quinta-feira, dezembro 01, 2011

a entrevista de coelho

José Gomes Ferreira lastimou a falta de tempo, esse inimigo das televisões, que depressa voou, não lhe permitindo a apresentação de mais questões ao primeiro-ministro. Por mim, a entrevista, cheia de plumbosos recortes técnicos, seria suficientemente elucidativa se tivesse havido resposta a uma simples e lapidar pergunta: o que fazer com os milhares de Anas Isabéis que verão as suas vidas irremediavelmente perdidas?

terça-feira, novembro 29, 2011

os feriados e a sua abolição

Mário Soares já veio dizer que o 5 de outubro é tão sagrado como o 25 de abril. Pelo contrário, o desaparecimento do primeiro dia de dezembro já não merece o compungimento do antigo presidente da república. Eu concordo e não concordo com ele.
A história, do ponto de vista diacrónico, faz-se de acontecimentos que marcaram a vida dos povos. Neste sentido, o dia que assinala a restauração da nossa independência detém uma forte marca identitária enquanto nação. Aboli-lo é, no fundo, demarcarmo-nos de um passado monárquico que também nos orgulhou. Devemos notar que 90% deste quase milénio de história portuguesa foi sob égide real. E, convenhamos, não é todos os dias que os povos negam forças tão poderosas como a grande Espanha de seiscentos. Os nuestros hermanos galegos e catalães, por exemplo, que o digam. Quanto ao 5 de outubro, parece-me no mínimo irrisório que um regime republicano "delete" a memória vivida da revolta republicana, na qual assenta o presente das nossas vidas. Do ponto de vista histórico, o 5 de outubro é um precussor do 25 de abril. Até pelos desencontros que se lhes seguiram. E ninguém ousou propor o aniquilamento deste último.

adenda: não gostei da posição da igreja católica quando afirmou, a respeito deste tema, que aboliria dois feriados se a república abolisse outros dois.

adenda 2: obviamente que este tipo de decisões valem absolutamente nada do ponto de vista de aumento de produtividade de um país. Vale tanto como as "desgravatas" de Assunção Cristas. É que nem todos podem apanhar um avião para um fim de semana na neve ou na praia. Agora até os feriados nos tiram. Somo uns mandriões.

os telefonemas de seguro

António José Seguro não podia deixar de falar dos comoventes telefonemas que recebeu de pensionistas que, graças aos seus quase colossais esforços, passaram a ser alvo de uma positiva discriminação no que aos descontos para os próximos anos diz respeito. Do mesmo modo, fez questão de alertar que não se deixou reger pelas vozes esquerdizantes do seu partido ou, no seu ponto de vista conspirativo, pelos sempre aliciantes corredores da política socialista, os quais defendiam um objetivo chumbo a este orçamento de estado. Tudo porque ele está na política para que os portugueses façam menos sacrifícios. Aliás, Seguro faz questão de salientar que "eu lutei durante um mês" pela anulação de um subsídio. Tudo em nome, é claro, dos portugueses agora (des)sacrificados. A política é também um jogo de autoafirmação. Não deveria sê-lo, mas, infelizmente, é.
Tudo isto abrange também um delicioso pormenor: as alterações foram feitas porque Passos Coelho também pensa na política nos mesmos moldes de Seguro. Ou então não teria aceitado as alterações ao seu esforçado orçamento de estado.

segunda-feira, novembro 28, 2011

o fado de santana lopes

Estamos decerto todos muito felizes com a candidatura ganhadora do fado a património imaterial da humanidade. Tenho ouvido nas rádios muito fado e muita Amália. Ainda bem. Amália foi uma vedeta internacional. Talvez a única que o nosso espaço musical fabricou. Por conseguinte, este galardão deve muito à fadista.
Todavia, em Portugal a pequenhez é, desde há muito, idiossincrática, quase dramaticamente patológica. Daí que ela ande por aí à procura de heróis vivos. Outros, porém, abrem as portas do seu espaço blogueiro e escrevem estas autênticas pérolas:

"Carlos do Carmo afirmou à Lusa que a candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade é «bastante relevante» para o futuro deste género musical.
O fadista foi escolhido pelo ex-presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, para ser o embaixador da candidatura, ao lado de Mariza. Os dois intérpretes atuaram juntos em várias ocasiões, nomeadamente em Madrid e Paris, e integraram o elenco do filme «Fados», de Carlos Saura.
Questionado pela Lusa se quando começou a cantar, há 48 anos, alguma vez pensou que o Fado pudesse chegar a este reconhecimento internacional, respondeu: «Não, nunca pensei. É um sonho lindo".

Perceberam? Carlos do Carmo? Mariza?... Fado?!... Ah!, pois... o blogue intitula-se Pedro Santana Lopes e o autor é... Pedro Santana Lopes.

terça-feira, novembro 22, 2011

um exemplo de jornalismo

Serviço público ou não, o jornalismo de reportagem direta em telejornais reduzem-se a um lastimável voyeurismo. Há pouco vi um direto no qual a jornalista da RTP disse mais ou menos isto, que eu, abusivamente, coloco entre aspas: "Vítor Raposo continua a ser ouvido pelo juiz. À sua espera encontra-se somente o irmão".
E o irmão, de facto, lá estava, puxando uma passa no seu impaciente cigarro. Como eu sei isso? Porque o operador de câmara fez-me o favor de o filmar.

segunda-feira, novembro 21, 2011

o facebook de passos coelho

Desde agosto que o primeiro-ministro não dava sinais no seu portal do faceboook. No entanto, considera ser "verdadeiramente importante conhecer as histórias e preocupações dos Portugueses reais, de modo a nunca [se] esquecer que as decisões difíceis que tom[a] medem-se não só em números e percentagens, mas em vidas e sacrifícios". Deste modo, sublinha que têm sido muitas "as de frustração ou desespero". Chega ao ponto de individualizar o post de Ana Isabel Albergaria, que escreveu a pedir ajuda, visto estar somente a tomar um banho por semana e a ser iluminada, nas suas noites, por apenas uma lâmpada.
Passos Coelho salienta ainda um outro testemunho - o de Richard Warrell, "filho de mãe portuguesa" - como exemplo dos "portugueses que acreditam", dos "homens e mulheres inspiradores que não baixam os braços". A mensagem deste último é um autêntico e insonso panegírico da ação governativa.
Não sei o que Passos Coelho pretende ao dar conhecimento público destes dois antagónicos depoimentos. Todavia, não deixa de direcionar um extraordinário cumprimento de esperança aos dois em particular, olhando também o país: "À Ana Isabel, ao Richard e a todos os que aqui escrevem diariamente peço que não deixem de acreditar".
Mas acreditar em quê? sr. primeiro-ministro? Será que leu bem os testemunhos no seu facebook?

quarta-feira, novembro 16, 2011

suspensão da democracia

Manuela Ferreira Leite deslumbrou, há meses, o espaço político nacional com a sua proposta de suspensão da democracia. Não entendi muito bem, nesse tempo, a fundamentação da proposta. Agora, com a democracia suspensa em alguns países, com a escolha, via diretório franco-alemão, de governos não eleitos, assentados em tecnocratas competentes, começo a assimilar o pensamento da ex-deputada.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...