terça-feira, agosto 14, 2012

uma má notícia

Dados recentes do INE:
- o desemprego galopa incansavelmente sobre os trabalhadores (827 mil trabalhadores no desemprego no segundo trimestre - mais 7.600 pessoas que no trimestre anterior, e mais 152 mil pessoas do que no mesmo trimestre de 2011);
- descida do PIB que caiu 3,3 por cento relativamente ao segundo trimestre do ano passado.

uma boa notícia

Li no Expresso sobre a doação que o empresário Paulo Paiva Santos remeteu para a fundação "O Século", este Verão sem argumentos financeiros para reiterar o que vem fazendo desde há 28 anos: levar meninos carenciados a uma colónia balnear. Este empresário da indústria farmacêutica fez questão de publicitar este seu filantropo ato, visto que, segundo as suas próprias palavras, "há muita gente que pode ajudar e não o faz [pois] estamos a falar de meia dúzia de tostões para quem está na lista dos 25 mais ricos de Portugal, para quem 300 milhões de euros ou 400 milhões. Talvez assim percebam que uma quantia insignificante para eles pode terum enorme efeito".
É uma inelidível verdade que em Portugal não existe uma cultura de aproximação filantrópica dos mais ricos à comunidade. A pátria, para eles, não é mais que um lugar vazio, um lugar existente algures entre um espaço financeiro de quanto mais melhor. Umbilicalmente melhor.

terça-feira, julho 24, 2012

convento de santa clara

Conheço o Convento de Santa Clara, em Vila do Conde, só de o ver passar, na estrada. Sei, no entanto, que o Convento de Santa Clara é sinónimo de Vila do Conde, sendo o contrário igualmente verdadeiro. Na televisão, passou hoje uma reportagem que mostrou a extrema degradação deste património nacional, com mais de 250 anos. Olho para as baixas de algumas cidades, entre as quais o Porto, património mundial, e o que vejo é vergonhoso. Do mesmo modo, as autoestradas são do melhor que há: rápidas, confortáveis, desertas... Não sei nada de finanças (mas Jesus Cristo também não, segundo Pessoa). No entanto, não andarei muito longe da verdade se afirmar que a muito desnecessária autoestrada transmontana (e um exemplo basta, havendo muitos mais) daria para requalificar muitos Conventos de Santa Clara. É que quando se fala de turismo é precisamente disto que se trata. Só não vê quem não quer. Ou quem é muito burro. Ou quem tem um ego desmesurado.

o jardim da madeira

Pelo que se tem visto por aí, com o Miguel Relvas a comandar as tropas da comunicação social e a figurar-se como um não assunto para Passos Coelho, confesso que o sr. Alberto João Jardim começava a entrar-me no... digamos... no goto. É evidente que a chalaça sobre a licenciatura do ministro adjunto, em que exteriorizou a sua pretensão de solicitar, às respetivas universidades, quatro ou cinco cursos superiores, entre os quais astronomia, ajudou para que o homem, neste cansado estio, conseguisse escalar umas décimas de agrado na minha difícil classe de simpatia. Acontece que hoje, instigado por uns jornalistas por que razão não parou para falar com a população atingida pelos violentos incêndios que devastaram parte da ilha, Alberto João respondeu que não gosta de mostrar lamúrias. Interessante ponto de vista. Tenho pena que o presidente do Governo Regional da Madeira não assim pense quando se trata de exibir o pagode eleitoral que, de quatro em quatro anos - ou menos -, se constrói como a principal estratégia política, a qual tem ganhado eleições desde há trinta anos.
Resumindo: Alberto João Jardim serve-se do povo (do povão, como diria Herman José) para cortar as inelutáveis fitas folclóricas, mas já não gosta de o encarar quando, em vez de festejo, reina a privação.

sábado, julho 14, 2012

as férias de ronaldo

Que o Correio da Manhã faça primeira página a partir das andanças estivais do futebolista Cristiano Ronaldo e da sua namorada, é coisa que não surpreende e até se entende; agora que as televisões procedam da mesma forma nos respetivos blocos noticiosos diários é já algo que, francamente, se manifesta despropositado, embora, infelizmente, já não surpreenda assim tanto.

terça-feira, julho 10, 2012

as viagens de garrett e as nossas

Escreveu Garrett, nas suas Viagens:
"plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. — No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?"
Eu sou daqueles que pensam que a crise se resolverá, mais tarde ou mais cedo, e que mais tarde ou mais cedo teremos um esquadriado défice de 3% ou mesmo 0%. Aliás, não há crise que não traga crescimento. A questão levantada deveria ser, porém, outra: quantas vidas aniquiladas serão preciso para sairmos dela?

domingo, julho 08, 2012

desgovenando-nos

A já não tão curta história da democracia portuguesa abarca complacentes episódios, mais ou menos anedóticos. Em 74 e 75 vivemos sob brasas, em que o virar da esquina era sempre uma grande interrogação. Nasceram e renasceram, porém, neste período, verdadeiros líderes, os quais edificaram, estruturalmente, o edifício democrático do país. Depois disso, depois do alcançamento da sonhada Europa, a nação transfigurou-se. Vieram novos líderes partidários e inventaram-se as jotas, agremiações de miúdos que ansiavam (e anseiam) pela política e falavam (e falam), alegadamente, por todos os jovens do país. Granjearam, em nome dessa juventude que se tornou moda, assento parlamentar e muitos deles reformaram-se (reformam-se?)com trinta e tal anos, em nome das radicais leis de aposentação dos deputados. Outros houve, no entanto, que fizeram da política a sua casa, desprezando, de certa maneira, tudo que é próprio no currículo de cidadãos "normais", que é estudar e depois trabalhar, mesmo que consideremos laboralmente a política.
O enquadramento político-ritualista das juventudes partidárias criou, em grande medida, portanto, uma espécie modus faciendi político fundamentalmente diferenciador dos da primeira geração da nossa democracia. A política como meio individual para chegar a algum lado - nem que seja a um curso superior - sobrepôs-se à política dos valores, feita em nome do bem comum. Se quisermos, é o individualismo - matriz liberalizador da sociedade - a suplantar o coletivo.
É neste contexto que surgem os Relvas do sistema. Trabalhadores incansáveis, o seu dinamismo e aparente subserviência ao líder cedo denotam uma capacidade indefetível de sustentação colegial e até de uma certa honestidade intramuros. O grupo que o sustenta não difere muito deste tipo de operacionalização política.
Os Relvas são participativos, subservientes, incansáveis, hipersociáveis, mas também são perigosos. Não para eles, não em grau superior para o partido. A perigosidade dos Relvas da nossa democracia desagua inexoravelmente no país, principalmente quando, de um dia para o outro, os seus currículos ocultos se transformam em currículos oficiosos do regime. Ser ministro, para os Relvas, é o começo de tudo.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...