sábado, fevereiro 04, 2012

passos não gosta do carnaval

Esta fobia contra tudo que engloba descanso e apaziguamento de alma também cansa. Ficamos a saber que Passos Coelho não gosta do Carnaval. Eu também não. Aliás, eu não gosto do exacerbamento pagão como também não gosto do seu correspondente religioso. Acontece que estas coisas não se medem por gostos pessoais. "Ninguém perceberia em Portugal", adianta Passos, "que numa altura em que nos estamos a propor acabar com feriados como o 5 de outubro, o 1º de dezembro ou até feriados religiosos, que o Governo pensasse sequer em dar tolerância de ponto, institucionalizando, a partir de agora, o Carnaval como feriado." Noto esta vertigem para o prosaico popularucho ao enfatizar o "ou até feriados religiosos".
Fico simplesmente desalentado que esta gente não entenda que nem todos usufruem as suas deleitosas (deleitosas, sim senhor, deixem-se de volutuosas bagatelas discursivas) existências e que os feriados constituem, para o comum dos trabalhadores (sabem quanto é o ordenado médio em Portugal, não sabem? E o mínimo? E o número de horas semanais de trabalho? E o número de feriados por ano? Parece que, afinal, só estamos, desgraçadamente, à frente nas primeira e segunda opções) uma afortunada oportunidade de revitalizar a alma. Com ou sem folias carnavalescas.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

mário crespo e a demissão da direção de informação da RDP

Teve azar Mário Crespo. No momento em que apresentava o ministro Relvas num excerto da entrevista de ontem a Maria Flor Pedroso, na qual o ministro, com ar decidido e cândido, mandava a jornalista perguntar ao seu diretor de informação por que razão o jornalista Pedro Rosa Mendes fora despedido, nesse momento, dizia, onde só faltava a áurea a encimar o cocuruto de Relvas, surgia a nota de rodapé: última hora: direção de informação das rádio do grupo RTP demite-se em bloco.

mortes no estádio

Carradas de críticos com opiniões, especialistas do mundo árabe e afins discorrem sobre os acontecimentos de ontem num estádio de futebol, no Egito. Todos confluem em águas resultantes da tormenta verificada há um ano, a qual resultou na queda do regime do ditador Mubarak. É, digamos, a análise do imediatismo lógico.
O futebol tem-se erigido como uma espécie de um mundo à parte. Pacheco Pereira tem escrito, com muita razoabilidade, sobre o tema. Basta vermos as imagens televisivas em redor de alguns encontros de futebol protagonizadas por elementos das claques dos clubes para verificarmos que, por muito menos, muita gente se encontra nos calabouços. Daí que essa ostentação de superioridade moral exposta nas televisões e rádios sobre o acontecimento de ontem seja de todo infundada. E a razão é simples: o adepto fanático do Al Ahli ou do Al Masri é o mesmo que povoa as bancadas dos estádios portugueses: jovens e menos jovens afetados por um crescendo de impunidade judicial, ao abrigo das cores e da defesa de causas clubísticas. Por conseguinte, esta batalha campal podia muito bem ter lugar num qualquer campo de futebol da civilizada Europa. Há tempos vi parte de um estádio a arder...

terça-feira, janeiro 31, 2012

o encerramento dos tribunais: mais uma machadada no interior do país

Entre os deves e os haveres, não vislumbro o objetivo desta ação de despejo de alguns tribunais portugueses situados em concelhos pobres. Já aqui escrevi que isto não vai lá com um país assim desgraçadamente desenhado, com régua e esquadro sustentados por uma iluminada manápula. Este é o tipo de erro que pagaremos bem caro mais tarde, quando cairmos no ridículo de uma outra troika nos prescrever (quase que escrevia ordenar, mas optei por tom mais eufemístico) o repovoamento do interior. No imediato, uma evidência: a justiça, para as pessoas do interior, ficará mais cara. Do mesmo modo, contar-se-ão facilmente facilmente os advogados que resistirem neste mundo rural tão pomposa e mediaticamente (e interesseiramente) acarinhado.
Por que razão nos empurram para o litoral? Será que nos querem afogar aos poucos?

sábado, janeiro 28, 2012

álvaro

Álvaro, ministro,

justificou do seguinte modo a polémica causada na chamada sociedade civil decorrente da abolição dos feriados de 5 de outubro e 1º de dezembro: "quando se tenta fazer reformas profundas, quando se tenta alterar comportamentos, é natural que haja reações. Portanto, não surpreende".
Não sei profundamente se o Álvaro tem condições para perceber o que lhe vou dizer. No entanto, é meu dever, como cidadão deste cada vez mais tristonho país (ouvi-o também afirmar, descomplicadamente, que Portugal é um excelente país para se viver... será, decerto, para si, Álvaro...) explicar-lhe o seguinte: cortar dois ou três feriados não o torna necessariamente um reformador. E é fácil explicar porquê: não é reforma alguma. É uma simples medida avulsiva, de alguém que não faz a mínima ideia do que anda cá a fazer. Eu não alinho pelo diapasão daqueles que, inevitavelmente, expurgam as suas culpas. Você tem, efetivamente, culpa no cartório. E tem-na porque aceitou um cargo que visivelmente não se achava preparado. Não é o único, infelizmente, neste seu governo.
Não sei se sabe, Álvaro ministro, mas existem mais álvaros no mundo. E muitos destes trabalham oito desgraçadas horas por dia, ganham uma miséria e aguardam religiosamente os feriados para, de certa forma, se sentirem senhores de si próprios. E o que você certametne sabe, Álvaro, é que são precisamente estes que não contam nas suas contas. São, simplesmente, abstrações.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

os mais ricos

Obama orientou, no discurso do estado da União, o que irá ser o leit motiv da sua campanha eleitoral: os ricos devem pagar mais impostos. Felizmente, ele vive num país no qual os multimilionários (alguns, pelo menos) gozam de um forte sentido patriótico e altruísta. Neste sentido, Bill Gates seguiu o teor discursivo do seu colega endinheirado, Warren Buffett, e afirmou, descomplexadamente, em Davos, que paga poucos impostos, pelo menos tendo em conta o que seria justo pagar.
Por cá, o encadeado discurso dos comentadores económicos e políticos plana, invariavelmente, no seguinte pressuposto: dão emprego a muita gente. E é assim que eles sobrevivem, silentes, nestes corredores pátrios. Como sabemos, um deles até alcançou o obsceno descaramento de sublinhar que não é rico, que é apenas um trabalhador.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

nós e os outros

O ordenado mínimo em França, Espanha e Luxemburgo é muito superior ao nosso; a gasolina, nestes países, é mais barata do que em Portugal. Na Suíça, debate-se a criação de um salário mínimo de 3000 euros, no sentido de proporcionar às pessoas (pessoas, seres humanos, vidas... esquecemo-nos, muitas vezes, no meio deste turbilhão mercantilista, deste pormenor...) uma vida decente. Em Portugal, destrói-se, inapelavelmente, importantes tecidos sociais, designadamente aqueles que conferem a cada país verdadeiros índices de desenvolvimento.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...