domingo, maio 20, 2012

estranha República

Um dia, um importante deputado socialista, em trabalho na Assembleia da República, no meio de uma entrevista, levanta-se e surripia os gravadores dos jornalistas. As consequências deste tão nobre e elevado gesto foram uns louvores do presidente do grupo parlamentar do PS, Francisco Assis, dando conta de nada e um encaminhamento, passadas umas breves semanas, do deputado para diversas comissões, entre as quais - é preciso ser-se de ferro para não esboçar um sorriso - a comissão parlamentar de ética, cidadania e comunicação.
Miguel Relvas telefonou para o jornal Público com ameaças do género: não publiquem isto! Se o fizerem, promoverei um blackout junto do conselho de ministros para com o jornal! Para além disso, anunciarei na internet dados sobre a vida privada da jornalista!
Miguel Relvas é ministro da República e tutela a comunicação social; Ricardo Rodrigues continua como deputado. Nem um nem outro deveriam pertencer à Política.

sábado, maio 12, 2012

da oportunidade à tragédia

Passos e Gaspar entraram, aparentemente, em rota de colisão. O que ambos disseram sobre a problemática do desemprego daria, por si só, para a apresentação de um pedido de demissão por parte do ministro das finanças. Tudo por que as declarações de um posicionam-se em contextos extraordinariamente dissonantes das do outro. A não ser que vivamos, politicamente, num regime de completa hipocrisia e falsidade, por parte do executivo. Já aqui escrevi que este Governo é demasiado incompetente para dar resposta às várias crises que, desde 2008, nos têm assolado, vindas não só da Europa e dos Estados Unidos (onde tudo começou), como também originadas internamente, desde há décadas, desde o maná dos dinheiros europeus cavaquistas. E a incompetência do executivo começa, desde logo, pelo chefe do Governo, Passos Coelho, o qual, por estar à hora certa no lugar certo, e também porque em Portugal impera um desgraçado rotativismo que já nos afundara nos finais do século XIX, se viu convidado a formar governo pelo Presidente da República, tendo como visão sacrossanta um livrito escrito meses antes da tomada de posse, onde dava conta de uma visão de um extremado neoliberalismo, em que inclusivamente se desenhava a venda do único banco público.
E aqui entramos neste aparente ponto de desencontro entre os dois governantes. Neste sentido, Gaspar não apresenta o mais que lógico pedido de demissão simplesmente porque não estava a ser sincero, ao contrário de Passos. É que Passos Coelho, tal como Gaspar, acredita mesmo que o desemprego é uma janela de oportunidade, aproximando o desempregado de um frio e opaco número estatístico. Daí que as suas declarações se afigurem naturais à luz da doutrina que defende. No que diz respeito a Vítor Gaspar, bebedor da mesma fonte opípara, deve-se realçar simplesmente a sua construção dissimulada, saída de uma bem construída teia de tecnocracia europeia e competente, precisamente aquela que nos iria a pôr a todos, incautos biltres do funcionalismo público, na ordem.

terça-feira, abril 24, 2012

o roubo da pen, em oliveira do bairro

A história conta-se em poucas e simples palavras. Um afagado grupelho de alunos de uma turma do 11º ano, em Oliveira do Bairro, roubaram a pen da professora de biologia, com o vetusto intuito de conhecerem, em primeiríssima mão, os exames da disciplina. Para isso, conquistaram a preciosa ajuda intercalar de alguns colegas, os quais remeteram a professora para o pbx da escola, a fim de atender um ausente telefonema.
Nada de anormal, até aqui. Nada do que outros alunos, noutros tempos, não houvessem já elaborado, com ou sem telefonema, mas decididamente sem pen. A escola foi quase célere a sancionar os alunos: alguns foram alvo de sete dias de suspensão; outros ficaram-se pelas 24 horas, de acordo, naturalmente, com o grau de envolvência no ato.
O que não deixa de ser singular - e um espelhamento dos tempos - foi a rapidez com que uma mãezinha (e aqui o diminutivo é óbvia e depreciativamente propositado) recorreu para a Direção Regional de Educação do Centro, a fim de anular tão pesada sentença. Este órgão, em arrumação de casa, determinou que um dos prazos havia sido ultrapassado pela direção da escola, anulando o castigo.
Está, assim, narrada a história. Pensei de imediato na mãe de Bragança que enviava as respostas do teste para a filha de dez ou onze anos, via telemóvel. O problema disto tudo é que estes pais são já fruto de todas as experiências educativas do nosso famigerado incrédulo sistema de ensino.

