Escreveu Garrett, nas suas Viagens:
"plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. — No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?"
Eu sou daqueles que pensam que a crise se resolverá, mais tarde ou mais cedo, e que mais tarde ou mais cedo teremos um esquadriado défice de 3% ou mesmo 0%. Aliás, não há crise que não traga crescimento. A questão levantada deveria ser, porém, outra: quantas vidas aniquiladas serão preciso para sairmos dela?
terça-feira, julho 10, 2012
domingo, julho 08, 2012
desgovenando-nos
A já não tão curta história da democracia portuguesa abarca complacentes episódios, mais ou menos anedóticos. Em 74 e 75 vivemos sob brasas, em que o virar da esquina era sempre uma grande interrogação. Nasceram e renasceram, porém, neste período, verdadeiros líderes, os quais edificaram, estruturalmente, o edifício democrático do país. Depois disso, depois do alcançamento da sonhada Europa, a nação transfigurou-se. Vieram novos líderes partidários e inventaram-se as jotas, agremiações de miúdos que ansiavam (e anseiam) pela política e falavam (e falam), alegadamente, por todos os jovens do país. Granjearam, em nome dessa juventude que se tornou moda, assento parlamentar e muitos deles reformaram-se (reformam-se?)com trinta e tal anos, em nome das radicais leis de aposentação dos deputados. Outros houve, no entanto, que fizeram da política a sua casa, desprezando, de certa maneira, tudo que é próprio no currículo de cidadãos "normais", que é estudar e depois trabalhar, mesmo que consideremos laboralmente a política.
O enquadramento político-ritualista das juventudes partidárias criou, em grande medida, portanto, uma espécie modus faciendi político fundamentalmente diferenciador dos da primeira geração da nossa democracia. A política como meio individual para chegar a algum lado - nem que seja a um curso superior - sobrepôs-se à política dos valores, feita em nome do bem comum. Se quisermos, é o individualismo - matriz liberalizador da sociedade - a suplantar o coletivo.
É neste contexto que surgem os Relvas do sistema. Trabalhadores incansáveis, o seu dinamismo e aparente subserviência ao líder cedo denotam uma capacidade indefetível de sustentação colegial e até de uma certa honestidade intramuros. O grupo que o sustenta não difere muito deste tipo de operacionalização política.
Os Relvas são participativos, subservientes, incansáveis, hipersociáveis, mas também são perigosos. Não para eles, não em grau superior para o partido. A perigosidade dos Relvas da nossa democracia desagua inexoravelmente no país, principalmente quando, de um dia para o outro, os seus currículos ocultos se transformam em currículos oficiosos do regime. Ser ministro, para os Relvas, é o começo de tudo.
O enquadramento político-ritualista das juventudes partidárias criou, em grande medida, portanto, uma espécie modus faciendi político fundamentalmente diferenciador dos da primeira geração da nossa democracia. A política como meio individual para chegar a algum lado - nem que seja a um curso superior - sobrepôs-se à política dos valores, feita em nome do bem comum. Se quisermos, é o individualismo - matriz liberalizador da sociedade - a suplantar o coletivo.
É neste contexto que surgem os Relvas do sistema. Trabalhadores incansáveis, o seu dinamismo e aparente subserviência ao líder cedo denotam uma capacidade indefetível de sustentação colegial e até de uma certa honestidade intramuros. O grupo que o sustenta não difere muito deste tipo de operacionalização política.
Os Relvas são participativos, subservientes, incansáveis, hipersociáveis, mas também são perigosos. Não para eles, não em grau superior para o partido. A perigosidade dos Relvas da nossa democracia desagua inexoravelmente no país, principalmente quando, de um dia para o outro, os seus currículos ocultos se transformam em currículos oficiosos do regime. Ser ministro, para os Relvas, é o começo de tudo.
sexta-feira, julho 06, 2012
o tribunal constitucional e o presidente da república
Custa-me cada vez mais a compreender o porquê da existência do cargo de Presidente da República num regime semiparlamentar como o nosso. Não posso tolerar a leviandade com que Cavaco Silva olha para uma decisão do Governo como a de acabar com os subsídios de férias e de Natal para os trabalhadores do Estado sem ao menos lhe suscitar uma simples e inteligente dúvida, capaz de encaminhar o projeto de lei para a apreciação do Tribunal Constitucional. Por vezes, o óbvio teima em ser compreendido e praticado: a Constituição da República, a nossa lei fundamental, sobreleva-se a qualquer Troika. A assunção da sua matriz é o alicerce da nossa democracia.
ps. não interessa muito neste momento denotarmos as consequências desta decisão do Tribunal Constitucional: se o Governo alargará os cortes aos privados, se diminui o nível salarial dos trabalhadores, ou se solicita um alargamento do prazo ao triunvirato. O que se torna relevante, neste domínio, é sabermos que uma instituição funciona e que faz realmente cumprir a Constituição.
ps. não interessa muito neste momento denotarmos as consequências desta decisão do Tribunal Constitucional: se o Governo alargará os cortes aos privados, se diminui o nível salarial dos trabalhadores, ou se solicita um alargamento do prazo ao triunvirato. O que se torna relevante, neste domínio, é sabermos que uma instituição funciona e que faz realmente cumprir a Constituição.
quinta-feira, julho 05, 2012
as prioridades
A seleção de futebol teve um comportamentto mediano no campeonato da Europa de Futebol e foi recebida, no aeroporto, pelo ministro Relvas; os atletas de atletismo alcançaram, em igual campeonato da Europa da modalidade, medalhas de bronze, prata e ouro e foram recebidos pelo secretário de Estado; a equipa de arbitragem, que dignificou o país com a presença no jogo da final do campeonato da Europa de futebol, foi recebida por um telefonema.
