Espreitei Santana Lopes no seu blogue. Vi a sustentação da tese neoliberal deste Governo esparrinhada ao seu melhor nível: "É bom de notar que, nas últimas semanas, as notícias de há meses sobre sucessivos encerramentos de empresas, quase desapareceram. Aumentaram os sinais e as notícias de pessoas à procura de emprego, por vezes, em situações quase desesperadas. Mas, de facto, nestes primeiros meses, a recessão parece não ter ido tão fundo".
Palavras para quê?!...
domingo, maio 20, 2012
como é possível?
No Público, nesta semana, apresenta-se um estudo onde se revela que as empresas cotadas na bolsa de Lisboa (PSi-20) corrigiram a massa salarial dos seus trabalhadores, em 2011, penalizando-os em 11%. Do mesmo modo, os gestores dessas mesmas empresas desfrutaram da respetiva correção salarial, ao verem os seus ordenados aumentados em 5,3%. Isto faz com que a diferença nos salários entre trabalhadores e gestores atinja a extraordinária expressão numérica de 44, a favor dos últimos. Acrescente-se que este cenário é também possível devido aos prémios que estes gestores conseguem arrebanhar, no alto das suas sapiências tradicionais.
Nem imagino o que seria de nós sem esta gente.
Nem imagino o que seria de nós sem esta gente.
outra vez o futebol
Não poderia a seleção portuguesa de futebol participar no campeonato da Europa sem toda esta pacovice em volta da sua pessoa? Desde hinos e canções, concursos populares, autocarro último modelo, prolongação do contrato do treinador sob ameaça velada, tempos intermináveis de antena deste e daquele... tudo tem lugar no mundo pátrio do futebol. Eu sei que o povo gosta, mas o mais importante são os jogos.
estranha República
Um dia, um importante deputado socialista, em trabalho na Assembleia da República, no meio de uma entrevista, levanta-se e surripia os gravadores dos jornalistas. As consequências deste tão nobre e elevado gesto foram uns louvores do presidente do grupo parlamentar do PS, Francisco Assis, dando conta de nada e um encaminhamento, passadas umas breves semanas, do deputado para diversas comissões, entre as quais - é preciso ser-se de ferro para não esboçar um sorriso - a comissão parlamentar de ética, cidadania e comunicação.
Miguel Relvas telefonou para o jornal Público com ameaças do género: não publiquem isto! Se o fizerem, promoverei um blackout junto do conselho de ministros para com o jornal! Para além disso, anunciarei na internet dados sobre a vida privada da jornalista!
Miguel Relvas é ministro da República e tutela a comunicação social; Ricardo Rodrigues continua como deputado. Nem um nem outro deveriam pertencer à Política.
Miguel Relvas telefonou para o jornal Público com ameaças do género: não publiquem isto! Se o fizerem, promoverei um blackout junto do conselho de ministros para com o jornal! Para além disso, anunciarei na internet dados sobre a vida privada da jornalista!
Miguel Relvas é ministro da República e tutela a comunicação social; Ricardo Rodrigues continua como deputado. Nem um nem outro deveriam pertencer à Política.
sábado, maio 12, 2012
da oportunidade à tragédia
Passos e Gaspar entraram, aparentemente, em rota de colisão. O que ambos disseram sobre a problemática do desemprego daria, por si só, para a apresentação de um pedido de demissão por parte do ministro das finanças. Tudo por que as declarações de um posicionam-se em contextos extraordinariamente dissonantes das do outro. A não ser que vivamos, politicamente, num regime de completa hipocrisia e falsidade, por parte do executivo. Já aqui escrevi que este Governo é demasiado incompetente para dar resposta às várias crises que, desde 2008, nos têm assolado, vindas não só da Europa e dos Estados Unidos (onde tudo começou), como também originadas internamente, desde há décadas, desde o maná dos dinheiros europeus cavaquistas. E a incompetência do executivo começa, desde logo, pelo chefe do Governo, Passos Coelho, o qual, por estar à hora certa no lugar certo, e também porque em Portugal impera um desgraçado rotativismo que já nos afundara nos finais do século XIX, se viu convidado a formar governo pelo Presidente da República, tendo como visão sacrossanta um livrito escrito meses antes da tomada de posse, onde dava conta de uma visão de um extremado neoliberalismo, em que inclusivamente se desenhava a venda do único banco público.
E aqui entramos neste aparente ponto de desencontro entre os dois governantes. Neste sentido, Gaspar não apresenta o mais que lógico pedido de demissão simplesmente porque não estava a ser sincero, ao contrário de Passos. É que Passos Coelho, tal como Gaspar, acredita mesmo que o desemprego é uma janela de oportunidade, aproximando o desempregado de um frio e opaco número estatístico. Daí que as suas declarações se afigurem naturais à luz da doutrina que defende. No que diz respeito a Vítor Gaspar, bebedor da mesma fonte opípara, deve-se realçar simplesmente a sua construção dissimulada, saída de uma bem construída teia de tecnocracia europeia e competente, precisamente aquela que nos iria a pôr a todos, incautos biltres do funcionalismo público, na ordem.
