sexta-feira, janeiro 06, 2012
os sacrifícios não serão em vão
As ironias são, muitas vezes, lapidares. Hoje, mais uma vez, ouvimos um governante afirmar que 2012 será "um ano de viragem económica para o país", que é como quem diz, será o início do fim da crise. O governante em causa é o primeiro-ministro. Quase ao mesmo tempo, o Gabinete de Estatística Europeu revelou os seus dados relativamente ao desemprego na União Europeia. Somos o quarto país com índices mais elevados. Batemos um recorde, com 13,2% de desempregados. Posto isto, importa saber do que fala o primeiro-ministro. De pessoas não é, certamente.
quinta-feira, janeiro 05, 2012
troika "oblige" ou o reino da relatividade
Aos fins de semana e feriados os centros de saúde passarão a um estado de completa ausência de sentido. O interior, mais uma vez, toma por tabela este desígnio da troika. Vi na televisão uma mulher, de meia idade, que refletiu deste modo a notícia do fecho do seu centro de saúde: "a doença não se sabe quando vem". Pelos vistos, andam por aí uns indivíduos que sabem. E também sabem que uma urgência é sempre relativa, nas suas bem amanhadas cabeças. E também sabem que entre pagar 5 euros no centro de saúde e 10 no hospital mais perto (excluindo as "ajudas de custo" dos quilómetros percorridos) conflui no ininteligível reino da relatividade analítica. Do mesmíssimo modo, atinge esta gente que a redução de 20% no Serviço Nacional de Saúde, seja na redução de pessoal, seja em cortes deste tipo, é, para o bom funcionamento do sistema, igual ao litro. Chama-se a isto, simplesmente, crânios.
quarta-feira, janeiro 04, 2012
o caso jerónimo martins
Afinal, esta deslocalização para sedes fiscais mais atraentes não é caso único das empresas portuguesas. Das vinte cotadas no PSI20, dezanove estão também na Holanda. O capital não tem pátria, dizem, mas os donos do capital devem-na ter. Ou não?!
os donos da bola
Ficamos a saber que a seleção portuguesa de futebol é, de todas as que estão no campeonato europeu da modalidade (o qual decorrerá no próximo mês de junho), a que irá despender uma diária de hotel mais elevada. Trinta e três mil euros por dia. A Espanha, um país que é campeão do mundo e da Europa, fica-se pelos 4700 euros. Já agora, a Dinamarca gastará 7700 euros por dia. É evidente que este pódio só acontece porque a Burkina Faso ou o Gana não podem participar no campeonato.
Terá isto alguma lógica?
Terá isto alguma lógica?
terça-feira, janeiro 03, 2012
jerónimo
O ano iniciou-se com a declarada e habilidosa fuga ao fisco da empresa Jerónimo Martins. O caso pode ser considerado paradigmático relativamente ao perfil dos detentores das grandes riquezas nacionais. Em 2011, o maior de todos - Amorim - afirmou, desavergonhadamente, que era apenas um trabalhador, não se considerando, portanto, rico (falamos da ducentésima maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes). Tudo a propósito de um eventual aumento de impostos sobre as grandes fortunas. Agora, Alexandre Soares dos Santos (empresário agraciado, pelo presidente Sampaio, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e, mais tarde, com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, por serviços relevantes prestados à comunidade) deslocalizou a sede social da sua empresa para a Holanda, para que os dividendos das ações auferidos pelos acionistas não sejam tributadas em território nacional. E são estes senhores (há, de facto, muito jerónimos) que apontam o dedo para o cidadão comum e afirmam que este tem vivido, durante estes anos, acima das suas possibilidades. E isto é tudo feito em nome de uma certa venal legalidade.
quarta-feira, dezembro 28, 2011
custos-benefícios em trás-os-montes
Parece que o custo-benefício do helicóptero do INEM que opera em Trás-os-Montes não justifica a sua utilização. Parece também que os aparelhos plantados nos heliportos em Lisboa e Porto darão para cobrir as parcas urgências da região transmontana. Parece que o helicóptero de Macedo de Cavaleiros passa 90% das noites sem utilização. Tristemente, parece que os seres humanos que representam os restantes 10% são uma espécie de vítimas destes hodiernos cavaleiros do apocalipse. Enquanto isso, parece que os autarcas da região, que tanto espernearam para a construção desse tão glorioso desígnio regional que é a poética autoestrada da justiça, andam mudos e quedos perante este ostracismo que o centralismo de Lisboa, mais uma vez, desenhou, esquecendo-se, definitivamente, que são eleitos com o mui nobre intuito de representar os cidadãos.
Não vale tudo, em nome de uns trocados.
Não vale tudo, em nome de uns trocados.
sexta-feira, dezembro 23, 2011
o caminho mais fácil
Dirão os crentes que é o mercado a funcionar. Na verdade, o mercado funciona. O Estado português controlava vinte e tal por cento de uma das maiores empresas nacionais, a qual tem uma importância fundamental para a vida das pessoas e empresas nacionais. Para além disso, a EDP tem vindo, ano após ano, fruto de uma vigência de quase monopólio, a acumular extraordinários lucros. Em nome do curto prazo (tal como se passou com o fundo de pensões da banca), o Estado resolveu desobrigar-se dessa importante quota-parte da empresa. Por conseguinte, essa fração que o Estado português controlava transfere-se para o Estado chinês (a empresa é de capitais públicos chineses). Deste modo, os lucros que antigamente caíam nos cofres da parte estatal portuguesa da empresa, deslocam-se, agora, para a parte estatal chinesa. Ou isto revela uma assunção da nossa incapacidade de gerir a nossa própria riqueza, ou então somos uns verdadeiros totós.
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