quinta-feira, janeiro 05, 2012

troika "oblige" ou o reino da relatividade

Aos fins de semana e feriados os centros de saúde passarão a um estado de completa ausência de sentido. O interior, mais uma vez, toma por tabela este desígnio da troika. Vi na televisão uma mulher, de meia idade, que refletiu deste modo a notícia do fecho do seu centro de saúde: "a doença não se sabe quando vem". Pelos vistos, andam por aí uns indivíduos que sabem. E também sabem que uma urgência é sempre relativa, nas suas bem amanhadas cabeças. E também sabem que entre pagar 5 euros no centro de saúde e 10 no hospital mais perto (excluindo as "ajudas de custo" dos quilómetros percorridos) conflui no ininteligível reino da relatividade analítica. Do mesmíssimo modo, atinge esta gente que a redução de 20% no Serviço Nacional de Saúde, seja na redução de pessoal, seja em cortes deste tipo, é, para o bom funcionamento do sistema, igual ao litro. Chama-se a isto, simplesmente, crânios.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

o caso jerónimo martins

Afinal, esta deslocalização para sedes fiscais mais atraentes não é caso único das empresas portuguesas. Das vinte cotadas no PSI20, dezanove estão também na Holanda. O capital não tem pátria, dizem, mas os donos do capital devem-na ter. Ou não?!

os donos da bola

Ficamos a saber que a seleção portuguesa de futebol é, de todas as que estão no campeonato europeu da modalidade (o qual decorrerá no próximo mês de junho), a que irá despender uma diária de hotel mais elevada. Trinta e três mil euros por dia. A Espanha, um país que é campeão do mundo e da Europa, fica-se pelos 4700 euros. Já agora, a Dinamarca gastará 7700 euros por dia. É evidente que este pódio só acontece porque a Burkina Faso ou o Gana não podem participar no campeonato.
Terá isto alguma lógica?

terça-feira, janeiro 03, 2012

jerónimo

O ano iniciou-se com a declarada e habilidosa fuga ao fisco da empresa Jerónimo Martins. O caso pode ser considerado paradigmático relativamente ao perfil dos detentores das grandes riquezas nacionais. Em 2011, o maior de todos - Amorim - afirmou, desavergonhadamente, que era apenas um trabalhador, não se considerando, portanto, rico (falamos da ducentésima maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes). Tudo a propósito de um eventual aumento de impostos sobre as grandes fortunas. Agora, Alexandre Soares dos Santos (empresário agraciado, pelo presidente Sampaio, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e, mais tarde, com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, por serviços relevantes prestados à comunidade) deslocalizou a sede social da sua empresa para a Holanda, para que os dividendos das ações auferidos pelos acionistas não sejam tributadas em território nacional. E são estes senhores (há, de facto, muito jerónimos) que apontam o dedo para o cidadão comum e afirmam que este tem vivido, durante estes anos, acima das suas possibilidades. E isto é tudo feito em nome de uma certa venal legalidade.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

custos-benefícios em trás-os-montes

Parece que o custo-benefício do helicóptero do INEM que opera em Trás-os-Montes não justifica a sua utilização. Parece também que os aparelhos plantados nos heliportos em Lisboa e Porto darão para cobrir as parcas urgências da região transmontana. Parece que o helicóptero de Macedo de Cavaleiros passa 90% das noites sem utilização. Tristemente, parece que os seres humanos que representam os restantes 10% são uma espécie de vítimas destes hodiernos cavaleiros do apocalipse. Enquanto isso, parece que os autarcas da região, que tanto espernearam para a construção desse tão glorioso desígnio regional que é a poética autoestrada da justiça, andam mudos e quedos perante este ostracismo que o centralismo de Lisboa, mais uma vez, desenhou, esquecendo-se, definitivamente, que são eleitos com o mui nobre intuito de representar os cidadãos.
Não vale tudo, em nome de uns trocados.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

o caminho mais fácil

Dirão os crentes que é o mercado a funcionar. Na verdade, o mercado funciona. O Estado português controlava vinte e tal por cento de uma das maiores empresas nacionais, a qual tem uma importância fundamental para a vida das pessoas e empresas nacionais. Para além disso, a EDP tem vindo, ano após ano, fruto de uma vigência de quase monopólio, a acumular extraordinários lucros. Em nome do curto prazo (tal como se passou com o fundo de pensões da banca), o Estado resolveu desobrigar-se dessa importante quota-parte da empresa. Por conseguinte, essa fração que o Estado português controlava transfere-se para o Estado chinês (a empresa é de capitais públicos chineses). Deste modo, os lucros que antigamente caíam nos cofres da parte estatal portuguesa da empresa, deslocam-se, agora, para a parte estatal chinesa. Ou isto revela uma assunção da nossa incapacidade de gerir a nossa própria riqueza, ou então somos uns verdadeiros totós.

terça-feira, dezembro 20, 2011

a emigração

Não creio que haja, na história recente das nações, governantes que incitaram os seus cidadãos a emigrar. Como disse Manuel Alegre, nem Salazar, no seu quintalejo governativo, se lembrou de tal. Nem precisava, aliás. O povo, principalmente o povo rural, debandou para além fronteiras. Passos Coelho terá, porventura razão antes do tempo: os quadros deste país - este país é para velhos!... - iniciaram já uma amargurada caminhada profissional. Voltarão, muitos deles, envelhecidos, para gozar as tardes soalheiras deste Portugal à beira mar plantado.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...