E aqui entramos neste aparente ponto de desencontro entre os dois governantes. Neste sentido, Gaspar não apresenta o mais que lógico pedido de demissão simplesmente porque não estava a ser sincero, ao contrário de Passos. É que Passos Coelho, tal como Gaspar, acredita mesmo que o desemprego é uma janela de oportunidade, aproximando o desempregado de um frio e opaco número estatístico. Daí que as suas declarações se afigurem naturais à luz da doutrina que defende. No que diz respeito a Vítor Gaspar, bebedor da mesma fonte opípara, deve-se realçar simplesmente a sua construção dissimulada, saída de uma bem construída teia de tecnocracia europeia e competente, precisamente aquela que nos iria a pôr a todos, incautos biltres do funcionalismo público, na ordem.
terça-feira, abril 24, 2012
o roubo da pen, em oliveira do bairro
A história conta-se em poucas e simples palavras. Um afagado grupelho de alunos de uma turma do 11º ano, em Oliveira do Bairro, roubaram a pen da professora de biologia, com o vetusto intuito de conhecerem, em primeiríssima mão, os exames da disciplina. Para isso, conquistaram a preciosa ajuda intercalar de alguns colegas, os quais remeteram a professora para o pbx da escola, a fim de atender um ausente telefonema.
Nada de anormal, até aqui. Nada do que outros alunos, noutros tempos, não houvessem já elaborado, com ou sem telefonema, mas decididamente sem pen. A escola foi quase célere a sancionar os alunos: alguns foram alvo de sete dias de suspensão; outros ficaram-se pelas 24 horas, de acordo, naturalmente, com o grau de envolvência no ato.
O que não deixa de ser singular - e um espelhamento dos tempos - foi a rapidez com que uma mãezinha (e aqui o diminutivo é óbvia e depreciativamente propositado) recorreu para a Direção Regional de Educação do Centro, a fim de anular tão pesada sentença. Este órgão, em arrumação de casa, determinou que um dos prazos havia sido ultrapassado pela direção da escola, anulando o castigo.
Está, assim, narrada a história. Pensei de imediato na mãe de Bragança que enviava as respostas do teste para a filha de dez ou onze anos, via telemóvel. O problema disto tudo é que estes pais são já fruto de todas as experiências educativas do nosso famigerado incrédulo sistema de ensino.
Nada de anormal, até aqui. Nada do que outros alunos, noutros tempos, não houvessem já elaborado, com ou sem telefonema, mas decididamente sem pen. A escola foi quase célere a sancionar os alunos: alguns foram alvo de sete dias de suspensão; outros ficaram-se pelas 24 horas, de acordo, naturalmente, com o grau de envolvência no ato.
O que não deixa de ser singular - e um espelhamento dos tempos - foi a rapidez com que uma mãezinha (e aqui o diminutivo é óbvia e depreciativamente propositado) recorreu para a Direção Regional de Educação do Centro, a fim de anular tão pesada sentença. Este órgão, em arrumação de casa, determinou que um dos prazos havia sido ultrapassado pela direção da escola, anulando o castigo.
Está, assim, narrada a história. Pensei de imediato na mãe de Bragança que enviava as respostas do teste para a filha de dez ou onze anos, via telemóvel. O problema disto tudo é que estes pais são já fruto de todas as experiências educativas do nosso famigerado incrédulo sistema de ensino.
segunda-feira, abril 23, 2012
um conde no tribunal constitucional
A candidatura de Conde Rodrigues a juiz do Tribunal Constitucional levantou polémica na praça política. E não consigo vislumbrar o porquê. Acaso não foram sempre os partidos a partilhar desde sempre as cadeiras do Palácio Ratton? Qual a diferença se este saiu há pouco tempo do Governo? Por que razão atira Paulo Portas com um "acho que o Tribunal precisa de juízes credíveis e não de juízes de partido"?
De qualquer modo, estes lampejos iniciaram uma envergonhada vaga de contestação ao próprio tribunal. Será preciso um tribunal fiscalizador da constituição? Não existe para isso o Presidente da República? Pois a equação deveria, a meu ver, ser colocada ao contrário: se já existe um órgão para fazer cumprir os preceitos constitucionais, então qual o papel do PR? Alimentar o uso estafado da palavra?
De qualquer modo, estes lampejos iniciaram uma envergonhada vaga de contestação ao próprio tribunal. Será preciso um tribunal fiscalizador da constituição? Não existe para isso o Presidente da República? Pois a equação deveria, a meu ver, ser colocada ao contrário: se já existe um órgão para fazer cumprir os preceitos constitucionais, então qual o papel do PR? Alimentar o uso estafado da palavra?
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