam, os encarregados de educação agonizam, os funcionários não docentes titubeiam, os computadores e respetivas luminárias que fazem e desfazem o haurido concurso de professores empancam... Tudo, portanto, muito parecido com o que se passou em setembro do precedente ano. E há dois anos a coisa foi também assim, mais ou menos.
Tudo isto desagua inexoravelmente num ciclotímico qualificativo: incompetência. Se, conseguintemente, a quisermos nominalizar (a incompetência), não é difícil: Nuno Crato. Não tenhamos dúvidas: a educação está pior hoje do que estava há três anos: menos professores, megagrupamentos, turmas mais numerosas, carga horária disciplinar mal concebida, irregularidades várias, indignidades profissionais (por exemplo, obrigarem os professores contratados a abandonar a escola depois da última reunião do ano), cortes nas áreas sociais, etc.
Com efeito, a absoluta e comprovadíssima incompetência de Nuno Crato é muito interessante e com muito potencial crítico. No entanto, não devemos tubular o nosso ponto de vista. Adrede, uma questão se impõe, inevitável e acrimoniosa, no meio de tudo isto: onde param os diretores das escolas? Amocham para, junto aos seus subordinados (professores, leia-se), andarem com palmadinhas nas costas e afirmarem que isto está cada vez pior, que a autonomia é uma treta, que o ministério não deixa fazer isto e aquilo, que exige mais isto, que não entende o que é uma escola...? Já alguém viu uma tomada de posição por parte da associação dos diretores? Afinal, gostam ou não gostam? Concordam ou não concordam? Será que ainda ninguém percebeu que a verdadeira mudança de rumo na educação só se pode dar com atitudes de rutura por parte de quem tem maiores responsabilidades administrativas? São ou não são, afinal, os diretores representantes diretos do ministério da educação nas escolas?
Tudo isto desagua inexoravelmente num ciclotímico qualificativo: incompetência. Se, conseguintemente, a quisermos nominalizar (a incompetência), não é difícil: Nuno Crato. Não tenhamos dúvidas: a educação está pior hoje do que estava há três anos: menos professores, megagrupamentos, turmas mais numerosas, carga horária disciplinar mal concebida, irregularidades várias, indignidades profissionais (por exemplo, obrigarem os professores contratados a abandonar a escola depois da última reunião do ano), cortes nas áreas sociais, etc.
Com efeito, a absoluta e comprovadíssima incompetência de Nuno Crato é muito interessante e com muito potencial crítico. No entanto, não devemos tubular o nosso ponto de vista. Adrede, uma questão se impõe, inevitável e acrimoniosa, no meio de tudo isto: onde param os diretores das escolas? Amocham para, junto aos seus subordinados (professores, leia-se), andarem com palmadinhas nas costas e afirmarem que isto está cada vez pior, que a autonomia é uma treta, que o ministério não deixa fazer isto e aquilo, que exige mais isto, que não entende o que é uma escola...? Já alguém viu uma tomada de posição por parte da associação dos diretores? Afinal, gostam ou não gostam? Concordam ou não concordam? Será que ainda ninguém percebeu que a verdadeira mudança de rumo na educação só se pode dar com atitudes de rutura por parte de quem tem maiores responsabilidades administrativas? São ou não são, afinal, os diretores representantes diretos do ministério da educação nas escolas?
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quinta-feira, setembro 04, 2014
o governo empancado
Para gáudio dos profetas das desgraças lusitanas, existem irrevogáveis citius do Governo que teimam em, sistematicamente, empancar. Dou dois exemplos recentes: os programas informáticos do ministério da educação e da justiça.
Na verdade, não se entende como é que é possível fazer, relativamente ao panorama concursal dos professores, pior de ano para ano. A culpa, obviamente, é sempre do sistema informático. De fora fica a incompetência.
Quanto à apelidada reforma judiciária, confesso que ainda não a entendi. Vejo simplesmente, na televisão, esbaforidos funcionários, de caixotes literalmente às costas, os quais presumo que contenham milhares de processos. De seguida, compreendo duas ou três coisas: encerram tribunais onde dizem que não há necessidade de existirem; os funcionários têm de se mudar para instalações provisórias para, dentro de um ano ou dois, voltarem a carguejar outros caixotes em direção aos mapas judiciários definitivos; não consigo vislumbrar, para além da extraordinária ministra, alguém satisfeito; e, finalmente, o inexorável empancamento do portal CITIUS.
Portugal é um país cansado. Se existe, de facto, um aspeto no qual o Governo atingiu os seus propósitos, diz precisamente respeito ao nível anímico dos portugueses. Este encontra-se, lamentavelmente, pelas ruas da amargura. Não fora isso e esta equipa de Passos Coelho já tinha ido pregar para outros citius.
Na verdade, não se entende como é que é possível fazer, relativamente ao panorama concursal dos professores, pior de ano para ano. A culpa, obviamente, é sempre do sistema informático. De fora fica a incompetência.
Quanto à apelidada reforma judiciária, confesso que ainda não a entendi. Vejo simplesmente, na televisão, esbaforidos funcionários, de caixotes literalmente às costas, os quais presumo que contenham milhares de processos. De seguida, compreendo duas ou três coisas: encerram tribunais onde dizem que não há necessidade de existirem; os funcionários têm de se mudar para instalações provisórias para, dentro de um ano ou dois, voltarem a carguejar outros caixotes em direção aos mapas judiciários definitivos; não consigo vislumbrar, para além da extraordinária ministra, alguém satisfeito; e, finalmente, o inexorável empancamento do portal CITIUS.
Portugal é um país cansado. Se existe, de facto, um aspeto no qual o Governo atingiu os seus propósitos, diz precisamente respeito ao nível anímico dos portugueses. Este encontra-se, lamentavelmente, pelas ruas da amargura. Não fora isso e esta equipa de Passos Coelho já tinha ido pregar para outros citius.
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vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...
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