segunda-feira, abril 23, 2012

um conde no tribunal constitucional

A candidatura de Conde Rodrigues a juiz do Tribunal Constitucional levantou polémica na praça política. E não consigo vislumbrar o porquê. Acaso não foram sempre os partidos a partilhar desde sempre as cadeiras do Palácio Ratton? Qual a diferença se este saiu há pouco tempo do Governo? Por que razão atira Paulo Portas com um "acho que o Tribunal precisa de juízes credíveis e não de juízes de partido"?
De qualquer modo, estes lampejos iniciaram uma envergonhada vaga de contestação ao próprio tribunal. Será preciso um tribunal fiscalizador da constituição? Não existe para isso o Presidente da República? Pois a equação deveria, a meu ver, ser colocada ao contrário: se já existe um órgão para fazer cumprir os preceitos constitucionais, então qual o papel do PR? Alimentar o uso estafado da palavra?

quarta-feira, abril 11, 2012

a industriosa e utópica autoestrada transmontana da esperança num estafado programa de televisão

Ouço e vejo na televisão o programa “Portugal Hoje”, conduzido pela inevitável Fátima Campos Ferreira, dedicado ao interior do país, em geral, e ao distrito de Bragança, em particular. Os convidados são, na sua maior parte, transmontanos. Para além de algumas pequenas barbaridades eleitas por alguns destes convidados (sentido pejorativo em se ser do interior?!...os inconjuráveis caretos de uma aldeia de Macedo de Cavaleiros...), não me escapa ainda, estupefacto, a inglória crença que esta gente ainda açambarca na autoestrada transmontana. Demora-se muito tempo para chegar a Bragança, diz, afoita e obtusamente, a locutora. O que ela queria? Uma autoestrada em linha reta? O que interessa ter uma via de comunicação terrestre rápida se do outro lado existir um vazio, um lugar oco, sem esperança e sem retorno? Por acaso nunca ninguém pensou no desenho demográfico do país, imposto por governos décadas após décadas? Por acaso nunca ninguém se questionou por que razão é que se pode trabalhar no Porto e residir em Aveiro e ser transportado diariamente através de comboio, o que já se afigura completamente impossível se o local de residência for, por exemplo, Vila Real? Quando é que estes governantes, presidentes de câmaras, partidos políticos, teimam na opção circunstancial, efémera, em vez de projetarem uma região, um país, igual nas suas oportunidades, igual no seu desenvolvimento social? O que significa verdadeiramente a palavra interior num país como Portugal, todo ele litoral? Não é, decididamente, um vocábulo com uma abrangência polissémica significativa. Acrescentaram-lhe simplesmente, ingloriamente, esta trágica aceção.

terça-feira, abril 10, 2012

as explicaçõesde cavaco

Por muito que Cavaco Silva explique ao país as (suas) razões de concertação com o diploma do Governo que projeta o fim das reformas antecipadas, a verdade é que ninguém com uma sólida estrutura democrática consegue eficazmente entender o modo como tudo foi cozinhado, muito menos as extraordinárias desculpas de Passos Coelho. Este sublinhou simplesmente isto: tudo foi feito à revelia dos demais parceiros sociais (dos portugueses, portanto), pois de outro modo os trabalhadores portugueses em situação de pré-reforma correriam todos, angustiados e desalmados, a solicitar esse último maná institucional.
Isto não é próprio de uma democracia.

sábado, abril 07, 2012

Manuel Alegre, afinal, não queria ser presidente

Não lembrou ao diabo mas lembrou a Manuel Alegre: ficamos hoje a saber pelo próprio que o candidato a presidente da República Manuel Alegre estaria somente talhado para ocupar o mais alto cargo político do país quando os ventos corressem de feição. Surpreendentemente, o poeta escreveu, no prefácio ao livro de Alfredo Barroso, o seguinte admirável trecho do pensamento político contemporâneo: "Sempre que vejo (os funcionários da troika) dou graças não ter sido eleito Presidente, porque não suportaria tamanha humilhação". O seu primeiro republicanismo patriótico obriga-o depois a divagar pelo lugar-comum, inventado por Fernando Ulrich, e afirmar que esta velha nação não deve andar de mão estendida para três funcionários da Troika (a aristocracia é assim: não aceita estender a mão para qualquer um).
Tenho a ligeiríssima impressão de que o que sobrou do milhão de votos da derrotada primeira eleição presidencial andará como Manuel Alegre: a dar graças!...

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...