quarta-feira, abril 04, 2012

uma visita ao millennium

É raríssimo ter de deslocar-me aos bancos. Porém, hoje fui obrigado a visitar uma sucursal do Millennium. O que antes se afigurava um balcão brioso, com um atendimento personalizado, tendencial e preocupadamente eficaz, é hoje uma espécie de tasca financeira. Desde azulejos partidos, o balcão de atendimento picado, manchas negras no teto, luzes fundidas, funcionários desmotivados (vestuário, artificialismo penoso na linguagem), computadores demorados, tudo vi naquela visita que demorou quinze ou vinte minutos. Reparei ainda no prodigioso e altaneiro José Mourinho, que disponibiliza a sua marca ao Millennium. Decididamente, a cara não bate certo com a careta. Ou será que estes iluminados administradores (e os criativos publicitários) pensam que são os milhões pagos ao mister Mourinho que conjugam a salvação do banco?

terça-feira, abril 03, 2012

a suspensão permanente dos cortes

A Comissão Europeia, pela voz do senhor Peter Weiss, da direção-geral de Assuntos Económicos e Monetários e membro da missão de ajuda externa para Portugal, já avisou que os cortes relativos aos 13º e 14º meses dos funcionários públicos e pensionistas poderão assumir um caráter permanente. Percorri de imediato o calendário e verifiquei que o primeiro de abril já havia passado. Peter Weiss deve conhecer a realidade do país, tal como a conhecem Gaspar e Passos e também o Álvaro. Conseguintemente, considerará normalíssimo a dissipação da tradicional classe média portuguesa, a qual se afigurava já manifestamente remediada, tendo em conta padrões de outros países. O escopo de outrora inverte-se, agora. Antigamente, importava tirar da pobreza cerca de 20% da população. Atualmente, interessa encostar à base piramidal da sociedade o maior número de portugueses. E a equação é simples, óbvia, cristalina: quantos mais forem os excluídos, mais serão aqueles que sairão, dentro de dois ou três anos, do limbo social. E a receita, tão estoicamente assentada pelos portugueses, deu, afinal, frutos. Gaspar e Passos e este Weiss tinham, luminosamente, razão.

sábado, março 31, 2012

salários públicos alemães sobem

Em dois anos, os salários das empresas públicas alemãs subirão 6,3 por cento. Para além disso, os trabalhadores terão direito, em 2013, a 29 dias úteis de férias, aos quais se acrescentará mais um a partir dos 55 anos de idade.
Quando confrontamos estes dados, ficamos com um não sei quê de descontentamento, siderados com um efémero país de costas voltadas para os seus compatriotas, guiado por obsessivas personagens de aritmética linear. Por muito que estes senhores nos queiram fazer crer em novos amanhãs, vivemos cada vez mais em mundos diferentes. Nós, evidentemente, não eles.

segunda-feira, março 26, 2012

o futebol português

Desde que me lembro, sempre ouvi a mesma cantilena dos dirigentes, treinadores e futebolistas relativamente aos erros dos árbitros. No caso dos dirigentes, o caso afigura-se mais grave, pois são eles o rosto institucional do clube. No dia em que um qualquer energúmeno, desses que uivam pelas claques, se lembrar de um qualquer ajuste de contas mais grave, então será esse o dia da condenação generalizada, em que se multiplicarão os minutos de silêncio, a reflexão efémera e os olhares envergonhados. O futebol é o reino das culpas alheias. Todos erram, menos os dirigentes, os treinadores e os futebolistas, que até falham golos de baliza aberta.

terça-feira, março 20, 2012

deputados europeus contra presença de Dominique Strauss-Kahn

Que eu saiba, Dominique Strauss-Kahn não foi condenado pelos tribunais americanos. Por conseguinte, não me parece que seja um cidadão coartado dos seus direitos, tendo em conta que a União Europeia se edifica nos princípios normativos de um Estado de Direito. Se um conjunto de garotos universitários ingleses apupou e apedrejou com ovos de galinha o antigo presidente do FMI não é coisa que me surpreenda. A juventude, a eterna juventude é irreverente, qualidade que Cavaco Silva gosta muito em campanha eleitoral e já não tanto quando se aproxima da Escola António Arroios. Porém, quando eurodeputados contestam a presença de Strauss-Kahn no Parlamento Europeu para dissertar sobre a crise financeira, apensando argumentos tão extraordinários como a dignidade das mulheres (um convite "indecente" e que "pode provocar problemas", dizem), são eles próprios que se desenquadram no que deve ser o respeito pela normalidade judicativa. A não ser que, para esta gente (um conservador holandês, de seu nome Derk Jan Eppink e um grupo de mulheres socialistas e verdes da Bélgica e da Hungria) o postulado da inocência valha absolutamente nada.

quarta-feira, março 14, 2012

o extraordinário alargamento para 18 clubes

Por vezes, espanta-me certas iluminadas decisões de não menos reluzentes sábios da nossa praça. O futebol, então, anda cheio delas. A poucos meses do término do campeonato da primeira divisão, projeta-se o seguinte, como forma de alargar para 18 o número de clubes para o próximo ano: ninguém descerá de divisão. Posto isto, ninguém quer saber da verdade desportivo, a qual estaria assegurada com o empenho, nestes derradeiros jogos, das equipas que até à data se mantinham na luta para não descer de divisão. Ninguém se lembrou, por exemplo, que o factor desportivo estaria assegurado se os dois últimos classificados da primeira liga disputassem uma liguilha com os quatro primeiros da divisão de honra, a fim de aferir as melhores quatro equipas, precisamente as que teriam acesso direto ao principal campeonato, no próximo ano.

terça-feira, março 13, 2012

cavaco e a questão sócrates

Cavaco Silva ainda não entendeu verdadeiramente o que está em causa. E o que está em causa, no prefácio que escreveu ao livro que compagina as suas intervenções políticas do último ano (roteiros vi), é muito menos as afirmações que edifica em relação à lealdade de José Sócrates e muito mais a sua falta de coerência política. Marcelo Rebelo de Sousa explicou isso muito bem no seu comentário semanal na TVI. E a desconexão de Cavaco Silva pode-se resumir na seguinte formulação interrogativa: se o primeiro-ministro violou mesmo a Constituição da República (artigo 201), como advoga Cavaco, por que raio o não demitiu? A não ser que a nossa lei fundamental valha já muito pouco para esta gente. Aliás, pelo que se tem visto, desacertos constitucionais é coisa que anda por aí aos montes.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...