E acaba desta maneira a história.
E acaba desta maneira a história.
quarta-feira, julho 04, 2012
o relvas, outra vez
Miguel Relvas licenciou-se num ano. Aproveitou uma espécie de Novas Oportunidades, a qual faz aproveitar aquilo que comummente se apelida de experiência de vida. Os seja: os candidatos expõem as competências a um júri e este (in)valida.
O que não se entende foi a ligeireza crítica, por parte do atual executivo, dirigida ao programa Novas Oportunidades do anterior Governo. Concluir o 9º ano ou uma licenciatura é precisamente o mesmo, dentro dos parâmetros pessoais de cada indivíduo. Muitas das pessoas que almejavam, por exemplo, a conclusão da escolaridade obrigatória faziam-no mais por uma questão de orgulho, que residia na realização de, pelo menos, esses anos mínimos de ensino, e muito menos tendo como ponto piramidal uma escondida realização profissional. Com o ministro Relvas (e também com o ex-ministro Sócrates) passa-se essencialmente o mesmo: não precisa do dr. para ascender a qualquer cargo político. Mas ir à televisão e não se existir enquanto dr. é uma grande chatice. Para isso, já basta o Jerónimo de Sousa.
O que não se entende foi a ligeireza crítica, por parte do atual executivo, dirigida ao programa Novas Oportunidades do anterior Governo. Concluir o 9º ano ou uma licenciatura é precisamente o mesmo, dentro dos parâmetros pessoais de cada indivíduo. Muitas das pessoas que almejavam, por exemplo, a conclusão da escolaridade obrigatória faziam-no mais por uma questão de orgulho, que residia na realização de, pelo menos, esses anos mínimos de ensino, e muito menos tendo como ponto piramidal uma escondida realização profissional. Com o ministro Relvas (e também com o ex-ministro Sócrates) passa-se essencialmente o mesmo: não precisa do dr. para ascender a qualquer cargo político. Mas ir à televisão e não se existir enquanto dr. é uma grande chatice. Para isso, já basta o Jerónimo de Sousa.
sexta-feira, junho 29, 2012
o défice enquanto problema tripartido
O INE respondeu: o défice orçamental do primeiro trimestre do ano foi de 7,9% do PIB, ficando, portanto, longe do oásis dos 4,5%. O primeiro-ministro, que nunca fala de questões nacionais lá fora, apressou-se a clarificar as coisas o que, na sua simplicidade obstinada, quer dizer que haverá mais medidas adicionais, se necessário for.
Eu percebo o Governo. Cumprirão tudo que vem no memorando da troika, tudo até à última vírgula. No final, a culpa será também repartida. Não foi por acaso que no último debate parlamentar Passos Coelho referiu que, quando reuniu com a troika enquanto líder do maior partido da oposição, transmitiu-lhe (reivindicou?) que seria melhor prolongar mais um ano o tempo das medidas contratualizadas. Azar dos azares: a troika e o Governo (o PS) já tinham balizado temporalmente o memorando. Moral da história: deveria ter sido primeiro-ministro mais cedo.
Eu percebo o Governo. Cumprirão tudo que vem no memorando da troika, tudo até à última vírgula. No final, a culpa será também repartida. Não foi por acaso que no último debate parlamentar Passos Coelho referiu que, quando reuniu com a troika enquanto líder do maior partido da oposição, transmitiu-lhe (reivindicou?) que seria melhor prolongar mais um ano o tempo das medidas contratualizadas. Azar dos azares: a troika e o Governo (o PS) já tinham balizado temporalmente o memorando. Moral da história: deveria ter sido primeiro-ministro mais cedo.
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défice orçamental,
Pedro Passos Coelho
segunda-feira, junho 25, 2012
moção de censura
Segui grande parte da moção de censura do PCP ao Governo. Gostei de algumas intervenções. A última, de Bernardino Soares, controladamente sanhuda, foi, em grande parte, uma resposta ao orador que o precedeu, o admirável ministro Paulo Portas. Retive uma frase deste, a respeito do eventual monopólio da esquerda, designadamente do PCP, em questões de justiça social. Dizia então Portas que este Governo também emerge em relação aos mais desfavorecidos. E do que se lembrou? Das refeições dadas nas cantinas das escolas para os agregados familiares duplamente desempregados. E não precisou de dizer mais nada o ministro. Obviamente que não teve ensejo em ajuizar que uma família em situação de desemprego constitui uma clara derrota das políticas seguidas por este Governo. E é para debater estas coisas que as moções de censura também se justificam.
adenda: aquele rapaz Meneses, do PSD, é uma coisa do outro mundo. A sua intervenção debitou atrozes vacuidades sobre nada.
adenda: aquele rapaz Meneses, do PSD, é uma coisa do outro mundo. A sua intervenção debitou atrozes vacuidades sobre nada.
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